Fogo Infernal

1 Degradação Moral


Notas iniciais
South Park não me pertence. Essa fanfic não foi betada (Erros ortográficos corrigidos). Ela ocorre em dois tempos, o atual (Com os personagens com 13 anos, na sexta série) e no passado fictício (Dentro do RPG, onde os personagens são adultos e vivem seus próprios alter egos).

9 de novembro de 2018 — 14:22 PM

Os garotos do sexto ano se encontraram a tarde para uma importante reunião, aproveitando do feriado bancário que caiu na sexta-feira para fazer o último e mais grandioso jogo de RPG já feito pelos alunos do sexto ano. Havia muita expectativa no momento, com todos os rapazes reunidos sozinhos no porão do Cartman naquela tarde.

Não estavam motivados apenas por terem conseguido a promoção de várias fantasias de Halloween em desconto na loja de um dolar, mas também porque desde que fizeram treze anos e confrontaram o crescimento repentino, junto da entrada na adolescência que o grupo enfrentou, as fantasias de guaxinim e seus amigos não serviam mais em nenhum dos garotos. E era por essa razão, enquanto montavam as fichas e organizavam o novo RPG, todos se preparavam para um fim de semana extremo de jogos e diversão, onde meninas não seriam permitidas.

— Está bem — iniciou Eric, com as fichas e planejamento que montou em mãos, depositando-o no centro da larga mesa de madeira que possuía ali. — Será um jogo de inquisição, um filho da puta abriu uma porta do inferno para o nosso mundo e agora os demônios estão atacando a cidade, atrás do Santo Graal. — Começou a explicação, botando também uma taça de plástica com alguns doces de abóbora junto aos papéis. — Os guardiões dos poderes do bem terão de destruir os portões que levam para o inferno enquanto protegem essa tacinha. Alguma dúvida?

Os olhos dos colegas davam atenção ao que o garoto propunha, sendo tudo mais ou menos dentro do estabelecido pelo grupo quando cada um doou cinco dólares para a compra dos itens para a brincadeira. Uma luta entre cavaleiros e demônios, do divino contra o maldito, sem clemência ou piedade entre os lados, uma batalha sangrenta onde apenas um grupo sairia vitorioso.

— Certo, Cartman.. E como ficarão as divisões do grupo? Vamos fazer algum sorteio? — Perguntou Kyle, não tendo objeções até então.

— Não precisam se preocupar, eu já preparei as fichas de cada um de vocês — avisou o garoto, distribuindo os papéis aos seus respectivos donos. Nesses continha as informações e história de cada um dos jogadores, junto com suas funções e objetivos. — Euzinho, é claro, serei o messias salvador do mundo, que profetizou toda essa porra e o único capaz de deter Satanás!

— O que? Você? Um messias? E eu sou o camponês ignorante que invocou Satanás enquanto preparava sopa? — Kyle indagou ao ler a própria ficha, mas que merda era essa? Ele queria sacanear consigo?

— O que você queria, Kyle? Você é judeu! Esqueceu quem matou Jesus, Kyle? Seu povo! Seu povo matou Jesus! — Argumentou Eric, impaciente com essa reclamação sem fundamentos. Havia planejado cada ficha pensando exatamente na personalidade dos amigos, não tinha erro ali. — E você acha que eles sabiam que estavam matando o salvador, Kyle? Não, puta merda! Eles não sabiam, Kyle. Eles foderam com tudo porque são estúpidos, igual a você, seu judeuzinho do caralho! — Xingou raivoso. Não tinha como ele entrar no grupo dos mocinhos sendo judeu.

— Fica frio, cara.. — Pediu o Stain, não tendo o que reclamar a respeito da própria ficha. Era o soldado mais forte das cruzadas, não? Responsável por trazer o Santo Graal a igreja. — Vai ser divertido, você vai poder tentar foder com o Cartman — consolou o amigo. Se fossem refazer as fichas demoraria demais e acabariam nem começando o jogo.

— Por que eu sou o padre que terá de ficar guardando o Santo Graau? — Perguntou Craig, essa de longe seria a função mais tediosa da brincadeira. — Eu sou o mais forte do sexto ano, devia ser algum tipo de soldado ou demônio.

— Porque, caralho, você é o único alto o bastante pra vestir aquela merda de fantasia de padre sem ficar tropeçando ao pisar na barra daquele vestido! Vou ter de explicar tudo nessa porra? Você devia me agradecer por não te fazer um humano endemoniado como o Kyle, você sabe que Deus não tem clemência com bichas — O rapaz revirou os olhos, batendo com a mão na mesa. Será que não dava pra colaborarem e começarem logo o jogo?

