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2 Capítulo Um-O Dia Em Que Minha Vida Começou
Notas iniciais
Dez anos depois...
O meu cabelo gruda na minha cara por causa da chuva torrencial que acomete a escola. Eu tento colocá-lo para cima, em sua posição espetada, novamente, mas falho miseravelmente. Desisto, suspirando, e entro de uma vez no edifício. Minha mochila, minhas roupas, meu cabelo, está tudo encharcado. A única coisa que me anima é que Myrcella e Lizzie estão ainda mais molhadas do que eu. Sorrio e ando até elas.
O cabelo ruivo e grande de Maya está todo pregado nela, mas ela não dá a mínima. Seus olhos verdes cintilam como sempre, e suas roupas estão novamente sujas de terra.
Elizabeth tem o cabelo escuro e volumoso preso com um tic-tac na franja, e passou alguma maquiagem para esconder suas prováveis olheiras-mas a maquiagem se borrou e sua cara ainda está estranha. Seus olhos azuis-violeta expressam a animação contida dentro dela.
–Tá sorrindo por quê, idiota?- Lizzie me pergunta, e Maya se vira para mim.
Sutil como um elefante, essa é a Lizzie.
–Bom dia, Bran.- Myrcella diz, me abraçando.
–Bom dia, Maya.- eu a solto, e Lizzie me abraça. -Bom dia, Lizzie.
–Você está ensopado.- Lizzie comenta, e eu levanto uma sobrancelha.
–Já se olhou no espelho, Elizabeth?
–Cale a boca.- ela devolve, e Maya ri. -Que faremos hoje?
–Teremos aula?- Maya sugere.
–Claro que não!- Lizzie diz, e começamos a caminhar pelo hall da escola.
–Nós não vamos cabular aula de novo!- eu e Maya dizemos junto, enquanto Lizzie dá um gole em sua garrafinha cheia de suco de uva.
–Claro que não.- ela limpa o cantinho que ficara sujo de roxo. -Da última vez, dei muito errado.
–Culpa de quem?- eu pergunto, e ela levanta as sobrancelhas.
–Minha, toda minha.- ela admite. -Mas não é esse o ponto. Hoje é o último dia de aula. Que quer dizer matérias eletivas o dia todo.
Quando ela acaba essa frase, paramos no corredor. Entreolhamos-nos e cada um de nós começa a gritar uma coisa diferente.
Eu quero ir para a aula de artes, claro. Aquela sala é o paraíso, e o cheiro de tinta é como néctar pra mim. Myrcella, como de praxe, quer ir para o terraço, onde há aula de jardinagem. Eu nunca entendi o amor dela por terra. E Lizzie acha que devemos ajudá-la no comitê do baile, porque ela está preparando a festa de formatura dos sêniores. Ela prepara todas as festas como serviço voluntário, e elas são sempre as melhores.
–Ei, vocês três.- alguém coloca a mão no ombro de Elizabeth, e nós nos calamos para ver quem é. Lizzie bufa ao ver Troy, enquanto Maya se limita a revirar os olhos. -O que está acontecendo?
–Nada, Troy.- Maya responde.
–Tá bom. Finjo que acredito.- ele replica, e se vira para Lizzie. Troy é vários centímetros mais alto que Lizzie, e muito diferente dela, com o cabelo louro e o porte físico atarracado. -Elizabeth, precisam de você e toda a ajuda que conseguir no comitê de organização. Tipo, agora.
Ela nos olhou, ceticamente vitoriosa, e eu suspirei.
–Tá, tá.- eu disse, me virando para a direção do ginásios. -Agora, se nos dá licença...
Ouvi os amiguinhos dele rirem quando me virei junto às meninas. Sabia bem até demais sobre a opinião deles sobre mim, então só ignorei.
–Calma, pera.- Lizzie disse quando fui começar a andar, colocando uma mão para me parar. -Não devem estar precisando de mais gente nos ginásios. Eu passei, tipo, o ano inteiro organizando essa festa. E olha que nem é pra gente.
–Tem alguma coisa que a gente possa fazer, mesmo assim?- Maya pergunta, e eu assinto.
–Tem sim. Eu tenho certeza absoluta que o que falta são as flores, o ponche e contar os votos de rei e rainha.- Lizzie devolve, passando a mão pelos cabelos escuros. -Eu amaria se vocês pudessem subir para o terraço e pegar aqueles... Aqueles...
–Aquelas.- Myrcella corrigiu. -Aquelas rosas brancas e vermelhas que você encomendou.
–Isso!- Lizzie disse, e esfregou as têmporas. -Calma, eu acabei de esquecer um detalhe de festa?
–Penúltimo ano, Liz. Tá acabando com todos nós.- Maya respondeu, embora parecesse preocupada com algo mais. -A gente volta daqui a pouquinho. Bora, Bran.
Ela segura meu pulso e Elizabeth começa a andar na direção contrária, até que eu a grito:
–Lizzie!- ela se vira, assustada e impaciente. -Suco de uva! No canto esquerdo!
Ela revira os olhos e volta a andar, enquanto Maya ri e me puxa. Subimos vários lances de escada até chegar no ponto mais alto da escola aka o lugar que a Maya mais ama no mundo. É basicamente uma enorme estufa, com terra pra todo lado e, agora que está chovendo, bem escura. Os pingos de chuva ressoam no teto de vidro, e eu vejo Myrcella correr até um cantinho na intenção de desligar os irrigadores.
