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4 Capítulo III - Minha cota de maluquices estoura de vez
Notas iniciais
Eu nunca gostei de dormir.
Nunca. Minha mãe costumava me contar, quando ela ainda tinha tempo pra mim, que a família Johnson é composta basicamente por criaturas da vida noturna. Meus bisavós e avós quase todos eram donos de boates ou algo assim, de forma que sempre estivemos no ramo do entretenimento. Tenho até uma prima de segundo ou terceiro grau que trabalha em Hollywood.
Mas, pra mim, dormir é só uma necessidade em questões físicas. Eu nunca tive vontade ou precisei dormir por razões psicológicas. Por isso, quando Maya me manda dormir, eu quase a estapeio. Até o momento que meu corpo concorda com ela, e aí eu quero estapear os dois. Mas encolho minhas pernas e deixo minhas pálpebras se fecharem.
Meu erro. Aprendi, com observação, que os sonhos (se é que podem ser chamados assim) são piores quando estou em lugares de, hm... Altitude elevada.
Uma clareira aparece. Ela é verde em todas as partes, menos os troncos das árvores em volto e o grande amontoado de pedras no centro. E, com grande, eu quero dizer bem grande, tipo uns 15 metros de altura. Ando pela clareira, ainda mirando a pedra, na sensação de que ela deveria formar algo.
Enquanto dou a volta, algumas garotas aparecem do outro lado da clareira. Elas riem entre si, como maníacas, e pulam pela grama. Franzo minhas sobrancelhas, as observando.
Completamente insanas.
Eu pretendia falar com elas, perguntar o motivo de tanta felicidade, mas desisto quando vejo relance da boca de uma delas. Os dentes, brancos mas sujos de... Seria aquilo vinho? Enfim. São muito afiados. Reparo, então, em suas mãos. No lugar de unhas normais, minimamente humanas, garras despontam. Apuro meus ouvidos.
–Nosso senhor não nos quer– uma delas grita, e depois ri muito alto.
–Ele que se dane- uma outra devolve, e ri ainda mais. Elas parecem embriagadas.
–Ele vai lamentar, vai sim!– uma terceira grita, encostada na pilha de pedras. –Vamos fazer esse lugar em pedacinhos!
Elas riem altas e desafinadas risadas de bruxa.
–Sim! E por onde começamos, Babette?– a primeira grita de novo, entusiasmada.
–Por ali, irmãs!– a encostada na pilha, Babette, grita. –Por picadinho de semideus!
Um menino é arrastado para dentro da clareira por outras garotas demoníacas. Ele tem vários cortes e hematomas pelo corpo, e parece estar desmaiado. Seu cabelo loiro está sujo de sangue e sua roupa tem manchas de terra. Babette parece feliz em ver que ele é sua oferenda.
–Um Grace!– ela grita, feliz, e bate palminhas para as que o capturaram. –Parabéns, irmãs! Desta vez se superaram! E, agora, teremos vingança dos que tanto nos atormentaram.
O garoto louro subitamente arregala os olhos e esboça um sorriso no rosto.
–Não tão cedo, suas bruxas.– ele diz, e um raio cai no amontoado de pedras. De dentro do raio, no topo do amontoado, aparece uma menina. Apesar de eles serem completamente diferentes, ele com o cabelo louro, apele clara como leite e os olhos azuis; ela com a pele escura, os cabelos cor de chocolate e os olhos de uma mistura inacreditável de cores, não posso deixar de pensar que são gêmeos. O garoto fica de pé num pulo e descreve um arco com sua espada. As três meninas que o carregavam somem em poeira dourada. –Agora sumam! Se nós as virmos de novo por aqui-
–vamos matar todas vocês.– a garota o completa, com simplicidade. –E eu lhes garanto que vai ser bem mais doloroso do que foi para essas três.
As garotas saem correndo para dentro da floresta, Babette mais devagar que as outras. Ela lança um olhar ácido à dupla, que fica em pé lado a lado. Eles olham para mim, desconcertados, e começam a gritar.
O que há de errado?
Olho para meus próprios braços, e grito junto à eles: constato que estão em carne viva. E sangrando. Arranhões por toda parte, cortes profundos. O mais estranho: eu não sinto dor. Somente horror e profundo nojo de meus braços.
Pelo menos até o momento em que Maya me sacode.
–Elizabeth!– ela diz meu nome, alto o bastante para que o avião inteiro ouça –Elizabeth! Acorda!
