Flashbacks
1 Capítulo 1 (Dia 1)
Os raios solares entravam pelas amplas janelas do aeroporto ao mesmo tempo em que pessoas corriam para abraçar seus conhecidos que acabavam de chegar. O clima estava frio, com o céu nublado e muito vento. Ele usava seu cachecol e um colete por cima de uma camisa social. Ele não podia sair de qualquer jeito.
Todo aquele clima de felicidade e de reencontros era muito amigável, até para uma pessoa que fosse solitária.
Mas ele não se sentia assim. O sol que batia em seu rosto só fazia a dor de cabeça piorar, e as pessoas irradiando felicidade só o lembravam de como ele era só. Essas pessoas ainda iam sofrer muito na vida. Não adianta lutar muito por felicidade.
Ele então avista a criança magrinha que vinha em sua direção. Ele mal se lembrava do garoto. Ele usava all star e uma camiseta listrada, junto com um Ray Ban — normalmente usado como óculos de sol, só que com lentes transparentes para grau, ou alguma coisa assim.
"Ei, Ryan! Você parece mais velho!" o garoto — se podíamos chamá-lo assim- parecia contente enquanto dava um abraço em Ryan.
"Oi Bill... Você ainda parece um bebezinho!" o garoto ri, achando que era uma piada. Não era. Ele tinha mesmo uma carinha de criança.
"Você que acha! Eu tenho 16 anos, posso fazer o que quiser!" ele falava enquanto Ryan ia caminhando na frente para mostrar onde era a saída do aeroporto.
Por que ele tinha concordado com isso? Ele não ia aguentar uma semana com... Aquilo. Mais um motivo para a vida dele se tornar ainda mais insuportável do que já era.
"Ah, quanto sol" Ryan reclamava para si mesmo enquanto abaixava seus óculos e procurava um táxi disponível. A dor era insuportável, e ele murmurava em seus pensamentos promessas de que nunca mais ia beber tanto. Algo que ele não ia cumprir, na realidade.
"Huh, ressaca, então?" Bill estava com as mãos na cintura observando o adulto do seu lado. Era provável que ele soubesse como uma ressaca é, por mais que ele não tivesse cara de quem bebesse. Todo adolescente, pelo menos até seus 17 anos, já deve ter levado um porre na vida. Ou fumado maconha. Pelas lembranças de Ryan naquela época, ele e Spencer não podiam dar um bom exemplo de adultos disciplinados.
"Não... Eu não poderia ter bebido ontem, eu tinha que vir te pegar aqui, lembra?" tudo isso era mentira. Ryan tinha ido numa festa da banda ontem, e eles beberam muito. Parecia que ele tinha bebido o bar inteiro. Na realidade, se a tia dele não tivesse ligado para ele hoje de manhã, ele nem ia se lembrar do primo que estava vindo de Londres para Los Angeles para passar uma semana.
"Sei... E eu sou o coelhinho da páscoa. Você parece horrível" ele dizia enquanto entrava no táxi e Ryan dizia o endereço para o taxista. "Mas enfim... E a banda? Mamãe me disse que é famosa" impressionava Ryan que ele nunca tivesse escutado, quer dizer, eles eram bem famosos e era a porra da banda do primo dele! Panic! At the disco! Hello! Closing the goddamn door! Palavras dele!
"Sim, acabamos de lançar nosso segundo álbum... Vendendo bem"
"Ah. Depois eu dou uma olhada, então"
Ryan pegava um remédio no bolso e engolia enquanto olhava para o movimento na rua. A ignorância de Bill o fazia querer vomitar, mais esse movimento insuportável em Los Angeles. O trânsito era insuportável. As pessoas eram insuportáveis. Tudo era não-suportável para ele.
O telefone toca para acordá-lo de seus pensamentos, e o nome no visor o faz dar um sorriso.
"Oi Bren. Tudo bem, com dor de cabeça, mas bem... Sim, mais tarde, só que eu tenho visita. Ok, te espero então." ele desliga e encontra Bill o fitando, procurando uma explicação. "Ah, meu amigo vai lá em casa mais tarde. Você vai gostar dele"
"Ele é da banda? O que ele faz?"
