Fireproof

2 Capítulo I


— Caius, acorde...

As palavras chegaram até seu ouvido devagar e suaves, quase inaudíveis. Caius mal se mexeu pensando estar sonhando.

— Caius...

Desta vez chacoalharam lhe, mãos pesadas apertavam seus ombros magros.

— Garoto deixa de ser preguiçoso! Não foi assim que te criei. — as palavras antes suaves agora eram fortes e ditas rapidamente.

Abriu então os olhos para se deparar com o pai, Lyco Guilard sentado na beira da cama.

— O que foi? — disse o garoto com a voz soando mais ríspida do que queria.

— Como assim “o que foi”? — repetiu o pai forçando a voz mais esquisita que conseguia.

— Pensei que estaria animado hoje.

Só então se lembrou. Seu aniversário. Sua cara de sono logo se desfez e um sorriso se postou em seu rosto.

— Feliz aniversário! — disse o pai abraçando o filho.

— Obrigado pai. — agradeceu Caius quase sufocado pelo abraço. Lyco soltou o filho e voltou a encará-lo, ainda sorrindo.

— Sua mãe teria muito orgulho de você. — afirmou ele.

O garoto não respondeu, apenas sorriu sem jeito para o pai. Não sabia como responder, afinal não havia conhecido a mãe.

— Você realmente vai querer ir hoje? — perguntou o pai desviando os olhos do filho para a cama de palha.

— É claro que vou. — confirmou Caius.

Há alguns dias havia dito que no dia em que fizesse dezesseis anos iria ajudá-lo no trabalho de lenhador. Mesmo que machados e caminhadas no meio da floresta não fossem suas coisas favoritas, se sentia culpado por não fazer nada para ajudar a casa.

— Você sabe que se não quiser não precisa ir...

— Pai, eu quero ir. — encerou Caius. Lyco voltou seu olhar para o filho. — Agora será que posso me vestir?

— Ah! Sim, claro. — diz o pai enquanto se levanta e sai do quarto.

Sempre que tocava no assunto de ir junto com ele trabalhar o pai o tentava fazer mudar de idéia. Lyco criara um sentimento muito forte de proteção após a morte da esposa no parto, e somente após descobrir isso o garoto percebeu esse tratamento diferente, enquanto os outros garotos do condado podiam brincar na rua ele ficava em casa recebendo lições do pai. Caius, é claro, não culpava o pai, por causa dele sabia ler e escrever, mas algumas vezes se sentia preso e a idéia de sair de casa era excitante demais pra desperdiçá-la. Além disso, tinha outras questões pra tratar na floresta.

Caius se levantou e trocou se rápido. Calça e camisa simples, e uma bota para a caminhada na floresta. Ajeitou os cabelos negros com as mãos e desceu até a cozinha.

Encontrou o pai sentado à mesa, um enorme sorriso em sua face. Caius não entendeu o motivo da alegria até ver o pai se levantar com um bolo que escondera no colo.

— Pai... — disse o garoto com expressão de surpresa. — você não precisava.

A aparência do bolo era deliciosa, e esse era o problema. Parecia caro demais.

— Eu sei, — respondeu o pai. — mas eu queria fazer desse aniversário especial.

Depositou o bolo na mesa e se dirigiu para um canto da cozinha.

— Eu espero que isso o torne especial. — disse Lyco se aproximando de Caius com algo nas mãos.

Lyco abriu as mãos. Uma adaga. Lyco a levantou e colocou nas mãos do filho.

— É minha? — perguntou.

O pai concordou com a cabeça. Caius inspecionou a lamina de perto. Era feita inteiramente de ferro, lamina e cabo, neste havia o desenho de um dragão. Um ser destruidor, mas que deixava a adaga com uma aparência linda. Outro problema.

— Você comprou? — questionou o garoto.

— Sim. — respondeu simplesmente o pai.

— Mas...

— Não vamos falar disso agora. — encerou o pai.

Olhou para o pai e fingiu um sorriso. Será que ele havia feito aquele “trabalho especial” de novo?

Trabalho especial era como o pai havia se referido a um trabalho extra que fazia em dias aleatórios do mês. Quando era pequeno, Caius percebeu que o as vezes saia no meio da noite sem dar explicações e só voltava horas depois, ao questionar o pai, este disse apenas que fazia um “trabalho especial”.

Mas sempre que voltava possuía grande quantidade de dinheiro que ele usava para manter a casa. Após aquele dia Caius não voltou a questioná-lo, mas suas aventuras noturnas ainda eram percebidas.

— Você não quer um pedaço? — perguntou o pai, indicando o bolo.

— Claro! — respondeu Caius de imediato.

O bolo o faria engolir as perguntas que queria fazer. Pelo menos por enquanto.