Flechas Não Aleatórias
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Minha inspiração para ela foi o clipe Give Me Love, do fofinho do Ed Sheeran. Com muita adaptação, fui colocar em palavras o que aquele pequeno filme me passou. Abaixo, para quem não conhece, ou conhece e quer revê-lo, o link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=FOjdXSrtUxA
Espero que gostem, e me deixem saber o que acharam desse conto nos comentários. Obrigada.
A velocidade das suas flechas era algo realmente incalculável. Milhões de vezes mais rápida do que até mesmo o ato de pestanejar de um humano. Apenas ela conseguia ver a flecha se mover, até que acertasse o seu alvo. E então a flecha se desfazia, como fumaça, adentrando lentamente o humano que fora atingido.
Então ela sorria. Mais um. Mais um trabalho concluído. Mais um alvo. Mais um. Ou uma. Ou outra.
O fato é que seu sorriso era sempre muito travesso, parecido com o de uma criança quando finaliza uma artimanha e sente que não vai ser descoberta. O sorriso de uma criança que está tomada pelo prazer de satisfazer sua necessidade infantil. Brincar. Brincar... Será que aquilo era uma brincadeira? Não, não. Aquele era o seu trabalho. Ou será que para ela aquele trabalho podia ser também uma brincadeira? Bom, não dá para descobrir.
Aparentemente, ela parecia mesmo uma criança. O rosto modelado cuidadosamente, apresentava uma covinha charmosa na ponta do queixo. Os olhos eram tingidos de um mero azul, idêntico a coloração do céu em seus dias mais bonitos. O nariz era pequenininho, uma graça! E as bochechas? Ah, as bochechas! Bem coradas, demonstrando o quão saudável era. Contudo, seu corpo não era como o de uma criança. Ela tinha o corpo de uma jovem. Uma jovem de mais ou menos vinte anos, talvez. Mas com a leveza de um bebê.
Caminhava com tanta elegância, que se não pelas asas, poderiam confundi-la com uma princesa. Isso, claro, se conseguissem vê-la. Era mesmo um desperdício... Tanta beleza, para não ser contemplada pelos meros mortais.
Os cachos dourados caiam sobre as costas, balançantes, aqui e ali batendo contra as asas deslumbrantes com penas delicadas. Uma visão graciosa para que ninguém pudesse vê-la.
Mas o que seria essa criatura, então?
Cupido. É assim que os humanos a denominam. Parece estranho, não é? Os humanos tem essa mania estranha de dar nomes as coisas que não podem ver. Deus, vento, amor...
Paixão. Parece que encontramos a essência dessa palavra na ponta das flechas dela. Uma vez tocado, o humano é transformado em um ser melhor, mais sonhador. Muitos são capazes até de sair do chão, de uma forma ou de outra. Alguns ficam mais encantadores, outros ficam semelhantes a zumbis. Varia bastante.
Cupido gosta de observar suas vítimas. Adora se encostar no peito de uma janela, e com um sorriso discreto, ver um casal trocar carícias. Rapidamente. Devagar. Aproveitando. Gosta de ver um roubar do outro um riso, ou um beijo, ou algo que a faça ver que valeu a pena aquela escolha.
Costuma saber o que faz. Ainda que os humanos não consigam entender, Cupido parece ter um motivo para flechar alguém, e só um tempo depois, flechar o amado da tal pessoa. Ela parece acreditar que isso estimula um aprendizado.
Ela não costuma se importar em qual local irá flechar as pessoas também. Festas, faculdades, praças, acampamentos, locais de trabalhos, residenciais, dentro de um ônibus, enquanto as pessoas atravessam a rua... Não há previsão, não há regras, não há escapatória.
Gosta de lembrar, com cuidado para não perder os detalhes, quando foi a responsável em juntar o ruivo dos olhos verdes do apartamento 301, com a morena baixinha do 402. A garota descia as escadas às pressas, as mãos ocupadas com pequenas caixas, quando bateu contra o corpo do garoto, que saía, distraído, com um skate em mãos. Cupido se deliciou ao ver as bochechas da garota corarem, à medida que o ruivo afirmava que estava tudo bem, e a ajudava recolocar os papéis dentro das caixas. A fusão do olhar esverdeado com os olhos amendoados da menor foi o suficiente para que Cupido puxasse seu arco e soltasse uma flecha, que atravessou rapidamente o peito do rapaz. Logo em seguida, flechou a baixinha, que descia as escadas restantes com o garoto que jurava para si próprio que nunca vira um sorriso tão doce em nenhuma outra garota.