"Canta"
"Então você não canta? Nossa, que desapontador" ele volta a fitar o seu lado da janela. Grande coisa. Ryan não tinha a voz tão boa quanto a de Brendon, mas ainda sim era um ótimo guitarrista, obrigado. Ele merecia crédito. Ele formou a banda.
Eles chegam no apartamento, que não é muito grande, mas é bom para dois. Ele gostava daquele lugar da cidade, ele o inspirava mais. A paisagem era bonita. A maioria das letras que escrevia tinha inspiração na vista do seu apartamento. Um pouco estranho, mas era onde ele se sentia bem.
"Uau... Bonito aqui. Garanto que não foi você que decorou tudo isso" o amor do primo por ele era realmente grande, percebe. Ele não tinha um pingo de esperança que o primo tivesse se dado bem na vida, formado uma banda e tivesse ótimo gosto para decoração e roupas.
"Não... Foi minha namorada. Mas ela tá viajando, não precisa se preocupar" Ryan ia até a cozinha e pegava um energético. "Quer?" ele perguntava com a cabeça para fora da porta e apontava a garrafa para o menino, que balançava a cabeça em sinal negativo. "Sabe, não tem muita comida em casa... Eu posso fazer compras. É que eu normalmente saio pra comer."
"Claro, não me importo. Tanto faz" ele para e procura alguma coisa na mochila. "Então, qual o nome da sua banda?" Ele falava enquanto pegava seu laptop e o abria em cima do sofá. Antes de querer saber sobre o quarto, sobre o resto do apartamento, sobre qualquer coisa, ele pega o laptop.
"Panic at the disco" Ryan começava a achar o garoto um pouco estranho. Metido.
Ele digitava e analisava cuidadosamente a tela do computador, enquanto Ryan acabava de tomar o energético e o colocava no lixo. Ele então encontra Hobo, sua cadela, o observando. Ele tinha se esquecido de dar comida para ela ontem de noite. Não culpe um bêbado.
"Hobo! Vamos te arranjar comida!" ele então pega um pouco de ração de um pote e coloca na tigelinha vermelha ao lado da mesa de jantar, logo depois acariciando o pêlo do animal enquanto ela comia desesperadamente sua refeição.
Ao chegar à sala, era possível escutar as letras de Behind The Sea ecoarem pela sala. Ele parecia gostar.
"Sabe, eu gosto muito de Beatles, e essa música não é nada mal... E você mentiu, essa é sua voz"
"Eu canto às vezes. Ajudo os vocais. Mas essa música era especial pra mim, então eu pedi pra cantar"
"Entendo" logo depois a melodia de But It's Better If You Do começa a aparecer, e a expressão do garoto é de surpresa. "Wow. Tão... Diferente. Olha, você bem novinho! Haha! Uma foto de você com maquiagem! Maquiagem, Ross?"
"Vai se fuder, eu gostava" ninguém falava mal da maquiagem dele. Foi uma época que ele se orgulhava, eles tinham lançado um só álbum e já eram famosos, ele gostava de se maquiar para ir para o palco então era isso que ele fazia. Sem mais nem menos.
"O que é isso...?" ele clicava em um vídeo e uma música qualquer de amor começava a tocar. "Ryden, o que é isso?"
Ryan então se joga do lado de Bill e observa o vídeo no qual ele e Brendon aparecem muito próximos no palco, com imagens e efeitos de transição um pouco afeminados demais. Ótimo, não faz nem uma hora que o menino chega e ele já viu essas coisas. Ele nem se importou em ver o quarto dele, ele queria… ah.
"Huh isso é invenção, sabe, nós temos que chamar atenção no palco e-"
"Parece muito gay... E íntimo pra mim" ele dava pequenas risadas e apontava para a tela.
"Pode rir, mas nada aconteceu"
"... Com quem você faria um filme pornô?... Ryan Ross!" o vídeo, no final, era um conjunto de vídeos enfocados no assunto. Muito legal.
