Ele não percebeu que estava nervoso até sentir o toque em sua mão. Leorio sorria gentilmente. Dizia sem palavras o quanto se sentia feliz por estarem ali. A porta do elevador se abriu, e os três entraram no pequeno hall. A alguns passos de distância, podiam ouvir a música. Leorio tocou a campainha.

— Chegaram! — gritou alguém de dentro do apartamento. Uma pequena algazarra de ruídos de salto, e Samantha abriu a porta, sorridente. — Leo! Kura! Que bom que vocês vieram!

— E aí, Sam? — O Paradinight sorriu. — Chegamos tarde?

— Chegaram em boa hora. Vamos, entrem. Fique à vontade, Kura.

— Obrigado — respondeu o Kuruta, acompanhando Leorio.

— Ai, gente, olha que coisa mais fofa! — Sam agachou-se para falar com Kurode. — Ele é muito lindo, Leorio!

— Obrigado. É o orgulho do papai. Não é, Kurode?

— Venham, o pessoal está todo aqui.

Seguiram Sammy até a sala, onde vários jovens se reuniam ao redor do karaokê. Aya foi a primeira a exclamar de surpresa. Levantou-se do sofá e correu para dar um abraço em Leorio. Por um instante, fitou Kurapika com timidez, mas decidiu abraçá-lo também. Kurode, ciumento, tentou erguer-se sobre as patas traseiras.

— Kurode! — Aya afagou suas orelhas. Era uma imagem cômica, pois o labrador tinha quase o tamanho dela. — Que saudades de você.

— E aí, pessoal? — cumprimentou o Paradinight.

— Leorio!

— Leo!

— E aí?

Kurapika quase se perdeu naquela confusão de vozes, mas Leorio segurou sua mão e o puxou para frente, decidido a apresentá-lo a todo mundo. Kurode era mais extrovertido. Simplesmente saiu cheirando um por um.

— Pessoal, este aqui é o Kurapika. Kurapika, estes são meus amigos da faculdade. A Sam. — Ele indicou a garota de cabelos negros curtos que atendera a porta. — A Cass, que tirou nossas fotos de Halloween. O Pietro. A Aya. A Vivi. O Edward e a Melina; eles são um casal. E o Charlie e o Benja você também conhece.

— E aí, cara, beleza? — exclamou Pietro.

— Olá! — Vivi acenou alegremente.

— Eu lembro de você no evento de Halloween — disse Edward. — Eu era o esqueleto do Túnel do Terror.

— Sim, eu também me lembro. — Kurapika sorriu. — Foi divertido.

— E eu era aquele cara bacana que conversou contigo no final do show!

— Cala a boca, Pietro — ralhou Aya. — De legal, você não tem nada.

— Não me provoque, baixinha...

— Vocês são muito barulhentos — disse Melina. — Vão assustar o pobrezinho.

— Vamos nada! — exclamou Vivi. — Fica tranquilo, Kurapika, que a gente vai te levar por um caminho que é o bicho!

— É, pode confiar na gente! — completou Charlie.

O Kuruta não estava acostumado a ser o centro das atenções, mas tentou manter o sorriso enquanto desviava os olhos de um para o outro. Benjamin vestia a echarpe de sempre. Aya estava de rosa. Cass afastava os cabelos ruivos do rosto o tempo todo. E Pietro falava um pouco alto, gesticulando tanto que parecia bêbado. Quando Leorio chamou Sammy em um canto para falar sobre Kurode, Kurapika aproveitou a deixa para acompanhá-los.

— Onde posso colocar o jornal dele? — perguntou o Paradinight, mostrando a sacola com os pertences do cachorro.

— Aqui na área de serviço. Vem comigo.

Enquanto Leorio se agachava para preparar as tigelas de ração e água e o jornal, Kurapika despiu o sobretudo e o cachecol. Fazia muito tempo que não comemorava o Ano Novo. O que Arrietty não diria quando soubesse?

— É para fazer no jornal, ouviu, Kurode? No jornal. Não vai me fazer passar vergonha.

— Acho que ele não entende, Leorio.

— Entende, sim. Só que às vezes ele erra não sei por quê.

Quando voltaram para a sala, Charlie e Benjamin cantavam juntos uma música de amor. Benja era realmente muito bom, mas Charlie exagerava um pouco nas notas.

— Com licença — pediu Kurapika, sentando-se ao lado de Melina.

— Desculpe por antes, Kurapika-san. Nós parecemos um pouco loucos, mas garanto que ninguém aqui morde — respondeu a garota.

