Finaly Freedom
9 Capítulo 9
Notas iniciais
DOIS DIAS DEPOIS
Ás 10 da manhã desembarco no International London Airport. Mal consegui esperar até hoje pra vir pra Londres. Quis vir assim que soube na grande e avassaladora notícia, mas Cissa e Aurora me impediram veementemente. Foi uma boa escolha esperar até hoje, pois tive tempo de processar a informação e tentar organizar o turbilhão de dúvidas e questões que se instauraram na minha cabeça. Foi um belo soco no estomago, daqueles que deixam sem ar. Até agora a ficha não caiu, não pode ser verdade, é loucura demais, as coisas não batem. Simplesmente não pode ser.
Nem havia avisado Diana que estaria lhe fazendo uma visita, mas não tínhamos tempo para amabilidades, e não seria exatamente uma visita, está mais pra uma reunião, com uma pauta séria.
Durante o voo pude formular as primeiras perguntas que lhe faria, mas sabia que ela iria me enrolar e tentar me privar da verdade. Mas, pra quem já foi enrolada e enganada por mais de vinte anos, algumas horas de resistência não vão me matar.
NA NOITE ANTERIOR
Saí do Subway inconformada. Tudo estava girando, a visão estava embaçada, e eu caminhava cambaleando pelas ruas frias sem destino nenhum. O encontro com o tal informante misterioso foi muito pior do que eu imaginava. Finalmente ele saiu da imaginação e pude ligar seu nome à uma aparência. Antes, ele não tinha um rosto certo, eu imaginava de vários sentidos, mas a realidade foi bem diferente dessa vez. Ele era incrivelmente charmoso, bonito, educado, aparentemente financeiramente instável, e tudo isso me surpreendeu. Não sei porque, mas pensava que ele era alguém oportunista, sem dinheiro, que quisesse me chantagear pra conseguir alguma coisa, porém sua intenção não era essa, pelo menos não até agora.
Mesmo conhecendo seu rosto, ele ainda continua sem nome, e não tenho como procura-lo. Esse homem tem um ar todo misterioso, e algo me diz que ele não me disse tudo que sabe, ou seja, ainda estou com mais dúvidas, que talvez, mas apenas talvez, minha mãe sane no encontro que teremos em breve.
Assim que esfriei um pouco a cabeça, tomei rumo de casa e assim que cheguei, mergulhei na cama, chorando, e tentando ser consolada pelas minhas melhores amigas do mundo. Também conseguiram me convencer que seria muito precipitado da minha parte viajar pra Londres numa quarta-feira à noite, e que apesar de Londres ficar a pouco mais de uma hora de Dublin, não havia necessidade de tanta pressa.
Aurora ainda tentou me convencer de esperar até o fim de semana, para que eu não perdesse a aula, e porque teria mais tempo pra pensar e colocar as ideias no lugar. Mas esperar 3 dias era demais pra mim. Estava decidido, logo pela manhã de quinta-feira pegaria o primeiro voo para Londres e resolveria todas as pendencias com Diana, minha querida e verdadeira mãe.
♥
Já no uber, quando o motorista perguntou meu destino, cogitei a hipótese de passar antes na casa de Friedrich, pra ver como estão as coisas por lá. Mas logo pensei que ele me encheria de perguntas como: “Você aqui, no meio da semana, sem prévio aviso?”. Além do mais, não sei se fui a única feita de trouxa pela minha mãe, ou se toda minha família está às cegas, por isso, definitivamente, tenho que ir falar com Diana antes de tudo. E conforme as coisas se sucederem, vejo o que faço.
— St. James’s Place, 42, Por favor. – espero que Diana esteja em casa. Quanto mais cedo resolvermos isso, mais cedo poderei ir pra casa. Não sei como vou reagir à olhar minha mãe depois de saber o que ela fez.
O percurso foi rápido e silencioso, o trânsito estava calmo, e só durante a viagem pude lembrar o quanto essa cidade é incrível, eu estava morrendo de saudades daqui. Viajar é ótimo, mas retornar pra casa é muito gratificante. É uma pena que o motivo seja tão horrível. Nada havia mudado nessas três semanas que fiquei fora na minha rua.
Paguei a corrida e caminhei determinada até a campainha, respirando bem fundo ao acioná-la. Rapidamente, Gina, uma das (muitas) empregadas de Diana me atendeu, abrindo um largo sorriso.
— Elena!! Você aqui, querida. – surpresa, abriu os braços, me chamando silenciosamente para um abraço. Que aceitei. Mesmo Gina sendo uma empregada, sempre gostei muito dela, pelos anos de convívio diário.
— Oi. – falei assim que me soltei de seus braços – vim falar com minha mãe. Ela está? – Incrível como alguns fatos mudam as coisas, até a forma que eu pronunciava a palavra mãe era diferente, com certo desprezo, raiva e descrença.