"Cala a boca" Ryan dizia para o menino que parecia não poder mais parar de gargalhar.
Então alguém batia na porta, e Ryan, derrotado, se levanta do sofá e vai atender. Ele olha pelo olho mágico para ver que é Brendon, e um sorriso automaticamente se forma na sua face. Ele abre a porta e os olhos se encontram. Nada de mais. Só um amigo visitando o outro.
"Entra. Brendon, esse é Bill... Bill, Brendon" ele torcia para que Bill não comentasse nada. Ele não precisava.
"Prazer, Bill" Brendon ia em direção ao garoto e lhe estendia a mão.
"Oi" Bill então olhava com uma cara desconfiada para Brendon e logo depois para Ryan, que pelas costas de Brendon tentava transmitir por olhares o que ele não deveria comentar. "Ryan me disse que você canta na banda. Achei muito legal, tava vendo uns vídeos agora mesmo".
"Ah, obrigado" Brendon era sempre muito simpático, coisa que Ryan nunca poderia ser. Alguém tinha que ser.
"Então, pra que devo o motivo da sua visita?" Ryan se sentava na poltrona e cruzava as pernas enquanto olhava para Brendon.
"Ah, a gravadora mandou chamar vocês. Aparentemente é algo grande" Brendon brincava com seu próprio longo cabelo, enrolando-o na ponta do dedo.
"O que será que é? Nós ainda nem acabamos a turnê! Quer dizer, nós estamos tendo uma semana de descanso, mas- arg", Quando ele pensava que iria descansar, sempre tinha alguma coisa a mais pra fazer. Típico. Eles querem dinheiro; os músicos, descanso e música.
"Pois é... Vai ter reunião amanhã de tarde. De tarde digo às três. Pra você duas e meia. Sempre se atrasando" Brendon tinha um sorriso no rosto, e Ryan não conseguia não responder com outro. Nossa, o sorriso dele era-
"Because I need you to love me" a música dizia e a cara de Bill era de quem não ia conseguir conter a risada. Ryan deve ter ficado vermelho, mas Brendon também ficou, mas ele conseguia rir e parecer um pouco distraído. Os dois sabiam da onde era a música. Eles tinham visto.
"Ok, Bill, eu vou te mostrar seu quarto. Mas vou avisando que a Hobo dorme lá e ela gosta de dormir na cama" Ryan pegava a mala -um pouco pesada demais para uma semana só- e a arrastava para o quartinho de visitas. Era simples, como eles nunca tinham visita. E se tinham, bem.
"Legal" ele dizia ao analisar o quarto.
"Qualquer coisa, tem um bar ali em baixo do prédio, eles tem comida e uma conta no meu nome. O banheiro é ali, a cozinha ali, e meu quarto ali. Mas se a porta estiver fechada, nem tenta" Ryan tinha definitivamente fechado a porta e não planejava abrir tão cedo pra esse garoto xereta.
"Uh, o covil de Ryan Ross, que medo. Não chegarei perto" ele fazia gestos com as mãos. Uma semana, Ryan. Só uma semana. Você consegue.
"Acho bom" ele vai para a sala, onde Brendon está rindo no telefone — provavelmente Jon, então.
"Eu aposto que ele não consegue" só então ele percebe Ryan e sua cara de desprezo do outro lado da sala. Ele ri ainda mais.
"Vou desligar. Nos vemos amanhã" ele desligava o telefone e colocava no bolso da parte de trás da calça. Provocação, talvez? Porque aquilo certamente deixava a sua bunda que já era grande maior ainda.
"Então, Bill, por que você está aqui com nosso amável amigo Ross?" Brendon se sentava na poltrona e cruzava as pernas para parecer interessado.
O menino se sentava no sofá novamente enquanto pensava rapidamente em uma resposta. "Minha mãe vai viajar pra África -eu sei, grande viagem- e eu ia ficar sozinho, então... Aqui estou eu, procurando inspiração pro meu livro" Bill fechava o laptop e o guardava em uma mochila. Ele não tinha cara de quem escrevia. Ele tinha cara de amante de Beatles, nerd, virgem, tudo. Menos escritor.
