Fogo Inalcançável
8 8º Capítulo – Nada renasce antes que se acabe, a coragem conduz as estrelas.
Notas iniciais
8º CAPÍTULO – NADA RENASCE ANTES QUE SE ACABE, A CORAGEM CONDUZ AS ESTRELAS
Porlyusica chegou afoita na guilda, buscava fôlego, não lembrava a última vez que correra com tanta pressa e agonia; entrou na guilda sem qualquer cordialidade, com Jet logo atrás, os olhares preocupados caíram sobre a senhora de cabelos róseos; os magos que estavam ali pareciam velar por algo; tamanha tensão que estava no ar. Tão logo que entrou tratou de marchar escada cima, sabia onde Lucy estava. Durante os passos apressados nos degraus ela mergulhava em pensamentos perturbadores. Temeu tanto que esse dia chegasse.
Finalmente chegou no ambulatório e logo entrando se deparou com a trupe toda, Gray, Erza, Juvia, Mira, Levy, Gajeel e Makarov, a tensão chegava pesar a ponto de parecer quase insuportável. Não perdeu tempo, estava alheia aos outros que ali estavam, sua preocupação era Lucy. Se aproximou da loira vendo a sua aparência pálida e frágil, com o vestido e as pernas manchadas de sangue.
—N-não houve tempo para limparmos ela! – Levy estava profundamente agoniada em ver a amiga naquelas condições, mas realmente não tivera chances de limpá-la, estavam preocupados demais com seu estado de saúde.
— Esse não é os maiores dos problemas, preciso que todos saiam. – Ignorou os protestos, Lucy precisava de cuidados urgentes e ela precisava se concentrar, se permitisse que eles ficassem só tirariam sua concentração.
— Escutaram Porlyusica...vamos! – Sério e visivelmente abatido Makarov colocou todos para fora, tão decepcionado que estava por não ter defendido Lucy ele mal tivera coragem de olhar para trás, assim que todos saíram, ele simplesmente seguiu o mesmo caminho fechando a porta de cabeça baixa.
Agora a sós, Porlyusica colocou suas luvas de látex, olhava com tristeza para a maga que a menos de uma hora atrás tinha um sorriso tão contagiante no rosto. Mas tinha que se concentrar; não podia deixar os sentimentos povoar sua mente; tinha que dar espaço para o raciocínio.
Pegou na borda do vestido que antes era branco e o levantou, com uma tesoura cortou a calcinha da moça, a retirando, sabia que seria desconfortável e invasivo, mas precisava tocar a região pélvica da maga, para verificar se o colo do útero estava se dilatando, que para seu alívio não estava; sinal de quê o bebê não estava sendo expelido; com cuidado tirou o vestido da moça, deixando-a apenas de sutiã, pegou um lençol que estava dobrado sobre o pé da cama e a cobriu da cintura para baixo.
Vendo que o bebê permanecia onde deveria e que o corpo da loira não dava mais nenhum sinal de aborto espontâneo, agora ela tinha que saber se ele estava vivo; não teve tempo de perguntar direito o que havia acontecido; mas o que Jet pode lhe adiantar era que uma Maga havia drenado a magia de Lucy, só não se sabia se havia realmente drenado a magia de Lucy ou do seu bebê, suspirou em aflição, e buscando toda coragem em seu profundo, colocou a mão sobre o ventre da maga, se concentrou, respirou fundo e franziu o cenho, colocou então as duas mãos sobre a barriga saliente e alva; seu corpo relaxou; retirou suas mãos e olhou para Lucy.
— Ele é tão teimoso... ou forte quanto os pais! – Sutil e aliviada Porlyusica dizia para Lucy que seu bebê estava resistindo, mesmo sabendo que a maga estava desacordada.
Mas nem por isso os problemas de Lucy haviam diminuído. A magia tanto dela quanto do bebê estavam assustadoramente baixas, principalmente a da loira. Pegou em sua maleta de madeira alguns fracos, e habilidosamente fazia ali mesmo algumas doces nas seringas, aplicando-as nas veias de Lucy que gemeu baixinho devido ao incomodo da picada, mas permanecendo desacordada.
