Fire Eye

1 Capítulo Um - Uma péssima notícia.


Afundando.
Eu estava afundando.
Lenta e desesperadamente eu afundava, minhas mãos debatendo-se rapidamente à medida que a escuridão me engolia e o cansaço me consumia. A luz do dia ficava cada vez mais distante até que finalmente parei de lutar e a vi se extinguir até seu ultimo feixe, e então afundei.

Acordo agarrada às cobertas e empapada de suor. Minhas mãos tremiam e o vento forte trazia pequenos flocos de neve pela grande janela do quarto, que pousavam na escrivaninha. Me levantei e caminhei até a janela para fechá-la. Olhei para fora. Não havia nada além da neblina que cobria maior parte da vista de frente à casa. Fechei a janela e observei o relógio. Eram duas e vinte e sete da manhã, e novamente eu havia perdido o sono.

– Bom dia! — podia ouvir Jasmine e toda a sua alegria matinal logo que chego à cozinha. Ela põe o prato com as torradas e os ovos à minha frente. Apenas a fito e abro o melhor sorriso que posso — Que carinha,hein?
– Pesadelos — respondo enquanto reviro a comida.
– Oh...
Jasmine era a unica que sabia sobre os pesadelos que eu estava tendo com certa frequência nos ultimos dias. Ela era a nossa empregada e, provavelmente uma das únicas pessoas que realmente se importavam comigo. Esta ja era a décima noite com a qual eu tinha o mesmo sonho, em que eu apenas afundava.
– Talvez devesse ficar em casa hoje, tentar dormir um pouco. Posso falar com seu pai sobre isso, querida.
– Como se ele se importasse — termino de comer assim que digo a frase.
– Ellie. Você sabe que ele se importa com você sim. Ele só esta passando por um momento difícil.
– Ele passa por "momentos difíceis" há dezesseis anos — minha voz sai mais alta do que eu queria. Jasmine não me responde — Eu vou para a escola, eu estou bem, eu só.. — suspirei. Só preciso lavar o rosto e eu vou ficar bem.

Subo para o meu quarto e vou tomar um banho antes de sair de casa. Assim que sinto a àgua quente atingindo o meu corpo eu posso relaxar. Fecho os olhos e começo a relembrar do meu sonho.
Afundando, lenta e desesperadamente...
Abro os olhos.
Está claro, as gotas de água caem continuamente do chuveiro e então o desligo. Observo meu rosto no espelho embaçado por conta do vapor da ducha. Estou mais magra que o normal, meu rosto está pálido, meu cabelos, cortados em desordem, pingando. Eu precisava mesmo dormir.
Logo que me apronto, desço novamente e não encontro Jasmine, o que é estranho. Vou à cozinha, lugar em que ela passa a maior parte do tempo, e me deparo com meu pai tomando café. Talvez se eu me virar rapidamente ele não me veja...
– Aonde pensa que vai? — eu estava enganada.
– Sair, tchau.
– Sem as chaves? — ele balança o molho de chaves nas mãos ainda sem olhar para mim. Puxo-as de sua mão mas ele as segura — Sabe que deveria treinar para o grande dia, não é?
– Sabe que deveria fazer menos perguntas, não é? — respondo quase que imediatamente — Não fará diferença, não quero passar naquilo de qualquer jeito.
Aquilo na verdade era simplesmente um teste para uma das melhores escolas do país, e também a mais distante possível de meus amigos, tudo o que meu pai desejava era que eu passasse para esta escola para, talvez asism, não ter de se preocupar com nada além dos negócios.
– Sabe que não tem escolha. Terá de fazer o teste — diz ele com uma voz mais severa agora. Este era o real Phillip Carter, uma pessoa tão desprezível quanto o próprio nome ja soava. Dono de uma das maiores empresas de turismo do mundo e considerado, por milhares de vezes, o homem mais rico e poderoso do país, e meu pai, por pura desafortunação. Eu apenas continuo calada e puxo as chaves com mais força, e ele as solta. Saio de casa desejando por uma vez ao menos ter boas notícias de meus amigos.


Assim que chego próximo a casa de Gus, sinto uma estranha sensação percorrer pelo meu corpo. Bato em sua porta duas vezes, como de costume, e o espero abrir.
– Finalmente você chegou! — diz assim que abre a porta, puxando-me pelo braço. Ao entrar vejo que sua sala esta em total desorganização e há mapas espalhados por todo o chão. Anne esta mexendo em alguns quando eu pergunto.
– Que é isto?
– São os locais que o pai de Anne andou percorrendo, assasinatos — diz Gus apontando para os pontos marcados com um X por uma caneta verde. O pai de Anne era o Sheriff da pequena cidade de Villegard, um local com pouco mais de cinco mil habitantes e, literalmente, com mais árvores do que pessoas. Olho para os mapas.
– O que são os marcados de vermelho? — pergunto ao perceber uma pequena quantia marcada ao mapa, em locais próximos.
– Os mais incomuns — diz Anne animada, e me entrega alguns documentos. Eu os leio.
"Amelia Grant — Encontrada próxima ao lago. Morta aproximadamente doze horas antes da chegada do resgate. Causa: Desconhecida. 10/09.
Catherine Tate — Encontrada nas proximidades da reserva. Morta aproximadamente dez horas antes da chegada da polícia ao local. Causa: Desconhecida. 12/09.
Martha Rosevelt — Encontrada próxima à margem do lago. Morta aproximadamente oito horas antes da chegada da polícia ao local. Causa: Desconhecida. 14/09."
– Vocês estão ficando paranóicos... — digo com desdem.
– Qual é, Ellie — diz Gus se aproximando — São causas desconhecidas, todos os locais próximos e as datas e hora que o corpo é encontrado, veja, diminuem a cada duas horas e ocorrem a cada dois dias. Tem de haver alguma coisa.
Suspiro.
– Nem tudo é como em seus livros malucos, Gus. Milhares de pessoas morrem todos os dias, porque nos preocuparíamos com estas agora?
– Porque... — ele procura algo em meio a bagunça. Assim que acha ele me olha preocupado — E se isso acontecesse com alguém que conhecemos?
Me sinto empalidecer.
– Quem? — ele entrega outra folha, agora com os dados de todas as vítimas e onde foram vistas pela ultima vez. Todas desapareceram por, pelo menos, três dias até seus corpos serem encontrados. Todas vistas pela última vez nas proximidades do colégio. Olho para o último nome da lista.
" Ellie Carter — Vista próxima ao colégio pela última vez com August Grant e Anne Welch, ambos amigos. Desaparecidos desde quinta-feira (18/09) "
– Mas, esta data... — começo a dizer
– É hoje — completa Gus — O dia em que desaparecemos.