Fix Me
10 Chocolate & Baunilha
Notas iniciais
LEIAM AS NOTAS INICIAIS!
Ele sorriu triunfante.
— Sei de um lugar que gosto de ir.
— É muito longe? Pois se for, podemos pegar o ônibus que passa daqui a cinco minutos no portão e ...
— Alice.
Eu olhei para ele, que estava balançando uma chave de carro.
— Ou podemos ir de carro.
Ele rio e me guiou até um Toyota Hilux que ficava em um canto bem escondido do estacionamento, abriu a porta para mim e foi para o lado do motorista assim que a fechou. Deu partida e fomos á famosa cafeteria da região. Ao sair do campus viramos a direita, onde pude ver o ônibus que iriamos pegar, se não fosse pelo carro, dei uma pequena risada por isso.
— Então... — Ele tentou puxar conversa. — Você conhecia aquele cara da aula de cáculos?
Logo me lembrei da mancada que fiz, e fiz careta ao lembrar.
— Não, apenas me enganei.
— Você pensou que era quem?
Olhei para a janela, brigando com meus olhos para não chorar na frente dele. Apoiei minha cabeça com o braço que estava na porta e respodi entre dentes.
— Um amigo.
O farol fechou e por alguns segundos o carro ficou em um silêncio mortal.
— " Aquele" amigo?
Ele fez aspas com o dedo na minha frente.
— Sim.
— Desculpe ser indelicado, curioso e persistente, mas... Porque você sempre fica para baixo quando falamos dele?
— Porque ele sofria, e não pude ajuá-lo antes de ir embora do luga que eu estava.
— Ele sofria como?
Suspirei e olhei para ele, que estava fixado em mim esperando uma resposta. Olhei para frente e o avisei sobre o sinal que havia aberto naquele instante.
— Ele estava sendo traído por uma... quadrúpede branca de manchas pretas!
Ele riu.
— Você quer dizer... vaca?
— Tento me segurar para não xingar os outros de um jeito feio, mas ela merece esse lindo apelido. Vaca.
Suspirei alto, como se estivesse me libertando de algo que me incomodava. Thomas apenas ria, de um jeito fofo e delicado.
— Certo, e como você sabe que aquela "vaca" estava traindo seu amigo?
— Eu a vi no elevador, quase sendo engolida por um estranho. O pior é que foi ela que me machucou no dia em que me viu com ele, e olha que estávamos apenas conversando!
Ele parecia surpreso. Percebi que a velocidade havia diminuído.
— Bom, chegamos.
Sai do carro e encarei o lugar. Parecia um restaurante simples, de um jeito antigo, que ficava no meio da estrada. Quando entramos, percebi que era bem mais espaçoso, Thomas acenou para o cozinheiro que via tudo e a todos atrás daquela pequena janela. Fomos até uma mesa perto das janelas do fundo e vi o que parecia de mais precioso daquele lugar. Meu queixo caiu ao ver a bela paisagem do pôr do Sol, as janelas cobriam a maior parte da parede, então percebi que o restaurante ficava em um penhasco, que dava direto com as furiosas águas que ficavam debaixo dos nossos pés. Tentei ignorar aquele pequeno detalhe e voltei minha atenção ao Thomas, que apenas estava sorrindo atrás de mim.
— Onde... onde você encontrou esse lugar?!
— E então? Gostou?
Ele se aproximou e com um dedo, fechou minha boca, que ainda estava aberta.
— Não tenho palavras, é incrível.
Ele sorriu feliz, esticou a mão e mostrou nossa mesa. Um lugar que ficava bem no canto, onde, quem entrava, não coseguiria nos ver. Mas a visão era perfeita, sorte a minha que não tinha medo de altura, pois não iria recomendar ao meu irmão. Ao pensar nisso dei risada. Thomas puxou a cadeira para mim e fez careta com minha ação.
— Tudo bem?
— Sim, apenas imaginei meu irmão aqui.
Voltei a rir.
— Ele tem medo de altura?
Assenti, ainda rindo. A garçonete pegou nossos pedidos e saiu rapidinho.
— Onde você encontrou esse lugar?
Ele apoiou a cabeça no braço e encarou a paisagem.
— Meu pai me trazia aqui quando pequeno. Ele contava histórias de como conheceu minha mãe, das aventuras dos dois e que foi aqui que ele a pediu em casamento.
— Tenho que admitir, ele tem um bom gosto.
Ele sorriu e olhou para mim, ainda apoiado em seu braço.
— Infelizmente não é como antes.
— Como assim?
— Meu Velho dizia que ele dançava com minha mãe aqui toda semana. Agora, não tem mais aqueles toca-disco.
