Flamel
22 A Missão
Notas iniciais
A ruiva me deixou com quatro guardas para ajudar a vasculhar o local atrás de mais informações e documentos. Eu fiquei muito pensativo nas palavras que Raenuc havia proferido. "Só preciso desestabilizar o núcleo do planeta e tudo vai ficar bem, para mim, é claro.". Um calafrio percorreu minha espinha, preciso contar isso a Mary na primeira oportunidade.
Depois de vasculharem o lugar, eles vieram desapontados, pois não encontraram nada. Não era surpresa para mim, Galter parecia ser o tipo de pessoa que pensava nos mínimos detalhes para não levantar suspeitas.
— Mary, preciso falar com você. Raenuc esteve aqui. — Assim que proferi aquele nome, senti o ar do lugar mudar. — Ele disse algo sobre destruir o planeta e ir reinar na terra. Lembro dele falando sobre desestabilizar o núcleo do planeta.
— Isso pode ser plausível. Nós temos de voltar o mais rápido possível para o QG reunir informações e preparar uma contramedida. — Disse Mary. — Antes de tudo, você está bem? Descobrimos que Amohi foi preso por Galter um pouco antes de te sequestrar, dê-me os detalhes durante o caminho.
Quando saímos do que parecia ser uma espécie de bunker subterrâneo, fiquei sabendo de um dos guardas, que nós estávamos perto da capital do planeta. Um lugar que era perigoso para nós da resistência. Tudo que eu via era uma cidade totalmente destruída onde só havia escombros. Não fiquei surpreso. Isso é o reflexo do tipo de governador que Raenuc é. Toda vez que lembro dele e de seu olhar, com mais raiva eu fico.
No caminho para o QG, utilizamos uma nave igual à que me trouxe para esse planeta. Aproveitei para tomar um banho e contar tudo o que houve para Mary. A ruiva parecia abalada, pois o homem que jurou ama-la, na verdade era um traidor e não se importava com a vida dela.
— Mary, você está bem? Me desculpe ser o mensageiro de más notícias. Amohi sabe o quanto eu fiquei incomodado com o jeito que Galter olhava e se comporta quando estava na minha presença. A impressão que eu tinha é que ele não conseguia manter o “personagem” que ele fazia, pois o ódio que ele sentia por mim era grande demais.
— Sim, ele te odiava, mas era porque eu mudei bastante desde que te conheci. Eu simplesmente não conseguia ter o mesmo tipo de relacionamento de antes com Galter. Ainda não sei o que é isso. Peço para que você entenda. — Disse Mary enquanto seu rosto ruborizava.
— Eu entendo. Me desculpe por tentar te esquecer usando outra pessoa. Apesar de que essa minha aventura rendeu. — Disse enquanto soltava um leve sorriso.
Mary parecia inalterada, algo me diz que ela queria me bater, mas ao invés disso, ela me abraçou e disse pra eu não a preocupa-la mais assim. Acho que vou demorar pra me acostumar com esse jeito mais carinhoso de Mary.
Quando chegamos ao QG, Amohi está a minha espera no portão.
— Amohi! Que bom que você está bem, eu fiquei muito preocupado. — Disse enquanto dava um leve soco no ombro do brutamontes.
— Sabe como é, né? Sou amigo de todos os guardas da prisão, então ocorreu tudo bem. — Ele sorria descontraído, até que sua face se tornou mais séria. — Você está bem, Ryan? Esses últimos dias não foram fáceis pra ninguém.
— Estou sim, depois nos falamos melhor, eu e Mary precisamos nos reunir com você.
Mary me disse para ir na frente, pois ela ia reunir vários oficiais para essa reunião. Andei por aqueles salões mais uma vez, algo me dizia que essa era a ultima oportunidade de admirar essa estrutura alienígena. Fiz questão de gravar cada detalhe daquilo na minha cabeça. Uma parte de mim ficará nesses salões. Espero que ele só seja usado para festejar.
Depois de chegar naquela mesma sala em que interrogamos Berth à dias atrás, as cadeiras ainda estavam bagunçadas do mesmo jeito que deixamos. Sentei-me em uma delas e esperei alguns minutos até que eles chegaram.
Mary veio acompanhada por Amohi e mais duas pessoas que eu nunca vi antes. Um deles era um senhor de idade, praticamente calvo e baixinho, ele usava uma bengala prateada com uma joia vermelha onde ele colocava o punho. Eu conseguia sentir uma forte energia vindo dela. Logo senti que aquilo era uma flamel. O outro homem tinha um ar mais ameaçador, era quase tão alto e forte quanto Amohi, tinha uma pele levemente bronzeada. Ele não parecia Jandariano, parecia alguém que vive em um lugar tropical.
