Flores Secas

7 Capítulo 7 - Memórias II -


Notas iniciais
Continuação dos devaneios de Elizabeth, desculpe a demora. Boa leitura.

Aos quatro anos e meio ainda convivendo naquele inferno sem nenhum casal para adota-la, Liz pode ver uma criança de cachos louros que desciam parafusando até o meio de suas costas num simples vestido branco bufante. Ela desceu timidamente do carro Rolls-Royce preto do ano de 1934 segurando uma boneca da antiga era aristocrata de vestido vermelho royal vivo, a boneca assim como a dona era loura e de olhos azuis. Parecia que alguém usou a garotinha como molde para a boneca. Um homem de bata preta e colarinho branco a acompanhava, ele era tão esgalgado que lembrava a Liz uma múmia andante que esqueceram de enterrar no sarcófago. O rosto era como uma bolacha velha repleta de rachaduras, os lábios finos estavam cobertos por um bigode farto preto, haviam tufos de cabelos espalhados pela cabeça. Eles entraram e sentaram-se na sala de estar, Liz acompanhou aquelas pessoas os observando da escadaria.

– Senhora Baltimore o Estado sabe de quantas crianças a sua casa está abrigando nos últimos anos. Mas como aqui é a maior casa que abriga os órfãos a juíza Nathalie sugeriu a guarda provisório a sua casa. Ficará responsável por Michelle Jones até encontrarmos novos pais adotivos. — o senhor que parecia um padre falava roucamente.

– Qual o motivo que ela ficou órfã? — Antonieta inquiriu. O senhor olhou para a poltrona marrom onde Michelle estava sentada observando aquele local enorme.

– Michelle, porque não vai brincar com os outros? — ela assentiu e saiu daquele local deparando-se com uma garota de cabelos longos castanhos que ondulavam nas pontas. A garota era bem pálida e usava roupas cinzas de lã puídas. Os adultos na outra sala começaram a sussurrar e tudo que Liz conseguiu ouvir foi que os pais da garota haviam sido mortos em um incêndio, a menina não possuía tios ou quaisquer outros parentes vivos.

– Oi... Qual seu nome? — a loira inquiriu para a garota que estava sentada encolhida nas barras de madeira da escada.

– Elizabeth. — disse num sussurro.

– Eu sou Michelle, mas você pode me chamar de Chelle. — a morena não conseguia entender, durante três anos e meio suas únicas companhias foram a velha finada Josephine e sua sobrinha Nancy. Agora um ano e meio depois os seus únicos amigos eram a velha caixa de música a corda e os inúmeros livros que lia trancada no sótão. Nunca conversou com ninguém, não sabia como iniciar um dialogo e continuar nele. — Você tem algum apelido? — a menor aproximou-se e sentou ao seu lado.

– Não.

– Então vamos pensar em um... Posso te chamar de Liz? — um misto de espanto e euforia se formaram no rosto da morena, beliscou furtivamente seu antebraço para que a loura não percebesse o que fizera.

"Ela me deu um apelido?" pensou.

– P-pode. — falou entre balbucios.

A partir daí a vida de Liz melhorou, não havia maus tratos, não limpava mais os soalhos puídos e nem as tapeçarias gastas. Eram só alegrias e risadas com sua nova amiga. Na verdade era isso que ela queria que ocorresse. Sua vida não mudou nada, continuava dormindo naquele velho sótão com teias de aranha, fazia as mesmas tarefas e apanhava toda vez que fazia algo que era errado aos olhos da senhora Baltimore. A única coisa boa era a companhia de Michelle, elas ficaram melhores amigas desde aquele dia. Porém um ano e meio depois sua amiga foi adotada por uma casal de enfermeiros.

– Liz... Eu vou sentir muito a sua falta. — dizia a garotinha ao abraçar sua melhor amiga naquele orfanato.

– Eu também vou sentir sua falta Chelle.

– Eu queria muito que eles pudessem te adotar também, assim poderíamos ser irmãs. Mas eles já possuem outro filho e três crianças seriam demais para a renda deles. — a loira articulava entristecida, falava como uma adulta mirim.

– Ei, não transforme esse momento em algo triste por minha causa. Eu vou ficar bem. Uma hora alguém vai me adotar e poderemos nos encontrar.

– Quando eu chegar lá escreverei para você! — ela chorava até suas bochechas ficarem coradas. — Toma, eu quero que fique com a Shinseseki.