— Ca-cara — Jimmy começou a falar, gaguejando — você não pode chamá-lo de bicha, isso é homofobia. — Defendeu o seu líder, não era legal quando ficavam julgando-o pela sua orientação sexual.

— Tá legal, tá legal.. Foi mal, não quis magoar os sentimentos das madames homossexuais — o desdém em sua voz era claro, já tinha dado a sua justificativa para que ele fosse o padre, não tinha nada haver com o fato de todo padre ser viado e pedófilo.

— Cuzão — Craig expôs o dedo do meio ao colega. Ainda daria uma surra nesse gordão, ele ia ver só.

— O que o corcunda do relógio faz? — Perguntou Butters, alheio a discussão. Não havia entendido bem a própria função.

— Você e a porra do sino ficam com o celular e chamam todo mundo na hora do lanche. Tá escrito no verso da ficha, puta que pariu — disse, indignado. Foi pra isso que colocou o Butters como o concurda da igreja e o Dougie como sino, dessa forma eles não iriam encher seu saco. — Mais alguma pergunta idiota?

— Craig, Clyde e Jimmy estão no grupo de Deus, eu não posso trocar? — Perguntou Token, dessa forma seria o único da gangue no grupo dos demônios. Não era como se reclamasse em ser Mammon, seguidor direto de Satanás, mas preferia jogar com os amigos.

— Não existem negros no céu, Token! Tá na bíblia — contra-argumentou. — Não estamos brincando de casinha pra você escolher seu próprio time.

— Racista filho da puta — xingou Kyle em resposta. Primeiro os judeus, agora os afrodescendentes?

As discussões se prolongaram um pouco mais, mas sabendo da personalidade difícil de Cartman e que a mãe dele havia preparado torta com sorvete para o lanche, todos os garotos acabaram cedendo aos papéis que lhe foram designados, iniciando então a jogatina.

XXX

9 de novembro de 1269 — 15:45 PM

Paris estava silenciosa naquela tarde, tomada por uma muda inquietação que fazia o mais corajoso dos homens tremer de medo. As chamas do prelúdio tomaram as ruas da cidade na noite anterior, alertando-os do mal que havia renascido nessas corrompidas terras.

O perverso foi trazido a superfície novamente, munido da perdição e cobiça que dominava o coração de cada homem e mulher que vivia na capital. Poucos eram os capazes de se manterem puros, encarando de frente os demônios que prometiam fazer cada um dos vivos pagar por seus pecados mundanos.

O coração do virtuoso e jovem padre daquela catedral era um dos poucos que se mantinha firme diante de tanta turbulência, encarando com frieza a figura santa ao fundo do salão. Sabia que Deus era o único capaz de salvar e punir, por isso não hesitaria diante de tamanho mal, pronto para purificar qualquer criatura corrompida, com sua inabalável fé.

— Beata Maria — iniciou sua presse, ajoelhando-se no gélido piso de mármore, rompendo o silêncio do local. — Clamo pela sua justiça. Destrua todas essas ingratas almas e traga a salvação para esse solo contaminado — implorou, fixando seus límpidos olhos esmeralda no mais alto dos vitrais, encarando a figura santa desenhada nesse. — E se não puder fazê-lo, dei-me a força para que eu erradique todo o mal.

A falta de resposta, porém, não o incomodou, vendo apenas as cores dos vitrais dançarem ao chão, refletidas com o sol do final da tarde. Sua fé garantiria que protegesse o mais sagrado dos itens, o intocável Santo Graal, mas temia que contra as criaturas fora da casa de Deus, fosse preciso mais do que isso se quisessem derrotá-las.

Sua suplica se perpetuou até a escuridão tomar a catedral, fazendo todo o brilho de suas belas janelas cessar. Todo o silêncio foi rompido quando as pesadas portas de madeira do local foram abertas, junto dos passos arrastados da besta que vivia dentro da casa do senhor.

O integro clérigo ergueu-se, encarando fixamente o monstruoso Butters, que mancava ao andar, arrastando consigo um carrinho de madeira, carregando um pesado baú de madeira sobre ele. Aproximou-se daquela trágica existência, deixando sua glacial reprovação ser notada em seu olhar.

— Como ousa entrar na casa do Senhor deste modo? — Repreendeu-o, vendo os sujos sapatos tomados por lama marcarem a pedra branca ao caminhar.

— Santidade — o deformado homem ajoelhou-se, arrastando-se em direção ao padre, segurando desesperadamente uma de suas mãos e beijando-a em sinal de devoção. — Eu vi, meu senhor! Vi as criaturas vindas do inferno! Consegui capturar uma delas, digníssimo, mas não sabia o que fazer. Trouxe-a o mais depressa possível para as suas mãos, sei que saberá como prosseguir.