Só que, a própria Cupido não sabe o porque, mas algumas flechas demoram a fazer efeito. Mesmo que a pessoa seja atingida pela “pontada da paixão”, os sintomas demoram algum tempo para aparecerem. Os casos são extremamente variáveis. Dias, meses, anos... Normalmente, o casal atingido acaba estabelecendo uma relação tão poderosa quanto a paixão. Esta relação os humanos chamaram de amizade. Um tende a compreender o outro, fazendo acontecer uma ligação que, em um primeiro momento, parece estranha e misteriosa, como se um tivesse, realmente, sido feito para o outro. Esses pensamentos, ao ver de Cupido, são os primeiros sintomas retardatários.
Um dos exemplos favoritos de Cupido foi o que aconteceu com o senhor Charles e sua esposa Vívian. Quando ela decidiu flechá-lo, Charles ainda tinha quinze anos e costumava andar com um carrinho de sorvete pela rua de Vívian, que naquele ano estava prestes a completar dez anos.
Naquele dia, o céu estava da cor de salmão, com o sol quase dando tchau ao serviço para trocar de função com a lua. Vívian costumava, juntamente com as outras crianças da rua, correr atrás de uma bola surrada, com gritos animados. Havia o grito dos adultos também, mas não tão bons quanto os dos menores. Os deles eram chatos: sempre lembrando as crianças para saírem do meio da rua por causa dos carros. Mas naquele dia, os gritos das crianças foram muito mais empolgados.
"Sorvete!"
"Sorvete!"
"Sorvete! Eu quero de uva!"
"Mamãe, mamãe! Sorvete!"
Foi a chegada de Charles à rua. Na cabeça, uma boina. Nos lábios, um sorriso.
O sininho tilintava avisando até para quem não estava nas ruas que havia novidade. E logo o menino foi rodeado pelas crianças eufóricas com moedas nas mãos, ansiosas por terem aquela delícia gelada. Vívian estava ali também, os olhos parados em cada movimento que Charles fazia, preenchendo as casquinhas com os sabores indicados pelos mini-consumidores.
"E esse vai para essa menininha aqui!"
Finalmente havia chegado a vez dela. Vívian pegou o sorvete rapidamente das mãos do garoto, e correu para a calçada da sua casa, orgulhosa. E Charles? Charles encheu o peito e voltou sua atenção para os próximos clientes. Tudo o que se passava em sua mente era como foi uma escolha feliz ter escolhido ir para aquela rua. Seu bolso já estava cheio de moedas.
E ele foi flechado. E ela também.
Cupido gostava de acompanhar cada passo depois daquele movimento. Pelo menos, deles dois. Ela os viu se aproximarem, sempre com atitudes inocentes e infantis, em que Charles sempre caprichava na quantidade de sorvete comprada por Vivian. Cupido viu os dois crescerem juntos. Viu Charles conseguir abrir uma sorveteria quando completou vinte anos e convidou a garota para, quando não estivesse em horário de aula, ajudá-lo. Viu como, apesar dos anos, e cada um se tornar homem e mulher, um agir com o outro como verdadeiros irmãos, com respeito e nada de segundas intenções. Sentiu a tristeza de uma separação quando Vívian passou para a universidade na capital e teve que se separar por cinco anos de seu amigo Charles. Alegrou-se com a volta da garota formada que se aninhou nos braços do garoto – que agora já era homem – morta de saudades. Na verdade, Vívian já era uma mulher também. E naquele momento, parecia que Charles havia se tocado disso. E se tocou também da afeição inexplicável pela qual estava sentindo por aquela mulher. Sentiu o desejo. De cuidar, de precisar, de ter, de não deixá-la mais ir. E assim, Cupido acompanhou de perto o casamento daquele casal. Acompanhou o nascimento do primeiro filho deles. Viu de perto o nascimento da pequena Raíssa, alguns anos depois. Até os flechou, quando assim decidiu chegar a época. E por fim, Cupido acompanhou o triste Charles no funeral de Vívian.
Cupido é a responsável pela paixão, mas ela não se sente a responsável pelo amor. Isso é algo que ela acha que os humanos que devem desenvolver, a partir desse sentimento. E ela se sente feliz, por ter sido a primeira causadora do amor de Vívian e Charles.
Apesar de não conseguir sentir amor, Cupido admira muito tal dádiva dos humanos. Mesmo que pareça que poucos são os que realmente o sente, ela gosta de observar o verdadeiro queimor da essência desse nome nos olhos dos amadores. No fundo, ela sente uma certa inveja dessa capacidade. Sente um leve desejo de ser humana por pelo menos algumas horas. Às vezes. Apenas às vezes.
Ela, durante a maior parte do tempo, acha os humanos muito miseráveis. Ou talvez a palavra seja ignorantes? Na verdade, ela mal consegue encontrar uma palavra só para defini-los. Não consegue entender como algumas pessoas são capazes de pregar contra o amor. Seu corpo é tomado por raiva sempre que presencia cenas de violência contra pessoas apaixonadas. Pessoas que ela escolheu para se unirem. Pessoas que apenas estão apaixonadas, tentando serem como todas as outras. Tentando apenas desenvolver esse sentimento tão bonito.
