Flores Secas
3 Capítulo 3 - Primeiro dia de aula -
Notas iniciais
Pode uma casa ser assombrada? A resposta é bem clara e óbvia, sim pode. Uma cidade inteira pode ser assombrada? Isso depende... Sim, depende. Depende do que necessariamente seria o assombrar para uma cidadezinha. Avan Jackson era um garoto quieto que ousava falar devagar por ser metódico demais. Naquela manhã diferente de todas as manhãs monótonas ele ouvira um roncar de um motor diferente dos carros da pequena cidade do interior de Oklahoma. E descobriu as novas inquilinas da velha casa dos Reids que estava desocupada há vários anos. Não recordava a última vez que alguém ousou visitar a mesma. Estava em seu quarto deitado na mesma cama de mogno desde que era criança. O entorno era mediano de paredes azuis e gesso cinza, o soalho assemelhava um pouco puído devido o tempo. Refletia sobre as novas moradoras quando um de seus pais apareceu em seu quarto.
– Achei que estaria aqui. — era sua mãe Holly. Uma bela mulher de silhueta bem desenhada. Estava com o jaleco branco do hospital central da cidade que abaixo da clavícula estava bordado de verde seu nome. Seus cabelos louros de um tom quase platinado estavam presos por um rabo de cavalo alinhado. Possuía os olhos mais verdes que alguém já vira. Poderia ser considerado até de uma nova cor. O tempo continuava sendo generoso com a senhora Jackson. — Há um carro estranho na casa dos Reids você viu?
– Sim. A neta da senhora Pearl veio morar aqui com a filha. — ele disse encarando a mãe com um sorriso pequeno nos lábios.
– A neta? — franziu o cenho buscando em sua mente de quem o filho falara. — Está querendo dizer que Maryanne Reid está de volta? — gargalhou alto em comemoração. — Se eu não estivesse de saída novamente iria dar as boas-vindas imediatamente. Eu a conheço a tanto tempo Avan... Aprontávamos muitas coisas na nossa juventude. Bom, você disse que ela tem uma filha, estou certa que Mary matriculou na sua antiga escola. Por quê não se oferece para lhe dar uma carona? os primeiros dias sempre são difíceis. Seja um cavalheiro e a leve amanhã para a aula.
– Eu já estava pensando nisso mãe.
– Conheço esse olhar Jackson... Parece que alguém está interessado na filha da Mary. — Holly aproximou-se da cama do rapaz sentando no canto. — Qual o nome dela?
– Mandy. Deve ter uns dezessete anos.
– Ela não é nova para você?
– Não... Ela tem a idade perfeita. — sorriu para a mãe.
– Cuidado com os amores rapazinho. — a senhora Jackson olhou seu relógio dourado que estava marcando uma data anterior da que realmente era. — Estou atrasada, nos vemos no jantar, seu pai voltará comigo. Eu vim apenas saber como você estava. Não esqueceu... — ela foi logo interrompida pelo rapaz.
– Não mãe, eu não esqueci. Já tomei sim. — ela depositou um beijo na cabeça do rapaz e saiu.
Avan ligou para o antigo numero que possuía da casa dos Reids e Maryanne atendeu, notificou a mesma que iria dar uma carona a Mandy assim como sua mãe sugeriu. O rapaz se encontrava no entorno da cozinha semelhante a nova casa de Mandy com pouca diferença de tonalidade. Ele parou em frente a uma porta de mogno talhada que dava acesso ao porão fitando-a incessantemente aquela entrada. Retorceu seu rosto em uma feição indecifrável como se sentisse dor e horror ao mesmo tempo. Aquele porão dava-lhe calafrios. Resolveu sair daquele vão e dirigiu-se para a sala de estar como era chamada por sua mãe e apenas "sala" pelo seu pai. Logo ali havia um antigo piano de família de marca M Schwartzmann dos anos de 1950. Dedilhou uma velha melodia familiar para seus tímpanos "Für Elise" que era sempre tocada por sua mãe em sua infância.
Aquele melodia era dedilhada com tamanha destreza e precisão, quem não soubesse poderia jurar que era o próprio Beethoven encarnado tocando aquele magnífico instrumento. Ele tocava com os olhos fechados concentrando-se na próxima nota a ser tocada, em sua mente uma risada doce e infantil era ouvida, um forte aroma de hortelã e alecrim invadiram suas narinas.
