Flame
1 Como uma floresta em chamas
Notas iniciais
Como uma floresta em chamas
(ou sobre o amor, a guerra, nascidos-trouxas e papagaios infernais)
Se alguém perguntasse aos outros três Marauders um fato sobre James Potter, iria escutar respostas diferentes de cada um. Remus, todo sério e fielmente dedicado aos amigos, pensaria por uns bons trinta minutos antes de responder, com um minúsculo e irônico sorriso: “James faria qualquer coisa por seus amigos”. Peter, sempre atrapalhado e tímido, gaguejaria, apressado, algo como “É, sabe como James é, meio cabeça dura. Quer dizer, não como uma coisa ruim, mas… ah, tenho um horário de Poções agora. Tenho que ir, foi mal, eu…” e dispararia pelo corredor como um dos Tutshill Tornados na final do campeonato britânico. Sirius, daquele jeito despojado e conquistador, abriria um sorriso enorme, daqueles de tomar o rosto, antes de, bagunçando o cabelo do interlocutor, dizer: “Cara, é o James. Ele é simplesmente o cara”.
Mas, caso o assunto viesse à tona, todos os Marauders estariam prontos para jurar que James não era, nem um pouco, nem de perto, uma pessoa purista ou segregacionista. Nem podia ser, aliás — James Potter, aquele cara, o capitão da equipe de Quadribol da Grifinória, o Marauder, o quebrador de regras, o melhor aluno de Transfiguração que McGonagall teve desde que começou a lecionar, era nascido-trouxa.
E foi esse fato que chocou a escola quando, nos meados do segundo ano de James em Hogwarts, ele montou numa vassoura como quem tivesse feito isso durante toda a vida e, quebrando todas as expectativas, foi aceito na equipe de Quadribol da Grifinória.
*
“Isso é rídiculo” esbravejou o garoto que, no auge de seus doze anos, tinha quase 1,70 m de altura. Alto para sua idade — mas não tão alto quanto a sua revolta. “Qual o problema desses idiotas?” rosnou para Sirius, seu melhor amigo/camarada/companheiro de confusões, enquanto abria caminho por um mar de estudantes de vermelho e dourado que olhava, atônito, a pichação nas paredes do vestiário masculino.
Se Sirius fosse uma outra pessoa que não Sirius, ele teria abaixado a cabeça e deixado James esbravejar com o vento. Mas se fosse assim, ele não seria a pessoa que James mais confiava naquela escola.
“São um bando de cobras desgraçadas. Se acham melhores que todos os outros porque tem sangue-puro” Sirius cuspiu as palavras como quem toma uma dose muito amarga de uísque-de-fogo.
“Isso é ridículo” James repetiu, mais uma vez. “Julgar alguém só pelo sangue que tem? É loucura. É diminuir a capacidade das pessoas, como se elas fossem diferentes só por que tem um tipo diferente de plasma e hemoglobina”
“É por causa da magia, também” A dupla de grifinórios se virou para encarar sua colega de casa. Lily Evans, doze anos, cabelo vermelho preso num rabo de cavalo alto, suspirou. “Segundo eles, o tempo em que a magia está no sangue da família importa — deixa ela mais forte, mais pura”
“Eu nunca ouvi uma baboseira tão grande desde as últimas férias de verão na casa dos meus parentes” Sirius comentou, torcendo a cabeça para trás, somente para ver Lily Evans de pé, de braços cruzados e uma sobrancelha arqueada.
“Não tem nenhum embasamento científico também, a propósito. Cientistas e pesquisadores da magia até hoje não conseguiram nada que comprove essa loucura. Mas algumas famílias de ‘sangue-puro’ usam esse argumento para justificar seu preconceito” Lily revirou os olhos verdes. Talvez James tenha prestado um segundo a mais de atenção no movimento que a boca dela fez ao se torcer numa careta de desgosto.
“Não consigo acreditar em como as pessoas — bruxos, ainda por cima — podem ser tão ignorantes assim. Tão cegas. Será que não percebem que essa estupidez não os torna superiores, mas só idiota?”
“É que toda pessoa preconceituosa é burra” resmungou Lily, descruzando os braços para pegar a varinha do bolso das vestes. “Agora, se puderem me dar licença…” Fez, metendo-se no espaço entre os dois. Ela lançou um breve olhar para a pichação vermelha, antes de acenar com a varinha e murmurar alguma coisa que James não conseguiu entender.
