First Day of Spring
18 O Outro Aliado
Notas iniciais
Ainda digerindo aos poucos toda a verdade sobre Alyssa e a razão de ter sofrido tanto todos aqueles meses , Fay encarava o gramado do jardim em que se encontrava. Leah ficou em silêncio por um momento, dando tempo para a colega pensar no assunto.
– Mas escute Fay... – Leah pôs um fim no silêncio com uma voz suave e tranquilizante, com o intuito de acalmar a morena – Não fale nada para ninguém certo? Vamos antes de tudo pensar com calma numa forma de resolver sua situação, e então nós agimos.
Fay virou-se para a loira com uma feição levemente incomodada. Teriam ainda que bolar um plano? Quanta injustiça era ficar ali sem fazer nada, sendo vítima de um absurdo desses e tendo ainda que pensar num jeito de fazer com que acreditassem nela. Ela estava certa, ela dizia a verdade, não era ela quem deveria provar nada. Mas suspirou ao relembrar-se de como a mente daquela gente trabalhava de forma estranha. Se sentia desconfortável tendo que bolar um plano para ganhar confiança das pessoas assim como Alyssa, mas pelo visto não teria outro jeito de desmascarar a ruiva.
– E você pensou em alguma coisa?
– Na verdade não... Mas nós podemos! É só ter paciência... – Aquilo seria difícil. Foi o que Leah pensou. Ela não era nenhum gênio ardiloso e sabia muito bem disso, enquanto Fay era a personificação da inocência. Seria complicado pensar num plano que Alyssa não pudesse reverter para o seu lado. – Vamos tentar pensar em algo!
Leah tentou transparecer confiança mas parecia não ter afetado em nada a expressão séria da colega. Interrompendo os pensamentos das duas jovens, ouviram-se alguns ruídos dos arbustos atrás delas. Assustadas com a presença misteriosa e ainda com mais medo por tudo o que revelaram a pouco, observaram com olhos arregalados a figura que se colocava de pé atrás delas.
Jack já havia observado Alyssa e Ashley desistindo de encontrar Leah, quando pôs-se a procurar por sua amiga. Do alto do céu, avistou as pequenas duas figuras sentadas no banco branco do jardim atrás da escola. Estava aterrissando em uma das árvores ao redor quando percebeu o que acabara de ocorrer ali.
– Então parece que a Bennett finalmente descobriu a verdade... – disse Caleb, dando tapinhas na própria cabeça afim de tirar qualquer vestígio de terra ou grama de seus cabelos lisos e castanhos. – Bom saber.
As duas olharam incrédulas para o garoto de olhar frio e desinteressado saindo de trás do arbusto. Então ele havia realmente ouvido tudo. Leah sentiu o suor do nervosismo brotar em sua testa.
– Q-Que coisa mais feia é ficar bisbilhotando a conversa dos outros! Por que ficou aí escondido? – gritou a loira, acusando o colega com o indicador.
– Eu jamais faria algo assim. Foram vocês que vieram atormentar meu sono. – Ele colocou as mãos no bolso do casaco verde – Alguns dias eu venho aqui tirar um cochilo depois da aula. Bem de baixo dessa árvore – ele desviou o olhar para o tronco ao seu lado.
– E você espera que nós acreditemos nisso? – Leah continuou com seu tom de voz alterado, temendo por seja lá o que aquele garoto pretendia fazer com as informações que tinha agora.
Atrás dela, Fay apenas ouvia a tudo desconfiada, mas não tinha medo. Independentemente do que acontecesse, ela sabia que estava certa, que ninguém ali havia dito nada de errado. Não poderia se sentir culpada ou amedrontada por palavras de qualquer um que estivesse contra o que era certo. Mas se interessava, pois até então acreditava que Caleb era uma boa pessoa, diferente dos outros.
– Acredite no que quiser. Eu venho aqui pelo mesmo motivo que vocês vieram hoje. Simplesmente porque nunca ninguém vem aqui. Assim, eu posso dormir em paz. Ademais, se eu tivesse chegado atrás de vocês duas, teriam me visto chegando. Não me viram porque eu estava aqui antes. – Caleb passou as duas pernas sobre o arbusto – Mas que seja, não devo explicações a você. Até mais. – Deu as costas para as duas meninas e começou a seguir o caminho de volta para a entrada do colégio.