— Fale por você — brincou Edward. — Ai, não me belisca!

— Vocês são de que curso? — perguntou Kurapika apenas pela necessidade de dizer alguma coisa.

— Eu sou de Medicina. Mesmo período que o Leorio. Somos colegas em várias disciplinas, junto com a Aya. E o Edward é de Engenharia Civil.

— Exatas é o bicho!

Melina revirou os olhos.

— Está bem, Ed. A gente sabe.

Kurapika gostou de imediato de Melina. Era uma jovem discreta com um sorriso lindo e cabelos volumosos e cacheados. Edward era quase o oposto: extrovertido, brincalhão e nada discreto. O Kuruta enxergou a si mesmo e a Leorio.

— E você, Kurapika-san?

Ele hesitou. Estava prestes a abrir os lábios quando sentiu o toque em seu ombro.

— O Kurapika é um Hunter — explicou Leorio, sentando-se ao seu lado no sofá. — Muito inteligente, por sinal. Não entendo metade do que ele diz.

— Sei como se sente!

— Edward — Melina repreendeu-o. — Isso é bem legal, Kurapika-san.

— Pode me chamar só de Kurapika.

Charlie e Benjamin terminaram de cantar a música e perguntaram qual seria a próxima dupla. Leorio e Pietro levantaram-se juntos e trocaram aquele olhar.

— Ah, não — murmurou Aya. — De novo, não.

— O quê? — perguntou Kurapika.

— Eles sempre cantam juntos — disse Benjamin, sentando-se ao seu lado.

— E sempre fazem o maior escândalo — completou Charlie, sentando-se no braço do sofá. — Não que eu possa repreendê-los.

— Essa música de novo? — ralhou Sam.

— Viciados — brincou Cass.

— Sai daí, Pietro! — disse Vivi, juntando as mãos em forma de concha ao redor da boca.

Kurapika não estava entendendo nada até a música começar a tocar. Conhecia-a muito bem. Bem até demais. Poderia cantá-la sem acompanhar a letra no monitor. A abertura de Hiato x Hiato estava tocando.

— Desafinados — resmungou Aya.

E eram. Chegava a dar vergonha. Kurode começou a latir e saltar de um lado para o outro.

— Kurode, shiu! — ordenou Melina, e ele prontamente obedeceu. Kurapika ergueu os olhos diante dessa proeza.

— Yeah! — exclamaram Leorio e Pietro, um passando o braço pelos ombros do outro. Eram uma visão engraçada. Dois marmanjos altos, um com cabelos espetados e o outro com cabelos muito lisos na altura dos ombros.

— Que bom que esse karaokê não dá nota — disse Aya, provocando risos em todo mundo.

— Vai você, então, baixinha, se é tão esperta.

— Ah, eu vou mesmo. Vem, Vivi, vamos mostrar a eles como se faz.

— Já é! — Vivi pôs-se de pé em um salto.

Elas também escolheram uma abertura de anime. Kurapika pensou reconhecê-la de algum lugar. Conforme prestava atenção na melodia, deu-se conta de que Arrietty costumava cantarolá-la quando preparava o café da manhã.

Aya cantou os primeiros versos. Era claramente superior a Pietro. Dava gosto ouvi-la cantando. Vivi não ficava para trás. Juntas, elas criavam uma incrível harmonia. Os outros aplaudiram quando a música acabou.

— Muito bom, meninas! — disse Pietro, levantando-se para abraçar Aya. — Vocês me dão um orgulho que...

— Sai pra lá, bicho ruim! — Aya desvencilhou-se.

— Nem vem, que eu não gosto de quem estraga meu tímpano — provocou Vivi.

— Fala sério! — Pietro levou a mão ao peito. — Assim vocês destroem meu coração.

— Dramático! — exclamou Edward.

— Você não tem coração! — brincou Cass.

Pietro fechou os olhos e se deixou cair no chão fazendo mil poses de sofrimento.

— Pietro é fingidor e finge tão completamente que chega a fingir ser dor a dor que deveras sente — citou Benjamin, provocando risadas em todo mundo.

Kurapika não conseguia acompanhar. Aquela turma era muito pior que Gon e Killua juntos. Seria uma sorte imensa se conservasse sua sanidade até o final da noite.

— Eu sei — Melina sussurrou em seu ouvido. — Também tenho medo de precisar tomar remédios.

O Kuruta gargalhou tanto, que todos ficaram em silêncio.

— Aya, esses biscoitos estão uma delícia — disse Pietro.