Caiam fora, escória de sangue-sujo
As palavras foram se tornando mais e mais claras, até que desapareceram completamente, deixando somente a parede do vestiário por trás. Alguns murmurinhos foram ouvidos da multidão de alunos que tinha se reunido, como o bando de curiosos que eram.
“Evans é mesmo uma bela de uma chata” resmungou um quartanista da Grifinória que esbarrou neles ao passar. James o reconheceu como um dos candidatos a artilheiro naquele ano — a mesma vaga que ele aspirava.
“Hey, Potter” Lily chamou. “Me faça um favor? Ali no campo, vença cada um desses canalhas puristas!” Como quem sela um acordo, James concordou com um aceno de cabeça pesado. Um sorriso maroto se espalhou por seu rosto.
“Com todo prazer”
*
Naquela tarde de sábado, James não apenas voou. Ele rompeu o vento como um cometa e rosnou para cada adversário e oponente que ousou se aproximar dele no seu caminho para os aros. Manobrou com a habilidade de um mestre, de um profissional, de um lutador, aquela vassoura de segunda mão que ele comprou economizando cada moeda furada que conseguiu juntar desde o começo do ano anterior.
E James marcou um, dois, quatro gols em sequência — ele mal tomava consciência do que estava fazendo, mas sabia que precisava continuar a marcar. Não só pela vontade que ele tinha de entrar pro time, mas também pela maneira como Evans o olhou com aqueles olhos verdes e a sensação que atravessou o corpo de James.
A sensação de ter um propósito. Uma causa. Uma razão para continuar marcando pontos e cortando o vento e dançando a quase dez metros de altura.
Naquela tarde de sábado, James não apenas ganhou a tão sonhada vaga na equipe de Quadribol dos sonhos. Ele ganhou a vontade de lutar pelos seus direitos — pelos direitos de outros que, como ele, eram menosprezados pelo fato de não virem de uma família de sangue puro.
Linda… da mesma forma que uma floresta em chamas. Ele quase consegue ver as chamas dançarem nos olhos dela, olhos esses que se erguem com ferocidade para queimar qualquer idiota que interrompa o caminho dela. Lily é linda. Como o fogo — e como o fogo, ela não apenas passa. Ela destrói.
James abaixa a cabeça e esconde um sorriso radiante porque, pelo menos uma vez, não é ele o idiota que Lily vai incendiar.
“Não é realmente necessário” James pede, lutando para manter o passo dela. Lily mal o escuta — quase como se não tivesse consciência da presença dele. James só sabe que foi notado porque Lily responde, baixinho, quase baixo demais: “Ele não tem esse direito, Potter. Não tem esse direito!”
Lily marcha pelo gramado e a impressão que James tem é que está assistindo a colisão de dois trens em alta velocidade. Belamente letal. “Snape!” Lily chama, assustando um pequeno grupinho sentado a beira do lago. Um coro de vaias se ergue e um menino pálido é empurrado para fora do ninho de cobras — um mau caráter que James conhece muito bem.
O rosto de Severus Snape se iluminou ao ver Lily — e no segundo seguinte, mergulhou nas trevas porque notou James, alto e risonho, ao lado dela.
James não se considerava uma pessoa anti-sonserinos. Merlin, olhe Andrômeda, prima de Sirius — a garota era simplesmente fantástica, uma raridade naquela casa de cobras. Mas o fato de Snape em especial estar naquela casa… Bom, James era realmente anti-Snape.
(Assim como anti- qualquer imbecil totalitário e controlador que julga os outros com base em preconceitos burros e sugere o extermínio de seres humanos).
A voz de Lily se eleva dois decibéis, o que chama James de volta a realidade.
E a realidade é uma briga de proporções colossais que James assiste, atônito.
*
Lily é linda como uma floresta em chamas. E é lindo vê-la fazer o que sabe fazer melhor — queimar. A ira de Lily Evans arde como fogo naquela tarde nublada. Ela arde sobre Snape e arde sobre a trupe de mini-Comensais da Morte com quem ele se aliou. A ira de Lily arde sobre os idiotas que fizeram comentários preconceituosos sobre nascidos-trouxas.
É lindo ver Lily arder, como é lindo assistir, de longe, uma bomba nuclear explodir.
Lindo, mas devastador.
Lindo e voraz.
Linda e totalmente consumida pelo próprio fogo.