– Eu não posso aceitar, é sua boneca preferida. Você adora ela.

– Mas eu quero que fique com ela, assim terá algo meu com você.

– Eu não tenho nada para retrib... — Liz pensou e lembrou da sua velha caixa de música do tamanho de uma bola de bilhar. Correu as pressas para seu quarto que era um pequeno entorno velho com uma janela, paredes e chão de madeira cinza desgastados, uma velha estante com teias de aranhas e livros empoeirados, no canto estava uma mesinha redonda com um pequeno jarro de tulipas, e ao lado, uma caixa de madeira retangular. Era vermelha e talhada com flores e os cantos arredondados, uma chave dourada era a alavanca para dar a corda. Ela regressou com aquele pequeno objeto dando para a menina loira a sua frente.

– Liz... Eu não posso ficar com ela... — dizia a loira.

– Você pode e vai. Eu terei uma parte sua e você irá com uma parte minha. — sorriu de forma tênue para a garota e fizeram as devidas trocas. Michelle fora adotada e tudo que Liz pode ver foi o carro preto partir com a garota que olhava para trás dando com a mão para ela. Os dias retornaram a serem hipocondríacos e martirizantes, Liz estava disposta a se vingar de todas as maldades que a velha Baltimore fizera por todos aqueles anos. Ela sabia que a velha amava muito aquele gato horroroso. Um dia que ela resolveu ir ao mercado fazer compras dos mantimentos, a morena pegou aquele gato e um martelo na caixa de ferramentas vermelha escondida em baixo da pia. Amarrou o gato numa estaca de madeira.

– Senhor Argos gostaria de uma massagem? — o gato apenas miou arisco, querendo arranhar ainda mais a jovem. — Vou entender isso como um sim. — martelou incessante vezes aquele animal e respingos de sangue melecavam sua roupa cinza. O animal se debatia debaixo das marteladas depositadas até não mover nenhum músculo. A senhora Baltimore deixou Elizabeth encarregada do jantar naquele dia, além das tarefas domésticas ela possuía uma nova responsabilidade, cozinhar o jantar nas sextas-feiras. Tirou o animal morto e levou para cozinha, agradeceu por não ter o trabalho de tirar os pelos do mesmo. Partiu em fatias pequenas todo o animal e deixou a cabeça intacta. Ela preparou um risoto com a carne do gato e esperou a hora do jantar, exatamente às 18h em ponto. As freiras ajudaram a colocar a mesa naquele entorno e serviu para todos um prato do risoto.

Antonieta comia satisfeita e com muito gosto, a menina nunca a tinha visto comer tanto.

– Elizabeth sirva-me outro prato.

– Pois não. — a morena disse, enquanto ia para a cozinha colocar a cabeça do gato fervida no prato da Baltimore. — Aqui está. — um grito estridente de horror invadiu toda a casa as crianças ficaram desesperadas ao notarem que estavam comendo carne de gato morto. Os olhos caramelados da velha Baltimore estavam apavorados. O que aquela garota acabou de fazer com o seu gato? era isso que passava em sua mente.

"Ela é uma ameaça" a velha pensou.

Ligou para a clínica psiquiatra mais próxima do local e contou todo o enredo para os enfermeiros. Naquela mesma noite sua vida estava traçada. Arrumou suas malas, guardou a boneca que Michelle havia dado e sem expressar nenhuma emoção além de frieza, saiu daquela casa. O carro branco com uma cruz vermelha do lado a aguardava do lado de fora. Dois homens altos a observavam, um era um médico, alto ereto e de cabelos loiros penteados para trás, olhos azuis-esverdeados em seu jaleco branco estava escrito seu nome "Richard West" bordado em verde, ele segurava uma prancheta e sorria gentilmente para a garota, com dentes brancos e perfeitos do tipo que se ver em comercial de creme dental, pensou. O outro era um moreno, menor, porém mais musculoso, estava com uma roupa toda verde e seu nome escrito do lado direito "Phill Collins". Eles seguiram para a clínica psiquiatra daquela cidade.

– Eu sou Richard West, sou médico psiquiatra qual o seu nome? — o primeiro perguntou enquanto o outro dirigia atento a estrada. A garota nada respondeu além de segurar a boneca que a amiga dera. Richard fez algumas anotações naquela prancheta, Liz analisava de soslaio tudo o que ele fazia.

