Folie à Deux
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Will acordou atrasado, levantando da cama em um pulo. Ele tinha prometido a Jack que daria a palestra sobre o copiador, o outro assassino para os estudantes do FBI, e como Brian sempre gostava de lembrá-lo, Crawford odiava atrasos.
Hannibal iria encontrá-lo na saída, assim que ele terminasse de dar a aula. Depois de tanta insistência, dizendo que ele estava precisando se distrair da faculdade e das constantes cenas de crime e fotos de pessoas mortas, Will concordou que ele o levasse para assistir a uma ópera. Tirando que Lecter já tinha comprado os ingressos, e ele afirmava que Will seria uma melhor companhia do que qualquer outra pessoa.
— Uma das vítimas que também se encaixava no perfil do assassino dos anjos. – Will começou a palestra. – Mas ele não a matou. O assassino queria que soubéssemos que ele não era a mesma pessoa. Ele era melhor do que isso. Ele é um inteligente psicopata. Ele é um sádico. Ele nunca irá matar desse jeito de novo. Então como o pegaremos? – ele apertou o controle, mudando as imagens na tela. – Esse imitador é um ávido leitor do blog da estudante de jornalismo, Freddie Lounds. Ela que diz coisas absurdas sobre a vítima Abigail, e já postava coisas sobre os assassinatos anteriormente. Ele tinha um conhecimento íntimo dos assassinatos, motivos, padrões do nosso assassino... bastante para recriá-los e, indiscutivelmente, compará-los a arte. Quão intimamente ele conhecia o assassino? Ele gostou dele de longe ou fez contato com ele? Ele entrou na vida de Andrew, o nosso fazedor de anjos? Andrew conhecia o seu copiador como ele era conhecido?
— Will, eu não quero interromper se você estiver ensaiando ou alguma coisa... – Jack disse, entrando na sala.
Nesse momento, Will olhou para os assentos vazios pela sala, e percebeu que ao contrário do que pensava, a aula não tinha começado, e ele estava dando a palestra para... ninguém. Tentou disfarçar, não queria que Jack percebesse os seus problemas psicológicos que continuavam a se agravar.
— Não, não... – disse Will. – Por favor, entre.
— Ótima análise. – elogiou Jack. – Pena que a palestra foi cancelada. Sinto muito, mas você só poderá apresentar na próxima semana.
— Algum motivo específico?
— Outro corpo. – ele explicou. – Mais um estudante da sua faculdade, e acreditamos que seja o nosso imitador.
— Outra cena de crime?
Jack balançou a cabeça. – Aqui estão as fotos. Mas o corpo já foi levado para o laboratório, passaremos para buscar Brian e Jimmy, e iremos para lá.
Will então se lembrou de que tinha marcado com Hannibal, eles iam comer algo e só a noite iriam ao espetáculo. – Você acha que vai demorar?
— Tem algum compromisso?
— Eu marquei um... encontro, com um amigo. Ele ficaria muito desapontado se eu não fosse.
— Que horas você tem que estar em seja lá qual for o lugar?
— Oito horas.
— Temos tempo, então. Vamos.
No caminho até o FBI, Will mandou uma mensagem para Hannibal se desculpando, e dizendo que faria de tudo para chegar à ópera a tempo. O outro pareceu entender, mas ele mesmo assim queria ir.
...
— Então, o que você acha? – perguntou Jack, depois de contar os detalhes, e deixar Will sozinho com o corpo e as fotos da cena do crime por alguns minutos.
— Pelo o que conheço do estripador...
— Estripador?
— Eu não queria chamá-lo de “copiador do assassino dos anjos”. – ele explicou, dando de ombros. – Mas, sim. Definitivamente é ele.
Jack balançou a cabeça. – Ótimo, mais um psicopata!
— Ele retirou o fígado. – disse Brian, analisando o corpo. – E colocou de volta. Por que ele faria isso?
— Ela tinha algum problema no fígado?
Jimmy olhou para a ficha da garota. – Tinha câncer.
Todos o olharam esperando a explicação. Will olhou para a garota com um sentimento repulsivo, antes de dizer. – Tinha algo errado com a carne. Ele está comendo-as.
...
Depois de passar mais trinta minutos discutindo com Jack sobre o assassino, e os motivos dele achar que o estripador era mesmo um canibal, Will foi correndo para casa, não queria chegar atrasado à ópera.
Seguindo as recomendações de Alana, que insistiu que esse era um daqueles programas que você deveria ir muito bem vestido, ele pegou o único smoking que tinha, e torceu para que estivesse bom o suficiente.
— E penteie o cabelo, por favor. – ela dizia, do outro lado do telefone.
— Eu sempre penteio o cabelo.
— Você sai do banheiro, e passa a mão... – ela suspirou. – Fica lindo, mas eu disse, uma ópera é algo mais formal, você tem que estar elegante, Will.
— Certo.
— Vocês vão sozinhos?
— Hannibal não comentou nada sobre chamar mais ninguém, então sim... Por quê?
— Parece um encontro.
— Alana, somos dois amigos, saindo juntos. Nada demais.
— Ok, ok. E ele tem um ótimo gosto, até para música.
— Eu sei. Preciso ir agora.
— Divirta-se!
— Chamada Encerrada -
Mesmo não sendo um grande fã de ópera, Will tinha que admitir que estava sendo um espetáculo e tanto. E era incrível como todos pareciam estar imensamente mexidos por causa música, viu uma mulher secar as lágrimas. E surpreendeu-se ao olhar para o lado, e ver que Hannibal estava com os olhos lacrimejando.