É lindo e é triste e James vê as lágrimas que correm pelo rosto sardento da ruiva quando ela dá as costas para todo mundo no gramado e volta para dentro do castelo.
É especialmente triste quando James se vê ali, parado ao lado de Snape, que o odeia e sibila palavras de ódio, observa Lily olhar para trás, não para ele, mas para o sujeito que um dia foi o melhor amigo dela.
*
Molhando o rosto mais uma vez, Lily se mirou no espelho. Olhos esmeraldinos, bochechas tão finas que davam a impressão que ela não era humana. “Como o fogo” sua mãe costumava dizer, nas poucas vezes que se dava ao trabalho de colocar Lily para dormir a noite; ela a encarava com lindos olhos azuis melancólicos e geralmente beijava a testa de Lily muito rápido, como se encostar os lábios na testa da própria filha fosse fazer ela queimar.
"Garotos são todos idiotas" Marlene comentou, da porta do banheiro. Lily controlou a respiração e virou para sua melhor amiga, de braços abertos. A ruiva mergulhou no abraço e se concentrou em sentir o perfume adocicado de Lene.
"Nem todos, Mar" sussurrou Lily. Ela apertou os olhos — a imagem de Sev gritando aquelas palavras horríveis e ácidas em seu rosto, o garoto que Lily considerava seu melhor amigo. E dele sua mente correu para Potter, parado como um pateta enquanto eles discutiam. "Mas a grande maioria"
“A grande maioria o caralho!” Marlene bradou, puxando Lily de volta para a cama vermelha — vulgo O REFÚGIO para momentos de desespero emocional. Os cabelos vermelhos espalhados no travesseiro, quase se camuflando com as cores de sua casa, Lily enxugou as lágrimas e escutou, fazendo comentários ocasionais, Marlene reclamar de homens cis hétero fazendo merda.
Às vezes, escutar sua melhor amiga gata-para-caralho falar mal de ex-namorades enquanto trocam ocasionais selinhos de gastação do ódio é tudo o que uma garota precisa para esquecer o ex-melhor amigo que desgraçou com a cabeça dela.
“E o que eu realmente quero dizer com toda essa merda” concluiu Marlene com um suspiro agitado. “É que o Snape é um ser humano de merda e você não deveria se importar tanto com o que ele diz ou fala sobre você, Lils”
“A questão é que eu conheço esse ser humano de merda desde os sete anos, Mar. Ele é… era meu melhor amigo. E isso me machuca — ver ele andando com assassinos, puristas e Comensais da Morte em tudo, menos no nome. Pessoas que querem me matar, que querem matar outras pessoas, milhares de pessoas, tudo por causa da porcaria do sangue”
Para Lily, falar sobre Severus era como tentar cuspir uma ferradura quente presa na garganta. Ela fechou os olhos e tentou associar o menino com quem chegou a compartilhar uma cama e trocar segredos sobre suas famílias quebradas com o sonserino cheio de ódio que disse, com todas as palavras, que ela era uma mestiça imunda.
Mestiça. Imunda.
“Se ele não respeita quem você é, a sua existência, então ele nunca foi seu amigo, Lils. Se ele te apaga e te invalida, ele não te quer, mas sim a ideia que tem de você. O Snape é um babaca purista, Lils. Se ele acha que o fato de a sua avó ser veela ou de você às vezes querer beijar uma menina também são mais importantes que o mulherão foda que você é, então ele é um bosta que não deve nem ser considerado um ser humano!”
Lily riu. “Mar, talvez eu ame você”. Jogando os cabelos por trás do ombro, a morena riu. “Não, com certeza você me ama. Você só não quer beijar minha boca, sua tóxica” E puxando Lily para um abraço, continuou. “Apenas brincando. Enfim, sabe o que é que nós duas precisamos?”
“Bombas de Creme?” Lily devaneou, o estômago de repente roncando mais alto do que ela esperava.
“E Tortinhas de Abóbora” acrescentou Lene, saltando da cama. Lily lançou um olhar cúmplice para sua melhor amiga no mundo inteiro.
“A gente vai casar agora!”
“A gente vai casar quando você deixar de ser trouxa, Evans! Enquanto isso não acontece, a gente vai é assaltar a cozinha!”
*
Fato observável sobre James Fleamont Potter: ele era incapaz de se concentrar na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. O professor daquele ano — um escocês casmurro de barba verde — tinha uma voz lenta, puxava demais as vogais, e seu rosto era fácil de odiar; para não criar problemas para si mesmo, James jogou suas coisas em uma carteira no fundo da classe. Sirius, Remus e Peter, o trio de traidores, havia matado aula sem ele.
