Fix Me

65 Lágrimas de Saudades


Já se passaram mais ou menos dois meses que estou aqui neste quarto. Os enjoos só aumentam assim como minha raiva. Todo dia eu recebo a visita de Dragon com minhas refeições.
— Boa noite, princesa. Como está?
— Pela terceira vez de hoje, nada bem. Me tire daqui!
Eu estava sentada na cadeira e avancei na bandeja quando ele colocou sobre a mesa.
— Que fome de pedreiro!
Ele começou a rir.
— Calado! É você que me deixa sem comida por muito tempo!
— Mas ainda te alimento, mesmo você teimosa e revoltada, pelo menos três vezes por dia, ou quer que eu diminua mais?
Fiquei calada, se ele diminuísse mais, eu não teria uma gestação normal.
— Aliás, você nem parece gostar da comida que eu trago, já que recentemente você bota tudo para fora depois que saio, até parece que...
— Estou doente.
Respondi antes que ele deduzisse a verdade.
— Doente?
— Virose. Parece que comi algo contaminado e peguei.
Me estiquei e fiquei o encarando.
— Certo. Já acabou?
Assenti. Ele pegou a bandeja e saiu. Fui arrumar meu quarto, tirar o pó e tomar um banho, ficando horas na banheira encarando minha barriga que não cresceu muito. Depois escovei os dente e arrumei meu cabelo, voltando para o quarto e ler mais um capítulo do livro "the letter war" que Dragon havia me dado semana passada para me distrair. Ele fez isso para me assustar, dizendo que sempre esteve de olho em mim.
Esse era meu dia. Dragon era o único ser humano que eu ainda tinha contato. O mundo pode ter acabado e sobrado apenas nós dois, que eu saberia apenas quando saísse daqui. SE eu saísse.
Deitei na cama e encarei o teto.
— Tommy.
Seu nome saiu de meus lábios como um sussurro implorando ser ouvido pelo meu amado. Adormeci e apenas acordei com Dragon destrancando as diversas chaves que havia na porta.
— Boa noite, princesa.
— Oi.
Me levantei enquanto esfregava os olhos.
— Oh, te acordei?
— Como sempre.
Rosnei e ele riu.
— Não abuse de minha caridade, botão de flor.
Ignorei e sentei na mesa esperando ele me servir, porém percebi que ele não trouxe nada.
— Cadê a...
— Calada. Hoje vou fazer algumas perguntas e, dependendo das suas respostas, comerá hoje e amanhã, ou não.
Respirei fundo.
— Quem matou Cameron?
— Thomas.
Ele respirou fundo e ficou tenso. Parecia que iria pegar uma arma e atirar por todo lado, mas não, ele apenas sentou e cruzou seus dedos em cima da mesa.
— Quem matou... Lucas?
— Cameron.
— MENTIRA!
Ele bateu na mesa e se levantou, me assustando.
— Eu vi pessoalmente. Não tenho motivos para mentir agora.
— OUSE FALAR ISSO NOVAMENTE E MORRERÁ DE FOME E SOZINHA AQUI!
— Não me importo mais.
Falei neutra ainda o encarando, desistindo aos poucos da minha vida. Ele derrubou a mesa para o lado e veio para cima de mim, me enforcando.
Eu apenas fechei os olhos e deixei a vida se esvaziar sobre mim, até ele soltar e eu pegar todo o ar em minha volta. Minha garganta ardia e eu tossia sem parar. Ao me aliviar olhei Dragon que estava encolhido na minha frente, chorando.
— Eu... Não queria... acreditar. Não pode ser. Ele não...
— Você nunca cuidou dele, o abandonou e ainda chora? Com certeza é lágrimas de crocodilo!
Falei revoltada.
— Abandonar ele?
Dragon falou em soluços.
— Não se faça de inocente! Ele sabia que não era meu irmão, sabia que tinha família, sabia que você tinha abandonado ele! Mesmo assim ele cuidou de mim toda a vida como um verdadeiro irmão, sem saber o porque de ter sido abandonado e jogado naquele inferno que chamam de orfanato Haleyville.
Ele congelou.
— Você disse o que?
Minha voz sumiu quando ele se levantou com o rosto vermelho e sério.
— Você disse... Haleyville?
Assenti calada.
— Eu sabia!
Ele cerrou o punho e depois abriu a porta fechando atrás de si com força. Então eu não o vi por dois dias.
***
Acordei com o barulho da porta batendo na parede. Sem força por causa da desnutrição, fiquei na cama. A luz se acendeu e Dragon gritou ao meu lado.
— Acorde, Princesinha.
Virei para vê-lo, mas não me mexi muito me limitando apenas a encará-lo.
— Oh, esqueci que está sem energia.
Ele estalou os dedos e um homem enorme apareceu na minha frente, me pegando no colo e me tirando daquele lugar. Ele estava de máscara, mas seu cheiro era familiar. Fechei os olhos e dormi mais um pouco. Ao acordar, me encontrei numa cama grande e quente em um quarto iluminado pela luz do sol da tarde. Esfreguei meu rosto e me sentei olhando em volta. Era um quarto normal. Ao me levantar, perdi o equilibro.