— Nossa, aquela época devia ser perfeita.
Desta vez, eu olhei ao horizonte, onde o Sol estava quase se pondo.
— Você não tem nojo desse lugar? Ele é velho, e pode ter baratas em qualquer lugar. E de noite tem vários bichos nojentos.
Voltei a olhar para ele e o vi com as duas mãos em cima da mesa, e sua cara parecia de um adolescente querendo assustar uma criancinha. Deu uma risada muito falsa e o encarei, imitando seu jesto.
— Se quiser eu te protejo.
Ele ficou surpreso com minha resposta.
— Você não tem medo?
— Medo é diferente de nojo. Tenho nojo, mas não faria que nem qualquer patricinha e iria correr e gritar que nem uma doida só por causa de uma barata.
Ele me encarou com a boca aberta e depois riu, como se eu tivesse contado uma piada.
— Vou tentar me lebrar disso.
— Com licença, seus pedidos.
A garçonete nos entregou dois chocolates quentes, pão de queijo para mim e um bolinho de baunilha para ele.
— Você quer um pedaço?
Falou tirando a rendinha de baixo da comida e esticando para mim. Apenas me afastei um pouco e tentei ser o máximo educada.
— Não, obrigada. Sou alégica a baunilha.
— Sério? Desculpe, não sabia.
— Tudo bem, mas parece que você ama, não é?
— Porque você acha isso?
Apontei aos quatros bolinhos que estava em volta de sua xícara. Ele me encarou e fez um "Ah", e rimos juntos. Conversamos sobre várias coisa, filmes, séries, livro, grupo de estudos e outros. Quando olhei para meu celular me assustei com o horário.
— Ai Senhor! Já está tão tarde assim?
Levantei num pulo, e ele me seguiu.
— O que houve? Tem compromisso?
— Não é isso, quer dizer... mais ou menos... Desculpe dizer isso mas, podemos ir? Quanto que custou o café? Será que eles passam cartão? Se não passar tudo bem, eu tenho...
Thomas tapou minha boca e pediu para eu respirar, o obedeci e me acalmei. Ele me soltou e colocou as mão em meus ombros.
— Se acalmou? — Assenti. — Ótimo, agora, vamos ao caixa e deixa que desta vez eu pago.
— Mas eu...
Ele fez cara séria para mim e me calei na hora.
— No carro a gente conversa.
Essa frase nunca é boa, deu até arrepio na minha espinha. Fiquei quieta por fora, mas por dentro eu estava quase assaltando o carro dele e indo sozinha mesmo. Fechei os olhos, respirei fundo mais uma vez, saimos de lá e entramos no carro, indo direto para a faculdade. Olhei para trás, onde um lugar tão lindo, onde esquecer meus problemas por uma tarde foi possivel.
— Quero voltar mais vezes. — Falei ainda olhando o restaurante sumir com o tempo.
— Tudo bem. Mas, tem um porém... — Voltei a sentar direito e o encarei com dúvida. — Vai ter que comer a torta de maçã comigo. — Ele me olhou de canto e senti minhas bochechas queimarem. — Onde é sua casa?
— Moro em um prédio no centro, pode me deixar no metrô que irei sozinha.
Ele me olhou sério.
— Vcoê acha mesmo que irei te deixar no metrô para ser assaltada por algum maluco?
— Não tinha pensado nisso.
" Verdade, Alice. Se com o Lucas, que sabia se defender, você visitou o hospital, imagine sozinha. Quer morrer?!"
Eu e meus pensamento. O guiei até em casa onde vi aquele civic preto encostado na frente do prédio, minha alma congelou na hora.
— Droga! É hoje que eu morro. Prefiriria ir de metrô mesmo.
— Do que você está falando?
— Nada, apenas pode me deixar aqui. — Ele parou na esquina de um quarteirão antes do meu. — Desculpe esse trantorno todo. Me diverti muito hoje, e desculpe mesmo. Mas preciso ir.
Dei-lhe um beijo na bochecha e sai do carro. Antes de fechar a porta, olhei para Thomas e sorri.
— E aceito a torta na próxima vez se um dia você me ensinar a dançar. — Vi seus rosto ficar vermelho, mas ele assentiu mesmo assim. Ao chegar na frente do prédio olhei para o civic e não vi ninguém, soltei um suspiro de alívio, até ouvir um celular sendo desligado e uma voz rouca falar atrás de mim.
— Está atrasada!
Sabia que iria morrer, ou visitar o hospital novamente, de um outro jeito. Virei e encarei o homem alto que estavam perto de mim com um olhar mortal.
— Oi... pai.
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