Fly

2 II - Play With Fire


Notas iniciais
A música-título do capítulo também é da Hilary, do álbum Dignity.

- Sora Uematasu?! — indagou o novato com uma mistura de surpresa e felicidade.

O silêncio predominou entre os dois, enquanto os alunos olhavam de um para o outro. Yamashita pigarreou e ambos pararam de se fitar, enquanto a turma fazia burburinhos.

- Vejo que o senhor Ishiyama não vai ter problemas de adaptação a esta escola. – ela comentou, chamando a atenção de alguns. — Senhor Uematsu, eu espero que o senhor não se importe de levar o seu amigo para conhecer a escola na hora do intervalo.

Não poderia negar o pedido de sua professora favorita. Havia marcado com Kairi de passar o intervalo juntos, para compensar o fato de que não havia saído ontem. Respirou fundo para finalmente responder.

- Certo senhora Yamashita. – assentiu Sora, que via o amigo sentar em uma cadeira no outro canto da sala, junto a um grupo de meninas que não paravam de falar histericamente.

O restante da aula de literatura se seguiu da forma mais normal possível, exceto pelo fato de que Sora, de vez em quando, lançava olhares distraídos para o amigo de infância.

- Você é meu melhor amigo, Riku. Meu melhor amigo para a vida toda.

Aquela frase viera de uma forma arrasadora em sua mente, que parte do rapaz se sentia um pouco com raiva do amigo. Ele não escrevera, não ligara. Nem ao menos se preocupara em avisar que havia voltado.

O sinal anunciando o fim da primeira parte de aulas do dia soara bem no meio de uma explicação de algum diagrama sobre química. Sora nem ao menos se dera ao trabalho de tentar entender o que seria aquilo.

- Kairi, eu sinto muito. – falou o rapaz sem olhar para ela. – Sei que hoje ficaríamos o dia...

- Não ligue para isso. – ela interrompeu com um sorriso. – Afinal, ele é seu amigo, não é? Acho que vocês têm muito que conversar.

Ele retribuíu o sorriso e a acompanhou até fora da sala. Riku estava encostado na parede do corredor, apenas aparentando despreocupação, enquanto batia o pé ritmadamente, como se cantasse mentalmente.

Quando Sora o avistou, ele voltou a olhar Kairi, e a beijou. Ela se despediu do namorado e acenou para o outro, que retribuiu com um aceno sem graça.

- Sua namorada? – perguntou o rapaz, tentando transparecer curiosidade na voz.

- Uhum. Faremos um ano em dois meses.

- Garota de sorte então.

Sora tentava evitar olhar o amigo, enquanto Riku não procurava puxar assunto. E então a dupla andou pela escola. Sora mostrando as coisas do colégio e comentando sobre alguns detalhes da qual o rapaz de cabelos prateados tinha que saber.

Por último, eles estavam em um bloco afastado do prédio principal, separado pela quadra ao ar livre, onde costumavam ter as aulas de educação física.

O prédio não era grande, e era usado para as eletivas na área das artes. Só havia dois andares e um enorme teatro, que era às vezes usado como auditório, para reuniões ou palestras. Numa sala enorme, onde havia vários cavaletes, estantes e armários com tintas das mais variadas cores. Em um canto tinha uma mesa com pincéis e diversos tipos de lápis para desenho.

- E por fim, essa é a sala de desenho artístico. – Sora disse.

Riku olhou em volta. Tudo aquilo para ele era como se uma lembrança fosse despertada em sua mente. Andou calmamente até a janela, que cobria uma parede quase toda, e vislumbrou a vista que tinha do colégio e do campo.

- Se me lembro bem, você amava desenhar. – comentou Riku pensativo. – Ainda desenha?

Sora sentiu a ponta das orelhas ficarem vermelhas, enquanto ele se aproximava da janela. Procurou algo nos bolsos, até achar um molho de chaves e seguir para um armário de madeira, com as portas transparentes pelo vidro.

Ele abriu e vasculhou alguns cadernos e pastas com folhas de ofício, até achar um caderno de capa dura, com o nome “Uematsu” na etiqueta.

