Flor do deserto
28 Capítulo 27- Análise na emergência
Algumas horas antes:
Emanuelle chegou ao hospital na hora acertada, embora tenha ido de metrô. Ela foi primeiramente falar com Charles, para saber em que setor ficaria. Marcus convencera o chefe a deixar a colega em algum lugar mais tranquilo. Entretanto, devido aos acontecimentos daquele dia, a emergência ficou muito tumultuada, fazendo Charles voltar atrás em sua promessa, colocando Emanuelle novamente na emergência. A doutora não achou ruim o fato de voltar para seu setor, ela apenas ficou indignada pelo chefe ter descumprido sua promessa. A jovem respirou fundo, e obedeceu ao chefe. A maioria das pessoas chegava com alguma parte cortada do rosto ou dos membros, precisando apenas de uma sutura bem feita, curativo e um analgésico forte. Boa parte da noite se passou assim; sutura atrás de sutura, curativo atrás de curativo. As manifestações daquele dia deixaram um considerável número de vítimas. Emanuelle fugiu um pouco da sala de atendimentos para a o corredor, para buscar um café. Enquanto a máquina preparava sua bebida, ela pôde ouvir o comentário de alguns pacientes enquanto esperavam sentados por sua vez.
—Tudo isso de repente acabaria se essa estrangeira resolvesse se entregar! -disse uma mulher na casa de seus sessenta anos, batendo com a bengala no chão. Um homem comentou:
— Eu não acredito que se ela se entregar as coisas vão parar. Esses caras só querem um motivo pra sair explodindo tudo por aí.
— Mas o que não dá mais é esperarmos que a polícia resolva isso. Pelo jeito eles são mais incompetente que tudo -comentou um jovem, sentado perto da senhora.
— Então você prefere entregar e sacrificar uma pessoa inocente? -retrucou o homem. O jovem respondeu:
— Uma vida por outra, eu acho justo.
— Eu não -respondeu o mais velho- E de qualquer forma essa situação só está servindo pra mostrar a incompetência das nossas autoridades. Bando de almofadinhas de ternos caros! Ficam sugando nossos impostos, mas ficam escondidos atrás de seus balcões ao invés de resolver logo isso!
— Eu sugiro resolver dando o que eles querem -disse novamente o jovem.
— Dando o que eles querem? Esses malucos são como ratos! Se você der leite, no outro dia eles voltam com biscoitos querendo mais!
— Como malditos ratos no sótão! -disse a senhora, sacudindo a bengala.
Os dois homens, o mais velho e o mais novo continuaram a dialogar. A jovem ouvia tudo, refletia e se angustiava. Era como Sherlock disse, o Hukm Allah queria antes de tudo destruir a nação, e Said sabia disso. “Salve a Inglaterra”, Emanuelle lembrou-se das palavras daquele jovem. “Como vou fazer isso? -pensou- não posso. Sou só uma médica, não sou a rainha da Inglaterra”. A jovem foi trazida de volta de seus pensamentos quando seu nome foi chamado pelas caixas de som do corredor. Mais um paciente chegara para atendimento e era a vez dela de atender. Aquela noite estava realmente agitada. Ela não estava trabalhando sozinha, haviam mais quatro residentes além dela, Marcus e seu chefe Charles; mesmo assim não era suficiente para atender à demanda que chegava. Assim que ela abriu a sala, deu de cara com um rapaz jovem, bem vestido e de boa aparência, deitado no leito de exames da sala. O rapaz estava encurvado e gemia de dor, com ambas as mãos sob o abdómen. Emanuelle chegou perto para examinar melhor o doente. O enfermeiro que estava ao lado entregou o prontuário para a doutora. Ela deu uma lida rápida.
—Aqui tem escrito que ele foi achado na rua -comentou Emanuelle.
—Sim, mais precisamente de frente ao hospital, do outro lado da calçada. Nosso pessoal o socorreu e tentou saber o que aconteceu, mas ele só geme.
— Eu não estou gostando...parece algo bem ruim. Por favor, você poderia ir por mim no balcão da enfermagem e telefonar para o bloco cirúrgico? Peça para eles começarem a organizar uma sala. Acho que esse rapazinho vai ter que ser operado de urgência.
— Posso sim doutora. Vou fazer isso agora.
O enfermeiro saiu da sala para atender ao pedido da médica. Emanuelle colocou o prontuário em cima da mesa, pegou duas luvas de procedimento simples da caixa, calçou e foi examinar o jovem.
