Flamel
15 Adeus
Notas iniciais
Na ansiedade de saber pra onde eu vou e de onde Mary veio, acordei de madrugada extremamente sem sono e sem muito saber o que faria para acabar com a fome interminável que assolava meu estômago.
Desço as escadas sorrateiramente e logo me encontro na cozinha. Vejo a ruiva cochilando na mesa de jantar. Alguns papeis estão jogados ao seu redor, mas tudo indica que ela está bem relaxada e bem a vontade apesar da posição totalmente horrível em que ela se encontra.
— Mary, acorde. Vá dormir em minha cama.
— Hm, o que ? – Disse ela coçando os olhos e se esticando.
— Pode deitar na minha cama, lá tem vaga pra você. – Disse sorrindo.
— Mas e você? Vai dormir onde? – Indagou.
— Perdi o sono. Supostamente eu estou muito ansioso com relação a minha partida. – Disse andando até a geladeira afim de disfarçar minha preocupação.
— Não creio que eu possa te ajudar muito com isso. – Disse ela com uma voz áspera. – Olha, vou subir e dormir, até mais tarde.
— Algo me diz que a velha Mary está de volta, mas não faz mal. – Digo bem baixinho deitando no sofá.
Estranho refletir que em breve será a ultima vez em que verei meus amigos e o que restou da minha vida aqui na terra. Engraçado ver que eu sempre acreditei na vida fora da terra, mas eu não sabia que eu continha o traços extraterrestres desde que nasci. Não posso voltar pro Fatores e muito menos andar desprotegido ou sem estar preocupado com meus amigos e as pessoas ao meu redor. Odeio essa sensação de ir para um lugar que eu não compreendo. Eu só conheço Mary e Amohi, e digamos que eles não são tão abertos comigo.
Quando dou conta da hora, já é de manhã. Ensolarado como nunca, o dia da despedida mais dolorida da minha vida já começou. Pego minha mala que ja estava na sala, afim de revisar o seu conteúdo – Ou ver o tempo passar até dar a hora de minha partida.– e checar se já separei tudo que vou usar nessa viagem por tempo indeterminado.
*Ding Dong.
— Droga, que campainha péssima, tenho de convencer meu irmão a troca-la. – Digo abrindo a porta.
— Surpresa!
Nos minutos seguintes, todos os meus amigos estavam em minha casa fazendo o maior churrasco que eu havia presenciado, que por sinal incomodou Mary, já que ela não parava de fazer sua característica expressão de ódio mortal por todos.
...
Estamos no quintal dos fundos, a churrasqueira está a todo vapor e eu não sei como, mas trouxeram uma piscina de fibra pro quintal. Estou me sentindo em um filme americano, onde há várias meninas de biquíni e alguns casais subindo pros quartos para fazerem o que quiserem.
...
No horário do pôr do sol, todos se reuniram na grande macieira santa como diria Pietro.
— Agora que nosso idiota preferido partirá pra sabe Deus onde, por favor Ryan, dê-nos o discurso mais chato de nossas vidas. – Disse Pietro em um tom de mestre de cerimonias.
— Sim, discurso! Discurso! – Disseram todos ao mesmo tempo.
— Ok, ok, mas depois não venham reclamar. Primeiramente, isso não é uma despedida, disso eu tenho certeza. Segundo, espero que quando eu voltar, vocês façam a mesma festa que estão fazendo para o nosso até logo. – Todos riram. – Mas falando sério agora, vocês são os melhores amigos que alguém pode ter, sei que pisei na bola inúmeras vezes, mas vocês sempre estiveram ao meu lado pra me ajudar a tomar o caminho mais fácil ou mais correto. Eu amo vocês. Vamos brindar a nossa amizade e a minha breve volta para casa.
— A nossa amizade! – Todos disseram com força e juntos.
...
Depois de me despedir da maioria de meus amigos, chegou a hora do trio que mais será doloroso me despedir. Therese, me abraça primeiro
— Traz um souvenir da viagem, ta? – Disse ela sorrindo e se afastando para dar espaço a outra pessoa.
Pietro me deu um aperto de mão e me deu lançou um olhar de "Vê se não morre pelos lados de lá.".
— Que isso? Vocês ficarão em silencio? – Indagou Marisa.
— Eles se conhecem a tanto tempo que só pelo olhar eles sabem conversar. – Disse Therese.
— Como você sabe disso? – Disse Marisa.