Era muita humilhação para uma pessoa só — e isso porque o relógio ainda nem marcara dez horas da manhã de uma terça-feira. Ele abaixou a cabeça e se ajeitou na carteira, procurando a melhor posição para dormir. Um feito muito díficil quando a voz do seu professor é igual a de uma hiena com insuficiência renal.
“Hey, posso sentar aqui?” O coração de James pulou como uma bailarina correndo atrás de um elefante. Ele abriu um único olho para fitar a beleza ardente que era Lily e se permitiu contemplar o quão linda ela ficava com rabo de cavalo.
James se afastou para dar espaço para ela — o perfume de flores dela invadiu o espaço-tempo de James e, por um maravilhoso instante, ele flutuou. “Eu sempre me pergunto como uma pessoa pode ser tão insuportável quanto o Bittencross” comentou James, lançando um olhar de esguelha para o bruxo de capa escura na frente da sala.
“Sim! Cara, eu não aguento mais. Lá na frente é insuportável! Eu sinto vontade de me jogar dessa janela a cada vez que eu entro na sala” Lily concordou enfaticamente.
Trocaram mais algumas palavras sobre o quão idiota era o mestre em DCAT e depois um agradável silêncio se sucedeu. James enfiou a cabeça nos braços e tentou não corar a cada vez que aspirava o perfume de Lily. A garota, por outro lado, encostou-se no banco e sentou-se com as costas elegantemente retas.
James quase se esqueceu da presença dela depois de um tempo. Quase.
“Hey, Potter” chamou Lily. “Sinto muito por ter saído daquele jeito e te deixado lá com Snape — eu só não aguentava mais olhar na cara daquele imbecil”
"Bem, na maior parte do tempo eu também não suporto olhar naquela cara sebosa dele" James puxou o trocadilho, mas a expressão de Lily era séria. Oh, mandou bem, campeão. "Foi mal, realmente não era a hora. Desculpa perguntar, mas vocês eram muito amigos?"
"Eu o conheci quando criança. Ele cresceu no mesmo bairro que eu — meu primeiro amigo" Lily disse, num jorro de palavras. James viu quando ela parou para tomar ar, se acalmar. Havia alguma coisa hipnótica na cena. "Mas enfim, acabou. É como Marlene diz, não dá pra me relacionar com alguém que não suporta minha existência".
"Esse tipo de pessoas é melhor cortar da nossa existência" concordou James. "Como os puristas desgraçados que se acham no direito de rir de mim e me diminuir porque não nasci de pais bruxos".
"Idiotas, todos eles" concordou Lily. "E é completamente absurdo esse termo, nascido-trouxa. É purista de toda forma, mesmo que possa… piorar" Ela lançou um olhar de esguelha para James, que deu de ombros.
"Bah, pode dizer. Sangue-ruim, bela merda. Eu não me importo. Quer me julgar, julgue, mas me julgue pelo que eu fiz. Mas enfim, o que você dizia?" Ele piscou os olhos para Lily. Era um blush nas bochechas dela?
"Que não existe como alguém nascer-trouxa. Se você nasce com magia, você é um bruxo, mesmo que toda a sua árvore genealógica não seja" Lily finalizou, tomando fôlego.
"Garota!" James forçou a voz para que soasse irônica mas que, ao mesmo tempo, fosse baixa o suficiente para escapar aos ouvidos de Bittencross. "Isso é o que eu sempre quis dizer. Quer dizer, é loucura, sabe? Dá a ideia de que você 'roubou' a magia em algum momento, de outra pessoa!"
"Sim! E tudo isso pela base purista da nossa sociedade" Lily pausou a afirmação. Ela lançou um olhar ao redor. Alice, uma das meninas que dividia o dormitório com ela, fazia uma bolinha de papel dar acrobacias pela sala. O namorado dela, Frank, comandava um pequeno exército de materiais escolares contra um menino da corvinal. "Ah, eu não consigo entender isso. Porque os bruxos perseguem tanto as pessoas que tem magia, mas que não são como eles"
"Ei, Evans. Você sempre fala em bruxos como se não fosse uma. Mas você é…?"
