Notas iniciais
Boa leitura.

Minha visão era turva, e escura. Só me lembro de haver água, muita água. Esse é o único pensamento que me veem a mente. Aquele pensamento de estar cercado de água. Depois disso, não lembro de muita coisa. Lembro-me de ver luzes brancas, e pessoas com máscaras, só isso.

Depois disso, minha memória vai longe. Lembro-me de chorar em um canto, sentado como sempre. Lembro-me de outros garotinhos, dizendo que isso era normal onde estava, e que eu era idiota, pois ali, tudo era ruim. Não dava muita atenção a quem me dava comida, ou como as coisas funcionavam.

A medida que o tempo passava, comecei a entender algumas coisas. A principal delas é que eu não tinha mamãe ou papai, e o motivo deu chorar tanto era por causa disso. Os outros garotinhos também são assim, mas eles aquentavam bem isso, eu não.

Eu também entendi porque estou sempre sentado, como se eu não tivesse pernas. Eu não tenho mesmo. Digo, eu tenho, elas estão na minha frente, porém, não importa o quanto eu faça força, elas não fazem nada. Não importa o quanto eu as aperte, ou apalpe, eu sinto muito pouco delas, diferente dos meus braços, onde eu sinto tudo da forma certa. Nunca pensei direito quando me falavam, mais parece que isso têm a ver com minha primeira lembrança, água.

Também notei que todos os outros garotos aqui são diferentes de mim. Eles lembram animais. Têm que parece uma mistura de gato, outro de cachorro, outro parece um lagarto. Todos eles são assim, peludos e diferentes. Eu não. Só tenho cabelo, e essa pele lisa e clara. As vezes acho que eles não gostam de mim por causa disso.

Depois de mais uns anos… acho que eu tenho seis, afinal eles fazem alguma coisa no nosso aniversário, foi que uma coisa aconteceu. Um dia alguém apareceu. Ele era um homem bem, magro. Acho que parecia uma raposa, com cabelos prateados. Eu me lembro disso mesmo, prata. Ele usava uma anel prateado. Ele parecia ter, não sei. Eu sabia o que estava acontecendo. Nessa altura, já entendia que eu estava em um orfanato. Bem, tudo bem. Isso vivia acontecendo.

Foi ai que as coisas ficaram estranhas.

Esse homem chegou até mim, e quis falar comigo. Ninguém nunca quis isso.

“Oi.”

Fiquei assutado, pois eu não achava que alguém ia mostrar interesse por mim tão cedo. Os outros garotos dizem que ninguém quer um humano, ainda mais cadeirante. Porém as freiras, esse lugar é mantido por freiras, Sempre disseram pra eu ser educado.

“Oi.”

“Qual seu nome?”

“Nome… é Adão.”

“Adão? Nome bonito. Então Adão, o que você acha dos seus amigos?”

“Não tenho amigos.”

“Não? Por quê?”

“Eles não gostam de mim. Eles dizem que eu sou inútil.”

“Por quê?”

“Porque eu sou, como dizem… humano. Sim isso, humano. Além disso, eu tenho que pedir pros outros tudo.”

“Por quê?”

“Porque eu não sei andar. Minhas pernas, elas não são fortes.”

“Você não têm cadeira de rodas?”

“Tenho, mais quase não uso. Tirando as freiras, ninguém carrega a cadeira.”

Ele foi fazendo perguntas, e eu fui respondendo. Depois a gente conversou. Ele era uma cara muito legal. No meio dessa conversa, ele perguntou:

“O que aconteceu com você, com seus pais?”

“Nunca soube, mas acho que morreram. Só me lembro de água, muita água.”

Depois disso, ele ficou com um rosto sério. Falamos mais um pouco e ele foi embora. No fim, não sair daqui. Ele deve ter me achado pouco interessante.

No dia seguinte. Foi outra pessoa que apareceu. Ele era um rapaz velho também, porém, gordo, bem bolinho(Como eu gosto de chamar ele, por ser fofo e doce.). ele usava anel também, um anel dourado. Não sei dizer…ele era um urso talvez.

Ele veio falar comigo também. Não sei porque mais o cheiro dele não me era estranho.

“Oi. Seu nome é Adão?”

“Sim. O seu é?”

“Dam.” Se sentou no chão, para poder falar melhor comigo. “Como vai?”

“Bem. Eu conheço você, digo, seu cheiro?”

“Não, você nunca me viu. Você viu uma pessoa que mora comigo.”

“O homem de ontem? A raposa magrinha? Com anel prateado?”

“De ouro branco. Sim, ele mesmo. Gostou dele?”

“Sim. Ele é legal. Ele apareceu querendo me adotar, porém não gostou de mim tanto assim.”

“Ele falou isso?”

“Não, mas ele pareceu ficar deprimido por causa do que falei sobre minha memória com água.”

“Sei… então, você não é bem tratado? Sabe, eu sei como é isso. Também não era um cara popular.”

