Fix Me
13 Lágrimas
Notas iniciais
“Odeio ele!”
A única frase que se repetiu na minha cabeça desde que sai daquela lanchonete.
“Como pude ser ingênua?! Me iludir deste jeito foi burrice, ele nunca vai me amar o bastante para me colocar em primeiro!”
Entrei em casa e encontrei Lucas com Alex no sofá, eles se assustaram com minha cara que devia estar inchada e vermelha, além de ter lágrimas que não paravam de cair ainda.
— Al, o que houve? Você está bem?
— S-sim, apenas tropecei e me machuquei. Vou para meu quarto, desculpe atrapalhar o romance de vocês.
Não deixei Lucas falar e corri para meu quarto, fechando e trancando a porta. Escorreguei e me encolhi ali mesmo, repetindo aquela imagem do meu pai bravo várias vezes na minha mente. Chorei até soluçar, e isso fez minha barriga doer um pouco. Pensei que ele não merecia o meu sofrimento então olhei para cima, tentando parar de chorar e ir ao banheiro tomar um banho e relaxar um pouco. Liguei o chuveiro e deixei a água levar minha dor para o ralo, fiquei assim por um tempo até tomar um banho de verdade e sair. Me enxuguei, coloquei a toalha em minha volta e me encarei no espelho. Cabelos presos num nó e a cara enxada e ainda vermelha.
— Idiota!
Era tudo o que pude falar para mim.
“Ele nunca vai mudar. Não por você. É mais fácil você sumir, e provável que ele nem sinta sua falta!”
Ao pensar nisso senti as lágrimas caírem novamente, mas as prendi fechando os olhos fortemente por um momento. Sai de meus pensamentos ao ouvir alguém batendo na porta.
— Alice, deixa eu entrar, por favor.
Era Lucas. Ele parecia desesperado, mas não queria falar com ninguém, senão eu voltaria a chorar com certeza.
— Lu, deixa eu sozinha, por favor. Vou dormir, hoje o dia foi cheio.
— Se você não abrir essa porta, vou derrubá-la a força!
— Nem pense em fazer isso!
— Então abra! Por favor?
Sua voz mudou para manhosa.
— Mas e a Alex?
— Ela foi para casa, não é tão longe, então levei-a até a metade do caminho.
“Fiquei tanto tempo brisando no banheiro?!”
Não resisti, pois também queria ele ao meu lado, mas alguma coisa me impedia falando que eu o incomodava, seria isso o “peso na consciência”? Abri a porta e vi sua expressão de assustado, acho que meu rosto não estava em seu melhor estado, então abaixei a cabeça. Senti sua grande mão puxar meu rosto, com delicadeza, para cima, ele estava com um pequeno sorriso calmo, não resisti e então o abracei, voltando a chorar. Mesmo Lucas sendo muito alto e meu rosto batendo em seu peito, aquilo já era alguma para mim, um conforto.
— Me perdoe. Bem que eu tive um mal pressentimento quando Mark saiu daqui, mas não sabia que você voltaria neste estado. — O abracei mais forte. — Prometi que iria te proteger, mas quebrei essa promessa, de novo. Me perdoe.
Percebi que sua voz estava falhando. Ele estava chorando. Me surpreendi com aquilo, já que nunca o vi chorar. Me afastei e coloquei minhas mãos em seu rosto, limpando as lágrimas e o encarando surpresa e feliz ao mesmo tempo.
— Como posso ter conseguido o melhor irmão de todos! Você não deveria chorar, você é meu herói, e nunca vai deixar de ser! Eu te amo, e é provável que seja a única pessoa que amei desde então.
Ele sorriu, mas sem parar de chorar, e me abraçou bem mais forte do que antes, mas sem me machucar.
— Também te amo. Muito.
Ouvi um sussurro no meu ouvido e uma leveza no meu coração, e percebi que se não fosse por Lucas, eu não estaria aqui hoje. Ele foi meu suporte, meu herói, meu pai e minha mãe, meu melhor amigo e acima de tudo, meu irmão.
***
Acordei tranquila, sem o celular ou algum despertador ligar, estranhei com isso. Ainda com os olhos fechados, me espreguicei e senti algo quente ao meu lado, quando fui ver, percebi que era uma pessoa. Lucas. Ainda dormindo como um anjo, lindo com seus cabelos negros e lisos bem bagunçados, não resisti e comecei a fazer carinho sem parar de encará-lo. Parei um pouco só para apreciar a beleza de meu irmão.