–Quais são as flores?- pergunto, pendurando minha mochila em um(duh) pendurador.
–Aquelas ali.- ela diz, e aponta um pequeno aglomerado no fundo da estufa.
–Só?
–E aquelas.- outro aglomerado. -Ah, e aquelas ali também.
Assobio.
–Mais alguma coisa?
–Uhum. Essas ali e os troços verdes também.
–Vamos precisar de mais gente.
–Nah. Temos tempo.
–Nem se tivéssemos todo o tempo do mundo conseguiríamos.
–Anda logo, cabeção.- ela ri de novo, e me puxa.
–Calma. Vamos levar isso tudo na mão?
–Claro que não, idiota. Quem leva coisas com as mãos?- ela devolve, sarcástica, enquanto tenta juntar os cabelos em um coque. Então olha para mim, com alguns fios ruivos pela face branca, e não acredita na minha cara de desacreditado. -Anda, Brandon. São só quatro mãos, no final.
Começamos pelos troços verdes onde sei que vamos fixar as flores, e temos de fazer quatro viagens para levar todos. No meio tempo lá em baixo, posicionamos os coisas nas mesas e paredes da maneira que Lizzie diz, embora eu dê palpites sobre cores e Maya sobre plantas. Quando acabamos, pegamos as rosas. Ouço Maya reclamando que elas murcharam e, então, sussurrando várias coisas em alguma outra língua. O pior de tudo: eu acho que entendi.
Mas minha amiga não seria louca a ponto de sussurrar para que as plantas crescessem. Seria?
Enfim.
Na sexta volta, Maya parece preocupada. Não preocupada do tipo "acho que esqueci meu lápis", mas preocupada do tipo "acho que me esqueci de como se respira". Preocupada a ponto de pedir que Lizzie e Troy(insira pontos de interrogação aqui) subam conosco até o terraço para nos dar uma mãozinha com as rosas.
Eu suspiro e tento perguntar por que, mas ela não me ouve. Consigo ver que os músculos de suas costas e braços estão tensos, assim como que Troy está andando com a mão sobre seu bolso.
Quando chegamos ao final das escadas, o loiro nos pede pra esperar e entra na estufa antes de nós três. Maya fica na frente, olhando desconfiada para o lugar. Troy passa canteiro por canteiro, olhando atentamente tudo em sua volta, e eu me pergunto por que de tudo aquilo. Olho para Lizzie, e posso ver que ela está tão perdida quanto eu. Cutuco Myrcella, que se vira rapidamente. Um trovão soa, sacudindo a vidraça.
–Maya.- a chamo.
–Que foi, Bran?
–O que tá havendo?
–Eu vou explicar tudo. Eu j-
Algo atrás de mim a interrompe, mas eu não consigo ver o que é. Ela rapidamente me empurra para o chão, assim como a Lizzie, e saca duas adagas duplas de sabe-se-lá-de-onde. Troy, ao ver a movimentação, corre para junto da ruiva, mas é jogado contra a parede por algo que eu não identifico. Tento me levantar, mas Maya grita:
–Bran! Não! Fiquem no chão!
Eu a obedeço. A urgência em sua voz é grande demais para me permitir fazer qualquer outra coisa.
O que quer que estivesse atrás de mim pula para trás de Maya e perto dos canteiros, tornando-se visível. Não um, porém cinco criaturas parecidas com bebês estão em pé com cara de poucos amigos. Elas parecem ser feitas de terra, e tentam lançar pedaços afiados de madeira contra minha amiga. Ela, porém, os rebate com agilidade usando as adagas.
–O que estão fazendo?!- ela grita.
–Nosso trabalho!- um deles devolve.
–Seu trabalho? Ridículo! Vocês trabalham para minha mãe!
Os cinco riem, sem dar trégua à Maya.
–Pobrezinha. Ainda acha que Deméter tem alguma moral conosco!- outro grita, em meio às risadas.
Calma, Deméter?
Antes que eu posso me recuperar do choque, trepadeiras nascem dos canteiros mais próximos à Myrcella, crescendo à medida que suas mãos sobem. Ouço um cântico baixo, e entendo que ela está fazendo aquilo de novo. Mas o que exatamente é aquilo?
Não entendo, mas quando ela joga suas mãos para frente as trepadeiras as acompanham, acertando em cheio o peito de cada uma das criaturas. Elas se desfazem em areia, e Maya põe as mãos nos joelhos, ofegante. Me ponho de pé, assim como Lizzie, e vou verificar se ela está bem.
–Eu tô ok.- ela diz, embora pareça péssima, e levanta a cabeça. -Bran, Liz, preciso que liguem para os pais de vocês. Tipo, nesse segundo. Digam que a hora chegou, e que eles devem nos esperar no aeroporto.
–Aeroporto?- Lizzie pergunta, já discando o número da mãe.
–Aeroporto.- Troy aparece atrás de Maya. -Aeroporto de Colombus, Ohio.
–Espero que gostem de Long Island, pessoal. Acabaram de ganhar um verão grátis lá.
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