Continuamos conversando. Ele era um cara legal. Como ele apareceu mais tarde, estava um pouco cansado. Ele até deixou me deitar na barriga dele. Depois de um tempo, ele teve que ir embora.

Já é a segunda pessoa que parece ter interesse em mim, mas não me leva. Bom, significa que no fim, têm sim pessoas interessadas em me adotar. Eu dormir feliz com isso.

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Uma semana depois, eu tive uma notícia muito boa. Alguém se interessou em mim e quis me adotar. Eu devia ter ficado feliz, porém fiquei assutado. Digo, sair daqui, sem ter pra onde correr caso algo acontecesse, afinal minhas pernas não funcionam direito.

Depois que algumas freiras me arrumaram, e me levaram, fiquei supresso quando vir o bolinho de novo. Ele tinha me adotado. Fiquei feliz, claro, porém isso não mudava meu ressentimento.

Não entendia o porque dele me levar. Como eu disse, eu sou humano e preciso usar cadeira de rodas, inclusive, eles não poderiam usar a que eu sempre usei, pois era do orfanato. Bolinho teve que me levar nos ombros até o carro.

Dentro do mesmo, já preso na cadeirinha, descobrir mais alguém no carro. O rapaz magro da outra vez. Eu não pude resistir.

“O que você tá fazendo aqui?”

“Te levando pra casa.”

“Como assim? O Bolinho é quem me adotou. Pensava que você não tinha gostado de mim.”

“Por que achou isso?”

“Bom, você pareceu chateado quando eu falei da minha primeira memória.”

“Bom, verdade, mas n]ão foi com você. No futuro, você vai entender o que a própria memória significa.”

Depois de um tempo de viagem, eu fiquei curioso e tive que perguntar.

“Cadê a mamãe?”

“Mamãe?” Falou o Bolinho, digo Dam.

“Sim. Pra adotar precisa de um casal, certo? Um papai e uma mamãe.”

Os dois se olharam de forma descuidada. Como se eu tivesse causando vergonha.

“Olha Adão… sobre isso… bom meio que não vai ter mamãe.”

“O que? Por quê?”

“Nós… bem… meio que estamos te adotando juntos.”

“Como assim?”

“Bem, precisa de um casal. Nós dois somos um casal. Somos casados.”

“Homens não podem se casar.”

“Eles podem sim.”

“Mas, isso vai contra o que eu ouvir a freiras falando. Elas dizem que um homem só pode se casar com uma mulher.”

“Bom, elas não estão erradas, porém… dois homens podem se casar sim, mas… eles têm que se amar muito, muito mesmo, igualzinho com um homem e mulher.”

“Isso é verdade?'

“Claro.”

“E vocês se amam muito, muito?”

“Muito.” Falaram ou mesmo tempo.

Fiquei muito desconfiado, porém os dois pareciam ser caras tão legais… eu não acho que estou com problemas… apesar de não me sentir desconfortável.

Quando chegamos em casa, uma casa grande até. O bolinho me levou para um quarto. No caminho eu espirrei muito, pois tinha muita poeira. Quando cheguei no quarto, tive uma supressa.

Ele era azul, quase todo azul. Eu fiquei feliz. Ele tinha vários brinquedos, ainda embrulhados. Ele também me mostrou uma nova cadeira de rodas. Ele me sentou nela, e me levou pelo resto da casa.

O motivo de ter poeira, era porque eles tinham feito uma reforma na casa, reforma que não tinha acabado. Eles tinham colocado e mudado algumas coisas na casa, para eu poder usar. Foi o que eles falaram.

“Gostou?” O magrinho perguntou.

“Sim. Mais, por que tudo isso? Digo, os presentes, a casa.”

“Bem, você vai morar aqui agora. Precisa que a casa tenha adaptações. Sobre os presentes… bem sabe que dia é hoje.”

“Dia das crianças, mais é muita coisa.”

“Não é não. Estar sobre nossa responsabilidade agora.”

“Sério? Bom, eu agradeço, mas.”

“Sem mais.” O magrinho se ajoelhou para poder me abraçar, abraço esse que gostei muito. “Tá tudo bem agora, certo? Certo Dam?”

“Sim. Adão, agora você é nosso filho. Todos os presentes são para recepcioná-lo.”

“Filho…”

Passei o dia pensando nisso. Por algum motivo, não conseguia ficar feliz com aquilo. Digo, eu devia ter ficado feliz em ser adotado, porém… não importa.

Na mesma noite, como não estava acostumado a dormir sozinho, pedir pra dormir com eles. Eles aceitaram. Sentir algo estranho nisso. Eu estava feliz. Só agora sentir felicidade. Eu só estava nervoso mesmo.

Goste muito deles, eles são muito legais. Fiquei feliz por eles se dizerem meu país. Na mesma noite. Eu chamei os dois de papai, só que nos meus sonhos.

Sou a criança mais feliz do mundo. Esse foi o meu sonho.

Notas finais
Comentários.....
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!