"Puro-sangue?" perguntou Lily. Ela confirmou com um aceno de cabeça. "Mas minha avó é parte veela. E a herança dela é mais forte em mim que nos outros da minha família. Alguns puristas olham pra mim e não veem uma bruxa, mas uma 'coisa mestiça'".
James apertou o punho. "Sinceramente, eu posso passar cinco horas em cima de um palco falando mal de seres humanos" resmungou ele. Lily se aproximou um pouco mais, porque a conversa tinha engatado. De perto, o rosto dela era ainda mais marcante. A ruiva tinha soltado o cabelo e ele caía como uma coroa de chamas sob ela por inteiro.
Parte veela. James nunca teria adivinhado. Mas, então, ele não precisava adivinhar. Não era da sua conta — e tampouco mudava a opinião que tinha de Lily.
"Mas será que pode passar cinco horas na minha companhia nesse final de semana, sr. Potter? Uma vez que parece tão desinteressado…" Bittencross soou tão lento e desagradável como James já imaginava que ele fosse ser. Apesar de sua vontade de mandar o homem a merda por ter interrompido o assunto, James se controlou.
"Na verdade Potter estava me ajudando, professor" Lily se interpôs entre o mago e James. O homem mais velho a olhou de cima e franziu a testa.
"Nesse caso, srta. Evans, não será nenhum problema acompanhar o sr. Potter na detenção. Este final de semana, em minha sala, as 14" comunicou o professor. Suas vestes farfalhavam enquanto ele se afastava deles.
"Velho nojento" resmungou Lily baixinho. James riu. Ela se apoiou nos cotovelos e finalmente começou a prestar atenção na aula. James se deitou na carteira e tentou não prestar atenção demais nela e em como os cabelos vermelhos caíam sobre a capa negra que ela usava.
*
O relógio bateu pela sétima vez quando James e Lily saíram da detenção com rostos pálidos, como cadáveres. Tinham sido longas horas em que a coisa mais interessante que aconteceu foi Bittencross ter se sentado num frasco de fadas mordentes — que James correu para soltar pela janela, apesar dos protestos do mestre de DCAT, porque "não era justo manter outras criaturas presas assim".
O par de grifinórios caminhou lado a lado pelos corredores que levavam a sua Sala Comunal. Iam conversando como amigos que não se viam há vinte anos ou mais e agora aproveitavam para trocar informações de suas vidas, conhecidos em comum e etc.
"Ei, Evans" James chamou. "Obrigado por ter entrado na detenção comigo — eu não acho que teria sobrevivido ao Bunda Mordida se não fosse por você"
Lily gargalhou. A risada dela era gostosa de se ouvir — vinha de dentro e ecoava pelas paredes do castelo, um som maravilhoso de alegria e diversão. "Acho que essa é a primeira vez que alguém me agradece por alguma coisa assim, Potter"
"Bem, então eu fico feliz por ser sua primeira vez. De agradecimentos, eu acho" James abriu um belo sorriso, tentando deixar suas covinhas a mostra. Segundo Sirius, meninas gostavam de covinhas — e meninos também, mas James só havia tido a oportunidade de testar uma vez.
"Foi bom ter sua companhia, senhor" Lily fingiu uma voz aristocrática. "Mas preciso me deitar"
James pegou a mão dela e plantou um beijo nos nós dos dedos. Teria sido engraçado se o coração dele não estivesse dando piruetas como um mico leão-dourado. "Bons sonhos, senhorita"
Com uma risada, Lily se despediu e seguiu seu caminho para o dormitório feminino. James se jogou na poltrona mais confortável do Salão Comunal, aquela em frente a lareira, e fechou os olhos.
Apesar de ter acabado de se despedir dela, foi o rosto de Lily que surgiu em sua mente. Como diria Sirius: "Cara, você tá muito ferrado!"
*
Lily fechou o livro pesado com um estalo e esticou as pernas para alcançar uma deliciosa poça de sol. Ela piscou — tinha ido dormir tarde na noite anterior, estudando para os NOM’s queriam dali a pouco mais de duas semanas — e olhou para seu parceiro de estudos e colega de casa.