— Sim, está. Vou anunciar sua chegada.
— Não é necessário, querida. Pode voltar aos seus afazeres. Ela está no quarto?
— Sim, senhorita. Até mais, então. Devo preparar seu quarto? – ela sempre é atenciosa.
— Outra vez, não é necessário, vou voltar hoje mesmo pra Dublin. Quando estiver indo, eu te acho pra me despedir. – ao terminar de falar, ela apenas sorriu, assentiu com a cabeça e retornou às suas atividades.
Me encaminhei ao quarto de Diana, com passos largos e firmes, porém, quanto mais eu me aproximava, mais a perna bambeava, o coração acelerava, o nó na garganta aumentava, e lágrimas ameaçavam cair a todo momento. Parei em frente à sua porta, respirei fundo, pela vigésima vez só hoje, e girei a maçaneta.
DOIS DIAS ANTES
Acordei num sobressalto, hoje era um dia importante, tanto na faculdade, quanto no mistério do informante secreto, e pra variar, eu estava atrasada. Pelo menos era um atraso de 15 minutos, e não como o da manhã passada, que fez com que eu tivesse que cabular aula. Porém, em consequência do meu atraso, não pude nem escolher uma roupa decente, e me obriguei a vestir a primeira coisa que achei.
Faziam 24 horas que eu não falava, observava, ou sequer tinha notícias de Philip Jones, o professor mais interessante da minha vida. Infelizmente, eu tinha saudades dele. Estava começando a entrar em um buraco profundo e escuro chamado PAIXÃO, e sim, sei que é ótimo estar apaixonada, as borboletas no estômago, os risos sem motivos simplesmente por lembrar da pessoa, as crises de alegria quando ela simplesmente olha pra você, ou sorri, ou diz bom dia, o prazer inexplicável de beijar quem a gente gosta, de abraçar, ou de apenas ficar junto, no mesmo ambiente, respirando o mesmo ar, trocando olhares cúmplices que dizem tanta coisa, sim, estar apaixonada é uma maravilha. O problema não é a paixão, e sim quando tudo passa, quando começam as brigas, as indiferenças, os esquecimentos, isso sim quebra com qualquer um.
Hoje não teríamos aula com ele, mas eu tinha esperanças de vê-lo pelo campus. O simples fato de vê-lo já me traria algum conforto. Porém, nos dias de folga ele raramente vai à faculdade, então teria que me contentar com a ideia de nos encontrarmos após o meu encontro com o homem misterioso.
Infelizmente, ou felizmente, nem teria muito tempo pra pensar em Phil na aula, tinha um seminário pra fazer durante toda manhã e um pedaço da tarde, então foi tudo tão corrido, que mal vi o tempo passar.
Quando olhei no celular, já eram 17h, meu encontro era dentro de uma hora, então saí às pressas do campus, fui pra casa, passei no Jake pra dar um oi, tomei banho e fui até a St. Antonie esperar o homem.
Ele foi pontual, às 18:02, enquanto eu tomava uma coca diet, um belo e alto homem adentrou o ambiente e se dirigiu à minha mesa.
— Você é Elena Eisenhauer, certo? – sua voz era grave, e misteriosa, como tudo nele. Um homem bem apessoado, bem vestido, perfumado e cheio de classe.
— Sim, sou eu. Você é....? – tentei arrancar seu nome, com um sorriso, que foi retribuído, com uma expressão estranha.
— Ninguém importante, Elena. Posso sentar? – assenti apressadamente com a cabeça. E ele sentou-se – Vou ser bem rápido e objetivo com você.
— O que você pretende com isso? Quer algo em troca pela informação?
— Não, só acho que você deve saber a verdade sobre sua mãe, sobre você, sua família.
— E como sei se posso confiar em suas palavras? – eu mal deixava ele terminar de falar, estava ávida por informações relevantes, o que quase me fez parecer sem educação.
— Isso é apenas com você. Não posso fazer você acreditar em mim. Sei que é difícil acreditar num completo estranho, mas só quero esclarecer as coisas.
— E por que você se interessa no bem estar de uma completa estranha?
— Isso não importa também. Tenho um compromisso agora. Tudo o que você precisa saber é que sua mãe...
NA MANHÃ SEGUINTE
— Elena?!?! – Minha mãe ergueu os olhos do livro que lia, e eles dobraram de tamanho ao me enxergarem.
Vê-la ali foi pior do que eu imaginava. Sempre soube que ela não era a pessoa mais íntegra e correta do mundo, mas a verdade dói, por mais óbvia que seja, ela dói.
— Oi, Diana. Surpresa em me ver, né. – respondi seca, sua pergunta não verbalizada.