Porlyusica havia aplicado alguns medicamentos que carregava desde que Lucy descobriu a gravidez, eram poções raras e difíceis de serem desenvolvidas, por conter ingredientes quase que impossíveis de se obter; entre eles e Eternano; esses medicamentos iriam se infiltrar na corrente sanguínea de Lucy e ajudaria seu poder mágico a se recompor. Mas não podia negar, pelo seu vasto conhecimento sabia que Lucy corria sério risco, tanto ela quanto o bebê estavam extremamente vazios, não sentia magia vindo deles.
Seu coração batia apertado, o ódio fazia seus dentes trincarem; maldita mulher que ousou tocar em Lucy; não se conformava com a ambição e crueldade do ser humano, como podia um ser da mesma raça matar outro, se perguntava diariamente, e para um, capaz de ferir um inocente, esse não deveria ter perdão. Recolheu o vestido de Lucy, pegou um pano branco e o encharcou no recipiente sobre a cômoda a frente que continha água morna, passou a limpar Lucy, por enquanto só poderia fazer isso, deixá-la limpa e confortável.
No corredor todos aguardavam Porlyusica dar sinal, a tensão, medo e aflição eram tantos que o silêncio tomava o local, ninguém conseguia ou tinha forças para pronunciar sequer uma palavra. Estavam alguns encostados na parede, outros sentados no chão mesmo. Juvia olhava aflita para Gray, sabia ela que ele estava se punindo por Lucy estar naquela situação. Erza sentia vergonha, não conseguia olhar para os amigos, na janela do corredor ela se apoiou e sua visão se perdeu na paisagem a frente.
— Minaa.... ficamos sabendo!! – Em meios a fungadas devido a falta de ar Wendy corria afoita pelo corredor, com Charle e Happy voando logo atrás.
— Porlyusica-sama está cuidando dela agora! – Avisou Juvia, que demonstrava nos olhos o tamanho do problema que tinham.
— Gomen ne!! Se eu estivesse aqui, poderia ter dado os primeiros atendimentos. – Se entristeceu por estar ausente num momento tão crítico, sabia que com seu poder ela poderia ao menos tentar manter o nível de magia de Lucy.
— Não poderíamos imaginar Wendy, não se culpe! – Gajeel tentou consolá-la, vendo que não adiantava muito, o olhar da azulada mostrava pura decepção; a pequena mão sobre o lado esquerdo do peito, parecia tentar consolar seu pequeno coração. Happy e Charle também visivelmente aflitos pararam ao pé da porta.
— Luxyy. – Choramingou Happy, encostando sua patinha na porta do quarto, totalmente desconsolado.
E tirando eles daquele poço escuro de ânsia e angustia, Porlyusica abriu a porta e com um aceno os liberou para entrar. Lucy estava aparentemente melhor, sem a roupa ensanguentada e com a pele limpa. Porlyusica havia a limpado e colocou um lençol sobre seu corpo. O silêncio tomou conta novamente, Mira se aproximou de Lucy e tocou suavemente sua mão, que estava gélida e imediatamente um soluço escapou de sua boca e lágrimas começaram a escorrer, era difícil ver Lucy assim.
— Lucy não sofreu o aborto, teve princípio, por isso todo aquele sangramento. Mas ainda não estão fora de perigo. O que eu poderia fazer já fiz. – Deu uma pausa, não estava sendo fácil admitir. – Agora temos que esperar, apenas.
— Nani? Não podemos fazer nada? O negai.... farei qualquer coisa, qualquer coisa para ajudá-la.. me diga! – A voz tomada pela suplica, Erza não conseguia se conter, a culpa e a sensação de incapacidade eram avassaladoras.
— Infelizmente não há nada para ser feito. Cada mago tem dentro de seu corpo um determinado nível de poder mágico, se esse nível de poder for drenado ou consumido, o Eternano da atmosfera entra no corpo do mago aos poucos e depois de um tempo o seu poder mágico é retornado ao normal. Injetei uma quantidade de medicamentos que contem Eternano, agora depende do corpo de Lucy em lutar para restabelecer sua magia.
— E o bebê? – Perguntou Gray, que a todo o momento se manteve calado.
