Folhas de Outono
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordei na manhã seguinte encarando o teto enquanto sentia o bafo terrível de meu cachorro, como se fosse pra me acordar. Grandes olhos caramelos me observavam depois do focinho preto dele, cheirando meu pescoço. Quando percebi que acordei ele saltou da cama e começou a puxar minha coberta. O frio me fez despertar na hora.
— Cachorro doido! Tá frio! – resmunguei pro caramelado. Ele me olhou como se não entendesse o que eu estava dizendo. Obvio que não, ele entendia o que era frio? Nunca passou o inverno como passavam na América do Norte.
Ele começou em saltar em mim e depois em minha cama, freneticamente, parecia doido. Quando eu me levantei ele parou, mais um pouco iria começar a latir, certeza. Jack viria até o meu quarto, provavelmente quebrando a porta, e ameaçando de esmagar a cabeça de Max com uma pedra ou estourar os miolos dele com sua espingarda. Quando acontecia isso, eu tive de comprar uma focinheira pra Max, ele parou de latir e aprendeu a não latir em casa, a aura demoníaca de morte que emanava de Jack fazia eu temer o pior e, Max, deve ter notado isso também.
— Ok. Já me levantei, pode deixar que vou tomar meu banho e você fique aí! – falei pra ele sorrindo, mas dando uns pulinhos já que era horrível sentir frio, mas acredito que o pior seria calor.
Peguei meu uniforme e coloquei no banheiro, a minha mochila já pus no esquema. Parei só pra ver que horas eram e, exatamente, 07h30. Tomei um rápido banho, já escovando meus dentes de baixo do chuveiro. Coloquei a blusa, uma jaqueta e soltei meu cabelo, minha calça jeans preta e um par de coturnos pretos – os meus favoritos. Uma pulseira de ouro com um sino na ponta de uma delas eram meu acessório favorito, depois do meu colar de ouro também, com uma árvore sem folhas como pingente. Já disse que amo o Outono?
Sim, eu amo ele. Ok. Ele não me trouxe nada de bom pra mim e muito menos algo de grande significância pra minha Vida, mas ele tem algo que mexe comigo. Não sei o que é, mas eu queria descobrir, todo esse tempo em que comecei a notar o Outono, quero entender o quê que ele me trás de bom. A resposta foi a seguinte: Nada.
Passei um lápis preto em que ressaltou a cor de meus olhos, que eram bem escuros também, quase negros. Um batom claro e deixei que o castanho escuro do meu cabelo transparecesse mais, coloquei uma touca preta, pra a única coisa a mostra ali seja o uniforme e o meu casaco com meu cachecol da cor das folhas lá de fora. Vai ver é porque eu amava as cores do Outono, mas toda vez que penso nisso, sinto que tem algo mais profundo sobre. Não seria tão “superficial”, tão “raso” assim.
Peguei a guia de Max e minha mochila, ele tinha acabado de beber água e assim que disse: “Quem quer me acompanhar?”, ele já entendeu que era pra ir pra porta. Cachorro inteligente do caramba.
Meu orgulho.
Peguei uma caixinha de cappuccino com chocolate e fui bebendo enquanto jogava minha mochila no ombro e abria a porta, Max passou correndo, mas assim que alcançou a rua, me esperou. Ele sempre me acompanhava na escola e ficava comigo no intervalo. Por causa disso, e de não ter amigo nenhum por mais de dois anos naquela escola, me chamam de “Loba”, “Raivosa” ou a mais famosa: “Rainha Canina”, não me importo com o que me apelidam ou quando põe escondido em minha mochila ossos e ração, realmente eu não me importo. Pra Max é um presente aquilo tudo e fico feliz, porque ao menos, me notam.
Assim que cheguei na escola, Max já estava no portão, mas havia parado pra fazer xixi em uma das árvores fora da escola. Coloquei a guia dentro da mochila e joguei a caixinha no lixo. Um grupinho de meninas metidas passava com alguns rapazes atrás de mim e quando me viram gritaram: “Olha! É a Rainha Canina! Cuidado gente, senão ela pode passar raiva!” e depois várias risadas altas e baixas se seguiam.
Max ficou ao meu lado assim que entrei na escola, não havia batido ainda o sinal para entrarmos na sala de aula, então sentei perto de uma árvore e fiz questão de observar como estava nublado naquela manhã. O felizardo sentou do meu lado batendo seu rabo pra lá e depois pra cá, fazendo as folhas alaranjadas quebrarem ou irem para o ar. Passei a mão na cabeça dele o agraciando, mostrando que era um bom rapaz. Encarei uma nuvem maior, mas negra se aproximando um pouco rápido, fechei meus olhos por alguns instantes e soube que ia tocar o sinal, assim que me levantei, fui em direção a minha sala.