— Não fala com a boca cheia, moleque — repreendeu Vivi. — 'Tá espalhando farelo e baba em todo mundo.

— Obrigada, Pietro. É muito gentil da tua parte. — Aya abriu um sorriso orgulhoso e pôs a travessa sobre a mesa de centro. — Mais tarde tem bolo, ok, gente?

— Adeus, dieta. — Melina suspirou.

— Você não precisa de dieta. — Edward beliscou sua cintura. — É minha querida beldade.

Ela revirou os olhos.

— Quem precisa de dieta sou eu! — Cass beliscou suas gordurinhas. — Aqui, oh! Tudo pizza.

— Eu te acho linda, Cass. — Pietro mexeu as sobrancelhas.

— Cruz credo!

Leorio balançava a cabeça, rindo.

— Vocês vão traumatizar meu namorado. Estou avisando...

— Quê?! — Aya deu um pulo no sofá. — Vocês estão namorando?!

Os outros olharam para ela sem conseguir conter o riso.

— Amiga, só você não percebeu — disse Vivi.

— Quê?!

— É verdade. — Leorio apertou o ombro de Kurapika. — Somos namorados. Não é, amor?

O Kuruta ficou vermelhinho de vergonha e desejou pular pela janela. Felizmente, ninguém implicou muito. Apenas Aya ficou quieta em seu canto, fitando o chão como se sua mente tivesse parado de funcionar. Até que Cass a chamou:

— Ei, já que tocamos no assunto namoro, e aquele seu irmão super gostoso, hein?

— Quem? — Aya balançou a cabeça, assustada. — O Icaro?

— Ah, esse garoto... — Cass abanou-se com a mão.

— 'Cês juram que gostam do Icaro? Qual o problema de vocês?

— É, qual o problema? — Pietro levantou-se. — Podendo ter isto aqui tudo... — Ele moveu os braços, indicando o próprio corpo.

— Eca.

— Duplo eca.

— Cruz credo.

— Nem Jesus na causa.

— Vocês são más, meninas!

Kurapika aproximou os lábios do ouvido de Leorio.

— Quem é Icaro?

— Irmão da Aya. Não o conheci pessoalmente, mas acho que ele apareceu no show do Halloween.

— Ah... — O Kuruta franziu o cenho. — Por que ficou arrepiado de repente?

— Nada... — murmurou Leorio, esfregando o pescoço.

— Ele disse que ia passar o Ano Novo com a namorada e a mãe.

— Ah, jura que ele tem namorada? — Cass esmaeceu.

— Tem, ué. Eu não disse a vocês no meu aniversário?

— A gente meio que não ouviu essa parte — disse Sam, provocando risadas.

— Ei, pessoal, ninguém mais vai cantar? — perguntou Charlie, lambendo os farelos do dedo.

— Depois — respondeu Vivi. — Temos a noite toda ainda.

— Eu quero! — Pietro ergueu o braço.

— Não! — rebateram os outros.

— Por que você não tenta, Kura? — convidou Samantha.

Ele precisou de alguns segundos para se tocar de que o chamavam.

— O quê?

— Você e o Leo. Por que não cantam juntos?

— Bom, eu...

— O que foi? — Leorio sorriu. — Não quer cantar com seu namorado?

— Não... não é isso... Eu só... não sei cantar.

— Ora, vamos, sabe, sim. Vem comigo.

Leorio puxou-o pela mão até o centro da sala. Escolheu de novo a abertura de Hiato x Hiato, apesar dos protestos de seus amigos. Kurapika segurava o microfone como se fosse um objeto letal prestes a explodir. Sua voz quase não saía quando começou a cantar.

— Anda, Kura! Canta direito! — ralhou o Paradinight.

— Cale a boca, Leorio!

Apenas no final o Kuruta conseguiu relaxar o suficiente. As meninas aplaudiram. Benjamin também. Charlie assobiou várias vezes.

— Legal! O Kura. Não o Leo. O Leo canta mal.

— Você não pode falar muito, docinho. — Benja levantou-se. — Vem, Kurapika! Você vai cantar comigo agora.

O Kuruta prensou os lábios.

— Está bem...

— Não seja dramático! Você consegue — incentivou Leorio, afagando as orelhas de Kurode.

— Qual música você vai querer? — perguntou Benjamin, percorrendo a lista de opções.

— Eu não conheço muitas músicas.

— Hiato x Hiato de novo, não! — disse Sam.

— É, já chega, né? 'Tá certo que o Gale é o maior gostoso na abertura, mas já deu por hoje — completou Cass.

— Tu gosta do Gale? Eu prefiro o Lionel.

