No começo do século XIX, Londres era o maior apinhado urbano do mundo com a marca impressionante de 1.000.000 de habitantes provindos de todos os continentes conhecidos.

Navios de todo o mundo atracavam no porto trazendo toneladas de produtos exóticos — chá das Índias, damasco da Síria, cacau da America Central, Algodão do sul dos Estados Unidos e porcelana chinesa eram algumas das mercadorias disponíveis nos fervilhantes mercados na margem do rio Tamisa.

Como era de costume na capital britânica o dia estava úmido e finos pingos de chuva salpicavam a janela de uma casa perto do Parlamento. Essa casa na verdade era um pub, um pub destinado a Semideuses e criaturas amistosas — Sátiros, Centauros e Ninfas.

Sentados em uma mesa meio escondida pela penumbra três semideuses bebiam cerveja e conversavam.

— Acham que vamos à guerra contra os franceses? — Rin Tender, uma filha de Apolo. Seus cabelos loiros eram compridos e encaracolados, com ausência de franja. Os olhos cor de caramelo eram amendoados e expressivos. Sua pele era branca, como a de todos os filhos do Deus Sol.

— Franceses não. Romanos. — corrigiu a garota sentada na parte mais escura da mesa. Ela era uma filha do Rei dos Deuses e seu nome era Hellana; Hellana, a Princesa era como os colegas de acampamento jocosamente chamavam-na. Os cabelos castanhos escuros eram volumosos e escondiam olhos profundamente azuis. — Os Romanos roubaram meu pai de mim e vão pagar isso com sangue.

— Não foi só o seu. — o comentário desgostoso veio de um rapaz pálido de olhos fundos, uma filho de Hades, obviamente. Os cabelos eram penteados para cima e no ombro magro um corvo de olhos vermelhos estava atento a qualquer movimento suspeitos nos arredores da mesa. — Os Romanos roubaram para eles os pais de metade do Acampamento e ainda tem orgulho disso. — bebeu um gole de cerveja e ficou olhando o caneco. — A pior parte é que meu pai sempre preferiu os romanos.

O Império Romano nos 1.300 anos que existiu causou centenas de guerras que enchiam o Submundo de almas, coisa que só aumentava o poder de Hades ou melhor, Plutão. O Deus Sombrio também começou a ser considerado o Deus das Riquezas — titulo muito apreciado por si mesmo.

— Seu pai nunca foi confiável, Thiago.

— Fala a menina do Rei que abandonou seu povo. — o comentário do filho de Hades foi frio, sem maldades. No entanto a filha de Zeus interpretou isso como uma apronta direta e teria soca o primo se não fosse a intervenção da filha de Apolo, sempre compassiva.

— Pessoal, pessoal. Não vamos brigar. — pediu ela, fazendo força para manter os companheiros distante um do outro. — Se você se matarem o Tyler Megálos me mata. — Megálos vem do grego “mais velho” e era uma maneira respeitosa de chamar irmãos mais velhos que estavam no topo de uma ordem hierárquica. Quando um irmão mais novo estava acima na escala hierárquica ele era chamado de Neóteros.

Thiago e Hellana respiraram fundo e sentaram-se novamente.

— Eu cuido de você depois, corvo. — Thiago deu de ombros, apático e Rin tentou mudar de assunto, falando da missão. Ela pegou um mapa da cidade de Londres, abriu sobre a mesa e olhou a filha de Zeus. — Onde é que o Joker fica?

A morena varreu os olhos pela parte mais pobre de Londres, as margens do rio Tamisa.

— Acho que é aqui. — colocou o dedo sobre uma casa, próxima a um estaleiro. — Ele está sempre trocando de casa, mas ouvi rumores de que essa região ultimamente anda... caótica.

— E onde existe o Caos existe o Joker. — deduziu Thiago.

— Exatamente. — Hellana fechou o mapa. — Precisamos ir logo, se relâmpagos começarem a cair quer dizer que meu pai quer nos matar.

XXXX

Cheiro de mendigos, peixe podre e fabricas de tecido tornavam a visita aquela região da cidade uma tarefa desconfortável e nauseante. Armados com espadas, adagas e arcos os adolescentes temiam os ataques de monstros — casa vez mais comum desde o começo do século XIX.

Hellana, Thiago e Rin esgueiravam-se por ruas escuras, estreitas e cheias de ratos enormes. A fumaça das fabricas tornava tudo ainda mais escuro e o barulho dos lamentos dos sem tetos eram de gelar o sangue. Os semideuses viram uma violenta briga de rua, um assalto a uma peixaria e um estupro — obviamente não se intrometeram em nenhum desses.