Cupido não consegue encontrar um motivo sequer para parar de fazer pessoas do mesmo sexo se apaixonarem. Para ela, somos todos humanos. Somos todos apenas humanos. Sem superioridade, sem inferioridade. Todos com as mesmas obrigações, deveres, direitos, problemas. Todos em busca de uma forma de sobreviver à vida. Todos buscando uma forma de se sentirem felizes. Então... Qual o problema de duas garotas estarem apaixonadas? O que há de errado em dois garotos namorando? É paixão, de qualquer forma. Poderá ser amor, poderá acabar, assim como acontece com os casais heterossexuais.
E, naquele momento, enquanto sentia a leve brisa bagunçar seus fios loiríssimos, jogando algumas madeixas em seu rosto e fazendo suas asas balançarem, Cupido preparou seu arco. Estava sentada sobre o teto de um casarão de pintura velha e descascada e já observava há algum tempo duas amigas que riam e conversavam animadamente, em um banco de praça, defronte ao casarão.
Pegou duas flechas. Mirou. Suspirou. Posicionou os dedos. Soltou.
As duas flechas seguiram com a velocidade habitual e atravessaram o corpo das jovens, fazendo uma fumaça vermelha, temporariamente, ficar em volta delas, enquanto respiravam.
Cupido guardou o arco, esperando, os olhos nunca deixando as garotas. Elas haviam cessado os risos e se miravam em um silêncio quase constrangedor. A loira, com algumas mechas tingidas de vermelho nas pontas, levou uma de suas mãos ao rosto da outra, cujos fios de cabelos eram negros como o céu naquele momento. Cupido se empolgou. A morena moveu as pernas para o lado, se aproximando e ajudando na quebra da distância. Cabeças se moveram, olhos foram fechados e lábios foram tocados.
E Cupido sorriu, quase como se pudesse sentir que gosto aquele toque tinha.
Com todas essas histórias, provavelmente, quem as ouvir acabará achando que Cupido é perfeita. Não, ela não é. Cupido não é Deus. Cupido é só uma espécie de mensageira e provedora de sentimentos. Às vezes, ela erra, claro. E por isso, uma pessoa pode se apaixonar mais de uma vez, e como já dito, cabe a ela, ou ao casal, tentar desenvolver a mágica do amor.
Por não ser perfeita, Cupido às vezes acaba cometendo alguns outros erros também. Por exemplo: fazer mais de uma pessoa se apaixonar por uma outra, onde apenas dois sairão felizes e o restante, triste, com o coração dilacerado e despedaço. Mas ora, Cupido merece uma desculpa! Afinal, ela é a única responsável por essa distribuição de paixão, e somos muitos. Muitos humanos, muitos rostos, muitos corpos, muitos solitários.
Solitários.
Mas afinal, por que Cupido faz com que as pessoas se apaixonem?
"Me dê amor!"
Será que é realmente para que haja uma tentativa de extinção da solidão?
"Me dê amor!"
Será que é porque realmente todas as pessoas precisam encontrar seu complemento?
"Me dê amor!"
Mas quem está gritando? Quem soa essa frase com tanta agonia?
O semblante de Cupido se manteve frigido, atrás de uma janela de vidro, fora da casa de uma garota que estava sentada de mal jeito em sua cama, os olhos marejados. Seu rosto fitava a colcha rosa da cama e ela parecia estar se esforçando para que as lágrimas não rolassem por seu rosto.
"Me dê amor! Por favor!"
Solidão. Aquela jovem sobre a cama parecia estar mesmo cansada de obter aquela palavra. A agonia era visível em seu rosto, e todo o ambiente tinha cheiro de tristeza. Implorava amor para o além, como se estivesse louca. Tadinha! Mal sabia que amar, mesmo que seja bom e seja lindo, é algo louco também. Cupido tinha pena desses humanos, e eles também eram um exemplo do que ela não gostaria de ser.
Sacudiu a cabeça negativamente, agora que via a jovem molhar a cama com o líquido que saía de seus olhos, e preparou o arco mais uma vez, para atravessar a janela e logo mais, aquele corpo.
Faria a garota, que tanto implorava, se apaixonar. Ela se apaixonaria pela pessoa mais especial que ela conhecia. Alguém que ia prepará-la, fortalecê-la, fazer com que se acostumasse com sentimentos e quando estivesse pronta... Ela acharia alguém. Ela estaria preparada para que Cupido a fizesse se apaixonar por um outro alguém. Por enquanto, Cupido faria a jovem se apaixonar por ela mesma. Os humanos tem um nome para isso também: amor próprio. Dizem que é essencial. E Cupido concorda.
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