- Ainda desenho sim. – e folheou algumas páginas, até parar em uma e entregar para o amigo.

Riku pegou o caderno cuidadosamente. Seu olhar mudou um pouco, e do objeto em suas mãos, ele olhou para o cenário que via. Na folha havia um desenho do que via naquele lugar. Todos os detalhes, os aspectos de brilho e contraste aplicados ao desenho. Pela posição das sombras, a obra deve ter sido feita pela parte da tarde, provavelmente durante o pôr do sol. Mas cada elemento aplicado à arte parecia deixá-lo vivo, como se de fato fosse real, exceto pelo desenho não estar colorido.

- Aperfeiçoei muito. – comentou Sora, parecendo sem jeito. – Principalmente em paisagens. A professora Yamashita, de literatura e de desenho artístico disse que eu posso ir longe como paisagista.

- E ela tem razão. – disse Riku, ainda encantado com o desenho.

Depois de alguns minutos, o rapaz de cabelos prateados entregou o caderno para Sora, que o guardou no armário de antes. Porém, nenhum dos dois saiu do recinto.

O silêncio predominou na sala. Os raios solares ainda entravam pela janela. Riku sentia cada raio em si, como se aquilo fosse trazer algo de volta. Sora estava olhando um dos quadros do outro lado da sala.

- Quantos anos se passaram? – perguntou Riku. – Nove. Estou certo?

Sora apenas concordou, olhando para o rapaz, que o encarava.

- O que aconteceu? – continuou, fazendo Sora arquear a sobrancelha. – Se fôssemos pequenos, nós estaríamos pulando um em cima do outro no quintal da sua casa. E nos dias de chuva...

- Você e eu ficávamos sujos de lama. – comentou o outro, esboçando um sorriso. – Minha mãe nos repreendia, mas nunca perdia o olhar carinhoso de sempre.

E o silêncio voltou a predominar.

- O que aconteceu depois que você partiu? – perguntou Sora após alguns minutos. – Porque não ligou ou escreveu?

- Sora...

- Sabe como eu me senti quando você partiu? – e o rapaz começava a alterar a voz, para uma mistura de tristeza e raiva.

Riku não respondeu. Apenas ficou a fitar o amigo, que olhava para o chão, e tinha um dos punhos cerrados.

- Por favor, Sora, não me peça para falar sobre isso. – falou Riku, desviando o olhar.

- Aposto que você arranjou outro amigo e se esqueceu de mim... – começou Sora, sem prestar atenção no que o outro dissera. – Deve ter até rido ao pensar como eu me senti...

- Sora! – dessa vez Riku alterara a voz e olhava quase que furiosamente para o outro. – Em nove anos, você deve ter ficado mais burro, não é? Eu tentei fazer contato antes, mas não conseguia, até que eu descobri que meu pai estava doente! Você se lembra dele, não lembra? Há uns dois meses – e engoliu o seco antes de continuar, e voltou a olhar pela janela, tentando ficar mais calmo. – ele teve um problema, e sua saúde se agravou. Ele não resistiu. Minha mãe tenta superar, e para isso, procurou se livrar ao máximo de memórias que possam atormentá-la.

Sora ficou calado durante o relato. Relaxou o punho e fitou o amigo. Ele ficara espantado pelo que ouvira. A pessoa que ele considerava como um tio, como parte da família.

- Eu não queria ter que contar isso assim. – continuou.

- Sinto muito Riku. – começou Sora. – Eu não pensei... Eu apenas sinto muito. – e se aproximou, abraçando o amigo para consolá-lo da dor de uma perda.

Quando se afastaram, um passou a fitar o outro. Sora sentiu algo queimar dentro de si. Sentiu a ponta de suas orelhas corarem novamente, e o rapaz desviou o olhar, passando a encarar o chão.

Respirou fundo, e voltou a fitar o amigo. Ele olhava a paisagem de novo, mais uma vez perdido em devaneios, na maioria tristes pensamentos.

