First Day of Spring
16 Fim do Silêncio
Notas iniciais
Jack estava sentado na mesa do professor, simplesmente ignorando a entrada de cada um dos outros estudantes na sala. Fay só escondia seu riso diante daquela situação.
– Primeira pergunta – Jack começou a falar, continuando a brincar com o cajado de madeira em suas mãos – Você realmente não fala com ninguém desta classe?
“Não.” Fay balançou a cabeça negativamente.
– E este rapaz que falou com você hoje de manhã? — Jack indicou o lugar onde Caleb estava sentado com cabeça
“Não.” Fay apenas respondia com os gestos de sua cabeça.
– Então... Essa foi a primeira vez que falou com ele?
Fay parou para pensar por um instante. Já havia sido apresentada a Caleb através de Drake tempos atrás, mas naquele dia Caleb nem mesmo havia lhe dirigido alguma palavra.
“Sim” Fay concordou finalmente.
Jack levantou uma de suas sobrancelhas desconfiado, mas por fim deu de ombros e acreditou na jovem.
– Interessante. Talvez isso já seja um bom sinal – Jack falava sem verdadeira animação em suas palavras. Fay apenas sorriu com o comentário, o que fez com que a pontada de desconforto o encontrasse novamente. Ele suspirou.
Foi quando um pensamento ocorreu a Jack. Naquela situação, Fay não seria capaz de indagá-lo sobre qualquer questionamento, nem descobrir as intenções de suas perguntas. E para completar, tudo não passava de um jogo, o que dava a Jack todo o direito de fazer todo tipo de pergunta desde que ele achasse relevante.
– Você nunca se apaixonou? – No mesmo instante em que perguntou, Jack arrependeu-se. Aonde ele queria chegar com aquilo? Nem ele mesmo sabia. – Afinal, a escola é onde as pessoas tem seu primeiro amor, primeiro beijo, coisas do tipo... Não é? Eu sempre ouvia as pessoas comentando. – Jack rezou para que tivesse sido capaz de consertar aquele seu comentário imprudente. Não podia deixar que a idéia de estar começando a gostar de Fay ocorresse na mente da garota. Na verdade, não podia deixar que ocorresse nem mesmo em sua própria cabeça. O que ele estava pensando ao fazer aquela pergunta? Jack se martirizava mentalmente, mas estava atentíssimo à resposta da jovem.
“Não.” Fay gesticulou simples e inocentemente, permitindo que Jack soltasse o ar de seus pulmões novamente. Pelo visto, nada havia ocorrido na cabeça da menina. “Graças à Lua.” Pensou Jack. No entanto, indo contra toda sua razão, a resposta da pergunta também despertou em Jack outro tipo de alívio, dentro de seu coração. Ele queria se bater por isso, mas não pôde evitar.
Fay notou que deveria parecer estranha olhando fixamente para mesa vazia do professor e ainda mais fazendo gestos com a cabeça. Envergonhada com um olhar ou outro que já havia sido direcionado a ela, Fay abaixou a cabeça e fez um sinal para que Jack se aproximasse dela.
– O que foi? — Perguntou o rapaz com uma ponta de preocupação na voz, começando a imaginar as conclusões que Fay poderia ter chegado a partir daquele seu questionário.
Fay pegou um lápis e abriu seu caderno em uma página em branco.
“Não posso continuar te respondendo assim. É muito chamativo.” Fay escreveu cabisbaixa, como se estivesse fazendo anotações. Dado que nem mesmo precisava olhar na direção de Jack para respondê-lo, ou tirar a folha de seu caderno
– Ah sim... Entendi. – Jack passava a mão atrás de sua cabeça, decidido a tranquilizar-se por definitivo e arrancar aquele nervosismo desnecessário de sua mente. Não era de sua natureza agir daquele jeito.
– Mas de verdade, você nunca conversou com ninguém?
“Quando as aulas começaram, eu procurei fazer amizades, me aproximar das pessoas. Simplesmente não deu certo. Depois de uma semana tudo já havia ido por água abaixo, ninguém mais me dava atenção. Então eu desisti.” Ao terminar de escrever, Fay olhou para o lado, onde estava sentada Leah, a primeira pessoa com quem conversara na escola.
– Ora! Mas o que aconteceu com a Fay que eu conheci? Achei que você fosse mais insistente e teimosa do que isso. – Jack cruzou os braços e balançou a cabeça numa forma de desaprovação. Esperava conseguir convencê-la através de um desafio, como sempre.