— O que você está fazendo aqui? Por que não avisou que viria? Desistiu do curso? Sentiu saudades da sua mãe, não é? Eu sabia que você não aguentaria. – se levantou da cama e correu em minha direção – venha cá, me dá um abraço.
Meu primeiro reflexo foi repeli-la. Eu não queria tocar nela, estava muito irritada, muito enraivecida, queria falar sobre nossas pendências o quanto antes.
— NÃO ENCOSTA EM MIM, DIANA! – gritei, assustando-a bastante. Ela freou instantaneamente, e ergueu as mãos em sinal de defesa.
— O que está havendo com você, Elena? – ela parecia realmente assustada, confusa, surpresa.
— Eu sei de tudo. EU SEI DE TUDO, MÃE!— nos meus planos, as coisas não eram pra acontecer assim. Mas sabemos que na prática é tudo diferente, não controlamos as emoções e atitudes. Apenas acontece.
— Como assim? Do que você está falando?
— Não seja tão cínica. Abra o jogo. Como você pôde fazer isso comigo, Diana? – eu não tinha mais controle sobre minhas lágrimas nesse momento, que caiam freneticamente sobre meu rosto, enquanto eu soluçava, respirava forte e apertava minhas mãos de tanta raiva.
O clima estava pesado, e parece que o tempo parou. Ficamos por minutos caladas, silenciosas, imóveis, apenas encarando uma a outra, olho no olho, parecia que eu tinha acesso aos seus mais profundos segredos, tudo parecia tão na cara agora. Como pude não ter desconfiado disso antes? Como eu fui burra.
Depois de tanto tempo parada, minha mãe finalmente fez menção a falar. Balbuciou algumas palavras sem som, abaixou a cabeça, fungou, olhou pra mim novamente, os olhos cheios de lágrimas, seu rosto tão jovem e bem cuidado parecia anos mais velho agora, como se ela tivesse sido surrada naqueles minutos.
— Como você descobriu? – foi a primeira coisa que pude ouvir. Parece que minha mãe quer fazer perguntas. Mas não será assim. Quero ouvir tudo dela.
— Deveria ter sido através de você, mas parece que minha mãe exemplar resolveu que podia esconder isso de mim, como se não fosse um direito meu. – eu estava completamente afiada pra responder qualquer coisa que ela dissesse. E ainda havia muita coisa entalada na minha garganta.
— Não seja tão dura comigo assim, eu tive meus motivos!
— Ahhhhh, você teve seus motivos!! E quando planejava me contar? Nunca, talvez?!
— As coisas eram diferentes na época. Preciso que você entenda.
— Nada justifica você mentir sobre...
NA NOITE ANTERIOR
— Isso não importa também. Tenho um compromisso agora. Tudo o que você precisa saber é que sua mãe mentiu pra você durante toda sua vida.
— Aonde você pretende chegar com isso? – eu também tinha pressa. Não por ter outro compromisso, mas por simplesmente querer saber que coisa horrível e importante é essa que esse homem quer me contar.
— Você precisa ser forte quando ouvir isso. Espero que acredite em mim, e só estou lhe contando isso porque realmente acho que você não mereça ser enganada desse jeito. – eu podia notar cumplicidade no seu olhar, era algo que acalmava. Ele realmente foi o total oposto do que eu imaginava.
— Conte, o que quer que seja, eu estou preparada. – é uma grande mentira, sempre fui emocionalmente instável, mas um completo estranho não precisa saber disso.
— Você não é filha de Theodor Eisenhauer. – ele falou aquilo com maior naturalidade possível, como se estivesse me informando a hora.
A princípio não esbocei reação. Não havia processado a informação. Mas, com os segundos passando, comecei a sacudir a cabeça em negação.
— Isso não é verdade. Não tem o menor cabimento. Não é verdade – falei com veemência, não tinha como ser verdade. Meu pai é Theodor Eisenhauer. Meu amado pai, meu herói, herói do reino unido, morreu à serviço da coroa, meu pai amoroso, sorridente, carinhoso, que infelizmente não teve tempo pra aproveitar sua família, que infelizmente partiu cedo demais, que não acompanhou-me fisicamente, mas sempre esteve presente nos momentos mais importantes da minha vida, onde quer que ele estivesse. É impossível que ele não seja meu pai. Impossível.
— Não tenho motivos pra mentir pra você, talvez sua mãe, Diana, possa lhe explicar mais sobre isso. Talvez ela possa lhe dizer porque não queria que você viesse pra Dublin, talvez possa lhe explicar porque lhe manteve sempre sobre suas rédeas, talvez ela explique isso pra você. Talvez ela seja uma mulher decente pelo menos uma vez na vida. Mas apenas talvez, você sabe como ela é. – ele falou isso enquanto levantava e se distanciava de mim, me deixando perplexa, perdida em pensamentos. Claro que aquilo não era verdade, claro que não.