— Não se esforce.
Dragon aparece ao meu lado sentado numa cadeira me encarando. Ele se levanta e oferece uma bandeja cheia de frutas, torradas e suco de laranja fresco.
— Não tem coragem de me matar com as mãos e agora vai me envenenar?
Ele riu.
— Coma, ou você irá mesmo morrer.
Comi tudo e respirei fundo aliviada por ainda não morrer ou vomitar na frente deste desprezível.
— Agora, vamos a parte divertida.
Ele pegou o controle da televisão e ligou o aparelho que estava em frente a cama. Nela, mostrava uma mulher pendurada pelos braços toda ensanguentada e nua. Parecia morta se não fosse pelos fracos movimentos em seu peito mostrando sua respiração.
Coloquei a mão na boca e prendi o enjoo.
— Isso é o que acontece quando tentam brincar comigo.
— Quem...
Falei abafado por causa da mão, mas não consegui completar a pergunta.
— Minha esposa.
Olhei para ele assustada.
— Como pôde?
— Alice, pode não parecer, mas eu tenho motivos pelo que faço e não sou aquele que matou todos os herdeiros.
— Mentira.
— Acredite se quiser. Sua opinião não irá mudar meu destino agora.
— Eu... eu não estou entendendo.
Ele desligou a televisão e arrastou a cadeira até se aproximar de mim e sentou suspirando.
— Eu amava Jason.
— Quem?
— Meu filho mais velho, Jason Drew, a quem você conhece por Lucas. Kessia, minha primeira esposa e melhor amiga deu a luz a ele e morreu na hora do parto. Seu último pedido foi que eu cuidasse dele com todo amor e mostrasse as coisas boas deste mundo. Alguns anos depois eu me casei novamente com Gabrielle Carter, mãe de Cameron. Ela também era uma viúva e nos conhecemos em um leilão de vinho, que na verdade era uma reunião de mafiosos da época. Juntamos nossas famílias e tentamos mostrar o lado bom deste mundo para nossos filhos, porém um dia eu bebi demais e briguei com Cameron por ela estar na minha sala. Nunca gostei muito daquela garota, sabia que ela se fingia de Santa na minha frente, mas Jason sempre conversava comigo de noite em nosso esconderijo e falava as verdades da terrível irmã mais nova que eu arranjei para ele. Bom, ao brigar com Cameron, Gabrielle logo apareceu para defender a filha e brigamos também. Naquele dia eu peguei meu filho e ficamos três dias fora aproveitando o tempo de pai e filho em um apartamento na cidade, comíamos numa lanchonete que gostávamos, chamava Lanchonete Chocolate & Baunilha. Ainda não acredito que lembro disso. — Falou colocando a mão na cabeça e soltando algumas lágrimas. — Depois que voltamos Gabrielle veio pedir desculpe e naquele dia comemos uma pizza com vinho, enquanto as crianças suco. Parecíamos uma família rica normal, mas eu não sabia que ela havia me envenenado e naquele dia eu apaguei. Quando acordei encontrei toda a casa destruída, as meninas estavam inconscientes e eu não encontrava Jason. Ele havia sumido e eu nunca mais encontrei meu filho, vivo. Se passou alguns meses e meus subordinados encontraram um corpo pequeno no meio da mata, queimado. Mas com uma corrente que eu havia dado para Jason em seu aniversário de quatro anos. Antes. .. antes disso tudo acontecer.
Ele começou a chorar e tudo fazia sentido agora.
Eu sentei direito na cama na frente dele e respirei fundo.
— Lucas me contou como ele soube de sua família. Ele teve uma lavagem cerebral quando esteve naquele orfanato, mas ele disse que sabia um truque que seu pai ensinou quando pequeno para sempre saber qual era a verdade. Durante anos Lucas tinha pesadelos e nunca me contava o que era, falando sempre que foi apenas um sonho ruim, mas quando estive me recuperando no Cubo depois do nosso doce encontro... — Encarei ele irônica que apenas olhou sem entender. — Lucas me encontrou e ficou comigo sem você saber.
— O que?
Sua voz falhou por um momento.
— Ele falou para mim toda sua história. De como sofreu e como lembrou de quem era de verdade, o que não foi há tanto tempo assim. Assim que você causou o acidente de carro, sua memória voltou e quando ele se recuperou, sabia de tudo e quem era você de verdade. Rodrigo Salvatore.
Ele respirou fundo e me encarou sério.
— Então você sempre soube quem eu era.
— Sim. Só não contei para ninguém porque Lucas, meu irmão, que me protegeu até o fim, pediu. " Tente conversar com Rodrigo e saber a verdade por mim. Resolva isso quando sair daqui. Poderia fazer isso?"
Foi o que ele disse antes de fugirmos e Cameron matar meu irmão na minha frente.

