First Day of Spring
3 Perdas e Memórias
Notas iniciais
Jack Frost estava confuso. Como poderia aquela menina sair da casa de Jamie? “Talvez fossem amigos?” ele se perguntou. Não, não pode ser. Depois de tanto tempo, Jamie estaria velho, é claro. Não tão velho talvez, mas com certeza mais do que a garota que estava lhe guiando. Bem, isso ele poderia deixar para depois. Perguntaria para Jamie quando o encontrasse.
Outras dúvidas começavam a preencher sua mente: será que seu antigo amigo havia mudado? Ou pior, se esquecido dele? Deixado de acreditar?
– Impossível! – exclamou ele para si mesmo, mas também chegando aos ouvidos da desconhecida.
– Disse alguma coisa? – perguntou a jovem, virando-se para trás.
Assim que o olhos azuis da menina encontraram com os seus, Jack pôde ver que havia algo errado. A jovem tinha os olhos inquietos e suas mãos esfregavam-se uma na outra.
– Ei, está tudo be — mas as palavras de Jack pararam em sua garganta assim que percebeu que estavam na frente do cemitério.
Fay já tinha desistido de pensar no que fazer. Não criou coragem de dizer uma só palavra durante as poucas quadras até o cemitério. A culpa de não ter dito as coisas na hora que deveriam ser ditas estavam lhe remoendo por dentro. “ E se o choque for grande demais pra ele?” Ela pensou. Agora era tarde.
– O que estamos fazendo aqui? – perguntou Jack, engolindo em seco.
O rosto de Jack havia se transformado no reflexo da preocupação e o medo preenchia seus olhos. Assim, sem dizer mais nada, a estranha puxou seu braço e levou-o até um túmulo com os nomes Jamie Bennet e Catherine Moore. Ao ler aquelas palavras, os pensamentos do garoto haviam se transformado num grande vazio. Por alguns segundos sua respiração parou e seus olhos congelaram.
– Eles eram meus pais – disse a menina depois de um longo suspiro.
– V-você? Filha do Jamie? – exclamou o menino, saindo de seu longo transe e passando as maõs pelos cabelos prateados.
De súbito, Jack caiu de joelhos com as mãos no rosto, sentindo suas lágrimas geladas escorrerem pelo seu rosto. Em seguida, sentiu um calor pairar sobre seu ombro. Olhou na direção das mãos da garota, e depois para os olhos, igualmente molhados e cheios de melancolia.
"Afinal, como ele pôde deixar isso acontecer? Como ele pôde passar tanto tempo sem procurar notícias sobre seu amigo? Jamie era um garoto tão bom, a primeira pessoa a acreditar em Jack Frost e tudo o que ele representava. Jack nunca poderia compensar Jamie por tudo o que lhe aconteceu, o quanto o encontro com aquela criança havia mudado sua vida. E mesmo assim, não foi capaz nem mesmo de protegê-lo." Culpava-se Jack em sua mente. Mas a voz da menina interrompeu aqueles pensamentos de culpa:
– Aconteceu na véspera de Natal – começou a garota – Eles foram ver as estrelas como sempre faziam depois da ceia. Eles sempre foram assim sabe, cheios de crenças. Diziam que veriam o papai-noel voando pelo céu à noite – ela fez uma pausa, limpando suas lágrimas e esboçando um sorriso distante – Eles sempre me levavam junto. Não consigo me lembrar agora se eu realmente via alguma coisa no céu, mas me lembro que era muito divertido. Nós parávamos o carro em algum ponto no alto da cidade e sentávamos na grama. Eles me contavam histórias sobre muitas lendas. Você pode me achar estranha, mas acho que sempre acreditei em todas, e acredito até hoje. – disse a menina fazendo outra pausa, tirando a mão dos ombros de Jack e agachando no chão para acariciar as flores plantadas ao lado da lápide
– Foi um acidente de carro – ela voltou a falar, a tristeza voltando para dentro de seus olhos azuis – uma criança passou correndo da frente do carro e eles desviaram... Mas acabaram entrando na outra pista, batendo em outro carro que vinha da direção oposta. Não me lembro de nada, a não ser de acordar no hospital uma semana depois.
Ao terminar a história a menina permaneceu imóvel, apenas observando os nomes escritos nas lápides. Após processar tudo o que havia sido dito, Jack respirou fundo e abaixou sua cabeça que agora estava apoiada em seus joelhos dobrados. Colocou seus braços em volta de seu rosto e deixou que suas lágrimas escorressem cada vez mais. E lá ficaram os dois, por pouco mais de 30 minutos.
– Bem, vamos voltar? – perguntou a jovem ao levantar-se do chão, agora não mais tão estranha aos olhos de Jack.
– Acho que vou ficar mais um pouco – respondeu o garoto, limpando os restos das lagrimas em seu rosto. Agora tudo que havia sobrado era um rosto sereno e um coração dolorido.
– Tudo bem. – disse a menina, dando as costas a Jack – Aliás...– continuou ela, virando-se para direção dele novamente – Qual seria seu nome? Não acredito que me esqueci de algo tão importante! – exclamou, esfregando uma mão na outra de novo.
– Pode me chamar de Jack – disse o rapaz enquanto fitava o rosto da filha de seu falecido amigo – E o seu?
– Oh... Jack – falou ela, mais para si mesma do que em voz alta. Sentia que havia algo estranho sobre esse nome, mas continuou a conversa – Meu nome é Faith, mas todos me chamam de Fay. Pode me chamar como quiser – sorriu Fay.
Fay deu as costas para Jack novamente e seguiu para a entrada do cemitério enquanto refletia sobre o significado daquele nome. No instante que chegou aos portões do lugar, a resposta atropelou seus pensamentos e explodiu em seus olhos, que arregalados, olharam para a figura distante do menino de cabelos brancos.
– Jack Frost! – sussurrou Fay, sem acreditar nas próprias palavras.
Talvez aquele foi fosse o encontro mais incrível e mágico que a garota já vivenciara.
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