“Mesmo parecendo o papai, ele ainda é totalmente diferente. Mundo estranho.”
— Não para não.
Ouvi um resmungo de Lucas, que só fingia dormir. Sorri e voltei ao cafuné. Ele abriu seus lindos olhos verde e ficou me encarando enquanto se espreguiçava e se cobria até o pescoço.
— Quando foi a última vez que dormimos juntos?
— Faz um tempo. Não sei porque parei. É tão bom dormir aqui.
Ele deu um sorriso de malandro.
— Folgado!
— Não, sou seu folgado.
Ele piscou para mim, e eu apenas sorri. Ainda deitados, ficamos conversando durante muito tempo, até o relógio finalmente tocar. Lucas fez careta, puxou minha parte da coberta e se cobriu até a cabeça.
— Lucas, está frio! Me dá essa coberta!
— Não, vou dormir!
Comecei a bater nele e tentar pegar a coberta, até perceber que eu estava em cima dele. Ele abaixou o cobertor e se levantou, fazendo-me cair no chão e puxando-o junto. Nos encaramos e pulamos para a cama de novo, se cobrindo e rindo de nossa bagunça.
— É assim que gosto de te ver.
Lucas parou de rir e me encarou.
— Como?
Perguntei levantando uma sobrancelha sem entender nada. Ele colocou uma de suas mãos em meu rosto e ficou acariciando.
— Feliz.
Aquela simples palavra me fez corar, e dar um sorriso. O abracei forte, suspirei e sai da cama correndo para o banheiro.
— Ou você é corajosa, ou é doida de sair dessa cama perfeita para o gelado.
— Ou eu fico e perco a aula, ou eu faço meu futuro.
Falo olhando para ele pelo espelho do banheiro. Ele simplesmente pulou da cama e correu para seu quarto enquanto gritava.
— A AULA!! A Alex vai me matar!
Ri e fui tomar banho. Vesti uma roupa quente e confortável. Bota preta, calça jeans preta, blusa azul bebê e um cachecol que ganhei de Alex. Deixei meu cabelo num rabo de cavalo froxo, peguei minha bolsa e fui para a cozinha tomar café. Fiz alguns waffles, comi uns e deixou o resto para meu irmão.
— Lucas, você vai se atrasar! Já estou indo.
Simplesmente ouvi um grito de desespero de uma garota de tpm, com certeza era Lucas perdido no que fazer e se vestir. Ri daquela situação e sai do prédio cantarolando uma música de Britt Nicole. Dei um “bom dia” para o porteiro, como normalmente faço e vou em direção a escola. Coloco meu fone de ouvido que estava conectado num antigo mp4 meu e continuei andando pelas ruas geladas da cidade, me distraindo e tentando o máximo afastar qualquer pensamento ruim. Fiquei bem até ouvir uma buzina, ignorei pensando que não era para mim, mas percebi uma sobra de um carro perto de mim e então virei para rua por curiosidade.
— Oi, moça. Quer carona?
Era Thomas. Sorri e aceitei a carona. Entrei no banco do passageiro e senti um cheiro de menta muito gostoso. Olhei para o lado e vi que ele estava bem vestido hoje, com uma jaqueta que parecia de futebol americano, calça jeans clara, um tênis simples, e seu companheiro que nunca se desgruda de sua linda face, óculos preto. Ele estava lindo... lindo demais para ir a escola.
— Vai para algum encontro depois da aula?
Saiu da minha boca sem eu querer! Ele olhou de canto para mim e levantou um sobrancelha.
— Não, por que?
— N... nada, não.
— Estou tão bonito assim?
Ele parou o carro no sinal vermelho, virou para mim e fez uma cara maliciosa, mas sexy. Senti minhas bochechas queimarem, de novo.
— Exibido.
Falei mais para mim do que para ele, mesmo assim ele riu e voltou a dirigir.
— Tudo bem se pararmos para abastecer? Esqueci de fazer isso ontem.
— Não tem problema.
Paramos num posto perto da escola e ele saiu do carro, fiquei parada olhando o movimento de fora, suspirei e relaxei minha cabeça no banco, até sentir uma mão quente tocar em meu ombro. Dei um pulo e olhei para trás, e encontrei um estranho de cabelos negros lisos bagunçados e os olhos um pouco aberto mostrando aquele oceano infinito.
— Que linda.
Sussurrou e se aproximou de mim. Percebi que era um safado, comecei a gritar, dei um tapa na sua cara e sai correndo do carro procurando por Thomas, que havia desaparecido da minha vista.
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