Flores por você ainda pinto
1 Único.
Notas iniciais
Novamente, parabéns a minha baleia Kérol ♥
Flores por você ainda pinto
Capítulo Único
Com um lápis na mão esquerda e um pequeno monte de folhas de papel já usadas sobre a mesa bamba, Luís desenhava. Primeiro formavam-se os traços delicados de um rosto feminino, depois o sorriso de um garoto e, por fim, os corpos de ambos sobre um balanço. Na sala mal-iluminada e de paredes sem reboco, o desenhista fez ressurgir os rostos de seus melhores amigos. Rosa e Carlos.
Apoiou o lápis na mesa e, enquanto abria e fechava a mão para fazer os músculos trabalharem, olhou para o desenho; faltava algo. Sorrindo levemente, acrescentou flores sob os pés do garoto e um pequeno grilo de chapéu e gravata sobre o ombro da menina; uma imitação perfeita do Grilo Falante de Walt Disney.
Ao terminar, suspirou tristemente. Não via os dois irmãos há anos. Sabia-se lá que os acontecera; poderiam inclusive estar a sete palmos do chão naquele momento, ou mesmo desaparecidos e torturados pelo governo brasileiro. É, aquele que prometera acabar com a possível ameaça comunista no país e agora tinha militares acabando com os prazeres da vida.
Checou o relógio, percebendo que estava quase atrasado para o pedágio que seus colegas organizaram. Bufou, tirando os óculos de armação redonda (iguais aos de certo cantor britânico) para pô-los sobre a mesa, e saiu da sala pouco mobiliada com pressa. Ao se encontrar no corredor do segundo andar do prédio ‘caixão’ em que morava, trancou a porta do apartamento e desceu as escadas, pulando os degraus de dois em dois para poupar tempo. Cumprimentou o porteiro com um aceno de cabeça e saiu para a rua deserta, olhando de um lado para o outro antes de atravessar a rua.
Estudava Filosofia na Universidade de São Paulo, e realmente precisava chegar até lá para manter a ordem. Dobrou a esquina, correndo até a altura da Rua Maria Antônia em que ficava a universidade. Passou voando pelos letreiros e anúncios já comuns em seu dia-a-dia e quase esbarrou em uma senhora para encontrar-se do lado oposto ao da multidão de rostos estudantis, em sua maioria conhecidos por ele. A barricada já estava feita, e Luís quase seria cobrado para passar quando um de seus amigos bateu amigavelmente no ombro do estudante secundarista que o impedia, dizendo:
“Esse aí é dos nossos, Fernando.”
O rapaz então passou para o lado dos alunos da USP, que se reuniam à sua volta com cartazes e bandeiras. Perdido em pensamentos, não ouvia o que seus amigos falavam ou gritavam, o olhar fixo no letreiro de propaganda da Coca-Cola que se encontrava alguns metros sobre o chão. Não se incomodou com a pouca quantidade de mulheres ao redor de si ou com os pedaços de madeira avulsos que alguns alunos carregavam; somente quando tudo começou é que Luís foi tirado de seu torpor.
Era quase certo que os alunos do Mackenzie, a outra universidade que ficava na Maria Antônia, não iriam gostar nada da ideia de ter que pagar pedágio para ir até suas próprias instalações, mas ele não esperava o desenrolar de acontecimentos que ficariam marcados na História e em seu coração para sempre.
Primeiro foi o tumulto criado, depois o ovo podre, e então tudo se dissolveu em caos. Tiros, coquetéis molotov, tijolos... Luís até mesmo sentira cheiro de enxofre no ar, a sensação de que garras de gato rasgavam seus pulmões por dentro sem querer deixá-lo. Ácido sulfúrico.
Fora atingido por tijolos vindos de um lugar qualquer antes de conseguir se abrigar, sob um pedaço partido do telhado da USP. Nunca foi alguém de briga, só queria sair dali com vida e voltar para os seus desenhos; o que mais tarde provou-se possível, mas o buraco em sua alma que aquele evento causou nunca pôde ser consertado.
Sentiu o telhado vibrar sobre si, certamente mais um tijolo arremessado. Ele teria ficado lá até os militares chegarem, não fosse o puxão que recebera. Alguém encontrara seu esconderijo.
Tentou desvencilhar-se da mão que prendia seu braço esquerdo e o tirava da segurança de seu abrigo precário, sem sucesso. Foi erguido pelo braço e logo depois arremessado para trás com o soco que recebeu na face alva; teve um breve vislumbre do letreiro que encarara antes: estava inclinado para o lado, caído e quebrado.