Passando entre aqueles troncos de árvores, seguindo uma estrada reta prédios corroídos e deteriorados eram visto. A atmosfera estava hipocondríaca e enevoada, como um cenário de filme de terror. Troncos de salgueiros estavam por toda a volta, mais adiante vários prédios brancos e majestosos se erguiam diante dos olhos da menina. Pilastras romanas se encontravam antes do hall de entrada. O jardim era impecável e diversificado, estava sendo cuidado pelos funcionários que trajavam uniformes brancos. Ao descer do carro Liz observou um caminho de pedras que dava até a entrada. Ela achava que ali dentro estaria o seu fim, mais castigos e dores para aguentar. Algumas aves sobrevoavam as construções. O interior era bastante claro, ela teve que apertar os olhos para acostuma-se com a claridade, as paredes eram brancas, piso branco... Tudo era tão monocromático para ela.

Os homens a sua frente a conduziram até um escritório de porta mogno vernizado com vidro fosco no meio, finalmente uma cor ela pensou. Ela pode observar que naquele gabinete com inúmeros livros nas estantes de carvalho e apenas uma janela atrás da enorme poltrona giratória havia uma placa metálica com o nome "Richard West" psiquiatra. Um lustre psicodélico pendia do alto do teto cinza. Vários diplomas estavam pendurados por toda a parede, Richard era especialistas em muitas áreas do ramo médico, mas a mente e o comportamento humano o fascinavam profundamente. Eles entraram no seu escritório e Richard começou a falar.

– A senhora que nos ligou disse que seu nome era, Elizabeth, é isso mesmo? Eu posso chama-lá de Liz? — a jovem logo olhou para o médico, aquele apelido querido dado por Michelle estava sendo proferido novamente por aquele homem. Liz consentiu. — Ótimo estamos avançando. Queria que você soubesse que passará a ficar aqui por algum tempo você entende? — novamente um aceno positivo com a cabeça. Liz vasculhava com os olhos aqueles inúmeros livros nas estantes, Richard se aproximou. — Gosta de ler não é? Eu também sou um grande fã, no meu tempo livro leio o que for. Quando estiver sem nada para ler, pode pedir para alguém te trazer aqui e você escolhe um, e quando terminar, outro, tudo bem? — ela consentiu novamente.

Eles saíram e seguiram em direção pelo hospital, Liz passou por uma ala repleta de mesas com alguns pacientes jogando cartas, outros acariciando um objeto que parecia ser "precioso" demais para eles e alguns apenas fitando a janela. Vários enfermeiros acompanhava um paciente.

– Vamos você não ficará nessa parte. — o médico disse a conduzindo-o para outra ala daquele hospital. Liz observou mais pessoas recebendo medicamentos, havia pessoas de todas as idades, velhos, adolescentes, adultos, todos com aparências estranhas e perturbadoras. Perguntava-se o que fazia naquele lugar? Este era o preço de matar um gato e fazer uma brincadeira para a mulher que a torturou durante anos?

O enfermeiro carregava a bagagem da pequenina que seguia o médico a passos curtos. Ele mostrou onde ela dormiria aquela noite, o quarto era três vezes maior que o sótão onde vivia. Paredes azuis e jarros de flores tulipas estavam ali. A cama parecia ser macia, mais do que a pedra em que dormia antigamente. — Este será seu quarto. — Richard disse de forma cúmplice para ela com um sorriso amigável.

Após instalar-se apropriadamente em seu novo quarto, a jovem resolveu perambular em busca de entender mais sobre aquele local, poucas crianças eram vistas, sentia-se só naquele mundo estranho e hostil. Caminhou até a sala do doutor West, pensou em bater para pegar algum livro, mas ficou relutante... Ela não queria falar com ninguém, mas também não queria ficar sem algo bom para ler. Antes que três batidas pudessem ser depositadas ele abriu a porta e a recebeu com um largo sorriso no rosto.

– Liz que surpresa vê-la. — ele disse segurando a porta e dando espaço para ela entrar. — Entre. — a jovem caminhou relutante a passos lentos. A vitrola antiga do medico tocava "Itzhak Perlman" uma sonância com vários violinos, ela nunca tinha ouvido algo tão lindo, era como um coral de anjos que ao invés de arpas tocavam minúsculos violinos em suas nuvens brancas, era assim que imaginava. Richard sentou-se atrás da sua mesa de mogno degustando o seu líquido amarelado, um delicioso uíque. — É maravilhoso não acha? A música. — mais uma aceno de cabeça fora dado.

