Flamel
20 Traição
Notas iniciais
Logo que acordo, lembro da sensação horrível de quase não poder proteger Ilumi. Lembrando desse fato, ontem pensei que fosse medo de perder alguém que tivesse passado pelo mesmo tipo de trauma que ela, mas é estranho, ela é uma soldado experiente, mesmo com sentimentos em jogo, ela seria capaz de ser fria e fazer o que fosse possível para me proteger.
Olho para o lado e percebo que a cama de Amohi está vazia. Pensei que ele me acordaria para podermos fazer a investigação juntos. Visto meu uniforme e começo um passeio pela base.
— Ryan, o que houve? Fui pegar o café da manhã para começarmos o treinamento e você sumiu. — Disse Amohi enquanto dava uma piscadinha. Não era sobre o treinamento que ele tava falando.
— Fiquei com fome e fui pegar o café por mim mesmo. — Devolvi a piscada.
Depois disso, fomos tomar café e nos dirigimos a uma sala ampla com paredes brancas e chão cinza. Várias cadeiras prateadas ao redor de uma grande mesa de madeira me chamavam a atenção. Logo notei que essa era uma sala de reuniões da resistência.
— Amohi, o que estamos fazendo aqui? — Logo perguntei sem entender.
— Relaxe, enquanto "estava pegando seu café", enviei uma mensagem falsa a um dos subordinados de Galter. Logo ele estará aqui e nós o interrogaremos. — A expressão do grandalhão era séria e me deu um ânimo extra para começar.
Alguns minutos depois, vejo um jovem soldado entrando na sala. Ele era muito parecido com uma pessoa de meu planeta. Usava o mesmo uniforme que eu, tinha um rabo de cavalo, olhos vermelhos e uma pequena cicatriz na boca, que vinha desde o lábio superior ao inferior. Sua expressão era de uma pessoa bastante stressada e explorada.
— A-Amohi e Majestade? Pensei que Galter iria estar aqui para receber esse relatório.— Disse o jovem.
— Relaxa cara, te chamei aqui para conversar. — Disse Amohi indo na direção dele.
— E-eu tenho que voltar ao trabalho. Não posso ficar aqui papeando. — Disse o subordinado enquanto caminhava novamente em direção da porta.
Nesse instante, Amohi o pega pelo ombro e o arremessa para o outro lado da sala derrubando algumas cadeiras.
— Eu disse para você sentar Berth. — Disse Amohi em um tom bem intimidador.
— Tá bom cara, só não seja tão agressivo, o que você quer? — Disse Berth enquanto arrumava o cabelo e pegava os papeis que caíram graças a Amohi.
— Preciso que você me conte onde Galter estava ontem no horário da noite. Tenho suspeitas que ele está envolvido a tentativa de assassinato de Ilumi e Ryan.
— Acredite, mesmo se eu soubesse, eles me matariam se eu contasse. — Berth franzia o rosto e apoiava seu queixo em uma de suas mãos.
— Berth, por favor, nos ajude. Você não quer que essa guerra pare? Nos ajude a acabar com nossos inimigos, um a um. — Disse olhando nos olhos de Berth.
— Se é um pedido vindo da majestade, acho que vou ter de abrir a boca. Só peço para que não digam que eu contei, Galter pode me acusar de traição e me prender pra sempre num lugar que nem vossa alteza poderá fazer algo por mim.
— Você tem nossa palavra, agora comece a falar. — Disse Amohi.
— Há relatos de que ele saiu para uma caminhada noturna com alguns soldados, mas eles não chegaram a sair das muralhas. Ele voltou com um pequeno corte no braço, mas foi só isso.
— Nossas suspeitas são de que ele saiu para a floresta com alguns comparsas para tentar me assassinar. Ilumi entrou em choque quando chegamos no lago e por pouco saímos de lá vivos.
— Eu li o relatório, várias pessoas estão de prova que eles não saíram da muralha, mas algumas dessas testemunhas estão a alguns dias em uma missão secreta. Tenho uma suspeita de que foram mortas.
— Essas pessoas são as que saíram com ele para nos pegar. As sumidas devem ser as que morreram no processo. — Disse em forma pensativa.
— Majestade, talvez você queira ir até o quarto dele, acho que vi um cofre lá uma vez. Se ele for uma espécie de traidor, as informações estarão lá.