— Nem Gale, nem Lionel, Aya. Miguel Angelo. Aquele, sim, é homem — proclamou Charlie.

— Meio gay o Angelo — resmungou Pietro.

— Continua sendo homem.

— Gente, vocês não estão ajudando! — disse Benja. — E, depois, todo mundo sabe que o Miguel é hors concurs.

— Or o quê? — Edward franziu o cenho.

— Francamente, Ed, seu vocabulário não pode ser tão ruim assim — repreendeu Melina.

— Ei, eu não sou um dicionário ambulante igual a você.

— Continuam não ajudando, pessoal!

— Espere — disse Kurapika. — Essa música eu conheço.

— Jura?

— É... — O Kuruta sentiu o rosto corar. — Uma amiga minha passou um mês inteiro cantando essa abertura depois de assistir ao anime...

— Que legal! Eu adoro essa música! Vamos nela, então. — Benjamin selecionou-a.

As primeiras notas tocaram. Benja puxou os primeiros versos:

Can you hear my heartbeat?

Tired of feeling never enough

I close my eyes and tell myself

That my dreams will come true

Ele sorriu para Kurapika, que prosseguiu:

There'll be no more darkness when you believe in

Yourself you are unstoppable

Where your destiny lies, dancing on the blades

You set my heart on fire!

Então, juntos:

Don't stop us now the moment of truth

We were born to make history

We'll make it happen, we'll turn it around

Yes, we were born to make history

Kurapika nunca experimentara uma sensação como aquela. Uma liberdade, um gosto. Seus lábios sorriam conforme cantava. A música acabou rápido demais.

— É isso aí! — berrou Vivi, batendo palmas.

— Demais! — exclamou Aya.

— Arrasou! — Cass bateu palmas também.

O Kuruta sorria, empolgado.

— E, só para constar...

Todos olharam para ele.

— O Lionel é o melhor personagem de todos. — Ele sentiu o rosto corar muito. Não se atreveu a olhar para Leorio. — Depois da Kurisu, é claro.

Kurapika observava Kurode comer a ração enquanto enchia os copos de água. Leorio apareceu logo depois para trocar o jornal. Fez carinho nas orelhas do cachorro, parabenizando-o por ter acertado.

— Bom menino. Ei, Kurapika, quer ajuda com os copos?

— Ah, não precisa. Está tudo bem. — O Kuruta ergueu a bandeja. — Vamos?

— Vamos.

Na sala, Melina e Edward cantavam The time of my life. Ela tinha uma voz grave e bonita que contrastava com o timbre mais fino do namorado. Um casal curioso em vários sentidos.

— Também quero uma namorada para cantar comigo — resmungou Pietro, esfregando os dedos para se livrar dos últimos farelos de bolo. — Você aceita, Aya?

— Credo! Namorar você? Te ouvir cantando já não ‘tá bom, não?

Sam e Cass gargalharam.

— Chama o Leorio, se quer tanto assim... — continuou Aya.

— Shippo — disse Vivi, provocando risadas.

— O que quer dizer “shippo”? — perguntou o Kuruta.

— Você não precisa saber. — Leorio pegou dois copos e serviu a Melina e Edward, que sorriam bobos com o final da música.

— Gente! — berrou Aya. — A hora!

— Xi, é mesmo. — Sammy conferiu o relógio de pulso. — Temos de nos apressar ou perderemos a queima de fogos. Leo, Kura, vocês vão com a gente?

Eles trocaram um olhar.

— Nós adoraríamos, Sam, mas não podemos deixar o Kurode sozinho.

— Ah, entendi... Dá para ouvir as explosões daqui, então ele deve ficar assustado.

— Ele morre de medo, esse medroso.

— Não fale assim dele — ralhou Kurapika.

— Bom, de qualquer forma, se nós ficarmos aqui com ele, o Kurode fica de boa. E nós podemos ver a queima de fogos pela janela, não é?

— Sim, mas não é a mesma coisa que ao vivo! — resmungou Sam. — É tão mais bonito de perto. Você já viu queimas de fogos, não é, Kura?

— O quê?

O Kuruta hesitou por um instante. Desde que saíra de seu vilarejo, não era muito adepto a festas. As coisas mudaram um pouco quando conheceu Arrietty. A louca arrastava-o para todos os cantos, independentemente de sua vontade. Uma vez, levara-o a um festival curioso com barracas de comida e jogos. Ele vestira uma tal de yukata, vestimenta que lhe lembrara um pouco os trajes de seu clã. No final da noite, Arrietty puxou-o pelo pulso e sorriu olhando para o céu. Os fogos começaram a estourar um a um, como flores desabrochando no imenso azul.

