O vento frio vinha de todas as direções, o céu escuro com algumas poucas estrelas e ela sentada do lado de fora da tenda, observando as estrelas e constelações. E como era desde criança sua atenção foi levada para a constelação do navio: o Argos original.

Sua mente então se moveu para outro tempo, uma memória sua. De quando havia sido parte da tripulação do Argos II. Leo Valdez e suas artimanhas e brincadeiras. Ele havia chegado a criar sua atual lança, que era cheia de brinquedos. Como a ponta que superaquecia o suficiente para cortar metais variados; ou a ponta que explodia. O garoto tinha jeito para a coisa.

Hazel que havia começado a jornada ingênua e insegura e agora era uma das heroínas mais famosas da história e uma das mais poderosas manipuladoras de Névoa dos últimos séculos. E que havia lhe ajudado a se manter inteira quando Annabeth caiu no Tártaro.

Frank, seu praticamente meio-irmão mais novo, que era uma piada por não saber como agir ao seu redor ou agir descontraído no geral. O orgulho que sentiu do garoto quando ele ganhou a benção de Marte (Ou Ares, não faz tanta diferença) que havia sido maior que o que sentira quando Mark atingira o mesmo objetivo. No final o canadense havia se tornado um dos mais próximos irmãos.

Jason e Piper... Ela havia se irritado e julgado-os tanto que se fosse um pouco menos cara de pau teria vergonha até hoje de conversar com eles. E Reyna... Ela que havia lhe ajudado quando apareceu sem memórias em Nova Roma e havia abandonado o cargo de praetora e se arriscou no Antigo Continente apenas para restaurar o elo greco-romano porque acreditava em Clarisse...

E claro, havia os velhos amigos, como Hedge que havia sido o primeiro sátiro que conhecera com sua atitude tão Ares que era até engraçado pensar na ironia. E Percy com sua estupidez constante e irremediável achando que estava acima de alguém porque havia sido o cara da profecia alguns anos antes. Nico e sua timidez e mania de se vitimizar, que acabaram lhe rendendo alguns cascudos por parte de Clarisse que o tratava como um irmão caçula.

E claro... Annabeth Chase, a garota mais linda, esperta e perfeita que existira em éons. Uma guerreira da qual qualquer deus da guerra ficaria honrado de ser pai ou mãe. Uma mulher tão inteligente que havia impressionado o próprio Dédalos.

Suspirou enquanto sua mente viajava distante para sua namorada, sua atenção focada na mulher que deixara em Nova Iorque um ano e meio atrás e nas ligações que trocavam quase diariamente.

– Hey, Clarisse! – Se virou espantada ao ouvir a voz, principalmente porque não havia notado a presença antes de ouvir o chamado. Era um mortal ao lado de um semideus romano, eles carregavam um sorriso descansado no rosto e uma aura quase calma e por um momento Clarisse pode esquecer que estava no exército olhando para os dois. – Pra onde você acabou de ir, LaRue?

Apenas levantou uma sobrancelha e foi o suficiente para fazer o romano rir e o mortal levantar as mãos em rendição como se estivesse sob a mira de um rifle.

– Ficou sabendo? Vamos voltar daqui alguns dias.

– Eu sou sua superior, claro que estou sabendo Dalton. – Disse rolando os olhos e fazendo o romano rir novamente. – Já pensou no que vai fazer depois que sair desse fim de mundo?

– Eu tenho uma família, Coronel. Você sabe disso. – O mortal disse se sentando ao lado de Clarisse, logo se espreguiçando e também encarando o céu. – Minha filha, ela fez seis anos mês passado e... Ela mal se lembra de mim. Acho que a única coisa que me importa é mudar isso.

Clarisse assentiu ela podia entender um pouco do que o soldado dizia. Ela não tinha uma filha ou um filho, mas ela temia que seu um ano e meio longe de casa tivesse mudado as coisas por lá e fosse outra guerra para reestabelecer os vínculos quebrados no tempo separada dos outros. Principalmente de Annabeth.

– E você? Fiquei sabendo que tem alguém te esperando em casa. – O romano prendeu a respiração ao ouvir a frase do mortal. Clarisse olhou para baixo, para suas botas sujas de lama...

– É... Eu tenho. – Respondeu com um sorriso pequeno. – Eu tenho alguns planos. Talvez eu consiga trabalhar num antigo acampamento que eu ia no verão. E quem sabe... Sei lá, me aquietar em Nova Iorque e deixar essa bagunça para trás.