Tocou a própria bochecha, retirando a mão depressa por causa da dor, e olhou para sua frente. Ali, encarando-o com olhos arregalados, estava seu agressor. José Carlos Guimarães, seu melhor amigo de infância. Mais alto, forte e quase sete anos mais velho, mas ainda era ele. O ar infantil, o lábio levemente torcido pela cicatriz de uma antiga queda, os cabelos cacheados cortados quase rentes ao couro cabeludo, os olhos de um tom escuro de azul.
Luís imediatamente pôs-se de pé, um sorriso se formando em seus lábios até observar o logotipo vermelho estampado na camisa de algodão. M de Mackenzie.
O sorriso logo se tornou um franzir de cenho e um olhar zangado. Tudo foi novamente ignorado por ele, que fixava o olhar na arma que o antigo amigo carregava. As conclusões tiradas com aquele breve momento de contemplação fizeram o rosto de Luís estampar a decepção e a tristeza que sentia.
“Engenharia, não é?” o desenhista perguntou, fazendo o mackenzista assentir. “CCC?” Apontou para a arma, e foi com grande hesitação que ele assentiu novamente.
“Luís, eu...” Carlos começou. Luís interrompeu, o pedido desesperado saindo de seus lábios como uma flecha atirada na direção do outro:
“Só... Me mate logo.”
“O-o quê?”
“Me mate. Sou comunista, assumo isso. Estou sozinho” ele deu de ombros, se surpreendendo em como sua voz estava firme naquele momento “e não quero viver em um mundo onde devemos ser inimigos.”
Carlos não respondeu; suas mãos tremiam com o esforço de não derrubar lágrima alguma. A arma em sua posse e a responsabilidade pela tristeza do garotinho que povoara sua infância eram pesos grandes demais para carregar.
“Anda logo, me mata!” Luís gritou, esbofeteando o rosto moreno do amigo com o punho esquerdo. “É isso o que você veio fazer aqui, não é? Matar comunistas?”
“Quando me alistei para o Comando de Caça, e-eu não me comprometi com matar meu melhor amigo,” foi a trêmula resposta. O estudante de filosofia olhou de canto de olho para a área em volta dos dois; alguns homens com cadernos de anotação e microfones se escondiam em barricadas improvisadas: jornalistas.
“Você não tem escolha. Vê os jornalistas ali? Eles podem fazer de você um herói, matando uma das ‘ameaças ao nosso Brasil’, ou um fraco covarde e traidor da pátria. Me mate, ou eles matarão a Rosa.”
A sinceridade e a realidade do argumento do rapaz de cabelos negros doeu em Carlos mais do que a queimadura de terceiro grau que sofrera na infância, quando sua casa pegou fogo. Na ocasião, tinha sido Luís a salvá-lo e a sua irmãzinha.
“Rosinha,” ele murmurou, encarando os repórteres com olhar perdido. Apontou a arma, já tendo adquirido certa firmeza em seus membros superiores, diretamente para a testa de Luís. Este sorriu tristemente, assentindo e aproximando-se com as mãos calejadas erguidas em sinal de rendição. Oh, o que a mídia e a alienação não tinham feito.
Carlos voltou a cruzar o olhar com o do amigo, seus olhos azuis em um tom de tempestade e afogados em lágrimas que se recusavam a escorrer.
“Flores,” Luís de repente disse “Flores por você ainda pinto.” Aquelas, ele decidiu, seriam suas últimas palavras. Não que fizessem algum sentido para todos os expectadores daquela cena ou dos futuros leitores deste relato, mas Carlos entendeu. E, por causa daquela simples frase, o desejo que em seu coração ardia naquele momento foi justificado.
É, um som de tiro daquele confronto foi ouvido. Mas não houve a queda do corpo, que havia sido amparado por um estudante de Filosofia cujo primeiro e único amor havia acabado de matar-se.
“Na manhã do dia 2 deste mês, ocorreu a agora chamada Batalha da Maria Antônia. Entre universitários da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o conflito deu-se por causa do pedágio que alunos da USP cobravam no referido dia afim de custear o congresso da União Nacional dos Estudantes deste ano. Diversos feridos foram encaminhados para hospitais da localidade, três deles em estado grave. Foi contabilizado um único morto, o estudante José Carlos Guimarães, de 20 anos. Segundo testemunhas, ele foi atingido por uma bala perdida na cabeça. O enterro será realizado em...”
Notas finais
Bom, é só isso. Espero que tenham gostado, especialmente Kérol, a aniversariante do dia ♥
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