Todos aqueles eventos só significavam uma coisa: estavam chegando perto de Joker, o ser mais traiçoeira, maluco e imprevisível que conheciam. Ele era tão poderoso que sua aura emanava caos e insanidade. Semideuses tinham uma resistência maior a isso, mas não deixavam de ser alvos potenciais.

— É aqui. — Hellana olhou para a casa de numero 666. — Típico dele. — murmurou antes de bater na velho e fina porta de madeira. Ela abriu-se sozinha, fazendo um ruído de gelar o sangue.

— Darkness, vá na frente e diga o que vê. — Thiago olhou para o corvo em seu ombro. — Vá agora! — a ave não se mexeu.

— Pare de tentar. — Hellana pediu para Rin acender uma tocha usando seus poderes sobre o calor. — Nem mesmo um gigante chegaria perto do Joker; ele é sinistro demais.

A filha de Apolo engoliu em seco e Thiago deu um leve sorriso. Era o filho do Deus dos Mortos e nada era sinistro demais para ele. O grupo seguiu Hellana para dentro da casa. Assim que cruzaram a porta ela fechou-se, da maneira mais clichê possível .

Por dentro a casa era escura. As janelas foram cobertas com tabus de madeiras, os moveis de madeira velha e escurecida estavam cobertos por lençóis brancos cheios de poeira e teias de aranha. A maioria das portas estava trancada e com uma proteção mágica fortíssima; um corredor estreito conduzia ao único cômodo aberto.

O grupo foi até ali: era um quarto espaçoso e sem um único móvel; velas presas na parede faziam a iluminação e no meio do chão de madeira havia uma pessoa deitada. Era uma criança de uns oito anos, cabelos negros longos como os de uma garota e uma pele branca como a dos filhos de Hades.

— Ai, meus Deuses. — Rin tomou um susto e tentou correr para ajudar a criança. Hellana ergueu o braço, impedindo-a de se aproximar.

— Psiu. — a filha de Zeus deu passos leves para perto do menino e cutuco suas costelas com o pé.

— Ahhh. — gemeu ele sonolento, abrindo os olhos roxos. Curvou-se para a frente e ficou esfregando os olhinhos. — Que século é esse?

— XIX. — respondeu Hellana, sem paciência. — Pare de enrolar Joker, não temos tempo.

— Tempo. — repediu com a voz de criança. — Tempo... eu tenho todo o tempo do mundo. — ele desapareceu diante os olhos dos semideuses e reapareceu levitando sobre eles. — Algum de vocês pega minha mamadeira?

Thiago olhou para cima e o corvo escondeu-se dentro de sua cartola.

— Mamadeira, quantos anos você têm?!

— Os mortais ainda não criaram um numero grande o suficiente. — o menino estava deitado no ar, como se houvesse uma cama invisível. — Quero minha mamadeira.

— Argh, já vai, já vai. — Hellana engoliu o orgulho e buscou uma garrafinha de vidro cheia de leite, jogada no canto da sala. Prendeu o bico de borracha e entregou a criança. — Pronto, já pode falar agora?

Ele ergueu um dedo, pedindo um instantes enquanto tomou o conteúdo da mamadeira em alguns goles.

— Do que precisam? — ele limpou a boca com os bracinhos magros e reapareceu sentado no chão.

— Ajuda.

— Disso eu já sei. — respondeu apático, olhando para os pés dos visitantes.

— Então por que perguntou?

— Cortesia? — perguntou retoricamente. — Vocês querem muitas coisas: armas, mapas, conselhos, profecias e peitos maiores. — olhou Rin que ficou extremamente vermelha. — A questão é: por que eu ajudaria vocês?

— Se nos ajudar te damos um pacote de fraudas novinho. — Hellana sentiu uma mão invisível dar um soco em sua barriga e começou a tossir.

— Ei! — Thiago puxou sua espada de Ferro do Styx, mas a mesma virou uma cobra morta.

— Tem sorte de não ter sido você. — a criança estava com os olhos roxos brilhando e arranhou suavemente o assoalho. — Vocês sabem qual o meu preço.

Hellana era a única que sabia e jamais aceitaria. Vendo que não receberia uma resposta Joker disse:

— Obrigado pela visitinha, me acordem de novo quando inventarem o futebol... ou a playboy. — estalou os dedos e quando uma fumaça abaixou ele estava usando um pijama branco com desenhos de estrelas. — Boa noite.

— Espera! — gritou a filha de Zeus. — Nós de uma profecia, só uma!

Joker riu.

— Desculpa, engoni, mas eu estou torcendo para os romanos. — o menino deu uma piscadinha e desapareceu em uma nuvem de fumaça negra.

Notas finais
Quem será essa criança misteriosa?