O romano se manteve em silêncio mais algum tempo antes de finalmente falar algo:

– Eu vou voltar logo. – Isso chamou a atenção dos dois que se viraram para o romano com uma sobrancelha levantada. – Meu irmão está vindo e eu... Eu não tenho coragem de deixá-lo sozinho aqui, eu vou voltar quando ele vier.

Clarisse assentiu entendendo o que ele queria dizer. Com um chalé inteiro de irmãos semideuses ela não hesitaria em voltar para proteger alguém. Ou quase não hesitaria, Annabeth sempre vindo a mente quando pensamentos assim ameaçavam no seu consciente.

– Eu tinha planos sabe... Antes de vir pro exército. Se meu pai não tivesse falado pros meus irmãos virem e eu não tivesse que vir junto para protegê-los...

– Planos é? – O mortal perguntou com um sorriso no rosto. – Eu me machuquei no último ano do médio, perdi uma bolsa de estudos, esses eram os únicos planos que tinha. O exército me salvou.

Clarisse infelizmente não poderia dizer o mesmo. Sendo filha de Ares nunca admitiria em voz alta, mas estava cansada de guerras. Primeiro a Guerra dos Titãs que havia lhe posto no centro de uma batalha, feito irmãos lutarem contra irmãos, feito ela ver Annabeth chorar sob mortalhas... Depois a Guerra contra Gaia... A Segunda Gigantomaquia.

Muitas das semideusas que se juntaram a caçada haviam morrido na barbárie que foi a guerra. Ele havia visto crianças lutando a guerra de deuses, e isso lhe doía tanto... Agora não era diferente. Era uma das mais novas a ter conseguido sua patente, mas havia visto mais morte e tragédias que até mesmo seus superiores e isso não apenas lhe dava o suficiente para subir no Exército como aterrorizava e afastava aqueles ao seu redor que não conheciam sua história.

– Hey, Ivan, porque não vai tentar ligar pra sua família e dar as notícias, hm? – O romano perguntou notando a expressão distante de Clarisse. O mortal pareceu cogitar por um tempo, mas logo estava de pé indo em direção as barracas. – É Annabeth não é?

– Hm?

– Eu estava na Quarta Corte quando você chegou em Nova Roma, o nome da sua namorada... É Annabeth, não é?

– Ah, sim. É.

– Você está meio fora de órbita, aconteceu algo entre vocês?

– Não é nada disso eu... – Ela abriu um sorriso de canto e balançou a cabeça pegando algo de dentro da jaqueta e mostrando ao romano. – Eu não consigo tirar isso da cabeça.

O romano pareceu espantado com a ideia, suas mãos se fechando ao redor do objeto. Sua expressão de incredulidade fazendo a grega rir e balançar a cabeça.

– O que? Esqueça, não quero nem saber. Me devolva e vamos dormir. – Disse pegando o objeto e colocando de volta na parte de dentro da jaqueta, caminhando para as barracas do acampamento improvisado. O romano deixado para trás fitando-lhe pelas costas com confusão.

–

O comboio estava sendo dirigido calmamente de volta para a base improvisada que o governo estadunidense havia montado. Clarisse vinha em uma das laterais com seu rifle em mãos e uma expressão séria, os outros soldados e até civis se afastando de sua presença assustadora.

O único corajoso o suficiente para andar perto da filha de Ares era o romano da noite anterior e um outro grego que havia se juntado ao regimento há poucas semanas.

Era um dia comum, as previsões era que chegariam na base por volta das quatro da tarde e ficariam alguns dias estacionados ali para alguns exames e alguma papelada para depois então voltar para os Estados Unidos. Clarisse provavelmente conseguiria um tempo entre os exames para ligar para Annabeth e armar a surpresa. Não era um dia normal. Era o dia perfeito.

Até que não era.

Foi súbito, e se não fosse pelos reflexos aprimorados no Acampamento e na sua experiência na guera e combate ela nem teria visto acontecer. Dois homens em cima de uma casa deteriorada, um terceiro atrás de um monte de escombros e um carro com mais vindo por trás da rua. O comboio começou a parar e Clarisse nem viu o motivo, o grito saindo de sua garganta antes de qualquer outro tivesse registrado a situação:

– EMBOSCADA!

Tão rápido o grito saiu os soldados se prepararam e se cobriram, os inimigos abrindo fogo contra eles. Clarisse empurrou os dois semideuses próximos para baixo e quase os arrastou contra o torpor para se cobrirem atrás de um monte de escombros.

O resto foi flashs, gritos, tiros e sangue. A filha de Ares conseguiu cobertura e nem ela ou um dos outros dois ficou ferido, pelo rádio outros davam sinal de vida. Seu pensamento rápido havia salvado aqueles homens do ataque surpresa, mas não da investida.