— Trouxe um deles para cá? Quer corromper nossa igreja? — Questionou, tomado por uma fúria crescente diante de tamanha imbecilidade. Puxou os cabelos loiros daquela monstruosidade, empurrando-a com força contra o chão em seguida, afim de derrubá-lo.

XX

9 de novembro de 2018 — 17:12 PM

— Ai! Isso não foi nada legal, Craig — reclamou Butters ao ser empurrado, encolhendo-se um pouco no chão sujo da garagem do Cartman.

Era para ser apenas uma brincadeira, mas ele estava sendo agressivo demais. Já haviam combinado que nem todos os atos precisavam ocorrer no jogo, bastava que fossem narrados.

— Você está bem, Butters? — Perguntou Dougie, preocupado com o amigo. Como era o sino, estava andando junto do outro, assim poderia ser tocado sempre que houvesse a necessidade. Também estava ajudando-o a puxar os barbantes da grande caixa de papelão que veio o fogão novo da família Token, sendo a caixa o carrinho improvisado do loiro.

— Foda-se — retrucou o garoto, expondo o dedo do meio aos dois chorões. Se eles não sabiam jogar, que não tentassem participar da brincadeira. Nem entendia porque tinha um garoto da quarta série dentro da campanha, Dougie nem era da turma.

Craig Tucker estava um tanto impaciente, haviam começado a brincar e desde então, já tendo passado mais de uma hora, foi o único que ficou naquela maldita garagem para guardar aquela estúpida taça de plástico com doces de abóbora. Iria é socar a cara daqueles dois e, seja lá quem estivesse na caixa, para passar a raiva. De bônus ainda enfiaria todo aquele doce de abóbora na goela de cada um deles.

— Está tudo bem, Craig? — Perguntou Tweek, erguendo um pouco a caixa e expondo-se, demonstrando sua preocupação com o moreno. Ele parecia estar chateado, tinha cansado da brincadeira? Se ele fosse sair, sairia também.

— Amor — Craig se surpreendeu ao ver o namorado ali. Ele foi capturado pelo idiota do Butters? O jogo todo devia estar uma merda então. — Que porra, Butters. Você trouxe um demônio pra igreja, quer queimar o meu bebê? — Questionou o garoto, ele não sabia que demônios não podiam pisar em solo sagrado?

— Não posso vir à igreja..? Eu estou queimando? GAH! Não pode ser!! — Tweek desesperou-se com a informação. Não sabia disso, iria morrer? Merda de caixa que foi jogada em cima de si minutos antes, não devia ter caído na armadilha daqueles dois.

— Não, paixão! — Falou Craig, negando logo.

— O que? Ele vai queimar? — Perguntou Butters, alarmado. Tinha derrotado um dos demônios? — Mas eu não quero ser um assassino! Assassinos não vão para o céu! Meu pai vai me deixar de castigo.

— Não, calma. Ele não queimou! — Até parece que deixaria o jogo acabar assim para a sua razão de viver. Fodam-se as regras do cuzão do Cartman, faria suas próprias regras agora. — Você é um Imp de nível baixo, só vai perder seus poderes aqui dentro. Está tudo bem, vamos continuar com isso — avisou Craig, retomando a posição anterior. Ninguém iria ferir o seu namorado naquela porra.

— Tá legal — concordou Butters e Dougie, retomando também a posição enquanto Tweek se escondia na caixa mais uma vez.

XX

9 de novembro de 1269 — 17:25 PM

— Mas.. Meu senhor.. Eu não queria, não queria. Oh, Deus.. Me perdoe, meu senhor, me perdoe! — Encolheu-se no chão, cobrindo sua cabeça com os braços por segurança, para caso fosse chutado ou pisado pelo Craig, uma vez que esse estava levando a sério demais o fator live action.

— Patético — declarou o clérigo enquanto via-o implorar por perdão. Mexeu em suas roupas, tirando um frasco com água bentão dessa e seguindo até o baú sobre o carrinho. — Vou purificar essa criatura antes que ela destrua a igreja de nosso senhor.

O jovem abriu o baú com uma única mão, soltando sua tranca e empurrando-o para o alto enquanto puxava a rolha do frasco com os dentes, cuspindo-a ao chão. Jogaria a água bendita contra a vil criatura, para feri-la e enfraquecê-la antes que ela viesse tentar algo hostil que comprometesse a integridade do pároco.

O movimento repentino assustou o jovem imp aprisionado, que imediatamente usou suas pequenas asas vermelhas para proteger-se, encolhendo-se mais no interior daquela pequena arca. Os apavorados olhos azuis da criatura expunham o terror ao encarar o homem santo, não ousando piscar enquanto via-o carregar em mãos o frasco que continua sua ruína.

