Folie à Deux

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Olá! Como prometido, tem mais interação entre Will e Hannibal nesse capítulo. Boa leitura!

Quando Will abriu os olhos no dia seguinte, ainda bem cedo, ele encontrou Brian sentado na mesinha no canto do quarto.

— Bom dia.

— Bom dia. – Brian respondeu, e olhou frustrado para os papéis antes de perguntar. – Você estuda psicologia criminal, certo?

— Sim... – Will concordou, se sentando na cama e passando a mão para ajeitar o cabelo. – Quer ajuda com algo?

Brian sorriu. – Já que você está oferecendo... Vem aqui.

Ele se aproximou e encontrou fotos de várias pessoas na mesa, com as respectivas fichas ao lado de cada uma. – São vítimas de algum assassino.

— Sim. Ele as sequestra, segue até e casa, e as conserva. Jack deixou comigo tudo isso. – Brian apontou para um fila de folhas. – E bom, estamos tentando descobrir como ele está escolhendo as vítimas. O que elas têm em comum.

Will olhou as fotos, e começou a movimentá-las em cima da mesa. Não foi tão difícil assim descobrir o padrão.

— Não se trata do que essas pessoas têm em comum. – ele explicou. – Mas o que elas têm de diferentes. Olhe, é uma paleta de cores.

Brian observou, e realmente era. Will tinha colocado as fotos das vitimas em uma ordem que mostrava isso, indo da pessoa mais clara até a mais escura.

— Você é um gênio, cara!

— Fico feliz de ter ajudado. – disse Will. – Agora eu vou tomar um banho porque a minha aula começa em trinta minutos.

O outro ainda olhava as fotos. – Certo. Muito obrigado, parceiro.

...

Dessa vez, Will encontrou a sala de aula bem mais rápido, mas o professor faltou e ele teve que fazer o caminho todo de volta até o campus. Olhou as pessoas sentadas com seus grupinhos, e não conseguiu encontrar nem Brian ou Jimmy, e então se lembrou de que os dois estavam no FBI naquela quarta.

— Will. – uma voz conhecida o chamou.

Era Hannibal.

— Eu ia te procurar mais tarde, para devolver o seu caderno.

— Por favor, me faça companhia. – ele disse, indicando o lugar ao seu lado no banco.

— Sua amiga ainda anda faltando?

— Aulas diferentes. – explicou. – Você que parece estar fugindo de alguma aula.

— Meu professor faltou.

— Ah sim, ele teve um problema com a filha.

Will se sentou ao lado dele. – É sério?

— Ela estuda aqui, e parecia traumatizada por algo... Ele foi obrigado a tirar o dia de folga.

Ele parou por momento para pensar. Não, não poderia ser a mesma pessoa. – A filha dele... Qual é o nome?

— Abigail. – Hannibal reparou a expressão no rosto de Will mudar para preocupação, e perguntou. – Você a conhece?

— Mais ou menos. Acredito que fui eu a pessoa que a salvou da experiência que a deixou traumatizada.

— Como assim?

— O namorado, ou ex-namorado, estava sendo abusivo e eu a tirei do carro antes que ele forçasse alguma coisa. – Will olhou para longe, mesmo depois de ele ter deixado a garota no quarto, estava claro que ela parecia bem perturbada. Ele pretendia procurá-la depois, e ver com as coisas estavam, mas ele teve que ir para aula e... – Eu preciso ver como ela está, desculpa.

— Tem certeza?

— Tenho. – ele disse, colocando a mochila nas costas, sem se lembrar de entregar o caderno a Hannibal.

Ao se virar com pressa, esbarrou em uma garota loira e vestida tão bem quanto o seu amigo misterioso. – Desculpa.

Ela sorriu de lado. – Tudo bem.

Hannibal pensou em apresentá-los, mas ele estava com tanta pressa que o deixou ir correndo atrás de Abigail.

— Eu presumo que esse seja o aluno novo que você achou interessante. – ela disse, sentando-se no lugar que o mesmo tinha ocupado.

— Will Graham, ele mesmo.

