Flashbacks

7 Capítulo 7 (dia 6)


Notas iniciais
Esse foi difícil de escrever. Compreendam.

Ao abrir os olhos e sentir a face inchada, ele se lembra de tudo o que havia acontecido. Ele se sentia tonto, sentia dor. Ele poderia dizer que tinha sofrido um acidente de carro, pois ele conseguia sentir seu coração esparramado pelo chão, sendo seguidamente pisoteado. Ele não tinha vontade de viver. Sua vida parecia não ter valor.

Claro, Brendon podia ter feito aquilo, e por que não faria? Ele era livre, Ryan mesmo disse que não ia conseguir ter um relacionamento. Ele o dispensou e ele tinha todos os direitos de procurar outros braços. Ele podia. Ele era bonito, ele era simpático. Ele tinha aquele sorriso bobo que aparecia toda vez que Ryan falava qualquer coisa, mesmo que não fosse nem de longe engraçado. Ele adorava quando ele ria tanto que batia palmas, ou quando seu cabelo acordava desarrumado. Ele amava as sobrancelhas que se juntavam quando ele ficava preocupado. Ele adorava sua comida, seu cheiro. Ele adorava assisti-lo enquanto ele cantarolava músicas infantis. Ele amava o jeito desastrado dele, que conseguia tropeçar em quase tudo. As dancinhas, como ele cantava no chuveiro, como seus olhos aumentavam ao ficar feliz. Ele se sentia seguro nos seus braços, só nos dele.

Ele poderia listar inúmeras qualidades, e nunca seriam suficientes. Qualquer um que o tivesse, seria muito sortudo. Ele chegou a ranger os dentes ao pensar que o homem da festa teria tudo isso só pra ele. E ao pensar nisso, outra lágrima se formou, e ele, derrotado, deixou-a escorrer. Ele se entregou à tristeza.

Era plausível ele procurar outra pessoa para consolá-lo. Ele entendia, e ele não culpava Brendon. Ele só não sabia se conseguiria tocar qualquer show com a presença dele. Ele não sabia se iria conseguir tocar qualquer coisa de novo.

Ele se senta na cama, procurando se acalmar, logo depois repensando se realmente queria sair dali. Ele precisava ser forte, ele precisava viver a vida dele.

Ele então se levanta, suas pernas vacilando um pouco antes de conseguir realmente caminhar até a porta. Ele demora um pouco no banheiro, lavando o rosto, tentando remover os vestígios da noite que teve. Eles não se foram. Ele chega à cozinha, procurando as coisas para fazer um café, lentamente o preparando. Logo depois ele encontra um pão e um pouco de manteiga, que pareciam suspeitos, então ele os dispensa. Ele se olha no pequeno espelho que havia pendurado na parede da cozinha e, desapontado consigo mesmo, se vira para olhar para a janela da sala que era visível da cozinha. O dia estava nublado, o céu cinza. Ele olha então para a geladeira. Ele fazia coleção de ímãs, e em todo lugar que eles iam ele comprava um novo. Era de se considerar que uma maioria ele tinha ganhado do Brendon, que uma vez tinha escutado da coleção, o que bastou para ele não esquecer e sempre comprar novos de presente. A cafeteira fez o barulho irritante de finalização, então ele se acorda dos seus devaneios, servindo o líquido em uma caneca preta e se dirigindo até a sala. Ele se sentou no silêncio do apartamento, e sua respiração e o barulho que fazia ao tomar o café eram as únicas coisas que podiam se escutar. Ele então sente falta de Bill, que provavelmente tinha saído. Ele então pega o telefone e liga para ele.

Ele demora a atender, e quando Ryan pensa em desistir, sua voz ofegante aparece.

"Ryan! Uh, eu estou chegando!"

"Calma. Onde você tá?"

"Eu vim resolver algumas coisas, mas-"

"Bill. Que coisas?"

"Oh, túnel! Se cair a ligação eu-"

E sua voz se foi. O filho da puta nem se deu ao trabalho de mentir direito: não havia nenhum túnel em Los Angeles, não ali perto. Porém, não importava muito o que ele fizesse.

Lembrando-se de tudo que tinha acontecido, ele sentiu-se mais uma vez desamparado.

Ele abre seu notebook, digitando alguma coisa incompreensível no twitter. Ele olha os recados das fãs, e aquilo o faz se sentir melhor. Logo depois, ele abre uma pasta com fotos antigas, de 2005. Ele estava no meio das fotos quando a campainha toca. Ele não estava com vontade de ver ninguém, e essa vontade não diminuiu ao ver que era Keltie na porta.