A surpresa do padre foi quase tão grande que a do pequeno demônio, sendo a primeira vez que confrontava cara à cara uma das criaturas infernais. O que mais o assustava, entretanto, não era a abominável existência ali dominada, mas sim a fragilidade quase humana daquele ser.

— Maldito seja — disse Craig, recuando um passo diante da descoberta e derrubando a água bendita ao chão. — Como pode ser tão humano?

Não era santo, as asas, chifres e cauda pontiaguda delatavam bem a sua origem pecaminosa, mas o medo ao fundo daqueles claros olhos azuis confundiam-o de maneira inexplicável. Não era parecido com nada que já havia visto em livros ou esculturas, muito pelo oposto, era inocente e terrivelmente belo.

— Não me mate — implorou o diabrete, fechando suas mãos em suas quase angelicais madeixas douradas, puxando-as em pavor. — GAH! — Urrou, trêmulo contra seu algoz.

— Meu senhor.. Eu o trouxe. Você o purificará? Se livrará desse ser grotesco? — Questionou o deformado homem que capturou aquela vida, arrastando-se no chão mais uma vez, olhando esperançoso para o sacerdote, esperando um único sinal de aprovação pelo seu sucesso em confinar o demônio

— "Ser grotesco"..? — Repetiu Craig, descrente ao ouvir essas palavras saindo de um humano não disforme. — Não há mais nada grotesco que você, rejeitado até pelas bençãos de nosso senhor.

Como ele podia julgar o ser ali aprisionado? Chamá-lo de grotesco com tamanha audácia? Ele acreditava ser portador de alguma glória para apontar o dedo para aquela vulnerável vida? Riu momentaneante, tomado por um curto instante de insanidade.

— Saia. Saia agora da santa casa de soberano — mandou, segurando com força a gola do corcunda, arrastando-o contra a própria vontade em direção das portas da igreja.

— Mas.. Santificado! — Tentou argumentar ao ser puxado, assustado com a reação tão extrema daquele homem. — Não podemos deixar esse demônio vivo!

O peso daquela batina negra tomou proporções inimaginável, recuperando a consciência de sua posição e parando a sua caminhada para olhar mais uma vez a criatura no baú, vendo-a imóvel ali, assistindo silenciosamente o desenrolar. O que estava pensando? Em poupar uma vida maldita? Estava cego? Ou enfeitiçado? Cometeria o maior dos pecados se deixasse a origem de todo o mal livre.

— É claro.. — Concordou, largando a gola daquela besta humana e voltando a andar pela igreja, seguindo até o tablado.

Junto ao cálice da Santa Ceia havia uma adaga, a única arma divina que era guardada em solo sagrado, trazida pelos fiéis em uma de suas peregrinações. Tirou-a de sua bainha mergulhada em pedrarias, encarando o fio preciso que ela carregava. Uma única punhalada e a vida de seu alvo pereceria em poucos segundos, rasgando seu interior e deixando-o agonizar até a hora do seu ofego final.

— GAHH!! — Gritou o imp, antecipando seu desespero e fechando os seus olhos com força, temendo encarar de frente o seu destino.

Os passos firmes ecoaram no mármore quase tão alto quanto o grito agoniado do servo de Satanás. Mesmo assim, Craig ultrapassou o baú sem sequer olhá-lo, encaminhando-se ao hediondo sineiro, encarando-o com tamanha hipocrisia que o trágico desafortunado duvidou por um momento que o sacerdote carregasse uma alma.

— Você não revelará a ninguém o que presenciou esta noite.

E em poucos segundos, com extrema brutalidade, a língua do aleijado congregado foi atirada contra o piso branco, marcando-o cruelmente em vermelho. Esse, por sua vez, se contorcia desesperado, tentando tancar inutilmente a ferida, temendo afogar-se no próprio sangue.

— Agora, você.. — Craig voltou-se ao outro, já tendo conseguido silenciar aquele patético.

A impiedade do vigário aterrorizou não apenas sua vítima, mas também a criatura infernal, que ao ver o sorriso que recebeu daquele homem, passou a acreditar que a morte não parecia mais um destino tão indesejável.

Notas finais
Então, essa ideia me veio graças ao jogo de South Park! Eu sempre adorei AUs com o Priest!Craig e o Imp!Tweek, mas sempre achei que seria um AU difícil de desenvolver (Pois em circunstâncias comuns, o Craig seria impiedoso com um demônio), mas trabalhando com a temática RPG eu pude desenvolver essa realidade trazendo as relações já existentes no universo canon. Particularmente eu até gostei mais assim, pois o retorno a realidade quebra um pouco o peso da própria história. Essa fanfic não deve ficar muito longa (Pois serão apenas três dias de RPG), então deverão vir atualizações frequentes~ Espero que tenham curtido~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.