— Ele depende da magia de Lucy, se ela não se recompor logo ele não irá resistir, quase todo nível de magia do bebê foi drenado também. – Dramático demais para ser verdade, atacarem um anjinho dentro de sua mãe. Tamanha crueldade.
O ambiente voltou a ficar tenso, olhavam para Lucy, se perguntavam o que poderiam fazer por ela.
Happy que diante do estado de Lucy ficou sem reação e não conseguia se quer falar algo de positivo e consolador, apenas se sentou na cama de Lucy ao lado de sua mão e a fitava sem desviar o olhar; ninguém era capaz de imaginar o quanto que Happy desejava que Natsu estivesse ali; o azulado tremia e um nó em sua garganta o impedia de clamar pela volta do amigo.
Makarov parecia imerso nos seus pensamentos, a todo o momento olhava para a face pálida de Lucy, queria ver ali o sorriso tão cativante da maga celestial, queria ver aquela barriga continuar a crescer. “Natsu” veio em sua mente, o mago se quer sonharia a situação crítica em que Lucy estaria naquele momento. Lucy não reagia, sequer respirava com mais avidez, tão quieta, serena... não parecia sentir dor nem desconforto. Aquilo incomodava, queria ver alguma reação sair dela, que não vinha desde que fora tocada por aquela maga.
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Caminhava em passos calmos numa trilha de certa floresta que nem se recordava o nome. Por algum motivo estava aéreo, algo o incomodava, não conseguia identificar o que seria. Ora olhava para trás ora andava mais rápido, bufava em desgosto por se sentir tão desconfortável, nem dava ouvidos para o que o mais velho falava, as vezes trincava os dentes e se sentia afoito. “Kêssa!” esbravejou em mente.
— Natsu.... está tudo bem? – Perguntou Gildarts ao dar conta de que Natsu nem se dava trabalho em ouvir mais uma de suas aventuras.
— Hai. – Sucinto como andava sendo. – Vamos parar por aqui, prosseguimos amanhã. – Parou de caminhar sentando-se em um velho tronco de arvore caído, o lugar era bom para se passar uma noite, com uma área limpa para deitarem e a proteção de uma grande árvore sobre eles.
Estavam a caminho de uma certa cidade, em uma das inúmeras expedições que fizeram nas cidades de Fiore, dentro de tavernas, becos e aldeias, eles descobriram o paradeiro de Zeref; se era verdade eles não sabiam; teriam que ir até o local indicado para descobrir. O que não era problema, Natsu disponibilizou um ano da sua vida para caçar Zeref, e cada pista, cada murmurinho que surgisse sobre aquele ser ele levaria fé e não pouparia esforço para descobrir se os fatos conferiam.
Sentado no tronco e vendo Gildarts ajeitar alguns gravetos no meio de um círculo que fizera com pedras, ele não esperou o pedido e sem qualquer esforço lançou uma chama naquele local, fazendo os gravetos flamejarem e iluminarem boa parte do ambiente, tirando de Gildarts um sorriso satisfeito.
— Vi umas termas naturais a poucos metros daqui... Estarei por lá. – Já se levantava deixando Natsu sozinho, sem saber que fazia um grande favor.
Se vendo sozinho, ele apoiou os braços nos joelhos e olhou para baixo, o olhar fixo no chão, a expressão séria, os lábios estavam tênues e secos, parecia perdido em pensamentos. Fazia um pouco mais de quatro meses desde o inicio da caçada, e nada havia encontrado, sequer algum rastro de Zeref, ao pensar muito nisso ele quase se entregava em ansiedade e nervosismo, temia em não encontrá-lo. Assim como sua vida girava em torno de encontrar Igneel, agora também focava em Zeref, ao pensar muito neste nome seu sangue fervia, custava para se controlar.
Sua vida estava tomando um rumo diferente do que almejava, mas não se importava, aquela agora era a sua vida, procurar Zeref, e quando o encontrasse nada sabia do que seria do seu futuro, nada estava garantido, senão o confronto que teriam. Aquele medo, aquela sensação de estar sendo dominado, controlado por algo mais forte dentro de si, já não mais o incomodava, se sentia mais forte, poderoso e isso era incrivelmente satisfatório.