- Riku, – e o rapaz de cabelos prateados voltou a olhar Sora mais uma vez. – você gostaria de jantar lá em casa hoje?

Riku o olhou espantado. Aquilo fora totalmente repentino. Suspirou e pensou por alguns minutos na proposta.

- Tem certeza que posso? A tia Nadeshiko pode ficar...

- Não se preocupe. – interrompeu Sora balançando as mãos. – Minha mãe ficará feliz em vê-lo. Principalmente quando ela souber que você ainda a chama de ‘tia’ Nadeshiko.

E a dupla riu por um tempo. Quando finalmente voltaram ao normal, Sora olhou para o relógio, no canto de uma parede e se assustou. Faltava menos do que cinco minutos para o final do intervalo.

- Vamos ter que correr. – começou Sora. – A aula já vai começar.

E a dupla saiu em disparada pelo corredor, em direção à saída do pequeno prédio, rumo ao bloco principal da escola.

Quando alcançaram a sala de aula, o professor de português havia acabado de entrar no recinto. Sora arfava, enquanto Riku enxugava o suor da testa. Cada um se sentou em seu lugar.

- Onde esteve? – perguntou Kairi calmamente, tentando não rir da situação do namorado. – E foi por pouco.

Sora riu levemente, e depois de alguns minutos de aula, ele passou um bilhete para ela, explicando toda a situação, inclusive o convite que fizera de última hora.

E mais uma vez, ela não parecia chateada. A garota respondeu o bilhete, e Sora sorriu ao ver que ela mandara aproveitar o dia com o amigo que não via há anos. Olhou para trás discretamente, e ela apenas sorriu largamente para ele.

Quando o sinal finalmente soara anunciando o final das aulas, Sora se espreguiçou na cadeira e jogou as coisas na bolsa, segurando-a em um dos ombros. Esperou Kairi fazer as últimas anotações de matemática. Quando esta terminou, ela arrumou rapidamente as coisas e saiu com o rapaz.

Riku o esperava do lado de fora, e algumas garotas o rodeavam. Ele parecia ficar um pouco sem graça, mas quando vira o amigo, o rapaz de cabelos prateados se despediu das moças e correu para Sora.

- Novato e já está fazendo sucesso. – comentou Kairi rindo, assim como Sora. – Bem diferente de quando cheguei aqui.

Riku bufou antes de rir junto com eles.

E no caminho de volta, até a casa de Kairi, ela e Riku foram conversando alegremente sobre a escola e sobre Sora, que deixou o rapaz com a cara emburrada.

- E aqui é a minha casa. – falou a ruiva ao chegar à frente da casa. – Até amanhã garotos. – e acenou antes de sumir pela porta.

- E a sua casa Sora?

- Ainda é a mesma de nove anos atrás. – comentou Sora. – Exceto o meu quarto.

E Riku não pôde deixar de rir.

- Que tal uma corrida? – perguntou ele com um sorriso malicioso. – Aposto que não melhorou em nada durante nove anos.

- Ei! Vamos ver quem realmente não melhorou nada em nove anos! – disse Sora sarcástico. – E já! – e começaram a correr.

Nove anos se passaram, mas Riku ainda era mais rápido. Entretanto, Sora havia melhorado em sua resistência para correr, e o rapaz de cabelos prateados não negara.

Quando finalmente alcançaram a porta da casa de Sora, Riku parou para recuperar o fôlego, enquanto Sora arfava e procurava as chaves na bolsa.

- Não mudou nada. Eu ainda venço de você.

- Mas tem que admitir: eu melhorei. – e Sora abria a porta de casa.

A dupla tirou os sapatos e os deixou encostados a um canto.

- Filho? – uma voz feminina vinha da cozinha. – Chegou cedo hoje. – e a mãe do rapaz entrara na sala usando um avental sujo enquanto batia uma massa numa tigela.

- Mãe, eu espero que não se importe, mas temos visitas.

Notas finais
Bem, o capítulo 3 sairá assim que eu terminar de escrever ou quando eu lembrar de postar aqui. Deixem reviews =DD