Fay apenas inspirou profundamente e passou a mão pelos cabelos. Diferentemente dos outros desafios propostos por Jack, aquele não a excitava, e sim irritava.
“Já disse que tentei. Eu tentei. Mas simplesmente não dá. Não quero mais me decepcionar.” A menina escreveu com linhas fortes.
O rapaz de cabelos brancos observou a frustração estampada no rosto de Fay. Era triste ver Fay, geralmente tão corajosa, extrovertida e gentil, transformar-se em um gatinho assustado naquele lugar. Ela provavelmente tinha tanta coisa a dizer para aquela gente. Jack sabia que se dessem uma chance a ela, iriam encantar-se, assim como ele o fez. Precisava encontrar um jeito de trazer a coragem de volta ao olhar da jovem.
– E essa menina pra quem você olhou? — Jack já começava formar um leve sorriso de canto – Parece que vocês já conversaram antes.
“Não foi nada demais.” Fay escrevia ainda levemente incomodada por algum motivo que nem ela mesmo entendia. “Só trocamos cumprimentos no primeiro dia de aula. Isso não significa nada...”
De repente a folha havia sido tirada de seu caderno e de suas mãos, fazendo com que o lápis riscasse a folha. Jack segurava a folha no alto, longe do alcance da jovem, que desesperada, olhava para os lados para lembrar-se de que estava em público.
Foi quando Fay levantou-se breve e rapidamente para alcançar a folha na mão de Jack, que no mesmo instante ele soltou-a e assoprou, fazendo com que a folha flutuasse até de baixo dos pés de Leah.
A sala já estava cheia, e a aula prestes a começar. Extremamente irritada com a vergonha que Jack poderia fazê-la passar, ela fitou o rapaz com as sobrancelhas franzidas ao ver o local que o papel havia caído. Após discretamente sibilar um “Você vai ver” enquanto o fitava, ela se abaixou para recolher a folha do chão. Jack apenas observava segurando uma risada, mas ainda sorrindo abertamente como uma criança que aprontava uma travessura.
Sentindo um repentino frio nos pés, Leah desviou sua concentração da revista de moda que folheava e moveu seus pés, logo após notando o braço de Fay que se esticava para alcançar o papel em que havia acabado de pisar.
– Nossa, me desculpe! – Leah exclamou, agachando-se para apanhar a folha e devovê-la à colega.
Fay tirou o papel das mãos de Leah imediatamente e escondeu-o de baixo de suas anotações. Virou-se para loira novamente, completamente sem graça e agradeceu enquanto colocava os cabelos atrás da orelha.
– Obrigada
– Não foi nada – respondeu Leah com um sorriso.
Ainda, Jack aproximou-se da loira por trás, fazendo um gesto com as mãos, que criou um mísero floco de neve que caiu na cabeça da jovem. No segundo seguinte, um sorriso havia se formado no rosto de Leah, que virou sua cabeça em direção à janela.
– Veja Fay! Está nevando – A menina apontou para a janela e sorriu ainda mais. – Adoro dias de neve.
– E-Eu também gosto. – Fay respondeu confusa. Viu Jack atrás de Leah, piscando em sua direção. Quase soltou um riso, mas segurou-se, passando a língua pelos lábios. – É lindo.
– Sabe, quando eu era pequena, eu acordava mais cedo nos domingos de manhã nevados... Eu saía escondida para brincar na neve. Não tinha nenhum motivo para me esconder, simplesmente gostava da reação dos meus pais quando eles vinham me buscar. Acabava que brincávamos todos juntos... Era tão divertido – Leah deixou escapar um suspiro de nostalgia de seus lábios, quando repentinamente voltou à realidade, espantada por tudo o que acabara de dizer – Mas nossa, nem sei porque estou te dizendo tudo isso, foi há tanto tempo... Desculpa ficar falando coisas sem sentido... – Leah balançava a cabeça envergonhada, mas surpreendeu-se com as palavras de Fay.
– Não, não. Eu também. Eu sempre... Brincava na neve com meus pais também. Fazíamos guerra de bola de neve em toda e qualquer oportunidade. Eu não me lembro tão bem dos meus momentos com eles, mas tenho certeza de que era um momento muito divertido. – A morena sorriu para a loira, que correspondeu.