Assim que a apresentação terminou, ele e a tal mulher que também estava chorando, foram os primeiros a levantarem imediatamente e iniciarem a salva de palmas, seguindo por todos os outros presentes, incluindo Will.
Mas esse ainda não era o fim da noite, Hannibal tinha explicado a Will, que agora teria uma festa particular, com alguns aperitivos sendo servidos, bebidas, etc.
— Nós ficaremos o tempo que você desejar.
— Eu acho que vou para casa.
Hannibal o olhou por um momento. – Tem certeza que não pode ficar?
— Eu posso. – disse Will. – Mas não acho que sou uma boa companhia para festas.
— Eu discordo.
— Tudo bem então. – ele respirou fundo. – Vamos ser sociáveis.
— Não precisa ficar se não estiver se sentindo confortável.
— Não, Hannibal. Está tudo bem.
Ele pegou duas taças de vinho de uma bandeja, e entregou uma a Will. – Vamos, tem a parte da festa do lado de fora. Você vai se sentir mais a vontade do que aqui no salão.
— Não precisa...
— Will. – ele insistiu. – Não estou fazendo isso só por você, eu quero ver a decoração e... A noite está maravilhosa para desperdiçarmos.
— Certo. – eles foram andando para a parte de fora da festa. – A noite está esplêndida mesmo. E obrigado pelo convive, foi uma ótima apresentação.
— O prazer é meu. Espero que você tenha se distraído um pouco hoje, do FBI, da faculdade, dos pesadelos...
— Sem dúvidas, novamente, obrigado. – ele bebeu um gole do vinho. – Você é um bom amigo, Hannibal.
Lecter sorriu para o outro, e eles observavam os fogos que tinham começado, era mais um ritual comum de um evento como aqueles. E Will tinha que concordar com Alana, Hannibal era realmente uma pessoa de muito bom gosto.
Apesar de saber que normalmente ele não se sentiria a vontade, ainda mais em um lugar com pessoas tão elegantes assim, ele se sentiu bem. Sabia que devia isso a Hannibal também, a presença do amigo ali, o transmitia uma estranha segurança.
...
Depois de ficar um bom tempo na festa, onde Hannibal tinha apresentado Will a alguns de seus amigos que estavam presentes, os dois pegaram um táxi para o campus. Já tinha passado de meia-noite, mas mesmo assim Graham não conseguiu recusar o convite de acompanhar Hannibal em uma última taça de vinho.
Além disso, tinha outro motivo pelo qual ele ansiava ir ao dormitório do amigo, ficar em um lugar mais particular, sem os ouvidos alheios por perto. Ele queria contar do que tinha acontecido mais cedo, e queria a opinião de Hannibal.
— Aconteceu uma coisa hoje. – ele disse, tirando o paletó e sentando-se na cama de Hannibal. – Eu comentei com você que Jack me pediu para que eu desse uma palestra sobre o copiador dos anjos, certo?
— Sim, a palestra que você daria, antes de se juntar a mim a caminho da ópera. – ele olhou para Will, e perguntou. – Aconteceu algum problema durante a apresentação?
— Sim. – disse Will. – Quer dizer, aparentemente eu estava indo bem, falando o que eu sabia através do que pude analisar das cenas de crime, etc. Até que o Jack entrou na sala, e perguntou se eu estava ensaiando. Eu olhei em volta, e não tinha ninguém na sala, eu estava falando há mais de meia-hora, completamente sozinho.
— Você achou que tinha mais alguém na sala?
— Eu não sei se eu perdi a noção do tempo, mas lembro de que não estava sozinho. – ele passou a mão no rosto. – Eu não aceito isso.
— O que você não aceita?
— Essas alucinações, perda de sono, e meu amigo, colega de quarto, Brian... Comentou que acorda inúmeras vezes e me vê sentado na cama, com os olhos abertos, mas sem está presente.
— Ele já chegou a ver você andar por aí? – Will negou com a cabeça. – Então não acho que essa parte seja algo com o que você tenha que se preocupar.
— E se eu começar a andar por aí?
— Will. – ele colocou a mão no ombro do amigo. – Você está instável, mais do que o normal, e eu tenho que dizer que estou oficialmente preocupado com a sua saúde.
— Oficialmente?
— Isso mesmo. – Hannibal concordou. – E tenho que acrescentar que tenho certeza que isso é resultado do seu trabalho no FBI.
— Você vai falar com Jack a respeito disso?
Hannibal considerou. – Eu sou seu amigo, não sou médico. Até porque não poderia, ainda sou um estudante. Mas se esses sintomas continuarem, ou piorarem, eu vou me sentir na obrigação de amigo, de informá-lo sobre isso.
— Você acha que eu estou diferente ultimamente?
— Você sempre foi um pouco diferente. – disse Hannibal, sorrindo. – Mas eu também sou, então não pense que eu considero tal fato algo ruim. Mas, por favor, não hesite em vir até mim, caso precise de algo.
— Obrigado. – disse Will, sincero. – Conversar com você ajuda de algum modo, é um escape dos lugares sombrios para o qual Jack me manda.
— Todos nós precisamos de uma âncora, alguém ou algo a qual nos agarramos em situações de difíceis, com as quais não somos capazes de lidar sem ajuda.
— Você é a minha âncora.
Hannibal sorriu. – Fico feliz em ouvir isso.
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