Flor de Lótus
3 Iniciada
Notas iniciais
O primeiro dia no Brites foi bem estranho… Dayla estava cansada depois de tanto tempo dentro de um avião e mais um tempo em um carro, precisava guardar suas coisas, mas Amanda era a típica americana que não estava nem aí e só queria falar. Ela mostrou as salas de aula e os prédios importantes, depois mostrou o dormitório masculino – que ficava separado do feminino pelo espaço de um campo de futebol, com todos os prédios no meio – e depois de mostrar a piscina e a academia resolveu deixar finalmente que Dayla fosse para seu quarto.
Era engraçado estar na companhia de Amanda. Ela falava muito rápido e era quase impossível acompanhar tudo o que ela dizia, mas ao menos o básico ela conseguia compreender: ali era uma sala de aula, ali era um laboratório, aquele menino era um gato, aquela menina era falsa (fique longe dela), e assim por diante. No final do tour finalmente Amanda mostrou o quarto: um cubículo do tamanho do antigo quarto de Dayla, porém com duas camas de solteiro e dois closet, duas escrivaninhas e dois baús aos pés das camas. A princípio ela estranhou a pintura rosa e os móveis de madeira clara, mas era um quarto “feminino” e dava para ver que quem quer que o mobiliou se esforçou para passar essa impressão.
_ … Você fica com a cama de cá, a da janela já é minha. Ah e aqui está seu cadeado para o baú se quiser usar. Aquela porta ali é um banheiro que infelizmente vamos ter que dividir, é tudo tão pequeno aqui! Me sinto vivendo no meu antigo closet!
Na verdade aquela foi a primeira vez que Dayla pensou no assunto. O Instituto Brites Para Jovens era um lugar que transbordava luxo em todos os sentidos, logo eram apenas jovens ricos que estudavam ali. Era estranho que agora ela tivesse acesso a tantas pessoas cuja vida é mais interessante que a sua; não sabia se deveria fingir ou se devia ser ela mesma… E o fato de seu inglês não ser tão bom atrapalhava um pouco sua capacidade de comunicação.
_ O que faremos amanhã?
_ Temos o início das aulas na quarta… Amanhã chegam mais alunos e terá a cerimônia de boas vindas. Enquanto isso por que não vamos para a lanchonete?
_ Hmm eu quero dormir um pouco… Pode ir se quiser, eu só vou tirar um “mochila”.
_ 'Mochila'...? Vai desfazer as malas?
_ Não, vou dormir… mochila, não é assim?
_ Cochilo! — Amanda riu enquanto Dayla ficava ainda mais vermelha. Mesmo sabendo que a ruiva era de outro país ela achava que não seria tão difícil entender o que ela dizia. — “mochila” e “cochilo” não são nem parecidos, fala sério! Vou deixar você tirar sua “mochila” então, até mais!
Assim que Amanda saiu Dayla tirou um caderno da mochila e anotou. Nap era cochilo, Bag era mochila. Por que era tão difícil? Ela já tinha estudado isso antes… Sem pensar muito ela largou o caderno em cima da escrivaninha mais próxima e deixou as malas – que Amanda a fez arrastar por todo o campus – perto da parede ao lado da cama, então se deitou sem nem mesmo retirar os tênis e em pouco tempo estava dormindo profundamente.
(…)
_ Hoje iniciamos outro ciclo, um ciclo onde nós, professores, prometemos nos colocar a inteira disposição de vocês, novos alunos, em nossa instituição de ensino. Damos as boas vindas aos alunos de 2010!
Quem falava era um homem gordinho que suava bastante e aparentava estar muito nervoso por falar em público. O pobre coitado esfregava um lenço já ensopado na testa e no pescoço a cada 7 palavras, e para piorar o alto de sua careca brilhava com o holofote que estava apontado para ele. Americanos eram estranhos, pensou Dayla enquanto analisava o corpo docente. Havia uma mulher de cabelo castanho e olhos escuros que parecia com sono, um homem alto de queixo quadrado com a barba por fazer e que estava lindo naquele terno, um senhor de bigode que era franzino demais para ser assustador, mais três outras mulheres de aparência rígida sendo uma grisalha e as outras duas com cabelos em diferentes tons de loiro, além do homem rechonchudo que falava.