A aula começou e nenhuma outra palavra foi dita, mas parecia que o ar do ambiente já havia se tornado diferente aos olhos de Fay. A escuridão que antes contaminava aquela sala aos poucos ia clareando-se. Jack só observava contente as consequências de seu plano.
Durante a aula, o menino de cabelos prateados estava simplesmente deitado sobre a mesa do professor, fazendo caretas para sua amiga e assustando a todos com tremores nas janelas de vidro. Fay já havia desistido de se concentrar na aula. Sua maior concentração estava em segurar as risadas presas em sua garganta.
Quando o sinal tocou e todos se levantaram, Fay continuou em sua carteira, como sempre. Jack observava a garota com um aperto no coração, não gostava de vê-la daquele jeito. Todavia, naquele dia em especial, ao levantar-se, Leah também olhou na direção de Fay. A loira também não se sentia bem em vê-la sozinha, e já fazia um tempo que se sentia assim. Leah simplesmente não encontrara coragem para voltar a lhe dirigir a palavra desde a primeira semana de aula. Porque fora graças à ela própria que Alyssa espalhara todo aquela boato, e tinha consciência disso. Por isso, preferiu não mais envolver-se com Faith. Não queria ser outro alvo da fúria de Alyssa, nem das acusações da Fay se esta descobrisse.
“Mas já faz tanto tempo..” Dizia Leah para si mesma, tentando se convencer da atitude que estava prestes a tomar. Sabia que Fay era uma menina gentil e inteligente, e era muita injustiça que vivesse sendo considerada como louca. Ela estava tomando a atitude certa, e não importaria as consequências que viessem depois. A loira respirou fundo e virou-se para a colega.
– Quer vir comigo?
Fay olhou para a origem da voz e espantou-se ao perceber que aquelas palavras eram para ela.
– Claro! – Fay respondeu de imediato, levantando-se do lugar e sorrindo para a colega.
Leah correspondeu o gesto mais uma vez, e levou Faith para caminhar pelo jardim do colégio. Durante o curto percurso que fizeram, alguns olhos curiosos encaravam as duas. Leah já estava começando a arrepender-se daquela decisão. Provavelmente perderia todas as suas companhias depois daquele evento.
Quando as duas sentaram-se em um dos bancos que se encontravam no local, Leah fitou o rosto da garota ao seu lado. Ela esbanjava felicidade, e estava com as bochechas vermelhas. Em questão de segundos a loira amoleceu como manteiga. Não poderia magoar uma menina tão doce como aquela.
– Então Faith... O que tem feito?
– Pra falar a verdade... – Fay pensou em dizer que andava abrigando espíritos da neve em sua casa, mas descartou a hipótese rindo mentalmente. – Nada além de estudar, dormir, comer, ler... Essas coisas. E você?
– Eu comecei um curso de costura. – Leah tirou do bolso uma barra de cereais – Estou pensando seriamente em fazer faculdade de moda. – Abriu a embalagem e deu uma dentada. – Você.. shá...Penshou... ... no cursho... que desesha... Fazer? – ela continuava a falar com a boca cheia.
Ali vinha um assunto inesperado para a mente de Fay. Ela não pensava muito nisso. Seu maior objetivo nos últimos 7 anos era ser saudável e não chegara a pensar num futuro ainda além desse.
Enquanto pensava na resposta, notou que Jack havia saído de seu lado. Provavelmente ela deixou de prestar atenção no paradeiro deste após a surpresa de ser sido chamada por Leah. Fay começou a virar sua cabeça para os lados e procurar algum sinal da presença do rapaz. E nada.
– Perdeu alguma coisa? – perguntou Leah
– Não... Ah. Então, respondendo sua pergunta, eu ainda não me decidi sobre isso. – Disse Fay com sinceridade, e ao mesmo tempo decidindo que procuraria por Jack mais tarde.
– Mesmo? Bem eu também não tinha pensado até um tempo atrás, é só que parece que está todo mundo pressionando agente sobre isso sabe? É como um beco sem saída – A loira deu mais uma mordida em sua barra de cereais – E daí... Eu... peguei... a pwimweira coisha... Que eu mais me identificava
– Entendi. – Fay estava pensativa. Passou todo seu tempo livre pensando em um certo lindo garoto de olhos azuis e não lembrou-se de tal decisão tão importante. E o pior é que ela nem fazia ideia de por onde começar para chegar a uma conclusão.
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