Erguendo sua cabeça, fitou o céu estrelado, a quanto não olhava para o céu, tinha que admitir que era agradável aquela visão... então se lembrou dela... diariamente se forçava em não buscá-la em sua mente, sempre que perdia essa luta e a imagem daquela loira lhe surgia, todo seus sentimentos, todas suas ambições se perdiam. Não queria ter distrações nem afetos, por algum motivo ele tentava se desconectar de seus amigos, mas estava difícil, mais difícil era não ter uma sensação quente invadir o lado esquerdo de seu peito só de imaginar que ela carregava seu filho... seu herdeiro... Ainda custava para acreditar.
Alguns longos minutos depois Gildarts voltava de seu relaxante banho nas termais, em seu rosto, a satisfação. Viu Natsu deitado no chão, a cabeça apoiada na mochila e nos braços que estavam na nuca, percebeu que o rosado estava mergulhado em pensamentos.
— Porque não voltamos para casa? – Perguntou Gildarts, não precisava ser um gênio para saber que o mago estava pensando em Lucy e em seu filho. – Podemos deixar isso para depois, Zeref sempre surgiu em sua frente quando ele bem entendia, quando a hora chegar ele aparecerá, e mesmo que seja em cima da hora nós daremos um jeito, sempre damos.
— Nem pensar... não posso correr este risco. – Respondeu ainda olhando preguiçosamente para o céu.
— Não quer saber como Lucy está? Você sequer pergunta dela quando conversamos com Makarov. — Olhou estreito para o mago do fogo, cada dia era mais difícil tirar algo dele, tão pouco convencê-lo de que ele precisa se apegar ao fato de que será pai em poucos meses.
— Não me venha com seus sermões, ela está bem... essa gravidez... esse filho.. Irei conhece-lo no regresso. – “filho” era difícil de falar e de se acostumar, tanto quanto dizer “Lucy está grávida” nunca lhe passou essas coisas em sua mente, sabia que estava sendo injusto com Lucy, sua atitude era egoísta, assim como ele não pediu por nada disso, ela também não.
— O que você fará quando regressarmos?
— Não tenho ideia... nem mesmo sei como eu estarei, é difícil de imaginar... – Realmente não sabia, pois quando saiu de magnólia deixou para trás uma Lucy raivosa, histérica e para piorar grávida. Eles haviam combinado de tentar voltar a amizade de antes, sem o sexo, sem a luxuria, mas agora dividiam um herdeiro.
— Ter uma esposa, um filho... é o sonho de muitos homens, você está com tudo isso entregue em uma bandeja, basta aceitá-la.
— Sou o Dragon Slayer do fogo... tenho alguns assuntos a tratar com Zeref, e dependendo das respostas dele... – Saiu um sorriso ambicioso de seus lábios – Ficarei satisfeito apenas com meu poder.
Aquelas palavras amedrontou Gildarts, Natsu estava ficando mais forte, um poder descomunal surgia cada vez que ele evocava suas chamas, e parecia estar se viciando neste poder, parecia se entregar, se já estava se entregando do que adiantaria ir atrás de Zeref?
— Poder não é tudo... Você sabia disso, mas parece que se esqueceu. – Comentou decepcionado. – E Fairy Tail... seus amigos... Lucy... e agora seu filho Natsu, não se deixe esquecer. – Suplicou.
— Cada um tem sua opinião e seus interesses, não estou renegando nada. Voltarei para Magnólia e irei conhecer meu filho. – Disse um tanto que irritado.
Antes que Gildarts pudesse falar mais alguma coisa ele viu uma luz sair de sua mochila, já sabia, era a lácrima, mas o que Makarov teria a dizer? Já era tarde da noite. Se inclinou para pegar o objeto, o colocando sobre uma pedra grande, e assim que o fez logo viu uma expressão preocupada de Makarov na esfera.
— Mestre?
— Natsu... cadê ele? — Logo surgiu Lucy na cabeça de Gildarts, algo com certeza havia acontecido. O rosado com a audição afiada claro que escutou o chamado do mestre e sem muito interesse se levantou e sentou-se do lado de Gildarts.
