Notas iniciais
Eu fiquei com medo do primeiro capítulo ficar muito longo, mas saiu mais ou menos do tamanho que eu queria... Espero não estar chato ^^''

Dayla mantinha-se em seu quarto enquanto o pai recebia suas visitas de negócios na sala de estar, não gostava dos homens de terno e menos ainda dos assuntos que eles mantinham. Desde pequena ela ouvia-os falar de números, nomes e datas e não entendia nada do que eles faziam, só sabia que era chato. Leila, a cozinheira da casa, dizia que ele tinha o coração fechado como um cofre e que só abria para colocar mais dinheiro. No fundo ela estava certa… Ele era extremamente rico, mas Dayla nunca o vira gastar seu dinheiro com nada que não fosse muito necessário – e isso não incluía muitas coisas para a filha, é claro.

O quarto da menina era simples: uma cama de solteiro com colcha azul, uma cômoda cheia de roupas de cama e um guarda-roupas com as peças que ela tinha a anos. Nada de produtos de beleza, nada de espelho, nada de nada. Seu pai considerava tudo isso muito supérfluo para se incomodar em dar para ela. Como era sábado ela não tinha escola e a mochila com os materiais estava pendurada na cabeceira da cama, mas ela tinha um livro nas mãos e lia-o com muito gosto. Adorava livros, pena que nunca pôde ler os que tinha na biblioteca de seu pai já que ele não deixava que ela entrasse lá.

_ Dayla desce aqui.

Ela tirou os olhos do livro e ficou olhando a porta do quarto, ainda fechada, até decidir se levantar e atender o chamado. Desceu as escadas pulando de dois em dois degraus e entrou na ampla sala de estar decorada com quadros de artistas desconhecidos.

_ Me chamou?

_ Sim, preciso falar com você. Sente-se. – O homem grisalho apontou um sofá branco bem em frente a poltrona onde ele se sentava e ela atendeu ao pedido. – Vou direto ao assunto. Não posso mais manter você aqui, preciso que vá embora.

Choque. Ela sabia que o pai não nutria amor algum por ela, mas nunca imaginou-o como um pai omisso que jogava seus filhos para fora de casa. Tudo bem que ela já estava no segundo ano e logo teria idade para morar sozinha, mas ainda assim… A garota ficou ali sem nem mesmo piscar esperando que o pai dissesse mais alguma coisa, mas ele mantinha a expressão séria de quem já tinha dito tudo o que era preciso.

_ Mas… Para onde eu vou… ?

_ Dayla eu já cuidei disso, você concluirá seus estudos em um colégio interno fora do país e quando tiver terminado irá para a faculdade. Depois disso sua vida será problema seu, não meu.

(…)

_ Ele está expulsando a Ariel de casa!

A jovem de cabelos loiros e uniforme de empregada chegou na cozinha totalmente esbaforida e com os olhos arregalados. A princípio nenhuma das pessoas da cozinha entendeu o que ela dizia, mas depois de tomar fôlego ela repetiu a frase e logo a indignação encheu o cômodo.

_ Como assim mulher? Pra onde a pequena vai? — Perguntou a cozinheira mulata de cabelos presos em um coque bem apertado. A mulher mantinha a expressão de desespero de quem descobre que está perdendo uma filha.

_ O velho falou que ela vai pra um colégio interno no exterior e que depois é Deus por ela! Como pode um pai ser tão ruim Leila?

_ Calma lá gente, ela vai pra qual país? — Se pronunciou um homem de terno que era obviamente o mordomo da casa, um homem de cabelos pretos e pele pálida de quem quase nunca via a luz do sol.

_ Não sei não. Ah mas e agora gente? Ariel vai embora…

A loira caiu em lágrimas e se sentou na mesa de madeira enquanto a mulata Leila lhe afagava o cabelo bagunçado e também começava a chorar. Além da cozinheira e do mordomo havia ali outros dois homens, ambos mais velhos, que nada disseram. Eles também seguravam o choro e apenas o mordomo permaneceu livre de lágrimas enquanto todos lamentavam a perda da menina. E foi então que Dayla entrou na cozinha com seus olhos azuis marejados e foi recebida por um abraço das duas mulheres.