Tentando estabilizar sua respiração e não pensar muito no que estava acontecendo olhou para os dois homens ao seu redor. Ok, estavam bem, ela estava bem. Era apenas um dia mais agitado, mas tudo daria certo...

E então ela ouviu. O peso. O baque. Os passos pesados. E os gritos. O cheiro de olho e metal queimando. Segurando firme o rifle nas mãos levantou os olhos para observar o minotauro prateado. Um autômato de um monstro... Monstruosidade em dobro.

Trincando os dentes olhou para o comboio onde estava suas armas de bronze celestial. Reprimiu um xingamento em grego e voltou a se encobrir. As trocas de tiros e os gritos ainda ecoando de longe.

– Vão ajudar os outros. – Clarisse disse tirando seu rifle e passando para um dos semideuses. Ela teria que correr e aquilo só atrapalharia.

– O que? Aquilo é--

– Eu não estou pedindo, romano. – Clarisse disse friamente, seu estômago revirando com sua resposta rude. O semideus arregalou os olhos para si.

– Você tem certeza, Clarisse? – O semideus grego perguntou olhando rapidamente por cima dos escombros para o monstro.

– Sim. – O semideus então assentiu e estendeu a mão para trocarem um aperto de mão antigo. O romano esperou algum tempo a mais antes de sair e com um mau pressentimento no peito Clarisse o segurou antes que ele pudesse seguir o grego. – Aqui... Caso algo dê errado. – Disse tirando o mesmo objeto da noite anterior de sua jaqueta e entregando novamente para as mãos do romano.

– Coronel--

– Você saberá o que fazer.

– Não ouse morrer. – Clarisse riu e acenou antes de correr para fora de sua cobertura em direção ao monstro enquanto ele corria atrás do semideus grego.

– Hey, monte de estrume! – Gritou chamando a atenção do monstro que estava prestes a levantar o caminhão para olhar debaixo do mesmo por 'lanches'. A expressão bovina se virou para ela com ira e bufou fogo e soltou um mugido/grito.

Mais uma luta contra monstros para o registro. Pensou divertida lembrando das disputas entre ela, Leo e Jason quando estavam a bordo do Argos II.

Não demorou para que ele corresse em sua direção, muito como o minotauro de verdade. A diferença foi o tempo de resposta para quando ela desviou passando por debaixo de suas pernas, o corpo se virando quase instantaneamente. Leo com certeza adoraria ver isso.

Clarisse não olhou para trás quando passou por debaixo do minotauro correndo para o compartimento de carga do comboio e pegando sua mochila extra, rapidamente tomando o escudo e espada em mãos. Praguejando por ter quebrado sua lança algumas semanas atrás. A luta contra um minotauro que solta fogo pela boca e não tem o cérebro do tamanho de uma ervilha é mil vezes mais difícil do que uma luta contra o Minotauro.

Quando, depois de quase uma hora lutando, sua espada finalmente corta o metal prateado que reveste o monstro a ponto de lhe arrancar a cabeça um suspiro de alívio lhe deixa, mesmo que seu colete tenha se queimado nas bordas, uma de suas botas tenha se perdido e ela tenha quase certeza que se não fosse por sua imunidade parcial a fogo teria queimado uma orelha.

A espada caiu de sua mão, o escudo pendendo pelas correias mal atadas. O peito pesado, sem fôlego e uma sobrancelha queimada, o suor escorrendo de suas costas e empapando na sua nuca e nas suas pálpebras...

Tirou o escudo e se virou para procurar o resto de seu pelotão quando o corpo congelou. Alguns metros de distância dois terroristas haviam rendido cinco soldados do seu regimento, um deles coberto em sangue e outro parcialmente desacordado. Não...

Havia algo que Clarisse se orgulhava profundamente: O número de mortos no seu pelotão era o menor em cinco anos. Um dos menores na história da invasão do Oriente Médio. Mas mesmo assim ver cinco de seus soldados a beira da morte, apenas um aperto de gatilho de distância do submundo era o maior terror de alguém no comando.

– Parada. – Um dos terroristas disse numa voz carregada. Mesmo com os músculos doendo ela levantou as mãos, seus olhos caminhando por cada um dos seus soldados. O mortal de ontem, o romano e grego de ontem, e um grego com quem havia lutado a última Gigantomaquia e outro que era irmão do anterior e havia chegado no regimento há algumas semanas. – Peguem-na!