— Obrigado Berth agora você pode ir. Suas informações são seguras conosco. — Disse Amohi. — Vamos sair daqui Ryan, acho que o barulho que fiz lançando ele para o outro lado da sala vai atraiu atenção.
Eu e Amohi saímos daquela sala e fomos em direção ao nosso quarto para planejar. No caminho perguntei a ele do porque ele escolheu Berth como alvo daquele interrogatório.
— É simples, ele é uma pessoa que é explorada por Galter a um tempo, não seria tão difícil tirar informações dele. Eu aposto que ele está doido para que seu chefe se dê mal e saia daquele posto. — Amohi dava um leve sorriso esperando que Galter saísse logo daquele posto também.
— Cara, você é muito inteligente. — Dou uma risada, mas sinto pena de que há pessoas que estão aqui sendo "sacrificadas" dessa forma.
Eu e Amohi chegamos em nosso quarto e começamos a planejar como entraríamos no quarto de Galter para pegar as informações que nos interessava. O aposentos dele se encontrava perto do refeitório, lugar com grande fluxo de pessoas, tínhamos de ser rápidos e precisos.
— Hoje sabemos que não dá. Temos de esperar ele sair da base e entrar lá a noite. Estamos na vantagem de que ele terá uma missão de reconhecimento daqui a dois dias e nós sabemos os detalhes da ronda dos guardas da fortaleza. — Disse Amohi.
— Entendo, você já esteve lá alguma vez? Seria interessante nós sabermos o que tem lá dentro pra saber onde procurar. — Disse em tom preocupado.
— Relaxa, todos os quartos seguem o mesmo padrão de estrutura, então o lugar mais provável que ele escondeu seria num dos compartimentos secretos de cada quarto.
— Compartimento? Você não me contou sobre eles, cada quarto tem um? — Disse em tom de surpresa.
— Sim, desculpe sobre isso. Veja, é bem fácil de encontrar, basta bater na parede, e retirar a parte falsa da parede e então você tem um espaço vazio. — Disse Amohi enquanto abria um compartimento próximo a cabeceira de sua cama.
— Compreendo, agora tô ansioso, finalmente poderei ser útil. — Dei um leve sorriso de canto de boca.
— Você é muito mais útil aqui do que imagina Ryan, acredite. Preciso que você aja de forma normal e sem levantar suspeitas com Galter. Não conte a ninguém sobre o nosso plano. Quanto menos pessoas souberem, melhor. — Essas palavras saiam da boca de Amohi em tom preocupado e sério.
— Pode deixar, acho que vou ver Ilumi agora, talvez ela esteja melhor.
— Okay, Mary me deu uma pilha de coisas pra fazer, te vejo mais tarde. — Disse Amohi enquanto eu saia do quarto.
Ando por aqueles salões pensando na saudade que estou de casa e em como eu sinto falta de lá. Ilumi e Amohi são os únicos que posso dizer que são meus amigos. Sou muito feliz de tê-los encontrado aqui em Jandar.
Alguns minutos depois, estou perto do campo onde eu treino com Ilumi. Vejo sua silhueta olhando para o tempo, como se ela se perdesse em seus pensamentos, não de uma forma negativa, mas como se ela estivesse mais em paz consigo mesma. Só ela para conseguir encontrar uma espécie de paz nesse caos.
— Ilumi, como você está? Fiquei preocupado.
Ilumi se virou, e assim que me viu, veio correndo com lágrimas nos olhos. Instantes depois, sem perceber, eu estava envolto num abraço aconchegante e caloroso. A sensação era ótima, aquele abraço aliviou todo o stress que eu estava carregando a um tempo.
— Ryan, me desculpe por te deixar em perigo naquele dia! — A cada palavra dita, Ilumi me envolvia mais no seu abraço.
— Não precisa se preocupar. Fiquei muito preocupado com você, afinal, você é acostumada com lutas.
— O médico disse que esse meu pânico foi ocasionado pelo medo real de perder alguém que eu tenho sentimentos. — Ao perceber o que falou, Ilumi ruborizou.
Dou um leve sorriso e logo sou interrompido pelos lábios macios de Ilumi tocando os meus. Uma sensação aconchegante de calor tomou conta do meu corpo. Não me importei se as outras pessoas ao meu redor estavam olhando, só retribui aquele beijo, mas não deixei de notar uma leve dor no meu peito, o fantasma de Mary ainda me assola?