– Quarteto para pianos em cordas Lá menor. Um espetáculo. — continuou o médico. — Desculpe não ter um suco em meu escritório para oferecer. Gostaria de água?

– Hrum. — ele se surpreendeu com o mínimo murmúrio da garota.

– Com gás ou sem? — ele levantou pegando uma garrafa em seu frigobar especial de aço.

– Sem. — a melodiosa voz fora ouvida, minimamente, porém fora ouvida. Ele serviu no copo de vidro e entregou na mão dela. A jovem sentou-se perto da mesa do médico que voltou para sua enorme poltrona negra. Os olhos da garota pararam em um porta retrato com uma mulher e dois garotos ainda novos.

– São minha esposa e meus dois filhos. Eu tive que ser transferido para o Maine e ela achou o lugar um pouco rústico demais para as crianças que estão em fase de brincar e explorar. Isso é verdade a maioria da civilização possui mais adultos. As crianças que temos aqui são de orfanatos como você deve saber. — Liz nada disse além de tomar sua água. — Sabe... crianças como você, na verdade adultos no geral assim, são minhas especialidades. Crianças ermos. — ela passou a encara-lo. — Não se preocupe, aqui você estará segura eu só quero ajuda-la. Tenho algo para você aqui. — ele levantou e entregou um livro para ela, um livro infantil, ela fez uma careta que fez o médico sorrir rapidamente. — Me perdoe, não foi esse livro que queria lhe dar, mas quero que leia e faça um breve relatório para mim.

Ela pegou aquele livro cujo titulo era "Cinderella" e abriu vendo as inúmeras ilustrações, como toda criança teve seus olhos iluminados, afinal todos os livros que tinha lido eram apenas letras, palavras e nenhuma ilustração. Esse era diferente, parecia até mágico. Negou com a cabeça ao pensar que aquilo poderia ser mágico e apenas segurou o novo livro.

– Leia, depois nos veremos. — disse o médico sorridente.

O primeiro relatório de Liz foi resumido em uma linha, o que deixou o médico entristecido.

" Isso não existe!" escreveu a jovem.

A garota estava machucada demais, ver bondade era quase impossível para ela naquela situação.

– O mecanismo de defesa dela é impenetrável. — ele disse com pesar.

Liz caminhava nos seus cinco anos e meio, faria seis daqui a sete meses. Todos os dias o doutor West fazia sessões terapêuticas com ela, em busca de entender a garota. Embora os primeiros três meses parecerem difíceis sem nenhuma resposta de volta. Ele persistia em conversar com a garota que fitava a janela segurando um livro da história da rainha Elizabeth. O doutor West percebeu que seria impossível conversar coisas pelas quais ela não se interessava, então ele partiu para o livro que ela lia.

– Eu li esse livro quando estava no colegial, Você gostou? — ela virou e fitou os olhos deles assentindo que sim. Não foi um dialogo, mas mesmo assim uma resposta. Uma resposta, um sinal, algo que ele esperou por três meses desde o último "sem" da água com gás pare receber daquela garota. A partir dai ele foi quebrando a muralha de gelo que ela havia erguido desde que o calor de Michelle havia derretido. Liz estava com oito anos, e a dois anos estava internada naquela clínica, porém, aqueles dois anos eram os melhores quando o doutor Richard aparecia para conversar com ela. Eles desenvolveram uma fraternidade imensa que o mesmo quis adota-la quando soube que seria transferido da clínica psiquiatra do Maine para um hospital no interior de uma cidadezinha no interior de Oklahoma. Naquele exato momento Elizabeth conseguiu um lar.

O barulho do Klaus a despertou do sonho intrigante que estava tendo. Ela abriu seus olhos e respirou fundo.

– Você está com fome não é? Vou caçar algo para você comer. — ela saiu do seu laboratório e foi barrada pelo irmão.

– Para onde vai às 20h da noite? — Stephan a inquiriu como um segurança.

– Caçar algo para o Klaus comer. Não se preocupe, não vou ver a Clarissa. — disse saindo de casa.

– Boa sorte. — disse ele por fim, enquanto ela saía.

Notas finais
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