— Senhores, lhes trouxe aqui para dar uma noticia preocupante. — Começou Mary. — A alguns dias, Vossa majestade foi sequestrada e mantida em cativeiro perto da antiga capital por dois traidores da resistência. Lá, ele recebeu a visita de Raenuc, o falso rei, que no meio de sua loucura, disse a Majestade que iria desestabilizar o núcleo do planeta para destrui-lo e constituir novo reino no planeta terra.
— Vocês tem certeza disso? Se isso for verdade, isso vai ser um desastre para todos nós! — Disse o bronzeado.
— Acalme-se jovem, o problema de vocês inexperientes, é a paciência. O que vocês averiguaram? Há algum lugar que isso pode acontecer? — Disse o outro enquanto batia com sua bengala no chão.
— Há ao todo três minas de Falir em que uma explosão massiva pode desestabilizar o planeta. — Disse Amohi enquanto tirava um mapa dobrado do bolso e colocando-o aberto na mesa.
— Aqui, aqui e aqui. — Apontou a ruiva para os locais marcados.
— Me desculpe vossa majestade, não me apresentei. Meu nome é Duncan, nós estávamos em uma missão como a de Mary. Não sabíamos em qual planeta o fruto do rei iria vingar, então viemos o mais rápido possível. — Disse o homem de bengala enquanto apertava minha mão. — Esse brutamontes aqui é Bantro, ele é o guerreiro nato, mas impaciente. ele era o meu parceiro de missão no planeta Tundra.
— Não precisam ser tão formais, prefiro que me chamem de Ryan, me sinto mais confortável assim. Já que temos três possíveis lugares para ir, Mary, Duncan e Bantro vão comandar equipes que vão verificar cada um desses lugares e eu vou ficar aqui? Já vou avisando que eu não vou ficar parado enquanto vocês correm risco! — Disse com um tom mais ríspido para mostrar meu descontentamento.
— Ryan, você tem de entender que você acabou de ser resgatado de um sequestro, não podemos deixar você sofrer esse tipo de risco novamente, sua vida é muito importante para todo o reino. — Disse Amohi.
— Majes... Ryan, nós precisamos de você a salvo para dar um destino melhor para a nação jandariana. — Disse Duncan.
— Que tipo de rei eu seria se deixasse que outros lutem minhas batalhas? — Exclamei enquanto bati minha mão na mesa da sala de reuniões. — Me desculpem, eu não quero ser um fardo a todos vocês, acho que deixei me levar pelas emoções.
— Ryan, já que eu sei que você é teimoso demais pra aceitar, vou levar você e Amohi no meu esquadrão para garantir que ambos os lados fiquem satisfeitos. Os soldados ficarão felizes em lutar do lado do homem que conseguiu vencer Galter. — Mary foi interrompida por uma batida.
A ruiva foi em direção daquela grande porta de madeira. Não consegui ver quem era, mas logo Mary fez um gesto de agradecimento com a cabeça e pude notar que ela tinha três papeis na mão.
— Senhores, um de meus espiões conseguiu a planta das três minas em questão. — Disse Mary enquanto organizava os papeis na mesa. — Temos de pensar qual é o lugar mais provável em que ocorrerá o ataque.
— Ryan, você tem mais alguma informação sobre esse ataque? — Disse Amohi.
— Não, já falei tudo que eu sei. Pensando bem, ele parecia ansioso, mas disposto a fazer isso com calma. Verifiquem esses mapas e vejam qual mina tem o caminho mais longo para colocar uma bomba. Tendo em vista que ele é um cara frio, provavelmente ele vai se precaver em relação a Galter falhar em sua missão e vai querer mudar de lugar assim que souber de algo dando errado. — Disse enquanto olhava para aqueles três papeis em cima da mesa.
— Faz sentido. Será que ele mudou de local? — Disse Duncan.
— Talvez. Se ele é esperto, ele vai prever que pensamos isso e vai continuar parado no mesmo lugar para ficarmos brincando de gato e rato. — Disse Amohi.
— Vamos fazer assim, eu pego o lugar mais isolado. Duncan, já que você é o mais experiente, pegue a mina mais ao norte, pois é o lugar mais provável. — Mary apontava para um circulo com dois pontos marcados.
Duas minas são próximas uma da outra. O local que eu, Mary e Amohi e mais alguns soldados vamos, fica no extremo leste do continente onde estávamos. A mina que Duncan vai é mais ao norte, somente alguns minutos de onde estávamos. Bantro vai um pouco mais ao sul da mina do velho.