"Livro, huh? Sobre o que é?" Brendon parecia mesmo interessado. Essa vai para a lista de qualidades que Ryan montava mentalmente: ter interesse em um menino de 16 anos que estava escrevendo um livrinho.
"No começo era baseado na minha vida, mas começou a ficar entediante. Minha vida é entediante" ele parava para si mesmo antes de continuar, "então eu estou começando do zero".
"Interessante" Brendon sorria e parecia verdadeiro.
"Você não tem cara de quem escreve" Ryan tinha descoberto que se o garoto não era simpático com ele, ele também não deveria ser.
"Nem você".
Touché.
Brendon suspirava para conter o riso, mas, sem sucesso, acaba rindo ainda mais alto. Ryan tinha cara de quem escrevia sim. Eles não podiam falar nada.
"Calem a boca"
"Bill, tente se controlar, a inspiração dele vem dos cachecóis!" Brendon colocava a mão na boca para abafar a risada que logo depois se juntou com a de Bill.
Pronto. Todos riam sem parar, e Ryan não achava graça. Brendon batia as mãos enquanto não terminava de rir.
Ele não riu dos meus cachecóis aquela vez que eu-
"Ok, mas eu acho que não vem só disso..."'Bill olhava para Brendon como o de uma criança que acabara de descobrir um segredo. Brendon, pra variar, tinha as maçãs do rosto vermelhas. Criança de merda.
"O que você-" Brendon começava, mas Ryan sabia que ele não tinha argumento, então ele tenta contornar a situação.
"Bill, posso falar com você um pouquinho?" Ryan puxava o menino pelos pulsos e o levava para a cozinha, onde ele para e observa a criança na sua frente. "Você precisa parar. Ele fica envergonhado, por mais que seja mentira. Deu. Ou você é educado ou eu te largo no meio da rua só de cueca e sem dinheiro e só te busco no dia do seu voo" Ryan apontava um dedo pra ele, e pela primeira vez, a face do menino parecia séria.
"Você não-"
"Não duvide"
O garoto olhava para a geladeira enquanto provavelmente pensava. Ryan já não aguentava mais aquela peste. Greta estava devendo essa pra ele. Ele ia cobrar.
"Tá. Eu vou tentar ser gentil com o seu namorado. Quer dizer, amigo, colega de banda, seja lá o que for" ele se rendeu fácil demais, e Ryan realmente não acreditava muito nele.
"Bom. Agora pega isso e compra algumas coisas lá em baixo. Comida que você goste, pizza, sei lá. Vai" ele dizia enquanto estendia o dinheiro pra mão peque na do garoto que revirava os olhos e andava em direção à porta, passando pela sala.
"Tchau Br... Brendon!" ele acenava e saia andando, meio saltitando. Ryan já previa a dor de cabeça que ele ia trazer, e esse pensamento fez a sua cabeça doer um pouco.
"Desculpa por isso. Eu ainda tenho que ensinar umas regras pra criança. Não se preocupe" ele colocava a mão na cabeça pra tentar amenizar a dor.
"Não tem problema, eu já estou meio acostumado" ele ria para si mesmo enquanto estalava os dedos. "Amanhã, duas e meia. Reunião." ele dizia enquanto se dirigia até a porta.
"Não vou me atrasar" Ryan dizia parado ao lado da porta, a abrindo como um bom anfitrião faria.
"Por favor, Ryan" ele colocava uma mão no ombro de Ryan e o apertava. "Só não chegue muito atrasado" a mão ainda estava lá, e ela não saiu por bons três segundos, logo depois escorregando devagarmente e acompanhando o corpo magro em seu jeans apertado enquanto ele saia do apartamento.
Ryan o observava descer o começo das escadas. Ele descia com perfeição, quase como um anjo.
Coisa que o lembrou Keltie. Ele precisava ligar pra perguntar se tudo estava bem. Ele precisava ser o bom namorado de vez em quando.
Pelo menos fingir.
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