"Oi" ele disse enquanto passava as mãos no rosto, removendo qualquer vestígio de lágrimas.

Ela não disse nada, olhando para seus pés e logo depois com um olhar triste para ele. "Eu vim pegar minhas coisas...".

"Uh, entra, eu acho" ele se afastava e segurava a porta.

Ela se dirigiu ao quarto, pegando o pouco de roupas que ela tinha retirado da mala e as recolocando novamente. Ela termina e vai para a sala, onde ele está encostado na parede, observando-a.

"Eu só... Quero uma explicação" ela largava derrotada a mala no chão, com os ombros erguidos, ainda com o olhar triste.

Ele não sabia o que dizer, logo abaixando o olhar, pensando cautelosamente nas suas palavras. "Não tenho o que explicar. Eu tentei, mas eu não conseguia admitir para mim mesmo o que eu realmente queria"

"Claro. Por que você não me falou antes?"

"Eu não sabia... Ainda"

"Ryan" ela se aproximava, "Não me diz que você e o Bill, quer dizer, ele é uma cri-"

"Não! Não, nossa" ele balançava a cabeça. Como ela pode sequer cogitar a ideia? Quer dizer, ele tinha 16 anos! "Ele só me fez enxergar. Nossa, por favor, Keltie!"

"Se ele te fez enxergar-"

"Eu ainda gosto muito de você. Não quero brigas, mas, por favor, sai daqui. Agora. Eu não estou em condições" ele disse em um tom frio.

Ela tinha os olhos arregalados, como se não esperasse aquela reação. Ele nunca tinha a tratado daquela forma. Ele sempre foi gentil.

Então ela pega a mala e rapidamente se retira do apartamento, ofendida.

Ele se encontra sozinho novamente. Ele tenta ligar para qualquer pessoa, mas ninguém atendia. Ele então sente o peso da solidão o esmagando, o prensando contra o chão.

Os próximos cinco minutos passaram e ele não sabia o que fazer. Ele pensou em cometer suicídio, de se mudar para o México, de... Sair da banda. Se tudo continuasse daquele jeito, ele não estaria em condições de tocar guitarra tão cedo, de ver Brendon todos os dias... Ele provavelmente não ia querer ver Ryan também. Talvez esse fosse o fim.

O telefone então vibra, o nome de Spencer piscava na tela.

"Ryan! Dá pra você controlar um pouco a sua cria?"

"O quê?"

"O Bill esteve aqui. Eu tive que ignorar a porta, eu não queria... Ele está me perseguindo! Ele não para de me ligar!"

"Ele é independente. Ele queria me ajudar, só isso"

Eles ficam em silêncio um pouco. "Ajudar?" ele dizia com um tom agressivo.

"Ele quer fazer justiça, mas não se preocupe, não vai acontecer de novo"

"Justiça? Você? Que eu saiba quem anda pecando aqui é você, não eu"

Ryan suspira longamente antes de sussurrar. "Você não sabe então, acho. Era isso que ele queria falar"

"O quê, Ryan? O que você fez?"

"Eu... Terminei com a Keltie"

Silêncio.

"E eu fui atrás do Brendon, e ele já superou, pelo visto"

O silêncio se formou novamente, Spencer tentando raciocinar por um instante.

"Superou?"

"É. Eu tentei, mas tudo o que eu recebo por acreditar é mais... desapontamento" ele agora já tinha que pausar no meio das palavras para respirar e limpar suas bochechas.

"Ei. Você tá chorando? Ryan. Me escuta. Ele nunca iria fazer nada, ele ainda-"

"Eu vi! Eu vi, Spencer" ele falava e soluçava logo depois, se entregando ao silêncio do apartamento.

"Eu acho que-"

"Não. Eu tenho certeza do que vi. Eu tenho-" ele não conseguiu terminar a frase.

"Eu tenho certeza de que ele não faria isso. Ontem mesmo ele estava aqui em casa procurando consolo! Ele ainda está mal por sua causa"

"Espera" ele se recompõe um pouco. "Não mente pra mim. Vocês estavam no Avalon ontem, eu vi ele com outro homem! Eu vi!"

"Merda, agora eu entendi" ele escutou um barulho, provavelmente Spencer trocando o telefone de mão. "Eu falei pro Bill que nós estaríamos lá... Só pra ele não nos perseguir"

O coração de Ryan começa a bater mais rápido. "Quem eu vi ontem, então?"