— Eu li num livro. – Therese fazia uma careta de "Sou mais esperta que você".
Marisa me deu o abraço mais longo e mais intenso que ela consegue e me beijou no rosto.
— Eu te amo, Ryan. Você é meu melhor amigo e eu sei que sou a sua também. Não demore para voltar, ok? Pode deixar que melhorarei nos jogos para um dia te vencer, tenho certeza que Pietro me ajudará com isso. – Disse Marisa soltando uma piscadela para meu melhor amigo.
— Idiotas, eu ficarei bem. Preciso que vocês digam ao meu irmão que eu tive de fazer uma viagem com o Fatores e é para ele não se preocupar. E venham aqui me dar um abraço em grupo, eu amo vocês e já estarei de volta. – Disse agarrando a todos quase que a força.
— Vamos Ryan, já está na hora. – Disse Amohi quebrando um pouco o clima.
— Certo, então pessoal, é isso. Depois eu volto, ok? – Disse sorrindo e conduzindo-os até a porta.
— Esperaremos por você, tenha certeza disso. – Disse Therese.
— Relaxe. Adeus. – Disse enquanto fechava a porta.
— Ryan, explicarei como as coisas funcionarão lá em cima. – Disse Mary.
— Acho que sua ficha cairá em breve. – Sorriu Amohi.
— O que faremos? Vai descer uma nave aqui ou algo do tipo? – Indaguei.
— Estamos prontos capitão. – Disse Mary.
Um feixe de luz percorreu meu corpo e em instantes estávamos em uma sala cinza e bem iluminada. Nela havia vários instrumentos brilhantes, parecia muito uma cabine de avião só que muito mais espaçosa. Também tinha umas espécies de cama que se encaixavam na parede. E por fim, duas portas que provavelmente era a cozinha e o banheiro e duas pessoas com roupas terrestres.
— Bem vindo Ryan, estávamos te esperando. Eu sou o capitão Cryn e esse é meu co-piloto Gusharir, mas pode chama-lo de Gush.
Cryn era um pouco mais baixo que eu e com um cabelo negro como a noite que vinha até o ombro. Tinha uma barriga formidável, parecida com a que eu tinha antes de Mary aparecer. Seu olhar transparecia um pouco de preguiça e desleixo, mas ao mesmo tempo me dizia que ele era alguém em quem confiar.
Gusharir era do tamanho de Amohi e tinha um rosto tão sério quanto o de Mary. Sua cabeça careca brilhava como um sol artificial, mas seu olhar transparecia muita dor e escuridão
— Capitão, reporte. – Disse Mary.
— S-sim general. – Disse Cryn batendo a palma de sua mão direita no punho de sua mão esquerda. – Nenhuma nave do exército jandariano nas proximidades. Estamos prontos para viajar.
— Certo. Ryan, deite-se aqui. – Disse Mary enquanto arrumava uma espécie de maca.
— Só pra você saber, não estou com sono. – Disse sorrindo enquanto deitava.
Ela se reclina e pega em meu rosto, me trazendo cada vez mais para sí. Não cedo e logo nossas testas se tocam tornando uma só.
Tudo que eu vejo é um vasto reino e um planeta verde e azul como a terra. Começo a escutar uma voz nada familiar.
— O nome dele é Jandar e se encontra a milhares de anos luz da terra. Lá existe uma tradição, que a cada 100 anos os genes do rei anterior é enviado a os planetas humanoides, afim de aperfeiçoar o seu governante com novas vidas. Essa tradição é feita à milhares de anos desde a criação de Jandar por Onir o deus pai de todos nós. Ele controla todo o fluxo de vida dos Jandarianos e do universo.
A imagem muda para um homem com um manto verde e todo bordado com uma grande capa vermelha com algumas penas como acabamento em seu final. Ele aparentava 80 anos de idade e tinha uma longa barba. Seus olhos já estavam cansados de lutar, o que significava que ele já estava no final de sua vida.
— Esse sou eu, Donuc Jandar. Originalmente eu sou de Pandain, mas fui escolhido como sucessor governante de Jandar. Eu fui traído pelo meu próprio filho.
A imagem muda para um jovem de cabelo azul escuro, com olhos profundos e marcantes. Um sorriso maléfico é esboçado por esse homem. Ele desembainha sua espada e furtivamente acerta o peito de seu pai. Logo ele limpa o cabo da espada com um pano e poe sua arma na mão do corpo que já se encontrava inerte. Ele grita para os guardas o ajudarem, pois o rei se “suicidou”.