Dois outros terroristas apareceram de detrás do grupo, correndo até ela com suas armas em mãos, rapidamente lhe cercando e rendendo para que ficasse de joelhos ali mesmo, o que parecia ser o líder e havia gritado as ordens lançou um sorriso sujo para Clarisse e colocou sua arma nas costas.

– LaRue... Meu antigo líder falou de você, greacus. – Ele disse se aproximando e imediatamente um arrepio de medo correu a filha de Ares. Qualquer um que lhe conhecesse como uma semideusa era alguém a se temer. – Vamos, não vai falar nada...? Eu ouvi coisas muito interessantes de você.

Clarisse olhou para baixo, e respirou fundo. Seja lá o que ele quisesse isso não seria bom, e qualquer que fossem suas provocações não mereceriam ser ouvidas. Estava tentando se afastar mentalmente dali quando ouviu o disparo que lhe deixou surda por um tempo, seus olhos se levantando para ver o soldado mais recente do pelotão caído para trás e seu irmão gritando ao seu lado.

Seu corpo congelou sem saber o que fazer, fúria querendo que se mexesse e levantasse e quebrasse o corpo de todos eles, mas o medo da retalhação dos terroristas lhe congelando no lugar.

De novo... A voz no fundo de sua mente falou enquanto o mundo ao seu redor pareceu congelar. Assim que o momento ficou completamente estático ao seu redor seus olhos levantaram para encarar a si mesma, vestida com uma jaqueta preta e uma camisa roxa do Acampamento Júpiter por baixo. Você perdeu de novo Clarisse.

– Pare. – Disse baixo os olhos se irritando enquanto encaravam as orbes vermelhas que sua cópia ostentava.

– O que é? Não posso vir cumprimentar uma velha amiga? – Perguntou com um sorriso debochado. Fazia anos que não via aquela parte de si, era insano, algo que havia aterrorizado os deuses que sabia sobre essa parte de si.

Uma maldição tão antiga quanto rara. Ela havia sido a primeira em décadas a ter sido dita possuir aquela habilidade e maldição: O poder divino adormecido.

Algo que poucos semideuses carregavam em si. Um poder tão grande em si que era quase o de um deus menor, algo que havia deixado muitos semideuses loucos previamente. Algo que só acordou em si quando segurou o céu, e ficou mais forte quando lutou na Guerra dos Titãs. Que quase havia enlouquecido Clarisse no período entre que passou no Acampamento Júpiter.

– Vá embora.

– Vamos, você pode acabar com isso num piscar de olhos.

– Vá. Embora! – Sua frase saiu quase rosnada. No mesmo instante um arrepio, que levantou os pelos de sua nuca, percorreu seu corpo.

– Você vai morrer. – A voz fez o coração bater loucamente no seu peito, sua garganta se fechando. – Você sabe disso.

– Eu sei. – Clarisse respondeu sem olhar para a origem da nova voz em sua ilusão fora do tempo espaço. Definitivamente, aquele poder incomum havia finalmente lhe enlouquecido.

– Então! Lute Clarisse! Use-me para derrotar esses porcos inúteis! – Sua cópia disse e por um momento sua forma mudou de humana para algo monstruoso por alguns instantes e de volta para sua forma humana, agora sua roupa mudando para uma armadura grega.

– Não! Eu não vou perder o que me resta de humanidade. – Clarisse disse irritada.

E era verdade, enquanto o poder era incrível, aquilo era uma manifestação de sua parte olimpiana, então abraçá-la completamente era negar sua origem mortal e depois de usar aquela 'habilidade' tão imprudentemente apenas uma vez poderia ser o suficiente para lhe transformar em um monstro, algo a ser caçado por outros semideuses.

– Você pode usá-lo. – A voz disse atrás de si.

– Não é uma opção.

– Você morrerá de todo o jeito. Mas se você usar isso-

– Eu não vou morrer como um monstro!

– Se você usar o poder que lhe resta você pode salvá-los.

…

– Eu não posso.

– Por quê?

– Tem de haver outra saída.

– Não há.

– Eu vou morrer.

– Sim.

Clarisse olhou para baixo, para o chão, a poeira e então lentamente se decidiu, o momento que a decisão se formou em sua mente foi quando as duas presenças lhe abandonaram. A resposta estava pronta.

– Vamos lá. Vamos abrir esses infiéis arrogantes. – Ela ouviu em uma das línguas nativas, vindo de um dos terroristas que lhe segurava no chão. Ela estava certa que eles não sentiram o que estava acontecendo até ser tarde.

Seu corpo se levantou com força empurrando os mortais enquanto seu interior queimava. Os outros terroristas se assustaram com as armas apontadas para ela.