_ … nossa meta é a excelência no ensino, pretendemos formar seres humanos decentes, capazes de sobreviverem diante dos desafios da vida…
Até parecia que aquilo era uma faculdade. Como o ensino médio poderia ensinar alguém a resolver desafios na vida? Enquanto revirava os olhos Dayla observou a massa de alunos sentados nas várias fileiras de cadeiras ao seu redor. Todos pareciam entediados, como não podia deixar de ser. Amanda não estava ali pois não era uma caloura, ela já estudava ali desde a oitava série. Ao que parecia os alunos eram mudados de andar a medida que mudavam de série, sendo assim eles eram sempre colocados com colegas de quarto da mesma série. Algo que os professores pensavam ajudar a formar duplas de estudos mas que na verdade só favorecia a conversa mesmo.
Dentre os alunos Dayla percebeu que o bloco das meninas era o mais vazio, com três fileiras a menos que o bloco dos meninos, e ela se sentiu bem ao ver que não era a única ruiva. Mais três meninas e dois meninos compartilhavam aquela cor de cabelo embora uma das meninas fosse obviamente uma ruiva falsa. Foi olhando os meninos que ela o notou pela primeira vez. Seu cabelo preto e liso caía até a altura dos ombros e estavam soltos, tapando parcialmente seu rosto. Ele vestia uma blusa azul claro por dentro de um blazer preto que não parecia combinar com sua pessoa, e quando o rapaz se virou para encará-la os olhos verdes a surpreenderam.
Nunca vira um homem de cabelo tão grande. Em seu país os homens mantinham o cabelo curto, principalmente em idade escolar, e a maioria eram ruivos então era a primeira vez que Dayla via um homem de cabelo preto fora da televisão. Mas não foi isso que chamou sua atenção e sim o fato dele ter virado para encará-la diretamente, sem nem mesmo passar os olhos pelo resto da multidão que lotava a quadra esportiva.
A cerimônia se arrastou por mais meia hora com os professores e alunos cantando o hino nacional e depois jurando alguma coisa para a bandeira, coisas que Dayla não entendia para que serviam e nem mesmo tentou fazer. Não conhecia o hino americano, não era americana e não queria jurar nada para um pedaço de pano. Quando terminou os alunos fizeram grupinhos e se dispersaram aos poucos pois era quase hora do jantar e a cantina já já iria abrir.
(…)
_ Então vermelha, como foi a cerimônia? Chata?
_ Como se você não soubesse que seria chata. Fazem isso todo ano?
_ Sim mas não vai mais precisar participar. Mas me conta, você viu os novatos não é? Tem algum bonito?
A ruiva até pensou em dizer que sim, mas não sabia se o rapaz de cabelo grande era bonito. Ela não tinha parado para pensar em suas preferências ainda, não se sentia uma adolescente como Amanda. Não ter vaidade alguma fazia isso com as pessoas… Enquanto tentava se lembrar de qualquer outro menino Amanda a empurrava para dentro da cantina, que nada mais era do que um enorme salão cheio de mesas de doze lugares com um balcão que cobria todo o fundo do galpão, onde estavam expostas vários tipos de comidas diferentes.
_ Tinha um loiro alto… Ele parece ser legal.
_ Ah não quero nem saber se ele é legal, quero saber se a bunda dele é bonita!
_ O que?
_ Esquece. Entra na fila antes que eu te dê uns cascudos por não ter tirado fotos dos meninos.
E Amanda continuou tagarelando sem parar enquanto a fila andava. Quando finalmente chegou sua vez ela pegou um prato de porcelana e colocou um pouco do purê de batatas e da carne cozida que havia no balcão, pôs algumas colheres da salada de beterraba com cenoura e esperou Amanda encher seu prato com macarrão com queijo. Achar uma mesa foi fácil, mas o lugar logo encheu e quando deu por si Dayla estava em um grupo de cinco pessoas que conversavam animadamente.