— Sua nova obsessão.

Ele ergueu uma sobrancelha. – Minha obsessão?

— Bem, você ficou muito intrigado com ele, considerando que o conhece há tão pouco tempo.

— Eu estou trabalhando nisso.

— Cuidado, Hannibal. – ela o alertou. – Se ele for como você diz, ou como você pensa que ele é... Esse Will não é burro.

— Eu não brincaria com alguém que não entende o jogo, Bedelia. Eu escolho muito bem os meus relacionamentos.

Ela sorriu, sabendo que ele estava se referindo ao relacionamento nada convencional e um tanto cooperativo que os dois mantinham.

...

O corredor onde ficava o dormitório de Abigail estava mais cheio dessa vez, todos andando próximos à porta da garota, curiosos para saber o que tinha acontecido. Ele esperou que o pai dela saísse para bater, tentando ignorar os olhares o fuzilando.

Ela abriu a porta na segunda batida. Will notou os olhos inchados e algumas marcas no braço, provavelmente deixadas pelo ex-namorado. Ele não tinha as percebido na noite anterior.

— Você se importa de me deixar entrar? – ele perguntou. – Dois minutos.

Abigail não se importava, confiava em Will. Não só porque ele tinha a salvado, mas tinha alguma coisa nele que fazia com que ela se sentisse instantaneamente segura.

— Desculpa por todos estarem olhando. – ela disse, fechando a porta atrás dele. – Você sabe como fofoca de faculdade se espalha rápido.

— Sem problemas.

Abigail sentou-se na cama, encostada na parede e gesticulou para que ele fizesse o mesmo. – Eu acho que não agradeci o suficiente ontem. – ela comentou, mas Will a interrompeu.

— Não se preocupe com isso. – ele sorriu. – Como você está?

Ela abria e fechava as mãos repetidamente, parecia nervosa. Tentou sorrir, assentindo com a cabeça, tentando mostrar que estava bem. Mesmo estando claro que era mentira.

— Seu pai sabe?

— Mais ou menos. – ela respondeu. – Eu implorei para que ele não fosse atrás do Derek, mas não funcionou. Tenho medo de todos ficarem sabendo.

Will segurou a mão da garota, na tentativa de tranquilizá-la. – Ele provavelmente vai ser expulso da faculdade. E se a notícia vai chegar aos ouvidos alheios ou não, depende de você.

— Obrigada, por tudo.

— Eu só quero que você fique bem, Abigail.

...

Will não conseguia entender o motivo de estar tão preocupado em relação ao bem-estar da garota. Tudo que ele podia fazer por ela, salvando-a do namorado maluco na noite passada, deveria ter sido o suficiente. Ele tentava se convencer disso, mas o peso ainda estava lá, e não sabia por quê.

Queria conversar com alguém sobre, mas por mais que achasse Brian um cara legal, não podia confiar contando a história de outra pessoa. Ainda mais quando Abigail já estava tão apavorada com a ideia de todos ficarem sabendo, e ele entedia.

Quando foi tirar os livros da mochila para começar fazer um trabalho, viu o caderno de Hannibal no meio de suas coisas. Droga! Ele tinha saído tão apressado para ir conversar com Abigail, que se esqueceu de entregá-lo a ele.

Ainda ia dar sete horas, não faria mal se ele fosse até o dormitório de Lecter, faria? Não custava nada arriscar, e Will não estava mesmo com cabeça para estudar agora.

— Will. – disse Hannibal surpreso, ao abrir a porta. – Aconteceu alguma coisa?

— Não, não... – ele mostrou o caderno do outro em sua mão. – Eu me esqueci de entregar mais cedo.

— Não precisava se incomodar em vir até aqui. – disse Hannibal, e fez um gesto em seguida, dando espaço para que Will entrasse. –Quer me acompanhar em uma taça de vinho?

— Por que não?

Ele entrou, e parou ao encontrar a garota loira em quem tinha esbarrado mais cedo, sentada na cama de Hannibal.

— Eu já estou de saída. – ela foi se adiantando.