–Maya, calma.– eu digo, segurando seus braços para que pare de me balançar –Eu já to bastante acordada.
–Lizzie.– ela diz, e me abraça. Por cima de seu ombro, consigo ver Brandon e Troy me encarando com preocupação. –‘Cê ta bem?
–Tô. Ótima, na verdade. Por quê?
–Hã, Liz...– Bran diz, coçando a parte de trás da cabeça –Dá uma olhada nos teus braços.
Solto Myrcella com urgência, olhando para onde Bran dizia. Minha pele branca como leite mostrava diversos arranhões: alguns leves e brancos outros com sangue seco na superfície. Eu não me lembrava de ter ganhado nenhum deles recentemente.
–O que aconteceu? Algum gato pulou em mim?– pergunto aos meus amigos, mas é Troy a responder.
–Não. Você se arranhou enquanto dormia, Elizabeth.
–Mas que m–
–Aqui– Maya me interrompe, colocando um cantil em minhas mãos –Beba, mas não muito. Vai fechar as cicatrizes.
–Deixa eu adivinhar –Bran disse, desdenhoso –A bebida dos deuses.
Levei o cantil à boca, sentindo o gosto da torta alemã que minha mãe costumava fazer quando eu era pequena. Quase cuspi, estranhando, mas Maya me incentivou a beber mais.
–Mais preciso impossível, Brandon– devolveu, tão ácida quanto ele –Chamamos de néctar. Teve o gosto da torta da sua mãe?
–Se quiser beber um pouco...– eu a estendi o cantil, mas ela riu e o tampou.
–Não adianta. Tem um gosto diferente para cada um, o da sua comida favorita.
–Eu bem queria poder provar o seu, Rocha– Troy disse para ela. Eu nunca havia ouvido alguém a chamando pelo sobrenome (menos o Jack, no quarto ano. Ele chamou ela de Rock, a tradução de Rocha para nossa língua e, bem... Deu errado pra ele), pelo menos não sem sair machucado. Ainda assim, ela não esboçou reação –Você fala tanto desse maldito suco de laranja que deve ser como o néctar dos deuses.
Bran bateu pesadamente em sua testa.
–Me diz que esse trocadilho foi não intencional.
Troy o olhou feio.
–Que trocad-ah. Esse.
Bran riu, baixo e sarcástico, e, pela postura tensa de Maya(adicionada aos sete anos de convivência com Bran), soube que eles iriam brigar a qualquer momento. Graças à Deus (ou aos deuses, sei lá), uma aeromoça os interrompeu, falando que estávamos para pousar. Exalei pesadamente, vendo os dois atarem direito o cinto e olharem para lados contrários.
Eu já havia estado em New York antes. Várias vezes, com minha mãe, para visitar meus primos. Mas, por alguma tradição besta, sempre vínhamos de carro. Em outras palavras, eu nunca tinha visto o Empire State antes desse dia. Ou o JFK, mas, enfim. O ponto era que a cidade era realmente muito enorme, e extremamente majestosa, por maior que nossa Colombus fosse (o que não era muito, by the way).
Desembarcamos sem maiores incidentes do que as várias reclamações de Bran e Troy um sobre o outro, e fizemos um check-out rápido (duh. Não tínhamos bagagem). Os meninos pararam de discutir quando chegamos no estacionamento do aeroporto, e só porque Troy decidiu caminhar ao lado Maya. Eu fico para trás, ao lado de Bran, enquanto os dois olham para os lados como se estivessem procurando algo.
–Como é que você está aceitando tudo isso?- meu amigo me perguntou, e eu ri ironicamente.
–Eu pareço estar aceitando isso?
–Pra te ser bem sincero, sim.
–Eu só vou acreditar nessa lambança toda no dia que tiver um sonho mediúnico, Brandon.
E, como se o universo estivesse realmente querendo brincar com a minha cara e toda a minha noção de ficção e realidade, eu avistei os gêmeos do meu sonho. Cada um deles carregava uma malinha na mão, então deveriam ser adolescents normais. A menos que fossem “semideuses”, não havia com o que nos preocuparmos.
Então, o garoto grita:
–Maya! Myrcella Rocha!
E, para meu desespero, Maya olha para ele com alívio. Eles se abraçam, e, embora eu tenha dormido muito antes de chegar aqui, tudo isso está sendo demais para um dia só. O mundo gira antes de escurecer, e eu caio para trás, tendo a certeza que Brandon vai me ajudar a ficar de pé.
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