– Espere! – Leah gritou, lançando suas mãos na direção do rapaz. – Você não pode contar isso pra ninguém!
– Já guardo essa informação há muito tempo. Não há motivos para soltá-la agora. – Disse Caleb de costas, ainda seguindo seu caminho.
– Se sabia de tudo... Por que nunca fez nada? – Perguntou Fay, dando alguns passos na direção do moreno.
Caleb parou e virou-se na direção das duas meninas. Imaginou que Bennett deveria estar furiosa. E de certo modo, com razão. Afinal, ela havia sido injustiçada e excluída por meses. Uma pessoa boa e altruísta como ela jamais deixaria aquilo acontecer. Mas ele era diferente e ela provavelmente não entenderia.
– Eu pensei que havia lhe dito antes. Sou um observador. Não gosto muito de interferir nas coisas
– Entendo. – Foi tudo o que a menina disse, colocando-se pensativa.
Leah só analisou a situação. Já estava farta daquela falta de desconfiança de sua colega. Não poderia deixar aquele rapaz ir embora sem mais nem menos. Era muito arriscado. Mas o que ela poderia fazer? Não é como se pudesse obrigar o rapaz a ficar em silêncio. Ameaçá-lo ou suborna-lo apenas a tornaria tão ruim quanto Alyssa.
Assistindo à tudo aquilo, estava Jack Frost. Ele também estava inconformado com aquela atitude de Caleb, todo cheio de si. Afinal, quem ele pensava que era? Esse era um dos pensamento que o segurava de realizar o que estaria prestes a fazer. Alguma coisa coisa dentro dele também dizia que não devia aproximar Caleb de Fay. Seria desconfortável e massante para ele. Mas pelo outro lado, não poderia deixar esse sentimento vencer. Já era errado demais admitir os sentimentos bons que ele sentia em relação à tudo isso, quem dirá os maus. Ademais não poderia deixar sua amiga desprotegida, correndo o risco de ser ameaçada por um sujeito como aquele. Não tinha jeito agora.
Pela primeira vez desde que saíra da aula, Fay avistou seu amigo novamente, flutuando até estar atrás do garoto de cabelos castanhos. Suas mãos brilharam por um momento, e no outro, Caleb havia parado. E assim ele ficou por alguns instantes até Leah e Fay o alcançarem. Ficaram boquiabertas ao verem o rapaz, sempre sério e indiferente, abrir um sorriso, por mais leve que fosse, em direção ao nada, perdido em pensamentos.
– Caleb? – Chamou Leah, preocupada que garoto havia se perdido em algum tipo transe.
Fay só assistia a cena com um enorme sorriso no rosto, já sabendo os sintomas que a incrível magia de Jack causava nas pessoas.
– Hm... Hm? O que? – o moreno respondeu com um meio sorriso, talvez metade dele ainda estivesse no mundo das boas recordações. Fay aproveitou o momento para fazer o que deveria ser feito, antes que Leah pudesse acabar de vez com o humor dele.
– Você... Não vai contar a ninguém não é? Sobre o que você ouviu? De verdade né? – Enquanto o rapaz desviava sua atenção para o olhar da jovem, percebeu como os olhos dela pareciam crescer a cada palavra que ela pronunciava, tornando difícil continuar a dar respostas vagas.
– Não vou... – Ele disse por fim
– Muito obrigada. Você é uma pessoa muito gentil. – A menina disse com um sorriso no rosto, aliviada de ter conseguido talvez, um novo aliado. Ou no mínimo alguém que reconhecia a verdade. Já sentia que era um pequena conquista.
E assim, o dia se encerrou. Leah continuava um tanto quanto desconfiada e Jack teve de assistir aos dois colegas de classe indo embora juntos. Enquanto os dois andavam, Fay perguntava a Caleb sobre seus hobbies, seus costumes, seu dia-a-dia. O menino achou todo aquele questionário um tanto quanto estranho e inesperado, mas por dentro, enchia seu coração com alguma coisa que ele ainda não sabia o que era.
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