— Natsu... Lucy foi atacada essa noite! – Aquilo sim fez o rosado parecer levar um choque, e logo franzir a testa e fixar o olhar na imagem do mestre. – Ela... ela não está bem Natsu, nem seu filho... – Por mais forte que Makarov fosse ele não conseguiu concluir, era difícil.
— Quem a atacou? – A voz rouca e arrastada transmitia pura raiva.
— Ainda não os interroguei, foi uma maga incrivelmente poderosa e desconhecida e três aliados, ela e seus capangas então enjaulados no porão... o poder do seu filho Natsu... o poder dele a atraiu... assim como irá atrair muitos outros.
— Kêssa... a deixei no seus cuidados!! Onde estava Gray e Gajeel? – Esbravejou, e por um momento Gildarts se perguntou quem era o mestre ali naquela conversa.
— Por algum motivo Gajeel não sentiu o cheiro dos estranhos... Gray, Erza e Léo fizeram o possível para protegê-la e....
— MAS NÃO A PROTEGERAM... merda!! Gajeel se diz um Dragon Slayer!? E Gray... – Não terminou de falar, se levantou nervoso, caminhando para a direção de uma árvore logo atrás, mas ainda permanecendo no foco de visão do mestre. Então era isso que o estava incomodando, sabia que algo estava errado, era Lucy quase morrendo com seu filho dentro dela.
— Natsu... se controle! – Repreendeu Gildarts, ficando sério.
— Onde estava Happy? – Perguntou, sem se dar ao trabalho de olhar para os mais velhos.
— Ele havia ido em uma missão com Wendy e Charle... chegaram a pouco tempo.
— Comigo ai nada disso teria acontecido... – Murrou a grande árvore, trincando os dentes. – Se eu estivesse ai... Mas... não posso voltar... não posso protege-la. – Olhou para a lácrima que estava sobre a rocha e se aproximou, ainda de pé olhava para baixo, Makarov e Gildarts se surpreenderam pelo olhar de superioridade que ele lançava. – Gray e Erza são bons lutadores em ataques a curta distancia, então não conseguem atacar e defender ao mesmo tempo, coloque Gajeel na defesa, sempre que ela sair da guilda ou do apartamento, escale os três, no apartamento creio que você deve ter deixado Gray e Happy, por enquanto já é o suficiente, qualquer emergência Happy é ágil o suficiente para pedir ajuda e até mesmo para proteger Lucy de algum ataque, não deixe Laxus e Gajeel saírem em missões, os dois com Gray e Erza são invencíveis. E avise Happy para nunca mais sair do lado de Lucy, não o mandei de volta para ficar passeando.
Gildarts e Makarov o fitavam com uma das sobrancelhas arqueadas, nitidamente espantados com a postura de Natsu.
— Não sei o que farei quando voltar, tão pouco o que estaria fazendo agora se estivesse ai, só sei que a protegeria... dê alguma forma, por algum motivo... só sei que a protegeria. Ninguém teria encostado um maldito dedo nela... – Parecia um pouco confuso, mas ao mesmo tempo certo do que falava. – Então façam isso! Protejam Lucy e o bebê... – A voz rouca, o tom autoritário e voraz deixou os dois magos mais velhos atordoados.
— E Léo.. – Soltou em um tom baixo, parecendo um pouco pensativo. – Quanto a magia da Lucy ele e seus companheiros vão dar um jeito... Lucy já me falou algo sobre eles compartilharem uma magia em comum. – Falou, se recordando de umas das tantas conversas que teve com a maga celestial sobre seus fieis companheiros de magia.
Makarov e Gildarts se entreolharam surpresos, inexplicavelmente Natsu tinha razão, e isso lhes trouxeram um certo alívio, principalmente para Makarov que olhou esperançoso para Natsu. Já Gildarts, ficou satisfeito com o comportamento do rosado, claro que se fosse há uns meses atrás ele voltaria correndo para Magnolia, soltando fogo pela boca; literalmente; mas o comportamento de agora não fora tão ruim, o rosado demostrou astucia e autoridade em querer proteger sua mulher e sua cria.