— Assim eu fui morto pelo meu próprio filho. Como havia um protocolo, que dizia que até completar o ciclo de 100 anos o filho do rei torna-se seu sucessor até que o novo ciclo chegue. – Após uma pausa a voz continua. – Meu filho tomou o poder e trancou todos os processos ligados ao genoma e aperfeiçoamento do rei, entretanto, um grupo pequeno de concelheiros fieis a mim a tradição e enviou os genes para planetas distintos e um deles foi a terra. Sim, você é um dos meus candidatos a ser rei de Jandar. Se você estiver recebendo essa mensagem, quer dizer que você foi recepcionado por uma guardiã dos rebeldes. E a gravação do meu genoma me possibilitou criar essa imagem para você mesmo depois de morto. Sua missão é simples, proteger o candidato até que ele tivesse 25 anos de idade, que é quando o corpo está pronto para receber o genoma Jandariano e assim vir a Jandar ser escolhido pelo próprio Onir para ser o novo rei.
A imagem do planeta verde e pacífico muda para um planeta dominado pelas trevas e ambição, há imagens de seres parecidos com humanos, suas únicas diferenças são sua pele um pouco mais pálida e seus olhos avermelhados. Todo esse povo estava desunido e confuso pela ditadura imposta por um rei que nunca viram.
— O tempo da mensagem está acabando. Quem falou foi o rei que está nos seus genes, tudo que você precisava era que o guardião te desse um empurrão. Sei que minha falha não pode ser reparada, mas você é um de nós, e acima disso você é rei. Não deixe seu trono ser pego e seu povo ser devastado. Mantenha o legado dos reis e acima de tudo seja você mesmo.
Tudo parecia claro para mim, mas de alguma forma eu já sabia que toda essa confusão dos homens e aquelas lanças, aquele líquido vermelho, todas as mudanças na minha vida. Tudo começou quando eu nasci e sentenciei minha família a morte. O fato dos meus pais precisarem ter morrido para que eu viva os sonhos dos outros é a prova concreta disso.
Toda aquela dor que eu sentia pela falta deles se torna cada segundo mais forte. Eles morreram por mim e não foi um assalto comum como mamãe havia me contado. Meu sonho foi real, foi um jandariano que matou minha família. Eu fui o causador de todo o sofrimento de minha mãe e de meu irmão.
Logo abro meus olhos e percebo que Mary me abraça.
— Ryan, eu sei que é muita coisa, mas por favor não deixe a morte dos seus pais serem em vão. – Disse ela.
— O que você sabe sobre meus pais? Eu sofri como ninguém a morte deles, e agora que eu sei que a morte deles foi por minha causa. Eu não posso me perdoar. Eu fiz muitas pessoas sofrerem e ainda estão sofrendo. – Digo inconformado.
Ela me encara com um olhar tão profundo, e logo depois sinto uma lágrima escorrer de seu rosto e todo um formigamento percorrendo o meu corpo. Ela nunca havia demostrado qualquer tipo de afeto.
— Mary … – Lágrimas percorrem meu rosto.
— Ryan, conte comigo para tudo que você precisar. Me mandaram aqui somente para te dar esse recado e te levar para Jandar. Eu também tenho algumas dívidas que quero pagar, por isso aceitei tão facilmente essa missão. – Completou ela me fitando como nunca havia feito antes.
Logo a vejo saindo de meu abraço e indo para trás. Ela me dá um sorriso tímido e vai de encontro com o capitão da nave, mas em poucos segundos ela retornou.
— Ryan, nós ficaremos em sono profundo por dois anos. Sei que é bastante tempo, mas fique tranquilo, passará bem rápido, ok?
— Por que isso tudo? – Indaguei.
— O exercito Jandariano está vigiando os portais que servem como atalho pelo universo, então temos de pegar uma rota um pouco mais longa de atalhos. Normalmente, essa viagem duraria de 2-3 horas, mas fique tranquilo.
—Ok. – Disse enquanto ela apertava um botão que ficava perto de onde eu estava dormindo.
Uma proteção de acrílico surgiu na minha frente e trancou em minha cama. Logo depois a plataforma se moveu e se prendeu na parede da nave.
— Boa noite Ryan, logo estaremos lá. – Disse Mary sorrindo enquanto minha visão ficava turva.
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