— Como?

— Estávamos indo para o avião, éramos os últimos. Entrei primeiro e quando virei, encontrei ele inerte no meio do caminho, até ele receber uma bala no braço e outro na perna. Cameron apareceu em seguida e apontou a arma para a cabeça dele. Nesta hora a porta se fechou e eu ouvi apenas o..

— Venha comigo.
Ele se levantou e abriu a porta para mim, enxuguei as lágrimas e o segui. Andamos um longo corredor enquanto conversávamos.
— Nesses dois dias eu estava torturando Gabrielle para tirar informações e uma delas que ela soltou sem eu saber era de Cameron ter estado apaixonada pelo meu filho, que você chama de Lucas. Então questionei que "quem ama não mata" então ela explicou que iria "arrumar" a mente de Jason e iria fugir daqui para uma nova vida. Ele ficou esse tempo todo em coma dentro de um hospital psiquiátrico para ninguém desconfiar.
Nessa hora eu coloquei a mão na parede para eu não cair e com a outra mão e tentei esconder meu rosto que só chorava, porém os soluços começaram e eu tentei me acalmar, o que demorou um pouco.
— Quer uma cadeira de rodas?
Respirei fundo e me controlei.
— Não preciso de uma compaixão vinda de você.
Ele deu de ombros e continuou o caminho até parar em uma porta qualquer. Respirou fundo e abriu esperando eu me aproximar e entrar. Minhas pernas não me obedeciam e demorei para finalmente entrar no quarto claro e encontrar meu Querido irmão dormindo. Me aproximei e chorei as últimas gotas de lágrimas que ainda sobravam em meu corpo.
— Lu.
Fiquei o dia todo lá até adormecer ao seu lado.
***
Os dias foram se passando e eu sempre acordava no meu novo quarto e ficava ao lado de Lucas. Arrumava seu quarto, sua roupa de cama e lia para ele. Até que um dia teve uma chuva bem forte com relâmpagos carregados. Aquilo me matava de medo e o único que me protegia era meu irmão. Mas agora, ele não conseguia fazer isso. Era de tarde quando começou a chover. Rodrigo havia saído para resolver algo na máfia e não voltaria tão cedo. Não havia mais ninguém conosco a não ser os soldados que ficavam do lado de fora. Eu tentei me distrair enquanto lia alto ao lado de Lucas mas os trovões aumentavam e minha mão começou a tremer. Uma luz forte logo apareceu e a energia da casa caiu. Assustada, eu gritei e corri para debaixo das cobertas onde Lucas estava.
— Lu, me... ajuda.
Cobri meus ouvidos com a mão e me encolhi ao lado de meu irmão, fechando os olhos e chorando como uma criança. Senti uma grande mão quente encostando minha cabeça e alguém me abraçando. Abri os olhos, mas a visão estava embaçada com as lágrimas, mas eu sabia que ele havia acordado.
— Calma, pequena. Estou aqui.