Flores
1 begônias e peônias e tulipas
Tom gosta das flores da mãe, da maciez das pétalas e do perfume que o acalma depois de uma noite particularmente agitada de sono, de se embrenhar no jardim bem cuidado de Mary Riddle no meio da noite como se desejasse (e, ah, como ele desejava) se perder ali e jamais ser encontrado, mesmo que soubesse que os pais ou Frank o tirariam dali mais cedo ou mais tarde e o levariam para dentro, para perto da lareira, para debaixo de olhos responsáveis que poderiam assisti-lo bem de perto e evitar que ele cometesse uma insanidade, o tipo de loucura que consome um bom sobrenome como o dos Riddle.
(Insanidades: ele está entregue à elas desde a manhã em que recuperou os sentidos em uma pensão xexelenta nos subúrbios de Londres, sem lembrar-se de um dia ou uma noite sequer nos últimos meses e com uma aliança no anelar esquerdo, deitado ao lado da bruxa, aquela criatura horrenda que clamava amá-lo mais que a si mesma, que clamava ser a sua amada esposa, que clamava esperar um filho seu… Um filho, que audácia a dela! Usar uma falsa gravidez para tentar outra vez persuadi-lo, enganá-lo, enfeitiça-lo!)
Quando divaga pelo jardim durante as madrugadas insones, entre o orvalho cristalino que se forma de noitinha para escorrer das folhas logo ao nascer do dia, entre a palidez das cores e cheiros e zumbidos da natureza que inspiram-lhe serenidade e conforto, Tom sabe, sabe que é o momento para se permitir soluçar sem sentir vergonha ou medo de ser repreendido por fazê-lo (Deus sabe que o senhor Thomas Riddle jamais suportou o choro do filho), sabe que é tempo para deixar que as lágrimas escorram sobre pétalas e folhas e grama e misturem-se à terra, onde somem de vista.
E então ele reúne forças para voltar para dentro de casa antes que adormeça sob as estrelas, porque por mais que goste daquele espaço e anseie pelo dia em que poderá cavar um buraco ali e se enterrar pela eternidade, também sabe que não quer ver a mãe se desmanchar em lágrimas porque ele não sabe (não mais) como ser um bom filho, portanto, se enfia no próprio quarto e fica lá até que as provas da sua transgressão desapareçam.
(Transgressões: porque chorar não é o único delito com o qual Tom Riddle está familiarizado, é claro que não. Tom também é um mentiroso formidável. A mentira, ele descobriu, o mantinha afastado do manicômio, e por mais que ele sentisse o coração apertar toda vez que precisava enfrentar os olhos honestos da mãe e dizer que tudo estava bem, quando na realidade não estava, ele sabe que não pode arriscar. Não, não pode.
Quando Tom pôs os pés na estação em Little Hangleton, prometeu a si mesmo que preferia mil vezes soar patético a soar como um lunático. Bruxas e feitiçaria em pleno século XX, imagine! Ele jamais poderia dizer aos pais ou a quaisquer outras pessoas a verdade, não sem ser considerado clinicamente insano.)
À tarde, depois do almoço, ele retorna ao jardim.
As cores são mais vívidas sob a luz do Sol, os perfumes mais fortes e os insetos muito mais barulhentos, e a natureza toda parece se deleitar com aquelas raras tardes de calor nas quais não há traços de nuvens no céu. Tom passa por begônias e peônias e tulipas, cujo as pétalas vão do carmim ao rosa, e aguarda junto aos lírios brancos na esperança que uma borboleta (de preferência, azul como o céu, o mar e os olhos da jovem que ele um dia amou) pouse nos ramalhetes, assim ele poderá afugentá-las como fez e faz com todos (seus pais, os poucos amigos que restaram e que viajam para visitá-lo, um ou dois professores que se dão ao trabalho de mandar-lhe cartas de vez em quando.)
(Fugas: porque fugir com a filha do vagabundo Gaunt para voltar meses depois com o rabo entre as pernas e uma história para lá de estranha foi apenas o começo, é claro que foi, Tom carecia também de fugir das moças que o pai lhe apresentava e do alistamento no exército, ele necessitava de se esconder dos funcionários e dos próprios pais na Mansão Riddle, envergonhando Thomas e Mary dia após dia com toda aquela moleza e covardia inerentes ao comportamento degradante que ele adotara.
Infelizmente para Tom, ele não é capaz de fugir de si mesmo, como consequência, também não consegue escapar às lembranças daqueles olhos tortos e sorrisos terríveis dirigidos a ele, ao outro ele, ao Tom Riddle que não sabia ter sido emboscado pela bruxa má. Às vezes, no meio da noite, ele jura ouvir Mérope gargalhar, chamando-o de meu bem, atormentando-o com visões, praguejando-o, amaldiçoando-o por não tê-la amado.)
A mãe chama-o para o chá da tarde. Tom finge que não a ouviu na esperança que ela desista depois de duas ou três vezes sem obter resposta. Ele quer ficar sozinho. Quer mesmo. Há muito para ser analisado e absorvido das poucas horas de sono que conseguiu manejar na noite anterior, a verdade é que ele não sabe como ainda não enlouqueceu. Às vezes parece que o seu cérebro vai explodir, e Tom já não tem certeza se isso é uma coisa ruim. Ele fecha os olhos. Quer esgueirar-se pelos urzais até que o seu coração pare de bater ou até que encontre uma passagem para um mundo onde não existam Méropes com feitiços de amor feitos sob medida para Toms, o que vier primeiro, honestamente.
Deitado sobre os espinhos dos brancos roseirais, Tom permite que a sua mente divague para uma velha história de infância: Alice no País das Maravilhas. Enquanto as pétalas gradualmente são tingidas de vermelho com o sangue de seus braços nus, Tom não consegue não simpatizar com a personagem pintada por Lewis Carroll em seu livro: a verdade é que os dois, Alice e Tom, caíram em um buraco. Uma armadilha preparada bem debaixo dos seus narizes arrebitados: mas Alice se saiu melhor que Tom.
(Tom foi aprisionado em um mundo de pesadelos do qual não consegue se libertar, por mais que anseie por sua liberdade dia após dia.)
Os pensamentos não demoram a tomar caminhos perturbadoramente melancólicos. Algo lhe arranha a garganta por dentro, e Tom deseja que sejam os espinhos das rosas que, de algum modo, se enfiaram pela sua boca.
(Um grito, e outro e outro. Uma infinidade de gritos que percorrem as paredes do seu crânio cotidianamente mas não as transcendem. Se deixasse a menor palavra exaltada lhe descer na língua, Tom sabia, certamente não pararia até que o tivessem drogado e colocado em uma camisa de força.)
Uma lágrima cristalina e silenciosa serpenteia pela sua face.
Não são as flores que o machucam.
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