O corredor estava cheio de suas folhas e o ar transpassava o doce e suave cheiro de álcool, já que tudo ali naquela escola era limpado com álcool, não seria interessante alguém acender um isqueiro e deixar o caminho pegar fogo? Quem sabe, seria até bonito de ver. Eu digo por apresentar ou algo assim, bem profissional e artístico, algo que todos iriam achar bonito de ver e ninguém se machucaria. Quem seria louco de tocar em fogo?
Max trotava ao meu lado acompanhando meu passo, assim que eu entrei na sala, por Deus não tinha ninguém em particular que eu batesse os olhos e fixasse nela e cumprimentasse pra dar “Oi” ou um “E aí?!” nenhum sinal de “paz” ou “beleza”, nenhuma alma amiga. A atmosfera da sala estava boa ao menos, o professor havia sido o primeiro ao entrar e logo me cumprimentou de relance. Entrei em sua sala e sentei em meu lugar, o último no canto da sala. Perfeito, porque cabe Max ali sem atrapalhar ninguém, e como atrás tinha um enorme vazio, ele podia se esticar e ficar por ali dormindo como sempre amou fazer. Coloquei meus pertences na lateral da cadeira e tirei meu caderno e um sketch book. Ali eu expunha meus sentimentos reais sobre as coisas e um momento bom para desenhar sobre o que estava ao meu redor era a hora perfeita! Tirei meus lápis: H, HB e 4B do meu estojo e comecei á desenhar. Minha carteira fica perto da janela, então, pra mim, é bom demais ter aquele momento.
Enquanto todo mundo chegava conversando e papeando sobre tantas bobagens, eu desenhava, não sei, só sei que acalma meu espírito. Dá um fim naquilo que chamo de monótono e transforma o meu dia-a-dia em algo á mais do que eu poderia imaginar.
Observei o portão ser quase fechado até que um aluno atrasado o cruzou em segundos, meu olhar se firmou no rapaz loiro pedindo desculpas pra Orton, o porteiro e segurança da escola, ele passava a mão na nuca enquanto recebia uma bronca de Orton. Eu estava um pouco entretida com aquilo e mal vi Jane e Mary chegarem e baterem a mão na minha mesa, quando ouvi o barulho eu e Max nos assustamos, eu respirei fundo e encarei a dupla dinâmica me olhar como se eu fosse um defunto.
— Veja só, a menina-cão se assustou? – disse Mary com um sorrisinho irritante, Jane deu uma risada fina.
— Ora essa, ela não tem raiva Mary? – falou fingindo um assombro, eu quis estapear aquela sardenta ou pedir pra Max, telepaticamente rosnar pra aquelas duas.
— Sim, foi o que eu soube Jane! – respondeu fingindo também estar surpresa.
— Ah, olha, vocês duas já são um saco separadas, agindo em dupla vira um lixo. Diz logo o que querem? – respondi sem paciência pra aturar aquele tipo de brincadeira.
— Ah... – suspiraram em decepção. – A Srta. Canis está ficando com raiva já?! – prosseguiu Mary, que era a pior dentre as duas, eu acho. Ás vezes confundo ambas e na classificação, muitas vezes, dá empate.
— Não, eu ainda estou bem... – respondi friamente. – Mas se sua infantilidade esgotou, Mary, querida, estou achando melhor fechar a boca. – Mary fechou a cara assim que terminei, ela queria minha cabeça com certeza num prato por eu ser tão grossa e, acreditem, mais ousada do que ela.
— Srta. Rosenfield! – reclamou o professor.- Por favor, sente-se e fique quieta. – mandou, eu fiz uma expressão confusa e se ele estava doido pra receber uma resposta dura também, mas pra evitar problema e como eu respeitava os mais velhos, eu obedeci. – Agora, Srta. Gena e Srta. Mark sentem-se também.
— Nossa, tudo bem professor, acabamos de falar já... – falou a “Srta”. Mary Gena e a outra concordaram entre si, sorrindo malevolamente. Que dupla! Poderiam fazer um filme de terror com elas sendo esquartejadas que eu iria festejar dia e noite, tudo bem, não iria, acharia terrível porque ao menos eu, tenho uma alma humana!
— Bem, classe. Queria que sem mais delongas dizer que temos um aluno novo. – Anunciou o professor, não dei muito crédito para o que ele disse e voltei em prestar atenção na vista que mais me favorecia do que saber de mais alguém que me excluiria.
Mal escutei o que ele dizia, Max se deitou ao meu lado e não tinha percebido que havia uma carteira vaga, mas mesmo assim, não imaginei que de tantos lugares o aluno novo se sentaria aqui.
Pena que tudo que digo não vira realidade, porque muitas vezes vira, mas logo o contrário daquilo que eu realmente queria.
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