—Senhor, por favor, preciso examiná-lo. Preciso que o senhor deite reto na cama -dizia a jovem enquanto tentava endireitar o homem em cima do leito.
Assim que o homem tirou a mão da barriga, a doutora viu uma pequena cicatriz vertical por cima do umbigo do homem. Ela olhou com mais cuidado, tocando na cicatriz. Ela sentiu como se houvesse algo por debaixo da pele do homem, bem abaixo da cicatriz. “O que foi isso?” perguntou a doutora, não tirando os olhos daquele estranho achado. O jovem nada respondeu. De repente ele agarrou o braço de Emanuelle com força, assustando a doutora. Entre dentes o jovem então respondeu: “Wilson deveria ter matado você... mas agora eu vou corrigir esse erro”. Emanuelle arregalou os olhos, sentiu uma onda de calor subindo tórax acima. Ela puxava o braço tentando se desvencilhar, mas o homem era forte. Ele tirou do bolso um pequeno dispositivo com um botão acoplado. Parecia uma caneta pequena. Ele então apertou o botão. Emanuelle estava em pânico, ela se debatia e puxava tentando fazer o homem soltá-la. Assim que apertou o botão, um estranho barulho pôde ser ouvido, como um brinquedo de corda. O homem se retorceu novamente, soltando Emanuelle e urrando de dor. A jovem virou-se e correu o mais rápido que pôde sala afora, seu corpo consumindo toda a adrenalina lançada na sua corrente sanguínea. O que aconteceu em seguida foi muito rápido. Emanuelle se afastou apenas cerca de três metros de sua sala, quando o jovem explodiu. A jovem foi jogada com força contra a parede alguns metros à sua frente, caindo no chão. Quando levantou os olhos em direção da sua sala, ela viu algo que a deixou em choque. Um aspecto daquele explosivo que ela não vira nos vídeos de Said, algo totalmente novo e mortal. Ela sentiu um líquido quente descendo pela sua cabeça, estava sangrando. Sua vista escureceu, gritos e choros eram ouvidos ao longe, e em seguida só o silêncio. Perdera a consciência.
***
A madrugada iniciou muito fria e bastante chuvosa na capital da Inglaterra. Ainda estava bastante escuro. O sol ainda demoraria algumas horas para sair Nuvens escuras e pesadas cobriam os céus, sendo iluminado pelos relâmpagos, acompanhado do rugido dos trovões. De repente, para aqueles que assistiam televisão, algo diferente foi ao ar. Um homem vestido com roupas militares escuras e usando uma máscara que mantinha apenas sua boca e seus olhos de fora, apareceu na televisão. Era o mesmo homem que aparecera no último vídeo do Hukm Allah. Dessa vez ele não portava nenhuma arma, apenas falava para a câmera. Nada podia ser visto no fundo do vídeo, apenas uma lona escura, dando um aspecto ainda mais sombrio à gravação. Ele então falou:
Cidadãos da afamada Londres. Suas autoridades já devem ter lhes informado as novas dessa noite passada. Devem ter dito que o terrível e sanguinário Hukm Allah, numa ação covarde contra os ingleses, implantou uma bomba dentro do hospital St Bartholomew. Isso não é verdade. Sabemos que as suas autoridades lhes incitaram à covardia, desestimulando e ameaçando vocês, para que os cinco privilegiados não entregassem a egípcia. Então, dada à nossa bondade, resolvemos ajudá-los, nos livrando dela para vocês. Infelizmente, tivemos informações que ela continua viva. Então eis a sua chance. Nos entreguem ou a matem. E não tenham medo das suas autoridades! Eles não ligam para sua vida, eles só se preocupam em manter uma falsa ordem, uma falsa paz, aparentando sucesso e prosperidade diante do mundo! Salvem a si mesmos. Já sabem o que fazer. Não seremos misericordiosos.