O sangue subiu à minha cabeça, mas meu corpo não me obedeceu quando tentei levantar e ir atrás do homem, pra ter mais explicações. Como ele ousou tocar no nome de meu pai? O pior é que ele não me pareceu mentir, por que ele mentiria? Que motivos teria pra isso? Teria alguma rixa com Diana? Eu não sei o que fazer. Na verdade, sei, vou ir falar com minha mãe. Agora.
NA MANHÃ SEGUINTE
— Nada pode justificar você mentir sobre a minha origem, mãe. E não é só isso. A quem mais você engana? Quem você enganou? Meu pai sabe disso? – era doloroso lembrar de meu pai, porque ele não era mais meu pai. E só depois de mais de vinte anos que eu fui saber disso. Minha vontade era de saltar no pescoço da minha mãe e bater nela com tanta força. Mas aprendi que jamais devo levantar a mão pra ela, não é digno.
— Ninguém na família sabe sobre isso, Elena – Diana baixou a cabeça novamente, estava visivelmente envergonhada. – Eu jamais tive coragem de assumir pra qualquer pessoa que fui capaz de cometer tamanho erro com o homem da minha vida.
Estávamos as duas em prantos, e, embora eu pudesse identificar o sofrimento, a culpa, a vergonha em seu rosto, não sentia pena nenhuma por isso, e perdoa-la não passava pela minha cabeça. Ela traiu meu pai. E ele morreu sem saber. Morreu honrosamente, mas sua própria esposa feriu sua honra o traindo, e essa traição deu resultados. EU SOU FRUTO DE UMA TRAIÇÃO. Tudo me enraivece.
— COMO VOCÊ FOI CAPAZ DISSO, DIANA? COMO? POR QUE?
— É tudo muito complicado, filha. Mas preciso que você entenda que mantive segredo pelo seu bem.
— Meu bem? HAHAHAHA Não seja ridícula. Eu conheço você. Você vive nesse seu mundinho de aparências. Você errou, e pra não assumir isso, preferiu enganar todos à sua volta, preferiu fingir que nada aconteceu, apenas pra MANTER AS MALDITAS APARÊNCIAS.
— Me perdoa, filha, por favor. Pense nas circunstâncias, pense em tudo, considere. Eu te amo, sempre amei seu pai, seu irmão, nossa família. Tudo que fiz foi por nós. – Ela estava destruída, olhos vermelhos e rosto já inchado de tanto chorar.
— Pelo menos tenha a decência de falar. Fale, quero ouvir da sua boca. Pelo menos uma vez na vida, tenha a decência de assumir que fez algo errado.
— Não me faça passar por isso, pelo amor de Deus, Elena.
— Pelo amor de Deus, digo eu! Estou decepcionada com você, mãe. Sempre soube das suas loucuras e singularidades, mas eu sempre te amei, sempre relevei sua mania de querer me domar, sempre vivi de acordo com o que você achava melhor, respeitei você, fiz de tudo por você. Isso foi a pior coisa que você poderia ter feito. Comigo, com meu pai, que jamais vai poder saber disso, com todos nós. Diana, Friedrich também é fruto de uma traição? – CARALHO, eu não tinha pensado nisso ainda. A ideia me nauseia, mas nada mais me surpreende nesse momento.
— Não, Elena. Isso só aconteceu uma vez. Uma maldita vez. Não era pra ter acontecido, eu fui fraca, cedi. – Isso foi como cravar uma faca no coração. Se já não bastasse todo o resto acabei de ouvir que eu não era pra ter acontecido, fui consequência de uma fraqueza, de uma “maldita vez”. Cada vez mais, tudo faz sentido, tudo dói, minha única vontade é de sumir nesse momento.
Diana percebeu o que acabara de dizer, mas era tarde demais pra erratas. Abriu a boca pra falar, mas fiz sinal pra que não proferisse nada naquele momento. Inspirei bem forte, engoli o choro e fiz a última pergunta. Estava decidida a sair dali o quanto antes.
— Só me diz quem é. Só quero saber isso. Por favor.
— Eu, eu não posso, Elena. Mas por favor, não vá. – falou isso enquanto eu já me direcionava à saída. Nunca me senti tão desambientada como naquele momento, como se nada ali me pertencesse, como se fosse tudo uma mentira, desde o começo, E ERA, minha vida foi uma fraude. Um grande saco de mentiras, pra todo lado.
— Não me procure. Não quero falar com você. – foi a última coisa que disse antes de bater a grande porta de entrada e correr pro meio fio, aos prantos, desorientada, perdida, sem saber o que fazer.
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