— Ela vai se recuperar. – Falou, mais uma vez chamando a atenção dos mais velhos. – Mas mestre, não permita que isso aconteça de novo... Ou vão ter algo muito pior para enfrentar quando eu pisar ai.. – Soltou sem exitar, olhando de soslaio para a lácrima, dando brevemente para Makarov visualizar um olhar tenebroso cair sobre si.
Natsu não tinha mais nada para falar, saiu de perto dos dois indo em uma direção qualquer, precisava ficar sozinho. Caminhava aflito, uma parte de si clamava para voltar, gritava para pegar suas coisas e regressar, mas uma mais forte o impedia. O medo a angustia estavam pesando, a ponto de sentir suas pernas vacilarem, parou de caminhar e olhou para o céu estrelado, a insegurança e indecisão chocaram-se fortes contra ele naquela noite.
—“Lucy... Filho.” – Duas palavras pequenas, e com grande significado, demasiadamente fortes que lhe fazia fraquejar.
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As horas transcorriam lentamente de forma torturante, todos haviam se acomodado nas poltronas e nas camas vagas, nenhum ali estava disposto a pisar o pé fora daquele ambulatório sem que Lucy se recuperasse, a sensação de mãos atadas era humilhante, e naquele silêncio instaurado no quarto, eles rezavam, clamavam para que Lucy desse a volta por cima. Makarov estava sentado na maca ao lado, fitando Lucy com seu semblante preocupado e pensativo, já fazia algumas horas que havia conversado com Natsu, mas toda a conversa que tivera com o mago do fogo ecoavam em sua cabeça.
Quando o silencio já estava quase que insuportável sentiram uma presença surgindo no quarto e um brilho de luz clareando o ambiente, quando essa se esvaiu viram surgir Léo; não tão reluzente e alegre como costumava ser; estava aparentemente abatido e indisposto, fraco... Assim que surgiu seus olhos caíram sobre Lucy, e como Gray e Erza, ele se sentia desconsoladamente culpado pela situação de sua dona.
— Léo!! – Alguns falaram ao mesmo tempo, surpresos por verem ele ali, já não era mais surpresa para eles os espíritos de Lucy abrirem os portais sozinhos, mas um espírito; que por si já estava totalmente debilitado; permanecer no mundo humano tendo seu contratante tão fraco era incrivelmente impressionante.
Makarov saltou da cama afoito, Natsu estava certo.
Léo olhou para os amigos, sorriu fraco, e então repararam que ele tinha em mãos uma grande banheira de vidro, tão grande que estava apoiada no chão. Ele levou o objeto para bem próximo da cama de Lucy e procurou pelos amigos uma certa pessoa, e a avistando, deu uma sutil piscada e sorriu.
— Juvia-san, poderia encher este recipiente!? – Com voz um pouco falha, não estava muito disposto a dar explicações, e dava graças por ver que ninguém também estava disposto a contestá-lo. Juvia sempre prestativa logo se aproximou e sem qualquer questionamento usou sua magia para encher o grande recipiente de cristal. E assim que feito Léo se concentrou e os outros somente observavam calados, assim como Makarov que observava atento, confiava em Léo.
Então o recipiente cheio d’água serena começou a se agitar, e Aquarius surgiu. A mesma não teve olhos para outros senão para a loira.
— Francamente!! – Sempre tão mal humorada e de carranca formada na bela face ela parecia repreender a loira por se permitir estar naquela situação, o que não sabiam era que seu coração se partiu ao vê-la assim.
Porlyusica olhava para os dois espíritos. – Tem algo que possam fazer? – Perguntou sem acreditar numa resposta positiva.
— Mais é claro. – Respondeu Aquarius tão rabugenta quanto Porlyusica.
Léo, mesmo abatido, mandou um olhar de repreensão para a companheira que pouco se incomodou, e voltou a fitar a todos que esperavam ansiosos por uma explicação.
— Se deixarmos por conta do corpo de Lucy, ela não conseguirá! – Olhou para a maga, e se entristeceu mais. – Jamais permitirei que algo lhe aconteça... sobre hoje... jamais me perdoarei!
Vendo que Léo estava muito abalado para dar explicações Aquarius tomou a frente.