_ … não na verdade o Texas é mais bonito do que me falaram…
_ … pois é, Nova Iorque era tão…
_ E qual o seu nome ruivinha?
Pega de surpresa, Dayla quase engasgou com a carne cozida. Quem perguntou era um rapaz negro com cabelo black power e sotaque gostoso, e sem entender o motivo Dayla gostou muito dele. Seu sorriso branco como neve era de tirar o fôlego, mas ela não queria ficar encarando sem dizer nada e então se apresentou. Mas que ele era lindo ah isso era.
_ Legal, meu nome é Jamie. Essa é a Stephanie, aqueles são Isabela e Gabe.
Todos disseram “oi” de forma animada enquanto Dayla apenas dava um oi acanhado e Amanda se colocava a falar com o grupo. Stephanie era a ruiva falsa que ela vira na iniciação, tinha olhos castanhos e seu cabelo era de um tom vermelho fogo interessante. Isabela era bem mais “menininha”, vestia um vestido rosa que a deixava pálida já que ela era extremamente branca com cabelos de um loiro muito claro e olhos castanhos claros. Já Gabe era um japonês magro que usava um óculos de armação transparente, o que dava a ele um ar de nerd que Dayla pensou ser impossível.
_ … Então ruiva, de onde você veio? — Isabela era quem perguntava com uma voz baixa que demonstrava sua timidez.
_ Escócia. Vocês são todos daqui?
_ Não, o Gabe é de Nova Iorque e o Jamie é da Inglaterra. Acho que tem pouca gente que nasceu no Texas aqui…
Stephanie tinha razão, a maioria dos alunos ou eram de outros estados ou de outros países. Depois de se apresentarem Dayla já sabia que ninguém naquele grupo era do Texas, mas Amanda era quem antes morava mais perto já que era da Florida. Embora não estivesse acostumada com o ritmo de conversa do grupo Dayla se sentiu muito bem por estar ali, conversando com pessoas da sua idade. Sinceramente pensara que não iria se acostumar mas já se sentia bem em casa com aquelas pessoas. Foi só depois de quase uma hora de conversa e de deixarem os pratos esfriarem na mesa que Dayla resolveu que queria ir para o quarto e desfazer as malas, ainda encostadas na parede desde o dia anterior. Amanda não tentou ir com ela pois estava muito ocupada se jogando para cima de Jamie, então Dayla saiu da cantina sozinha depois de dizer cinco vezes que se lembrava do caminho de volta.
(…)
O pátio estava bem cheio para o horário, a maioria dos alunos não queriam perder a oportunidade de interagir com pessoas do sexo oposto enquanto era permitido. Dayla saiu do enorme pátio e começou a andar ao longo do prédio da administração procurando a escada que levava para o primeiro bloco de quartos femininos, mas parou ao perceber o rapaz de cabelos longos sentado na escada.
_ Oi. — A voz dele era mais grossa do que Dayla poderia supor, mas apesar de um pouco assustada não tinha como evitá-lo ali. — Te vi na cerimônia hoje, “Dayla” não é?
_ Como sabe meu nome? — Era estranho… Não se lembrava de ter falado seu nome em voz alta perto dele.
_ Ouvi você conversando na cantina. Me chamo Logan, se precisar de ajuda pode me chamar. Estou no bloco 2, quarto 18.
Bloco 2 quarto 18. A que tipo de ajuda ele estava se referindo? Sem dar tempo para que Dayla perguntasse qualquer coisa, Logan desceu as escadas e entrou no pátio indo na direção do dormitório masculino. Foi só quando ela resolveu deixar isso para lá e subir as escadas que percebeu um cartão branco com uma caveira vermelha gravada, e ao pegá-lo pôde ler o que havia no outro lado. O nome “Logan Mitchell” aparecia em preto acima de um número de telefone celular, mas foi a frase na parte de baixo do cartão que chamou sua atenção. “The Darkness Is One Step Away”
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