"Corre Avan", ele ouviu nitidamente aquela voz. Fechou bruscamente a tampa de madeira do piano e subiu a passos fundos a escada com tapeçaria carmim. Passou ao lado da longa porta rosa com o mesmo cheiro de hortelã e alecrim, contraiu forte o maxilar e trancou-se no quarto.
Capítulo 3 — A escola O'Cannail -
O dia tinha amanhecido e diferente de ontem, o sol aparecera iluminando tudo como vários lustres pendurados acesos em um céu sem nuvens. Mandy suspirou e abriu lentamente seus olhos safira. Ficou um pouco deitada ouvindo o ranger da janela devido o forte vento. Lentamente se levantou e calçou as pantufas felpudas pretas, olhou a janela observando uma garotinha que aparentava ter seus dez anos brincando com a folhagem seca, fazendo um tapete de folhas no solo úmido. — Quem é essa garota? — disse Mandy, a garota possuía longas madeixas louras que encaracolavam nas pontas, trajava um vestido branco com botas marrons na altura do joelho, sua pele era alva como a neve. Logo ela ouvira três buzinadas despertando-lhe dos seus devaneios — Avan? preciso me arrumar, ele irá me deixar na escola! — Mandy arrumou-se nas pressas, vestindo sua blusa verde de manga longa favorita com sua saia preta e por baixo uma meia calça de mesma tonalidade, calçou seus coturnos Dr.Martens cano médio azul e saiu correndo pelas escadas.
– Mãe eu já vou!
– Mas você nem tomou seu café.
– Não posso o Avan está ali na frente. — a jovem saiu correndo porta a fora encontrando o carro maverick preto de seu vizinho.
– Bom dia Mandy, você está tão bonita. — Aquela voz aveludada despertava as melhores sensações em Mandy, ela pensava enquanto tentava esconder o ardor de suas bochechas. — Quando terminar a sua aula você pode me ligar para eu pegar você. Os primeiros dias é um tanto complicado andar por aqui.
– Não precisa se incomodar... A minha mãe pode vim me pegar mais tarde.
– Eu insisto. — o carro fora ligado. Possuía grandes para-choques arredondados, bancos brancos forrados em couro legítimo, o volante negro e fino estava sendo pressionado por suas mãos, podendo ver os nós brancos dos seus dedos. Logo o arranque foi dado seguindo em direção ao High School Canaill. A estrada era um tanto sinuosa antes de chegar a estrada principal daquela cidadezinha. A cidade era encantadora com um letreiro de boas vindas cujo o nome da cidade estava um pouco apagado. Havia várias casas em madeira rodeando a praça central, várias lojas, gente por toda a parte, feiras... Era uma vila pacata e gentil, Mandy observava cada local de ambiente rústico. — Aqui, essa é a sua escola. — Avan apontava para uma construção ao seu lado. A garota arregalou os olhos surpresa com o aglomerado de casas construídas com tijolos cor de âmbar. — Se der de cara com um professor chamado Harris, não fique constrangida com os comentários dele. — ele deu uma piscadela brincalhona.
– Obrigada pela carona Avan e pela dica também. — ela saiu do veículo fitando seus brilhosos olhos azuis.
– E mais uma coisa, sugiro que vá a sala do conselho executivo para pegar seu horário e orientação das salas. — Avan sorriu de lado de forma afável, o que fez o coração de Mandy disparar rapidamente. Ela colocou uma mecha do seu cabelo escuro atrás da orelha sorrindo em retribuição de forma desajeitada.
– Nos vemos mais tarde Avan.
Ela saiu caminhando pela estrada pavimentada em direção ao prédio central, entrando em uma sala cujo letreiro estava escrito "CONSELHO EXECUTIVO". O interior daquela sala era aconchegante com cadeiras acolchoadas, era um entorno iluminado e mais aquecido do que Mandy esperava. A sala era um pequeno gabinete de espera, com quadros em madeira de diplomas espalhados pela parede de cor bege. Um enorme relógio marcava o tempo de forma sonora, o pendular do aparelho era seguido pelos olhos topázios. O badalar do mesmo irritava os tímpanos da jovem que esperava sua vez impacientemente. Uma mulher de meia idade com curtos cabelos grisalhos, corpulenta trajando uma blusa de manga longa vermelha remexia os papeis que descansavam sobre aquela mesa de mogno marfim. Ela levantou a cabeça e disse:
– O que deseja?
– Olá, eu sou Mandy Reid, sou nova aqui...
– Sim, sim... Já sei. Sua fixa encontra-se aqui. — interrompeu a senhora cujo nome na placa metálica em cima da mesa de mogno era Bernadete Hitchcock com letras de forma.