— A magia é a personificação física do espírito, quando o espírito de um organismo físico, no caso o mago, se conecta com o Fluxo Espiritual da Natureza, o espírito forma a magia como um produto de conexão. – Até ali todos pareciam compreender, para muitos isso já era de seu conhecimento, apenas Gajeel que parecia boiar na explicação. – Magia e espiritualidade estão intimamente ligadas, magos celestiais tem uma ligação mais forte ainda, tendo a magia dispersada aqui no mundo humano e no mundo celestial, ou seja, ele se conecta com a espiritualidade da Natureza deste mundo e do mundo espiritual; devido a forte ligação que tem com seus espíritos contratados; quanto mais espíritos e mais fortes o mago celestial tiver, mais magia dele se agrega no mundo espiritual. Por tanto a magia que cada espírito que Lucy tem contrato também de certa forma pertence a ela.
— Então vocês podem transferir um pouco da magia de vocês para Lucy? – A pergunta veio de Levy, que assim como todos deixou brotar um brilho de esperança no olhar.
— Sim, mas não é tão fácil como parece! – Léo respondeu, se aproximando no leito de Lucy – Quando nosso contratante fica fraco e perde poder mágico, nós também sentimos o reflexo, então ironicamente ficamos quase que impossibilitados de realizar a transferência, que também tem que ser de intermédio de um espírito que tenha grande cumplicidade com a dona, no caso seria Aquarius, disse em meio sorriso.
— Aquarius-san, você está em condições de ajudar Lucy? – Perguntou em clamor, Juvia que mantinha as mãos ligadas como que se estivesse suplicando.
— Farei o possível. – Foi sucinta, já buscava concentração para o feito.
Sentou-se na cama da loira, a calda de sereia encharcava o lençol, olhou para Lucy, parecia repreendê-la, demonstrava estar irritada por Lucy colocá-la naquela situação, mas enganava bem, clamava por todas águas de todos os oceanos que conseguisse ajudar sua menina, a transferência exigia muita concentração, mas era rápida. A bela sereia do zodíaco colocou uma das mãos sobre a de Lucy, apertou, se inclinou um pouco e com a outra colocou o polegar na testa da mesma. Respirou fundo, os que ali estavam começaram a sentir gradativamente um poder descomunal fruir pelo ambiente, um brilho surgia do toque de Aquarius em Lucy. O calor abraçou os corpos dos presentes, era bonito, Mira e Levy deixavam lágrimas escaparem, o restante estavam impressionados demais para fazer, falar ou demonstrar qualquer reação, senão apenas admirarem.
— Te devolvo o que sempre foi seu. – Disse em baixo tom, quase inaudível, e em meio a luz que surgia sobre Lucy, Aquarius desapareceu.
Os olhos se arregalaram, todos se perguntaram se deu certo. Léo olhava atento para Lucy que nada parecia ter mudado, mas então ele sorriu.
— Deu certo! Agora ela está simplesmente dormindo, em breve acordará. – O alivio que brotou dentro de si foi tanto que saiu em um sorriso imensamente satisfeito, estreitou os olhos admirando sua dona. – Aquarius fechou rapidamente seu portal, mas ela também irá se recuperar. Cuidem dela! – Disse gentil, vendo nos olhares dos amigos a eterna gratidão. Então assim como Aquarius, Léo desapareceu.
...
No porão, Makarov encarava com desprezo aquelas quatro criaturas, seria ofensa classificá-los como humanos, os três homens estavam quase desfalecendo, haviam levado uma bela surra de Erza e Gray, já a mulher, que se encontrava de joelhos dobrados, sentada sob as pernas e as mãos presas na algema com selos de magia, ela tinha um sorriso fraco nos lábios, olhou para Makarov com os olhos marcados pelo ódio.
— Malditos!! ... quase... quase consegui ter... aquele poder! – Parecia uma viciada com abstinência, quase babava em imaginar o poder que brevemente correu por suas veias, antes dela ser atingida por aquele mago de óculos.
— Achava mesmo que viveria o suficiente para apreciar esse poder? Seu maior erro foi mexer com Lucy... Cada escolha errada que fazemos é uma pequena revolução, não sabia disso? – Falou o sábio mestre.
