Fix Me
3 Passarinho de Papel
Acordei com o meu celular tocando, era uma mensagem de meus pais.
" Oi pequena, tudo bem? Está melhor? Está tomando os remédios direito? Sentimos Saudades e assim que possível, iremos te fazer uma visita novamente.
Com amor, de mamãe e papai. "
"Pequena"? O único que me chama assim era Lucas, então já sabia que meus pais nem lembravam de mim, a ponto de meu próprio irmão fingir ser meu pai para tentar me animar. Onde isso vai parar? Desliguei o celular e coloquei o travesseiro em cima da cabeça para secar as lágrimas que não queriam parar de cair.
Após longos minutos de drama, fui ao banheiro tomar banho, mas precisava avisar Sandra ( enfermeira do plantão da manhã), para que ela me ajudasse com o curativo. Depois de um gostoso e quente banho, tomei meu café que havia chegado a pouco tempo numa bandeja de prata e protegido por um papel branco com detalhes de flores em negativo. Isso me deixava com vontade de pinta-los. E após o café, deixei o papel todo colorido e depois o peguei e fiquei o dobrando enquanto ouvia os noticiários passando na teve. Sem percebe, fiz um origami de pássaro, um bem fácil e que meu pai me ensinou quando eu era pequena. Ao lembrar de um dos meus poucos dias favoritos em família, me peguei com um sorriso no rosto. Me arrumei e fui andar no corredor. Percebi que não havia ninguém no lá, mesmo sendo de manhã ( o período mais agitado do dia por causa das trocas de plantões, horários de remédios e comida! ). Fui para o quarto de James, para saber o que estava acontecendo e que dia " especial" foi ontem. Bati na porta e entrei sem ouvir uma resposta ( típico vindo de mim!), o encontrei na cama, lendo uma carta e sua expressão não era nada agradável.
— James?- Ele não respondeu, acho que ele nem percebeu que estou aqui! Me aproximei mais um pouco e encostei em seu ombro. — James!
Ele levantou a cabeça num susto e olhou para mim enquanto amassava a carta com a mão.
— Desculpa, eu não te vi entrar.
" Ele está diferente. .."
— Tudo bem, mas. .. e você ?
ele olhou para baixo e fixou seus olhou na coberta.
— Estou bem.
— Não parece.
Ele deu uma pequena risada de ironia.
— Já sei do que você precisa. Não sai daí!
Corri para a porta até ouvir uma resposta.
— E para onde eu iria, gênio? !
Coloquei a mão na porta e virei o encarando fingindo ser séria, mostrei a língua e fui para meu quarto pegar o baralho que Lucas me trouxe na última visita.
— Voltei!
Entrei com um sorriso de orelha a orelha. Ele olhou confuso para mim, pois minhas mãos estavam para trás para não estragar a surpresa. Cheguei perto da cama e mostrei o baralho com uma cara desafiadora.
— Sabe jogar poker?
Ele levantou uma sobrancelha, e depois sorriu para mim como se tivesse aceitando o desafio.
— Sou profissional, moça. — falou enquanto estralava os dedos.
Durante a manhã toda jogamos baralho e depois dama. E no meio das jogadas eu fazia perguntas sobre ele. Quando chegou o horário do almoço, me despedi falando que voltaria mais tarde, e ao fechar a porta, organizei as informações na minha cabeça.
" James, 20 anos. Pai: policial; Mãe: morreu quando ele ainda era pequeno. Motivo de estar no hospital: atacado por homens ( suspeitos de ser de uma gangue) e quase morto. Cor favorita: vermelho; comida favorita: lasanha ( algo que não temos visto muito aqui). Gosta de qualquer tipo de animal e gosta de jogar hokey e viajar. Ama ler e assistir diversos filmes em horas vagas. Namorada: informação desconhecida... porque estou pensando nisso?!"
Quando acabei de pensar nesse detalhe, acidentalmente espirrei molho da carne na roupa e em meu cabelo, pois estava distraida enquanto comia. Depois de acabar com o almoço e me limpar, voltei ao quarto de James com um filme de terror que ele comentou que nunca tinha visto.
— Cheguei!
Falei botando a cabeça para dentro do quarto. Mas uma visão paralisante grudou na minha cabeça. Havia uma garota branca de cabelos negros e curtos em cima da cama... em cima de James! Logo após meu grito de chegada, ele a empurrou para seu colo, olhou para mim assustado; ela me encarava enquanto limpava sua boca de batom vermelho que estava em toda parte e eu... parada com a boca aberta.
— Des.... Desculpa.
Foi a única coisa que podia dizer antes de sair correndo de seu quarto e esquecendo o filme jogado no chão. Fechei a porta de meu quarto e encostei-me nela encolhendo por causa da ferida.
— Droga, me esqueci!
— Alice, está tudo bem?
Abri os olhos e olhei para frente, onde encontrei Lucas com o rosto preocupado.
— Si... sim... a... apenas...
— Para de tentar falar. — ele me pegou no colo e me colou na cama. — respite fundo e depois me explique o porque você estava correndo e bateu a porta com tudo.
Fechei os olhos e o abracei, eu queria muito chorar e gritar para me tirar daqui, mas eu não podia... Não podia preocupar mais ainda ele. Então engoli toda ainda minha mágoa e o encarei.
— Eu entrei num quarto errado pensando que era o meu e vi um casal se pegando.
Ele me encarou por um minuto e depois começou a rir até sair uma lágrima.
— Não tem graça! Não foi você que ficou com cara de tacho!
— Desculpa. . Parei... — ele tentou prender o riso, mas voltou a rir novamente enquanto eu o me batia no peito. — Como você conseguiu trocar o quarto?!
— Eu estava distraída!
Lucas ficou rindo da minha cara até perder a graça e depois ficamos conversando sobre o que houve no serviço dele e em casa.
P. O.V "James"
Mary Ann me viu assim, de um jeito que tentei esconder dos outros, meu jeito "sujo". Mas eu podia, certo? Aliás, esse é meu quarto e minha namorada.
— Quem era aquela pirralha, Tommy? — Falou Cameron enquanto arrumava seu minúsculo vestido e pegava o filme no chão.
— Apenas minha vizinha, eu pedi emprestado esse filme para ela, pois aqui estava sem graça sem você.
Ela se aproximou com um sorriso malicioso e me beijou com vontade.
— Acho bom ser apenas vizinha. Senão ela vai ver só.
Eu a encarei sério e confuso ao mesmo tempo. Ela sorriu para mim e voltou para a porta.
— Só estou brincando, gato. — ela piscou confiante. — Aliás, Nick mandou um Oi. Tenho que ir. Te vejo depois. — Antes de fechar a porta, mandou um beijo para mim nos ares.
Quando percebi que estava sozinho, suspirei e peguei o notebook que estava ao meu lado, quando abri o filme para pegar o CD, deparei um origami colorido, o coloquei na minha frente e o virei para cima, nas assas estava "Feliz dia especial". Comecei a encará-lo com um sorriso que ninguém conseguiu tirar de mim a muito tempo.
"Nunca pensei que um simples passarinho de papel faria eu sorrir novamente."
— Obrigado.
Sussurrei para mim mesmo com o desejo de que essas simples palavras chegasse até Mary Ann, e uma pequena lágrima de alegria fugiu.
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