— Essa é minha amiga, Bedelia. – disse Hannibal, os apresentando. Sem se preocupar em mencionar o nome de Will. Ela sabia.

— Will, eu presumo. – ela se levantou e o cumprimentou. – Hannibal ficou bastante... intrigado com você.

— Espero que por bons motivos. – ele disse, olhando para o estudante.

Hannibal sorriu. – Sempre.

Bedelia os observou por um segundo, antes de dizer. – Eu realmente já estava de saída. Boa noite, Hannibal. – ela depositou um beijo na bochecha de Lecter e se despediu de Will com um aceno.

Depois que a garota saiu, Will olhou em volta, observando. O quarto de Hannibal era maior do que o seu, e ele não o dividia com ninguém – tinha apenas uma cama. Agora ele pode entender como Lecter conseguia improvisar uma cozinha em um espaço tão pequeno, sem incomodar ninguém.

Uma prateleira cheia de livros ficava em um canto, e do outro lado, onde normalmente estaria a cama de outro estudante, uma mini cozinha, com uma pia embutida e uma geladeira pequena, daquelas que encontramos nos quartos de hotéis.

Hannibal pegou duas taças no pequeno armário em cima da pia, e entregou uma para Will, enchendo ambas com um vinho que ele não reconheceu.

— Você parece tenso. – Hannibal observou, enquanto guardava a garrafa de vinho.

Will sentou na beirada da cama, e tomou um gole da bebida antes de responder. – Eu estou preocupado com a menina, a filha do professor.

— Que você salvou do namorado?

— Sim.

— Você se sente responsável por ela?

Will assentiu.

— Você salvou a vida dela. – disse Hannibal, sentando-se ao lado de Will. – Isso vem com certas obrigações emocionais, dado ao seu nível de empatia.

Antes que Will pudesse questionar se o outro estava o analisando, ele não ficaria surpreso, todos costumavam fazê-lo, Hannibal se adiantou dizendo. – Por favor, não fique ressentido. Observar é o que eu faço, e você tem uma personalidade um tanto peculiar.

— Então, você não nega que esteve que me analisando.

— Sou estudante de psiquiatria, Will. Não posso evitar. – ele pausou por momento, escolhendo as palavras certas. – Espero que eu não tenha perdido a oportunidade de ser seu amigo por isso.

Will suspirou, e negou com cabeça. – Só... tente não ficar me estudando. Você não vai gostar de mim, depois que eu for psicologicamente analisado.

— Eu discordo. – disse Hannibal e, em seguida, mudou de assunto. – Eu imagino a quantidade assombrosa de obrigação que você sente em relação a essa menina.

— Você imagina?

— Eu conheço o sentimento. Quando mais novo, eu era muito atencioso com a minha irmã mais nova, e após alguns acontecimentos, eu passei a ser mais protetor do que o costume. – Will percebeu seu olhar distante, perdido em pensamentos. – Ela era como uma filha, uma responsabilidade. Seu nome era Mischa.

— Era?

— Ela morreu, ainda muito jovem.

— Eu sinto muito.

Hannibal tentou sorrir. – Mas voltando a sua questão, ela vai superar. Depois que os boatos pararem de circular, todos vão esquecer, e a preocupação vai acabar.

— Você ouviu os boatos também?

— Nenhum é concreto, ou verídico. Suposições de que ela estava grávida, e por isso o pai ficou zangado.

— Rumores falsos. – concordou Will, e então sorriu.

— O que?

— Eu tenho o sentimento estranho de estar fazendo terapia, quando estou conversando com você.

— Eu quero ser seu amigo, Will. Amigos ajudam uns aos outros... Mas acho que entendo o que você quer dizer. Bedelia já comentou que eu pareço estar analisando-a, toda vez que conversamos.

— Então, isso é um grupo de apoio? Ou estamos apenas tendo conversas?

Hannibal considera por um segundo. – É o que você precisar.

Notas finais
Se vocês puderem deixar um comentário rapidinho, eu amaria saber o que estão achando. Até o próximo!