***
Poucos minutos após a explosão, ambulâncias e bombeiros chegaram ao local. Logo após Emanuelle ter desligado, Lestrade recebeu a informação da explosão no hospital. Várias equipes foram mobilizadas. Bombeiros lutavam contra as chamas, ambulâncias chegavam uma atrás da outra, recolhendo tanto pacientes que saíram ilesos, quanto os feridos, os transferindo para hospitais da redondeza. Depois de apagado o fogo, a polícia isolou o local. Depois de confirmado que o prédio não corria riscos de desabar, a perícia pôde entrar para avaliar o que aconteceu. Junto com os peritos, Lestrade e Sherlock também entraram. O setor da emergência estava parcialmente destruído, como também parte do andar de cima, mais precisamente acima onde a bomba explodiu. Todos ali presentes observaram que havia algo de estranho naquele cenário. Ao contrário das outras explosões que sempre deixavam escombros, pedaços de concreto espalhados por todo lugar, paredes derrubadas, essa explosão não. Nada de pedaços de concreto, somente um vazio. A equipe chegou onde era a sala onde o jovem explodiu. Não haviam mais paredes, o chão abruptamente mudava do azulejo para concreto queimado. Havia um buraco grande no teto, que dava para o andar logo acima, como também para o próximo. A parte do chão de concreto tinha formato circular, com um raio de aproximadamente doze metros, os buracos nos andares de cima tinham também formato circular, mas com o raio menor que o do outro. Entretanto,o que chamou a atenção da equipe era o que havia dentro do círculo. Alguns corpos carbonizados, cadeiras de aço e móveis muito retorcidos pelo calor da explosão, e o leito onde o jovem estava, bem no centro da circunferência formada pelo chão desgastado. A cama de metal estava muito retorcida, e por cima dela jazia um corpo extremamente carbonizado. Alguns da equipe vasculharam ao redor da circunferência, buscando por mais alguma evidência, enquanto outros se aproximaram dos corpos também os avaliando. Um dos policiais chamou os outros ao achar um estranho objeto de metal com algumas fiações soltas. Ao se aproximarem, Sherlock reconheceu o objeto imediatamente, tirando do seu bolso aquele que acharam na fábrica. O detetive aproximou os dois objetos,e constatou que eram idênticos. “O que isso significa?” Perguntou Lestrade iluminando com sua lanterna os dois objetos na mão de Sherlock. “Significa que temos que correr” respondeu Sherlock. “Como assim? Seja claro Sherlock!” disse Lestrade. “O novo explosivo está quase pronto. Logo essa coisa, seja o que for, estará em sua potência máxima, sem mais defeitos”, disse Sherlock apontando para os dois objetos em sua mão.
***
“Doutora, a tomografia mostra que está tudo bem. Não houveram concussões nem qualquer outro problema em sua caixa craniana, apesar de você ter batido a cabeça. O sangramento foi causado por um corte em sua testa, além disso nada mais. Pode ir para casa descansar”. Emanuelle nada dizia, apenas olhava para o chão fixamente enquanto seu colega médico dava o relatório dos exames que ela fizera. Emanuelle fora levada para um hospital perto do St Barts, assim como outros funcionários que saíram feridos no atentado. Após a explosão ela acordou enquanto era retirada do hospital, sendo levada para ambulância, foi quando ligou para Sherlock, avisando do ocorrido. O médico receitou alguns analgésicos para a jovem. Emanuelle pegou o papel, agradeceu ao colega médico pelo serviço e saiu da sala. Ela passou pela recepção, saiu pelas portas do hospital e pôs-se a andar. O dia já tinha amanhecido, mas ainda chovia e uma densa neblina caiu sobre a cidade. Emanuelle não sabia aonde estava indo, apenas andava, sem rumo. Ela sentia-se como se estivesse anestesiada, como num sonho. Nada mais importava, ela não conseguia pensar em nada, não estava sentindo nada, apenas automaticamente andava para frente, o olhar distante, como se estivesse em algum tipo de transe pós-traumático. Em determinado momento ela resolvera cruzar a avenida. O trânsito ainda não estava intenso, mas alguns carros passavam. Um carro quase bateu nela, fazendo o motorista buzinar e destilar palavrões. Ela continuou a andar, até que um táxi veio em sua direção. Sorte foi que a velocidade que o veículo trafegava era baixa, dando tempo do motorista frear a centímetros da moça. O passageiro do táxi reconheceu a médica de imediato. Ele se aproximou, chamou-a pelo nome, mas ela não respondeu. Apenas olhava para aquele homem, um tanto confusa. Pela sua carga de experiência, logo ele reconheceu que ela estava em uma crise pós traumática. O homem levou-a para dentro do táxi, levando-a para a segurança do seu lar.