— Quem é o pai daquela criança? – Tão raro era ela sentir medo, o olhar daquele velho era puro desprezo, e as palavras, breves e curtas lhe causou um desconforto. Conhecia Fairy Tail e sabia que a moça grávida era Lucy, a maga celestial... Mas se descuidou em achar que conhecia o terreno.
— Quer mesmo saber quem é o pai? quer saber com quem se meteu? Com um dos cinco elementos que compõe este mundo, o Dragon Slayer mais forte, O fogo, ele aquece quem precisa e queima quem merece. Profanou nossa cidade por ganancia em um inocente, teve sorte...muita sorte de apenas enfrentar três de meus filhos... e mais sorte ainda por Natsu não estar aqui. – Os olhos lançavam raiva, desprezo e uma fixação poderosa de que ele estava falando sério, de que não estava blefando, queria deixar claro onde ela se meteu para que assim espalhasse aos quatro ventos.
— Natsu? .... Natsu Dragneel? — Sorriu aturdida, sabia que o poder daquela criança era descendência de um Dragon Slayer, mas não imaginou que seria de Natsu.. o famoso Salamander, que sozinho derrotou dois jovens Dragons Slayer no Jogos Mágicos.
Descendo as escadas do porão surgira o Chefe Capitão de Custódia do Conselho Mágico, Lahar e o Chefe de divisão de Cavaleiros Doranbolt, e alguns cavaleiros em sua escolta. Vieram rapidamente a pedido de Makarov para prender os indivíduos que estavam presos um uma sela improvisada. Não havia horários ruim para eles, ainda era madrugada, mas coincidentemente eles estavam por perto.
— Makarov-sama! – Sempre educado Doranbolt cumprimentou o mais velho, que com um olhar retribuiu a simpatia. Já Lahar não tirava os olhos da maga presa.
— Então é ela?! – Lahar olhava para a mulher. – Ela já é conhecida nossa, há algum tempo estávamos a procurando, ela vaga por ai selecionando magos fortes e estúpidos para a seguirem, usa magia proibida para deixá-los mais poderosos e insensíveis a dor, ela vive para caçar magias poderosas de magos e tomar para si. – Mostrou conhecer de cor a ficha criminal da morena.
— Mexeu com a guilda errada Lorenna. – Doranbolt também a reconhecera assim como lembrou-se de seu nome.
— Makarov. – Lahar deixou de fitar os prisioneiros e olhou para o mestre. – Cana-san nos contou tudo. – Se referia a gravidez de Lucy e ao acontecido daquela noite. – Não é obrigação de nenhuma guilda nos contatar cada vez que uma maga engravidar... mas tenho que reconhecer que essa gravidez será de muito interesse do conselho... afinal é um herdeiro em tanto. – Estava preparando Makarov de futuros questionamentos que receberia.
— Sei bem disto... mas não permitirei que o conselho meta o dedo neste assunto Lahar. – Falou displicente.
Lahar assentiu, e Doranbolt com um leve sinal indicou para que seus cavaleiros recolhessem aquelas escorias e os levassem. Makarov agradeceu a eficiência dos rapazes e os seguiu até a saída principal, vendo-os se afastarem. Permaneceu na porta, olhando para o horizonte.
— Noite difícil, né mestre. – A voz gentil e delicada, não precisou olhar para saber quem era.
— Lucy acordou?
— Ainda não, mas parece descansar serenamente, deixamos Erza e Gray com ela.
— Eles devem estar se culpando pelo ocorrido... – Olhava tristemente para o horizonte.
—Todos nós estamos nos culpando mestre... essa sensação de incapacidade, de fracasso... está corroendo a todos! – Olhou serena para o mestre, com um sorriso brotando em seus lábios. – Sempre dizemos que “ficamos mais fortes quando temos algo para proteger” mas esquecemos que isso se torna nossa maior fraqueza.
Mira sorriu para o nada e se afastou, deixando seu mestre sozinho.
***
"A necessidade de proteger aqueles que se ama, é o poder que guia o homem a se tornar mais forte!" Macao-san
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