Abro os olhos e vejo ao fundo no topo de uma muralha, um borrão rubro sumindo como o vento. Mary. Ela viu o beijo, provavelmente está feliz pois continuei seguindo em frente. Não queria que fosse assim, estou dando uma chance para esse sentimento que Ilumi sente por mim, mas no fundo, eu queria que fosse ela. Meus pensamentos são interrompidos pela voz doce de Ilumi.
— Me desculpe, eu estava querendo isso desde quando te chamei para o lago. — Ilumi não conseguia nem olhar pra mim de tão ruborizada que estava.
— Me desculpe por não ter percebido seus sentimentos por mim antes. Sou meio lerdo pra esse tipo de coisa. — Disse sorrindo.
Depois que saímos daquele abraço, passeamos pelos salões da fortaleza sem dizer uma palavra, talvez de vergonha por todos terem nos visto ou pela falta de costume de ter reação nesses momentos pós-beijo.
— Enfim chegamos. — Disse Ilumi que ficava na frente da porta do quarto dela.
— Engraçado como nossos quartos são perto um do outro, não é? Somente algumas portas. — Dei um leve sorriso para descontrair.
— Aproveitando a proximidade, que tal passar aqui a noite daqui a uns dias? Temos bastante assunto para colocar em dia e alguns beijos também. — Disse Ilumi, que em seguida, me deu um beijo de despedida.
— Boa noite Ilumi, espero que sonhe comigo. — Dou uma risada.
— Pode deixar. — Ela retribuiu com um sorriso e ruborizou.
Depois dessa despedida, volto para meu quarto e tento me preparar psicologicamente para a missão em que invadiremos os aposentos de um oficial da resistência. Eu e Amohi só nos metemos em missões assim, ironicamente ele é grande e estabanado. Dou um leve sorriso de canto de boca ao lembrar que ele me ajudou a resgatar Mary na terra. Ele é meu amigo de verdade.
Dias se passam e o dia da nossa fatídica missão chega. Confesso que estou muito ansioso. Não sei se a minha ansiedade é pela garantia da minha segurança ou por tirar Mary das mãos daquele cara.
— Ryan, você está pronto? Temos de ser silenciosos e cuidadosos nessa missão.
— Você não devia estar falando isso pra mim, você que é o grandalhão desajeitado aqui. — Dou uma risada ao ver a cara de bobo de Amohi.
— Vamos repassar o plano, certo? — Disse Amohi tentando trocar de assunto. — Nós vamos daqui a pouco para frente do quarto de Galter, consegui uma cópia da chave com Berth. A troca da guarda deve estar acontecendo quando chegarmos lá. Procuraremos pelo compartimento secreto e reuniremos as provas que precisamos, ok?
— Tudo certo pra mim. Já podemos ir.
Eu e Amohi fomos na direção do refeitório e esperamos a troca da guarda. Alguns minutos depois, estávamos na frente de uma porta metálica com duas letras na porta "GM". Galter e Mary, tive um calafrio ao ler essas iniciais.
— Pronto Ryan? Depois daqui não há mais volta.
— Mais pronto do que nunca. — Disse sorrindo.
Assim que entramos no quarto de Galter, noto uma cama de casal na parede ao norte, uma mesa com vários papeis em cima na esquerda e algumas prateleiras na direita. Pude notar uma blusa feminina na cama de Galter, novamente aquela dor no meu peito apertava.
— Ryan, vou procurar perto da mesa e você procura aí perto da cama, certo?
Começo a dar toques na parede perto da cama para tentar ouvir um barulho oco indicando o compartimento que nós precisamos. Não demorou muito para que eu encontrasse o compartimento atrás da cama.
— Amohi, encontrei. — Disse enquanto pegava alguns papéis para ler.
— O que diz nesses papéis?
"Caro comandante, ficamos felizes com o seu progresso na investigação do Oficial Amohi. A muito tempo ele vem demonstrando interesses pessoais na General Mary, prejudicando sua função como protetor do Rei. Nossas averiguações chegaram a conclusão de que Amohi armou aquela emboscada para assassinar a realeza. Sua próxima missão será fazer um estudo minucioso dos próximos passos dele para que ele seja pego em flagrante e assim condenado por traição."