— Sim. Eu já vi uma vez. É bonito.

— Vocês sabem como os fogos de artifício funcionam? — perguntou Benjamin.

— Começou. Vai "nerdar". — Sammy recostou-se na poltrona e cruzou os braços.

— Mas é sério! Eu vi um documentário sobre isso ontem e achei fascinante!

— Eu quero saber. — Melina sorriu.

— Porra, Melina! — disseram as outras garotas.

— Deixem o meu boy falar. Conta, Benja. O que o documentário dizia? Mas omite as partes chatas, 'tá, senão geral dorme aqui.

Kurapika ainda tinha dificuldade de acompanhar as conversas, mas gostava do clima descontraído. Benjamin era interrompido o tempo inteiro por conta de comentários inúteis e aleatórios, a maioria vinda de Pietro e Edward. Depois de alguns minutos, o funcionamento dos fogos de artifício foi esquecido, e todos começaram a falar de seus formatos prediletos.

— Eu gosto de quando lançam aquela cascata de luz do alto de um prédio — disse Sam.

— É lindo demais! — concordou Cass.

— Eu gosto das carinhas sorridentes!

— Você é uma carinha sorridente, Aya — provocou Pietro, apertando sua bochecha.

— Para, infeliz!

— Eu gosto dos corações. Acho fofinhos.

— Que gay, Charlie.

— Qual o problema de vocês?

— Ignora o Edward. Ele é idiota.

— Não fala assim de mim, Mel!

— Eu gosto daqueles que sobem espiralando — disse Vivi.

— Oi?

— Espiralando.

— Que porra é essa?

— Você não conhece o verbo "espiralar", Pietro?

— Não, não. Que porra de fogo de artifício é essa que sobe "espiralando"?

— Ah, é aquele que faz assim. — Ela girou o pulso.

— Quê?

— Assim!

— Hã?

— Porra, Pietro!

— Vocês conseguem dizer alguma frase que não tenha "porra" no meio? — repreendeu Melina.

— Não. É tipo vírgula para mim.

— Meu! Como vocês chegaram nesse assunto?! — disse Aya.

— De qual você mais gosta, Kurapika? — perguntou Benjamin.

O Kuruta se assustou.

— Ah, eu...

Fez um esforço mental para se lembrar daquela noite com Arrietty. O rosto dela brilhando de deslumbramento. As yukatas coloridas. Os fogos explodindo no céu. Alguns deles eram brancos. Lembravam...

— Dentes de leão. Eu gosto daqueles que parecem dentes de leão.

— São lindos mesmo, não é? — Benjamin sorriu.

Os outros ainda discutiam. Leorio apenas balançou a cabeça e pousou a mão no ombro do namorado.

— É. São muito bonitos!

Eles estavam sozinhos no apartamento. Sam e os outros haviam ido até a praça para assistir à queima de fogos. Eram um trenzinho barulhento e feliz. Aya, a mais baixa de todos, quase sumia em meio a tanta gente.

— Como ele está? — perguntou Kurapika.

— Está ótimo. Não suspeita de nada. Não é não, Kurode?

O cachorro ergueu o focinho, mas logo voltou a brincar com seu osso.

— Seu amigos são legais — disse o Kuruta. — Loucos, mas divertidos.

— Sabia que ia gostar deles. — Leorio afagou seus cabelos. — Ainda temos uma hora até a queima de fogos. O que quer fazer?

— Não sei. Podíamos assistir algum filme.

— Está bem. Quer beber alguma coisa?

— Chocolate quente!

— Viciado.

Assistiram a um seriado qualquer sentados juntinhos no sofá. Quando faltavam dez minutos para meia-noite, Leorio levou Kurode a um dos quartos e brincou com ele no chão. Kurapika permaneceu na sala, observando pela janela. À distância, viu as primeiras explosões de cores. Eram mesmo bonitas. Quase invejou Sam e os outros.

— Então. — Leorio tocou seu ombro. — O que acha?

— E Kurode?

— Acredita que dormiu? Ele fica tranquilo quando estamos por perto. E mal dá para ouvir o barulho no quarto com tudo fechado.

— Você transpira calma, Leorio.

— Acha mesmo? — O Paradinight corou.

— Acho. Obrigado por me trazer aqui.

— Obrigado por vir.

Eles olharam pela janela.

— Veja — disse Leorio. — Dentes de leão.

O Kuruta alisou seus cabelos.

— É.