“Foi díficil, no começo?” perguntou ela. James Potter ergueu a cabeça de um dever de Transfiguração — matéria em que ele sempre foi excelente — e um cacho de seu cabelo caiu entre os óculos dele. A expressão de confusão de James foi impagável e Lily se demorou nela por um segundo antes de completar. “Vir para Hogwarts e tal. Para seus pais aceitarem que você era bruxo e tudo”
James precisou de apenas meio segundo para responder. Ele mordeu a pena com os lábios — havia uma cicatriz em seu lábio inferior, adquirida durante uma partida de Quadribol no ano anterior. “Foi bem complicado, sim. Minha mãe queria que eu seguisse a carreira da família — médico, sabe? Ela, meu pai e meu avô trabalham na área. Eu tinha uma vaga numa escola boa em que meus avós estudaram, mas bem, quando McGonnagal apareceu em casa me dizendo que eu era bruxo… Bem, eu tinha onze anos. Claro que achei o máximo. Meus pais não aceitaram no começo, mas bem, eu sempre sofri com acidentes, sabe?”
“Magia acidental” comentou Lily. James concordou e então seus lábios se abriram num sorriso; ele gargalhou e, sem entender, Lily riu também.
“Teve uma vez que eu saí com meu tio e ele estava me enchendo o saco, perguntando se eu namorava e eu tinha oito anos, cara. Aí eu fiquei bravo e disse para ele sumir. E aí ele sumiu. Apareceu de novo em cima de uma árvore a quinhentos metros de distância” concluiu o moreno, passando as mãos pelo cabelo selvagem. “E depois que eu vim para Hogwarts, bem ainda tem o preconceito com eu ser ‘nascido-trouxa’ e tudo. Mas porque você perguntou?”
“Cansaço emocional por causa da minha família” Lily suspirou. “Todo mundo espera que eu termine Hogwarts e vá direto para o Ministério e depois case e tenha três filhos pra continuar a ‘linhagem da família’ e qualquer besteira desse tipo”
“E você não quer?” indagou James, piscando.
Lily pensou em como externar em palavras o que sentia. E então, quando desistiu, ela simplesmente jorrou. Como uma fonte quebrada, mas que ao invés de parar, só continuava a falar mais e mais.
Falou de como estava cansada de esperar semanas por uma carta da mãe só para, quando ela finalmente chegar, quebrar a cara porque ao invés de compreensão só existem cobranças. Falou de como não suportava mais ir para casa nas férias, presa naquele lugar cheio de regras em que Lily era constantemente invalidada— seja porque ela queria beijar meninas também quanto porque o sangue de veela era mais marcante nela que em Tuney.
E por falar em Tuney, Lily cobriu o rosto com as mãos e deixou algumas lágrimas escorrerem porque Lily simplesmente não aguentava mais ser comparada com Tuney — a irmã mais velha, a bruxa formada, com uma profissão boa e uma posição boa no Ministério francês, a garota exemplar.
“Mas você deve achar isso uma bobagem” disse Lily, limpando as lágrimas. “Me desculpa, eu não sou emocional assim, é que tudo isso e os NOM’s e essa tempestade dentro de mim…” Que me invade sempre que eu olho para você, completou em pensamento.
James passou um braço pelo ombro dela e a puxou para perto. “Hey, olha pra mim, Evans. São suas emoções. Eu não acho bobagem, é natural se sentir desesperado. Lembra que eu disse que esperavam que eu fosse médico? Meus pais pegam no meu pé quanto a isso até hoje. E é uma bela merda porque não é quem eu sou, quem eu quero ser. Eu quero ajudar a proteger vidas, mas não dentro de um hospital. E eles não aceitam. O que eu quero dizer é: tenha confiança em você, se coloque em primeiro lugar. Você é seu maior presente, Evans, e todo mundo sabe a pessoa incrível que você é” Ele sussurrou num só fôlego.
“E talvez eu não esteja ajudando em nada, mas pode contar comigo. Eu sempre vou estar aqui por você. Pra não deixar esses… esses ‘papagaios do mal’ pegarem você” James concluiu, meio constrangido.
Por cima das lágrimas, Lily riu. “Papagaios do mal?”
James coçou a cabeça. “Bem, é assim que eu penso. Que os seus medos, os nossos medos, são como papagaios. Eles ficam em nossos ombros, como aqueles dos piratas, só aguardando a hora em que estamos realmente mal para falar todos os nossos defeitos nos nossos ouvidos. Isso deixa a gente paranóico — porque é impossível não dar ouvidos as paranóias da sua cabeça. E uma palavra errada, uma piada fora de hora, pode desencadear isso”
“Quem diria que James Potter seria um filósofo contemporâneo tão intenso assim?” brincou Lily. Mas por dentro ela cultivava uma ideia, uma ideia que fez a tempestade dentro dela ir e voltar trinta vezes durante o minuto que James demorou para tirar o braço de seu pescoço.