Ela entregou os papeis para Mandy orientando os melhores horários e salas a seguir dali em diante. A jovem Reid agradeceu e seguiu pelos longos corredores de cerâmica lisa da escola. Vários armários de tom vermelho-caramelo preenchiam aquela passagem. Mandy segurava firme a alça da sua bolsa decifrando aquele mapa que detinha em suas mãos. Mantinha seu olhar fixado naquele papiro passando despercebida por aqueles inúmeros adolescentes, ela suspirava em alívio. A jovem Reid não era o tipo de pessoa desinibida, sempre fora recatada e sossegada. Não possuía um corpo esportivo torneado e definido, pelo contrario era normal de forma esbelta, mas de certa forma, flácida. Mandy era o espelho de sua mãe Maryanne, cuja, única distinção era as linhas de expressões faciais e o cabelo longo que a mãe sempre tivera e cuidava demais do mesmo. Por ser um pouco "baixinha" poucos alunos notaram sua presença ali.
Ao entrar na sala de aula notou que aquele entorno era pequeno e rudimentar. Muitas pessoas passaram a sua frente para pendurarem os seus casacos numa longa fileira de cabides. Os alunos dali eram um pouco estranhos, pálidos demais para ela. Mandy sentia um ar desconfortável emanando deles, mas resolveu ignorar ao levar o pequeno papel identificando-a para o professor. O mesmo era alto, magro no qual a calvície começava a alastrar-se nos seus fios acastanhados, cujo nome se encontrava numa placa sobre a mesa, identificando-o como sendo o professor Harris de literatura.
"Então ele é o professor Harris" pensou. Ele fitou a jovem por trás das lentes ovais do seu óculos fino dourado, mandando-a sentar-se na única carteira vaga.
– Pessoal, a jovem ali. — ele apontou para Mandy ao sentar — Ela é nova, sejam legais com ela. Seu nome é Mandy Reid e mudou-se a pouco tempo para a casa ao lado dos Jacksons. É vizinha do galã mais cobiçado pelas alunas do Canaill — Mandy teve as maças do seu rosto enrubescida como dois tomates ao ser apresentada a sala daquela forma, sentia olhos curiosos devorando-lhe.
"Pelo visto aqui todo mundo se conhece" pensou ao perceber que ele sabia até mesmo onde ela morava.
Ela observou o papel que recebera do professor contendo uma lista de autores para estudar, alguns deles já era conhecido pela garota, como: Shakespeare, Faulkner, Edgar Allan Poe e outros. Suspirou em pesar ao recordar do último episódio que tivera com sua família reunida. Ocorrera a três dias antes da mudança. Oliver tivera uma discussão feia com Maryanne alegando que ela não tinha direito algum em levar a filha do casal para longe dele.
– Oliver eu sou a mãe dela! Eu tenho tanto direito quanto você! Você me traiu por dois anos com aquela sua parceira, a Amanda. Acha mesmo que o juiz não irá ficar do meu lado? Você está totalmente enganado. Já dei entrada no divórcio. — Maryanne articulava entre balbucios e lágrimas, ambos não sabiam que estavam sendo observados por Mandy que estava no alto da escada fitando o casal com um semblante triste.
Seu pai não era o mais presente ou o melhor em conversas. Pelo contrário, ele era ausente, mal falavam e quando ocorria essa oportunidade eram conversas banais de como ela ia na escola, sobre o clima, se precisava de dinheiro para um livro novo, corda do violão ou dinheiro para a pipoca do cinema. Ele achava que suprindo as necessidades materiais de sua parceira e filha descontaria a ausência de amor. Mandy nunca entendera como sua mãe podia aguentar aquele homem, mas ela notou que tudo que a pobre paisagista aguentara era por causa da filha. Agora sem mais amarras em relação a idade de Mandy, Maryanne teve a coragem de abrir uma ação contra Oliver para pagar o sustendo da filha em relação aos estudos até os seus vinte e quatro anos.
– Mary eu não vou deixar você tirar a Mandy de mim! — Oliver era alto, forte, branco e com um rosto forte e quadrado contendo um bigode bem feito. Curtos cabelos negros preenchiam toda a sua cabeça. Seu olhar era de pura fúria em imaginar ficar sem sua filha.
– Devia ter pensando nisso antes de estacionar o seu carrinho na garagem dela! — ele franziu o cenho em reprovação ao que sua mulher dizia.