***
Apesar do acontecimento ao St Barts, alguns setores mantiveram seu funcionamento. Um deles era o necrotério. Molly não estava de plantão na noite do acontecimento, sendo tomada de surpresa ao receber a ligação de Lestrade explicando o ocorrido e pedindo a sua ajuda. A patologista chegou cedo no necrotério, com um copo grande de café nas mãos. Assim que entrou na sala de autópsia, deu de cara com alguns corpos carbonizados em sua mesa, sentado numa cadeira no canto da sala estava Lestrade cochilando e de pé estava Sherlock avaliando um dos corpos em especial. Molly pigarreou, evidenciando sua presença no lugar. Lestrade despertou e, a passos cambaleantes, foi apertar a mão da patologista. “Tome, pelo jeito precisa mais do que eu” disse Molly para Lestrade, estendendo o copo de café para ele. Sherlock permaneceu na mesma posição que estava. O inspetor deu um breve relato do ocorrido. Molly se aproximou do corpo que Sherlock estava analisando. A patologista comentou:
— Olha como esse cadáver está! Não dá para tirar digital nem reconhecimento nenhum dele. Só com exames da ossada e de DNA para identificação, e isso pode demorar pelo menos uns três dias.
— Não tem algo mais rápido? -perguntou Lestrade
— Inspetor, olha como está essa pessoa. Os tecidos estão muito queimados. Parece que ele foi colocado dentro de uma fornalha.
— Isso não faz sentido algum -interrompeu Sherlock.
— Como assim?
— Olha o estado desse corpo. Para ele ficar desse jeito, seria necessário uma explosão de grande magnitude, ao ponto de todo o hospital ir abaixo. Entretanto, apenas parte do setor da emergência e da enfermaria logo acima dela foi destruído.
Molly olhou para os outros corpos, perguntando:
— E esses aí?
— Achados perto desse -respondeu, sem tirar o olhos do defunto- todos que estavam dentro do raio de destruição da bomba ficaram assim.
Molly respirou fundo. Sabia que teria um dia muito longo pela frente. Sherlock retirou as luvas, colocou-as no lixo e saiu da sala. Lestrade seguiu o detetive, agradecendo rapidamente a Molly, e pedindo para que ela assim que tivesse os resultados ligasse para ele. Molly concordou com a cabeça, e Lestrade saiu da sala. “Bom...somos só nós hoje pelo jeito pessoal”, comentou a patologista de forma triste, preparando em seguida os instrumentos para seu dia de trabalho.
***
A correria na Scotland Yard naquele início de dia era um prelúdio de como aquele dia seria difícil. Lestrade entrou e subiu direto para sua sala. Ele estava extremamente cansado. O inspetor fechou as persianas na sua sala, sentou na sua confortável cadeira, e abaixou a cabeça na mesa. Tentaria tirar um cochilo. Assim que o inspetor adormeceu, a agente Donovan entra na sala, acordando Lestrade. Ele senta-se bufando. Donovan estende para ele um papel que ele pega, e antes que lesse ela diz:
— É a requisição para a quebra de sigilo que o senhor pediu para eu fazer nessa madrugada.
— Ah sim, me lembrei. Obrigada agente -respondeu Lestrade.
— Tem mais -disse Donovan, enquanto pegava o celular.
— Mais? -respondeu Lestrade de maneira desanimada, seguido de um bocejo.
— O senhor precisa ver isso.
A agente mostrou o vídeo que o Hukm Allah colocou no ar naquela madrugada. Lestrade não gostou nada do que viu. Logo após acabar, perguntou:
— Harrison já viu isso?
— Não sei senhor, mas um dos nossos conseguiu interceptar o sinal. Descobrimos de onde enviaram o vídeo -disse, enquanto estendia outro papel para Lestrade- é de uma antiga fábrica, a “Powerful Fertilizer”.
Lestrade sorriu de alívio ao ver aquele papel em suas mãos, e em seguida ele falou:
—Donovan, essa é a prova que precisávamos. Estamos agora autorizados a tomar aquele maldito ninho de cobra que é aquele lugar.
— Mas e quanto ao Harris...
Donovan ainda falava quando na sala entrou um jovem policial com um conjunto de papéis nas mãos. “Esses são os resultados do cruzamento de dados que fizemos ontem à noite senhor”, comentou o rapaz. Lestrade agradeceu e o jovem saiu. Em seguida, o inspetor disse para a agente:
— Donovan, pegue esses papéis e leve para Harrison quando ele chegar.
— O que são? -disse Donovan, enquanto folheava as fichas.
— São os suspeitos de hoje. Tome muito mais cuidado quando for buscar esses. Fizemos uma seleção ontem e esses daí tem uma chance muito maior de serem realmente terroristas.
— Entendi senhor. Eu e a equipe tomaremos mais cuidado.
Donovan se despediu do chefe e saiu da sala. Lestrade poucos minutos depois saiu de sua sala também, tanto para providenciar o mandato para tomada da fábrica, como também providenciar a quebra de sigilo bancário da mesma.
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