“James Potter o próprio Friendrich Nietzche bruxo” concordou James, fazendo uma reverência.
Por Merlin, por que algumas pessoas são assim tão bonitas? Lily mandou sua própria mente parar de ser trouxa. Ela e James eram apenas amigos. Bons amigos. E não iam deixar de ser assim. Não era como se James fosse convidar ela para sair ou coisa assim.
“Mas sabe, Evans, eu sei o que pode te animar!” exclamou James de supetão. Ele revirou o bolso das vestes e tirou um rolo de pergaminho retangular — o calendário dos finais de semana em Hogsmeade que ele, Remus e Sirius haviam conseguido surrupiar da mesa de Flitwick. “Como você sabe porque é uma mulher foda e estudante quase tão dedicada quanto eu, os NOM’s estão chegando!”
“Sim, bela forma de me animar, dizer que os NOM’s estão chegando. Me sinto animadíssima. Acho que até um pedaço da minha alma deixou esse corpo, depois dessa” ironizou Lily.
“Só porque eu quero, vou te perdoar, Evans. E porque eu preciso de companhia para o próximo final de semana em Hogsmead. Se você for legal, talvez eu te pague uma cerveja amanteigada”
“E se você for legal, Potter, talvez eu te deixe me comprar um pacote de Delícias Gasosas”
“Você nem precisa disso, Evans, é só eu te beijar que você vai flutuar” James disse talvez um pouco rápido demais.
Foi aí que o cérebro de Lily parou de funcionar completamente.
*
“Então…” James falou.
“Entãaaao… continuou Lily, virando sua caneca de cerveja amanteigada sem se importar em ser discreta.
“Quer me falar alguma coisa, Evans?”
“Não sei. Depende. Quer me falar alguma coisa, Potter?”
Estavam num impasse. Os dias que separaram o momento em que James admitiu querer beijar Lily até o final de semana livre em que eles marcaram de se encontrar transcorreram-se lentamente, tal como as aulas do professor Bittencross.
Era por volta das duas da tarde agora e James e Lily entraram no Três Vassouras para descansar e, talvez, trocar uns beijos. O casal evitou o assunto durante a primeira parte do dia, mas era inevitável que tivessem que se acertar.
Os últimos dias foram, de fato, estranhos.
Embora Lily não fosse se importar de ser estranha enquanto beijava James.
“Você está é se fazendo de sonsa, Evans” acusou James, dando tapinhas na mesa com as mãos. “Você quer me ouvir dizer? Eu digo. Sou louco por você desde o quarto ano quando você deu aquele soco no Dolohov quando ele me chamou de ‘sangue-ruim’. Adoro o jeito que você fala e como faz tudo pelo que acredita. Adoro que você me entenda e adoro estar do seu lado. Eu quero ficar contigo, Evans. Mas se você quiser que sejamos só amigos…”
“Eu não quero” Lily disse, levantando-se. Por um instante, a expressão de James murchou e ele se encostou na cadeira.
“Ah, ok. Já que é assim…”
“Eu não quero ser só sua amiga, Potter. Quero beijar sua boca”.
E porque Lily Evans não era mulher de fazer promessas vazias, foi exatamente isso que ela fez.
*
Se alguém perguntasse aos outros três Marauders um fato sobre James Potter, iria escutar respostas diferentes de cada um. Remus, todo sério e fielmente dedicado aos amigos, pensaria por uns bons trinta minutos antes de responder, com um minúsculo e irônico sorriso: “James faria qualquer coisa por seus amigos”. Peter, sempre atrapalhado e tímido, gaguejaria, apressado, algo como “É, sabe como James é, meio cabeça dura. Quer dizer, não como uma coisa ruim, mas… ah, tenho um horário de Poções agora. Tenho que ir, foi mal, eu…” e dispararia pelo corredor como um dos Tutshill Tornados na final do campeonato britânico. Sirius, daquele jeito despojado e conquistador, abriria um sorriso enorme, daqueles de tomar o rosto, antes de, bagunçando o cabelo do interlocutor, dizer: “Cara, é o James. Ele é simplesmente o cara”.
Mas, caso o assunto viesse à tona, todos os Marauders estariam prontos para jurar que James era totalmente, com certeza, completamente apaixonado por Lily Evans. E o mundo é um pouquinho melhor por causa disso.
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