Esses documentos apontam que o culpado é Amohi, mas como eu poderia desconfiar dele? Ele me acompanhou por todo esse tempo e me deu todo o apoio que eu precisava. Não faz sentido ele querer incriminar Galter. Assim que penso essas palavras, minha mente automaticamente cria uma teoria que essa seria a tentativa de tirar a mim e a Galter do coração de Mary. Meu coração doí só de imaginar essa possibilidade. Me nego a acreditar que ele planejou tudo isso. Ainda não há explicação para o corte no braço de Galter. Todas essas provas foram forjadas. Galter está querendo tirar Amohi da jogada para me matar na próxima emboscada.
Em fração de segundos, Galter entra no quarto.
— Aqui está você traidor, guardas prendam ele. — Disse Galter apontando para Amohi.
— Não ousem encostar no meu amigo, ele não fez nada, deve ser algum tipo de engano. — Disse em voz autoritária.
— É tarde demais, o conselho já ordenou a prisão dele. Nem você pode fazer algo para salvá-lo de sua prisão.
— Você quer morrer aqui Galter? — Disse em um tom ameaçador enquanto olhava nos olhos dele. Por pouco não deixei meu cabelo branco.
— Ryan, não faça nada estúpido, tenho certeza de que isso é um mal entendido. Deixarei que o conselho me julgue. Eu não sou um traidor. — Disse Amohi repousando sua mão em meu ombro.
— Muito bem Amohi, você ficará aguardando julgamento até ser chamado novamente pelo conselho. Guardas, tirem ele daqui. — Disse Galter em um tom prepotente.
— Você sabe que eu vou descobrir toda a verdade, não é? Eu ainda vou ter o prazer de te fazer pagar por tudo que você está fazendo.
— Vocês que invadiram os meus aposentos e leram documentos secretos, não fiz nada de errado. — Disse Galter com um sorriso cínico no rosto.
— Bem que eu suspeitei que foi fácil demais, você deixou esses documentos em um lugar fácil de ser descoberto de propósito. Provavelmente essas tais provas são falsas somente para inocentar a sua tentativa de me matar. Você vai pagar por isso! — Dei um soco na parede e me retirei para meus aposentos.
No caminho de chegar lá, fui parado por Ilumi que de alguma forma me convenceu de entrar em seus aposentos para conversar sobre o que aconteceu e como eu deveria prosseguir dali.
Entro no quarto de Ilumi e sou envolto pela iluminação clara e cintilante. Logo vejo uma mesa de planejamento enorme no centro, vários papeis estavam empilhados em cima dela. Observo vários livros em estantes de pedras cravadas nas paredes do outro lado do quarto. Em outro canto do vejo uma cama de casal pronta para receber duas pessoas. Logo que vejo isso, sinto uma palpitação no coração. Próximo a essa cama, havia algumas garrafas de bebida e frutas.
— Agora que nós descobrimos quem estava espionando sua vida, que tal bebermos um pouco para refrescar nossas cabeças? Podemos fazer um brinde, o que acha? — Disse Ilumi soltando um leve sorriso em minha direção.
— Ainda não estou no clima pra esse tipo de coisa, Amohi foi levado preso e poderá ser acusado de traição. — Disse em tom pensativo.
— Deixa disso Ryan, amanhã nós retomamos as investigações para saber quem o ajudou a forjar essas provas contra Amohi. certo? — Enquanto dizia essas palavras, Ilumi ia em direção as garrafas com dois copos na mão.
— Acho que vou me juntar a você, mas em breve tenho de ir dormir, foi uma noite cheio. — Disse enquanto pegava um dos copos cheios de um liquido que tinha cor e cheiro de vinho.
Brindei com ela e tomei um gole daquela bebida. O sabor era bem próximo ao de um vinho, mas tinha um leve amargo no fundo. Assim que dou o segundo gole, sinto algo pontiagudo perfurando minha barriga. Tentei gritar ou pedir por ajuda, mas minha voz não saia.
— Não se desespere majestade, essa bebida travou suas cordas vocais e em breve você vai para um lugar onde ninguém vai te ouvir. — Disse Ilumi com um sorriso de escárnio no rosto enquanto passava a lingua no adaga que me perfurou.
Meus olhos foram se fechando lentamente até eu desmaiar. Acho que dessa vez, eu vou morrer...
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