_ Então vocês já sabem…

_ Já minha filha. Que maldade, quanta maldade existe no coração daquele velho! — A loira já estava vermelha de chorar e agora parecia também vermelha de raiva.

_ Calma Ana, ele ainda é o pai da Ariel. — Falou um dos homens mais velhos – Minha pequena, sentiremos muito a sua falta…

Dayla abraçou o homem que também era mordomo, mas que não circulava quando havia visitas pois o dono da casa o achava “velho demais” para causar boa impressão. Na verdade ele era cerca de dez anos mais velho que o patrão e apenas tivera o azar de ter mais rugas que ele. O outro homem, um negro de bermuda e camiseta, era o responsável por manter a casa em ordem como o zelador do lugar. Ele e Leila eram os únicos que se lembravam da mãe de Dayla.

_ Ele pode ser meu pai, mas é um monstro! Me mandou arrumar tudo até segunda feira. Nem sei para onde está me mandando, e se eu nem souber falar a língua do lugar? Ah… Não quero deixar vocês, são a minha família…

E ela caiu em prantos enquanto Ana a abraçava e chorava com ela. Realmente aquele grupo fora responsável por criar a menina. Foi Leila que lhe ensinara as primeiras palavras, e Ana lhe ensinou a andar de bicicleta. Ela se lembrava de que Rony, o mordomo mais novo, e Guy, o mordomo mais velho, se revesavam para lhe contar histórias para dormir quando ela era mais nova. E como esquecer que Juan, o zelador de poucas palavras, lhe dera seu primeiro livro e lhe pusera o apelido de Ariel, por causa de seu cabelo ruivo que ele cismava que era para combinar com a princesa sereia? Todos ali eram parte de sua família. Todos menos seu próprio pai.

(…)

Segunda feira chegou rápido demais, nem mesmo deu tempo de se despedir das amigas de escola pois seu pai não a deixou passar no colégio. O carro preto levou-a direto para o aeroporto, o segurança lhe entregou dois dicionários e algumas cartilhas do colégio interno para onde ela iria, e antes que Dayla pudesse se desesperar já estava na poltrona confortável da primeira classe. Ela olhou pela janela e abriu o dicionário de capa preta. Sorriu ao encontrar palavras conhecidas… Era inglês, ela sabia falar inglês. Ao menos tinha uma ótima noção do idioma já que tinha aulas desde pequena. Ela então abriu os panfletos e começou a ler sobre o incrível colégio com alas masculino/feminino separadas, treze salas de aulas teóricas e mais dez salas práticas, laboratório, biblioteca, quadra, piscina e mais mil outras coisas que pareciam deixar o simples ato de passar na frente daquele lugar bem caro.

O voo durou pouco mais de dezessete horas e quando ela desembarcou estava em algum lugar nos EUA. Mais algumas horas de carro e enfim chegou a um enorme complexo de prédios onde se lia “Instituto Brites”, o tal colégio para onde ela fora mandada. Não era tão ruim. Ela pegou as malas azuis e entrou no instituto com a carta de inscrição que recebera, foi direto até a sala onde se lia “Secretaria” e a apresentou a uma senhora de cabelos grisalhos.

_ Ah sim, senhorita… Nic Aileze?

_ Lê-se “Nicaleese”

_ Hm… Diferente. Escocês não é? Assine aqui por favor.

Dayla então assinou uma pilha de papéis de registro de sua entrada, entregou documentos e fotos 3x4 e no final havia uma pasta parda com seu nome e sua foto na gaveta de arquivo. A senhora chamou alguém no fundo da secretaria e logo uma moça loira de grandes olhos brilhantes veio para agarrá-la pelo braço.

_ OOOOIII! Meu nome é Amanda, vou ser sua 'best' e vou mostrar tudo aqui para você! Seremos colegas de quarto, não é o máximo?

Ah sim, era. O máximo, pensou ela enquanto caminhava ao lado da menina que ia apontando lugares e explicando o que era cada prédio. Para alguém que nunca tinha interagido com outros adolescentes por mais de seis horas por dia, ter uma colega de quarto falante como aquela seria muito estranho.