Notas iniciais
Espero que gostem ( se é que alguém vai ler isso...)

Mel olhou mais uma vez pela janela. Claro que desistiu da ideia de se distrair ao olhar lá fora. Afinal, o que esperar de uma paisagem homogênea? Todas as árvores eram terrivelmente simétricas. Ela sorriu ao lembrar de como era bom ser criança e achar que a lua se mexia ao movimento do carro. Pelo menos era assim que ela se distraia quando era pequena. Ou então, quando era dia, ela tentava adivinhar qual seria a cor do próximo carro que apareceria. Também adorava assoprar o vidro e desenhar uma carinha feliz.

Porém, agora ela era uma mulher. Não podia mais fazer isso. Na verdade, ela achava que era uma mulher. Afinal, morava sozinha e já tinha certa independência. Mas as vezes, ela se arrependia amargamente disso e gostaria simplesmente de pedir desculpas e voltar pra casa de sua mãe. Essa hipótese, porém, estava descartada. Não iria mais se submeter, não mais. Não depois de conhecer os "prazeres carnais" como diria sua mãe religiosa. Afinal, pecar era bom e os demônios ainda não vieram cobrar sua dívida.

Ao lembrar de infância, ela quis fugir dessas lembranças. As recordações de sua mãe não lhe faziam bem. Então, ela desviou o pensamento para o seu último amante. Ele era perfeito. Um perfeito idiota. Mas pra ela isso não importava. Ela nunca mais iria ver ele na vida e também, o sexo foi bom, o que fez a babaquice ser minimizada e até mesmo esquecida durante o orgasmo.

Suspirou. Tentou reconectar a internet. Mas não estava funcionando. Quis xingar o bendito que fez a propaganda enganosa de que naquele ônibus tinha Wi- fi. Ela então, olhou para o lado. E se surpreendeu com o que viu. Sem dúvida, aquele homem teria idade para ser o seu pai. Mas ele era lindo. Cabelos grisalhos, barba por fazer. Mel reparou em seus trajes largados. Definitivamente, ele já teve tempos melhores. Mas o contraste entre o seu descuido e sua beleza gerou uma curiosidade nela. Ela queria ele. Mel finalmente encontrou algo de interessante naquele ônibus.

A sua fonte de interesse se mexeu e abriu os olhos. Desde o começo da viagem ele adormecera. Bocejou e foi buscar água que estava no final do veículo. Nesse meio tempo, ela decidiu que iria conversar com ele. Não iria perder nada com aquilo, era apenas um jogo a mais, uma distração.

— Oi — ela começou.

— Oi.

— Para onde você está indo?

— Interior de São Paulo. E você?

— Pra capital.

— Hmm.

"Merda. Ele não quer papo". Claro, por que ele iria querer? Ela era uma pirralha, só tinha 18 anos. Além disso, ele não tinha a obrigação de ser legal com ela. Agora ela se sentia idiota. Muito idiota. Mas ela sentia tesão por aquele cara e não ia desistir. Queria algo novo, diferente. Sentia que na voz dele tinha sofrimento. " Esse cara deve ter se fudido muito na vida", ela refletiu.

— Só resta dormir- ela suspirou, falando para si mesma.

— O que você disse? — ele perguntou.

— Ah, nada. — ela forçou um sorriso.

— Nada? Tudo bem então — disse ele, virando-se no banco para voltar a dormir.

— Não sei como você consegue dormir, é tão desconfortável dormir no ônibus, esse banco é tão duro.

— Quando eu durmo não penso besteira.

— Besteira?- ela percebeu que conseguiu a atenção dele. Pelo menos, por alguns segundos.

— Sim, as besteiras que eu fiz.

— Eu não me arrependo das coisas que fiz.

— Isso é muito bom — ele disse com uma sinceridade que fragilizou Mel. A conversa estava indo para um rumo estranho. Era melhor ir para um caminho mais seguro. Ela não era a terapeuta dele.

— Qual é o seu nome?

— Tales. O seu?

— Mel.

— O doce de passar no pão? — ele sorriu.

Surpreendida pela aleatoriedade da fala dele, ela tentou explicar:

— Na verdade meu nome é Melissa, mas não curto muito...

— Só porque é nome de sandália? Tem uns modelos tão bonitinhos...

— Bonitinho pra quem tem 8 anos...

— Verdade. Quantos anos você tem menina?

— 18.

— Parece papo de tiozão mas aproveita porque o tempo passa rápido.

— Eu sei, ás vezes parece que alguém suga meu tempo.

— É Deus.

— Não acredito Nele.

— Como não? — ele olhou para ela, realmente espantado.

— Sei lá, acho que criei aversão a religião, minha mãe é extremamente religiosa e eu tenho alguns problemas com ela.

Ele engoliu em seco. Tentou desviar do assunto:

— O que você vai fazer em São Paulo?

— Não sei.

— Como assim?

— Eu quis viajar, ir embora. Minha casa tava me sufocando... Tava me sentindo presa... Precisava respirar, ver coisas diferentes sabe?

— Te entendo, também preciso disso. Vai voltar quando pra casa?

— Eu não vou voltar.

Ele a olhou tentando compreender o que dizia. Entender aquela insanidade jovial.

— Tô te assustando? Desculpe, estou falando demais... é que dificilmente alguém me ouve...

— Tudo bem, pode falar. Do que você está fugindo?

— Não estou fugindo, só quero mudar. Eu me enjoo muito rápido das coisas, sabe?

— Nada te prende?

— Nada. Isso me incomoda ás vezes...

— Por quê?

— Porque tenho medo de daqui a alguns anos, olhar pra trás e ver que não construí nada... — ela se surpreendeu por estar falando essas coisas para um estranho. Dificilmente ela faria isso. Mas ele era diferente. Quanto mais ele perguntava mais ela queria falar. As palavras dele atraíam-na de uma forma que ela não conseguia se conter... Precisava falar, chamar a atenção dele. E ele, aparentemente, gostava de a escutar.

— Eu tinha esse medo também... Mas aí penso que não vou levar nada disso pro caixão...

— Você aproveitou sua vida?

— Ás vezes penso que sim... Mas sempre bate um arrependimento.

— Em mim também. O meu de ontem se chamava Bernardo.

Ele riu. Tinha saudades do tempo que era jovem e podia escolher a garota que quisesse. Mas agora era apenas um quarentão ridículo que não sabia que merda estava fazendo da vida. A garota do lado dele também não. Mas ela tinha alguma desculpa para estar perdida na vida. Quem realmente sabe o que quer aos 20 anos? Quando ele tinha essa idade achava que sabia. Pena que ele estava terrivelmente enganado. Ele se sentia confiante, forte. O jovem Tales também tinha o brilho dos olhos de Mel. Mas o brilho dela era diferente. Seu olhar era selvagem. Ele reparou que a jovem olhava para ele de um modo levemente sedutor. Ele estremeceu. Será que estava imaginando coisas? Agora, ele realmente estava curioso sobre ela. E estava determinado a descobrir. Assim, iria esquecer o que fez, o que lhe incomodava.

Notas finais
Gostaram? Saudades de escrever