"Garanto que não era ele. Ele estava na minha casa, chorando à suas custas"

"Meu Deus. Onde ele tá agora?"

"Não sei... Em casa, talvez? Não sei, ele não disse e o telefone dele tá desligado"

"Eu não tenho tempo pra isso" ele desliga o telefone e se veste o mais rápido que pode, pegando um táxi e pedindo — quase implorando — para o motorista ser rápido.

Ele chega no apartamento, falando algumas palavras rápidas para o porteiro, correndo pelas escadas. Enquanto toca a campainha seu coração não poderia bater mais rápido. Ele se sente tonto, suas pernas tremiam, mas ele não ia desistir. Ele permaneceu parado na frente da porta mogno, esperando a resposta que nunca veio. Ele bate várias vezes. "Brendon, sou eu" ele dizia em meio às batidas. Sem resposta, ele permanece em pé, observando a porta.

O telefone toca novamente. Era Bill.

"Onde você tá? Eu cheguei imaginando que ia te encontrar e-"

"Bill, eu desisto"

Eles ficaram em silêncio por um instante.

"O quê?"

"Ele não quer saber de mim, é tarde" Bill começa um argumento, mas ele o interrompe. "Não. É tarde demais, e eu mereço. Eu fui um idiota, um idiota! Eu mereço ficar sozinho, e ele merece alguém melhor. Até a Keltie merecia. Eu desperdicei meu tempo, meu amor. Agora ele não vai mais querer me olhar na cara, ele..." ele começava a chorar, se perguntando como ainda havia água no seu organismo. "Eu mereço ficar sozinho"

"Não, você nunca vai ficar"

"Obrigado, mas você vai pra Londres amanhã, e eu vou ficar sozinho. Eu talvez saia da banda. Depois de tudo isso, eu não vou conseguir olhar na cara dele, eu... Eu o magoei, magoei a Keltie, e o resto da banda" ele pausa, lambendo os lábios e observando o olho mágico da porta, pensando em desistir e ir embora. "Eu queria que ele soubesse o que eu sinto. Merda, eu vou acabar sozinho, um velho egoísta que se consumiu por amor". Ele suspirava e continuava olhando os contornos da porta.

"Sempre tão drástico" uma voz atrás dele falava, e ao se virar, ele encontra Brendon parado com um saco de padaria em mãos, sorrindo. O telefone que ele segurava oscilou em sua mão, logo indo ao chão. "Oi" ele dizia com um sorriso fino nos lábios.

Ryan congelou naquele momento. Ele não conseguiu se mexer, nem falar nada, só observar quem estava na sua frente.

"O quanto você escutou?" ele finalmente pergunta, com uma voz rouca.

"O suficiente" ele sorria mais, olhando para seus pés, logo depois lentamente para Ryan.

Eles ficaram em silêncio por um instante, se olhando.

"Então," Brendon começava, "você terminou com a Keltie?".

"Terminei"

"Ah"

"E eu fui atrás de você, numa boate que o Bill me falou que você estaria"

"Mas eu-"

"Exatamente" ele sorria e olhava para o All Star que Brendon estava usando. "Eu pensei que tinha te visto... Com outro cara. Aquilo-," ele pausa. "mas eu não podia fazer nada, você não me pertence"

"Eu-" ele sorria para si mesmo. "Eu não faria isso"

"Agora acredito que sim, e também acredito que você não precisa me desculpar. Eu não mereço"

"Não sei... Acho que não merece"

"Bem, eu vou então... Que bom que estamos bem"

"É"

Ryan caminha lentamente para lado de Brendon, portanto, para a escada. No meio do caminho, ele hesita, mas para, puxando o ombro de Brendon para trás e para mais perto, e então seus lábios se encontram, a sacola com pães caindo no chão. Eles permanecem assim por um longo tempo, e o beijo era lento, logo depois ficando mais acelerado. Ele conseguia sentir a felicidade que ele não sentia por um longo tempo sair por seus poros, sua vida voltando a fazer sentido. Ele se sentiu feliz como em muito tempo não se sentia. Ele não queria sair dali, ele queria continuar nos seus braços para sempre. Ele o amava demais, mais do que poderia admitir. Ele o abraçava firmemente, seus lábios agradecendo ao encontro. Ele sentia como se ele pudesse morrer a qualquer instante.

Ryan finalmente se desprende e observa a figura na sua frente. "Eu senti sua falta".

"Eu também" ele sorria enquanto suas testas ainda estavam encostadas.