— Só uma duvida. — Disse Bantro enquanto levantava a mão. — Ao encontrarmos a bomba, como nos livraremos dela? Acho que nem o mais forte de nós tem a habilidade de conter uma explosão tão grande.
— Nós teletransportaremos a bomba de dentro da mina e a levaremos para uma nave, onde remotamente, ela será controlada para sair do planeta e explodir. Nunca foi tão fácil salvar o mundo. — Disse Amohi esboçando um sorriso.
— Quando partiremos? — Indaguei.
— Amanhã pela manhã! — Disse Mary enquanto ia na direção da porta da sala. — Temos de resolver isso o mais rápido possível.
No dia seguinte, quando cheguei no salão onde tive meu primeiro confronto com Galter, vi uma multidão esperando por mim. Quando eles me viram, todos começaram a me aplaudir.
— Como vocês pediram, aqui está vossa majestade. Por favor, não fiquem muito em cima dele, ele mal chegou e já está indo com um dos esquadrões ajudar a eliminar a ameaça que o falso rei impôs ao nosso querido planeta. — Disse Amohi em cima do palanque fazendo um gesto para que eu subisse ali.— Vosso rei irá dizer algumas palavras para vocês.
Fui em direção a Amohi que só me falou para ser sincero e dar coragem a eles. Depois de alguns momentos de silencio, pude notar olhos cheios de calor e esperança. O fato de eu ter sobrevivido ao cárcere, os encheu de alegria. Eu estar vivo e discursando só os deixava mais animados e confiantes para a batalha que viria.
— Não sou muito bom com palavras, mas eu quero deixar bem claro que eu só sobrevivi, porque criei grandes laços com vocês e eu sei que eu preciso de vocês para encaminhar Jandar para um futuro próspero e longe dessa onda de terror. Vejo no rosto de vocês alegria e coragem para dar mais esse passo. Muito obrigado por estarem ao meu lado nesse momento. Pessoal, mais uma coisa, peço para que não me chamem de majestade, podem me chamar de Ryan. — Sorri enquanto coçava minha nuca.
Depois daquelas palavras, toda multidão deu gritos de guerra e abraçaram uns aos outros. Confesso que estou muito feliz pela reação deles, eu só disse o que veio até minha mente. Conto com eles para me proteger e também quero protege-los. Isso me lembrou da relação que eu tinha com os meus amigos na terra. Sinto saudade deles.
Momentos depois, me vejo abordo de uma nave que parecia mais um helicóptero cargueiro. Outras duas haviam partido para as outras localizações. Não demorou muito tempo até Mary me chamar no canto pra falar comigo.
— Como você se sente?
— Pode ficar tranquila que eu estou bem, sério mesmo. Sei que esses últimos dias foram problemáticos, mas estar com vocês novamente, revigorou minhas energias. — Essas palavras saíram da minha boca seguidas de um sorriso.
— Caso tenha algo te incomodando, pode comentar comigo. — Disse a ruiva enquanto colocava uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha.
— Muito obrig...
Fui interrompido pelos olhos dela. Eles me chamavam e queriam que os meus ficassem cada vez mais perto dos dela. Vi que ela umedeceu seus lábios segundos atrás. Instintivamente, inclinei meu corpo na direção dela. Meus lábios quase estavam tocando os dela até o momento que Amohi chega.
— M-me desculpe interromper, pediram pra eu vir aqui para avisar que nós chegamos ao nosso destino. — Amohi estava todo corado e evitava olhar em nossa direção.
— Err... — Uma espécie de grunhido abafado saiu da boca de Mary, que logo se pôs a arrumar seu cabelo.
— Obrigado Amohi, já vamos para a saída. — Disse com o rosto extremamente corado.
— Entendido, estou de saída. — Disse a ruiva que rapidamente já estava camuflada na multidão dentro daquela nave.
Perdi uma grande oportunidade de demonstrar meu afeto a ela. Agora vou me esforçar muito mais para concretizar essa missão e continuar da onde nós paramos.
A grande rampa traseira que servia de porta para nossa nave, se abriu revelando um lugar com uma enorme cratera parecida com o Grand Canyon, pude avistar várias cavernas que, na verdade, eram as entradas para o subterrâneo. Um frio percorreu a minha espinha, mas eu sei que eu preciso ajudar a todos da melhor forma possível. Eligor esquentou minha mão em sinal ao meu nervosismo, me acalmando e me deixando mais confiante do nosso triunfo.
Fale com o autor