Novamente as lembranças não são claras, mas ela se lembra da sensação dos ossos do braço de um dos homens se quebrando sob suas mãos, da sensação do crânio rachando sob seu pé quando caminhou sob o corpo de um dos seus inimigos, das cordas vocais gritando contra a palma da sua mão quando quebrou o pescoço de outro. E da sensação penetrante das balas e facas rasgando suas vestimentas e perfurando seu corpo.

Ela não caiu. Não até todos os terroristas próximos terem caído também. Então parando e novamente o tempo parou com ela.

– Olá, velha amiga. – A voz de antes veio, e dessa vez a Clarisse original teve a coragem de ver sua origem: Bianca diAngelo em um longo vestido branco e anos mais velha do que quando morrera. – Faz muito tempo.

– Você fez bem, garota. – A outra Clarisse, com seus olhos vermelhos e o cheiro de enxofre apareceu ao seu lado, a armadura romana com uma espada e escudo gregos em mãos. Apesar de ser uma parte tão odiada de si, Clarisse não poderia negar que ela não era má, não como esperava. – Eu posso te salvar, você sabe disso.

– Tânatos me enviou em seu lugar. – Bianca disse logo em seguida. – Na verdade, foi um pedido particular. Eu gostaria de vir. Temos coisas para conversar antes de você partir.

– Por favor, Clarisse, eu posso te salvar.

– Não.

– Clar-

– Eu agradeço, mas não. – A Clarisse original disse, a dor lentamente começando a se espalhar dos cortes e perfurações. – Fico feliz que tenha vindo Bianca.

– Tânatos e meu pai decidiram por algo, Clarisse.

– O que?

– Pelos serviços prestados ao submundo, recuperando o elmo, salvando a mim, Nico e Hazel e por libertar Tânatos, eles querem te oferecer algo.

– Eu não vou trabalhar para Hades como um de seus generais. Eu disse isso anos atrás. – A semideusa disse ofendida.

– Não é isso. – Bianca disse, rindo um pouco da ideia. – Eles decidiram te oferecer algo. Vinte e quatro horas.

– O que? Como?

– 24 horas. – Bianca disse e por um momento, se o espaço tempo não tivesse congelado Clarisse poderia jurar que seu coração bateu mais rápido. – 24 horas em qualquer lugar e tempo com qualquer um.

Clarisse soltou um suspiro aliviado e lágrimas vieram aos seus olhos. Ela estava morta. Mas ela não morreria sozinha.

– Precisa de tempo para pensar?

– Não, eu já sei para onde vou.

Quando o tempo descongelou seu corpo caiu no chão, a dor que antes se espalhava lentamente agora preenchia seu corpo inteiro. Sua visão lentamente turva enquanto seus soldados corriam para lhe socorrer. Sua cabeça caída que não tinha se quer a força de levantar encarava algo ao lado da estrada.

Entre os escombros, como se fosse um domingo comum no sul dos Estados Unidos, três velhinhas tricotavam e arrumavam seus novelos de lã. Sem querer um pequeno sorriso apareceu no seu rosto. Não era engraçado, não era digno de um sorriso, mas por algum motivo ela sorriu.

– Clarisse, Clarisse! Por favor, não... – Ela ouvia no fundo de sua mente, sentia suas feridas tentando ser estancadas. Mas seus olhos presos nas velhinhas que finalmente se viraram para ela.

Seus olhos, tão antigos quanto o tempo lhe encaravam misteriosos, três pares de olhos. Uma delas puxou uma linha de seu tear e entregou a outra. Era uma linha bonita, vermelho-sangue, que se entrelaçava em tantos pontos com tantas outras linhas que fez o coração de Clarisse bater mais leve.

E então ela cortou a linha.

–

A respiração estava presa na sua garganta. Não podia acreditar que tinha acabado. 24 horas... O tempo nunca pareceu correr tão rápido. Annabeth estava do outro lado da porta e ela podia sentir o desconforto, o medo, a confusão... Ela tinha alguns minutos apenas.

Sem pensar suas mãos se fecharam num dos batons da namorada e ela escreveu sob o vidro refletido com dor que se igualaria apenas se estivesse escrevendo na própria pele com uma faca quente.

Aphíemi.

Notas finais
De novo, agradecimentos a Diana, por me dar o selo de aprovação ;D
O título dessa vez é em latim só pra mudar os ares.
Uma terceira parte que finaliza (dessa vez no futuro de Aphíemi) pode, ou não, ser postado no futuro. (e provavelmente o título será em latim)
Fiquem em paz
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!