Mandy fora despertada de seus devaneios ao ouvir o som estridente da campainha zumbindo freneticamente, informando que a aula havia acabado. Ela levantou seguindo em direção a porta quando fora barrada por um jovem delgado com a mesma estatura que a sua, cabelo lambido por um gel barato que exalava um cheiro de hortelã de quinta. Ele sorriu desajeitado para falar com ela.
– Mandy Reid, correto? — ele aparentava ser um nerd do clube de xadrez do colégio. — Eu sou Robert Smith, mas pode me chamar de Robbie
– Correto. Olá Robbie. — disse um pouco sem animo.
– O que você está achando da nossa cidade até agora?
– Eu estou... gostando, ainda não conheci muito. — ela deu um sorriso forçado querendo logo sair dali.
– Robbie já está dando em cima da novata? Desculpe o meu amigo senhorita Reid, Ele não pode ver uma garota nova. — o outro rapaz que surgira do lado de Mandy era mais alto com cachos castanhos-avermelhados que pendiam até a altura dos ombros. Sua pele e rosto eram repletas de sardas, aparentava ser outro nerd, porém mais alternativo que o primeiro. — Eu sou Douglas Glitz qual sua próxima aula?
– Biologia no edifício nove, professor...
– Burnes, Erwin Burnes. Podemos te levar até lá. — eles pegaram seus casacos dos cabides e se dirigiram para fora desse edifício. Contornaram a cantina e dirigiram-se para ala sul, seguindo esbarrando em alguns adolescentes que caminhavam apressados. Robbie e Douglas deixaram Mandy no edifício da sua próxima aula, precisamente na porta.
– Boa aula novata! — Douglas disse ao se despedir.
A garota seguiu e o mesmo repertório fora seguido com o professor Burnes, as outras duas aulas seguiram e alguns rostos já eram familiares a sua vista. Havia sempre alguém que lhe parava para cumprimentar e falar algo com ela a respeito da nova cidade. Mandy limitava-se a apenas algumas afirmações ou respostas curtas tentando ser diplomática. Uma moça ruiva nas aulas de Espanhol e quântica acompanharam-na no almoço da cantina. O nome dela era Jennifer Bloom, cujo alguns alunos tiravam sarro por ter uma rima com pum, bumbum. Era canadense e morava nos Estados Unidos cerca de dois anos com sua família.
– Eu já fui uma transferida como você. Nos primeiros dias é um pouco complicado, mas depois de duas semanas você se acostuma e as coisas parecem ser mais fáceis. — a ruiva sorriu brilhantemente, suas madeixas longas ondulavam nas pontas. Seu vestido violeta destacava-se com seu scarf verde. Ela tagarelava sobre as aulas e de como sentia saudades do Canada. Mandy apenas confirmava com tudo que ela dizia. Elas ocupavam uma mesa metálica ovalada com vários amigos da garota que fez questão de apresentar sua nova "amiga" das aulas de espanhol e quântica para eles.
Alguns minutos mais tarde Douglas e Robbie os garotos que ela conheceu na primeira aula de literatura juntaram-se para conversar com a mesma. Fora aí que ela viu ao longe do longo local em que se encontrava três estudantes que conversavam entre si. Eles estavam tão centrados em sua conversa que mal percebiam os olhos curiosos e interessados da jovem Mandy a vários metros dali. As suas aparências eram diferentes do restante da escola. Dos dois rapazes o primeiro era grande e forte — como um Van Dame da vida — com cabelo escuro num corte baixo. O outro era erguio e mais alto com estilo aristocrata, porém um pouco musculoso, com madeixas cor de âmbar. E por fim, mas não menos importante a única garota que estava com eles com aspecto mais pueril do que os outros dois, que aparentavam ser sérios, ao estilo alunos de universidade. Ela assim como eles, era extremamente perfeita e linda. Alta, magra e com traços delicados possuía um olhar forte de dar medo em qualquer um que a desafiasse. Os seus cabelos longos eram tingidos de um puro ônix com mechas azuis que ondulavam suavemente ao meio das suas costas. Porém, todos eles se pareciam bastante, todos eles eram extremamente brancos — como albinos — todos possuíam olhos em tom de azul-esverdeado, com todos os seus traços fisionómicos perfeitos e angulares. Eles eram belos demais, talvez os seres mais belos que Mandy tivera o prazer de conhecer. Condenava sua mente ao pensar que Avan aos pés daqueles três era apenas mais um garoto bonito banal.
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