Notas iniciais
Boa Leitura!

No domingo acordei pouco antes do meio dia, apesar de só ter conseguido dormir quase quatro horas da madrugada. Fiquei muito tempo pensando no que havia acontecido, o álcool foi sendo curado, o organismo absorvendo-o, e aos poucos, tudo parecia cada vez mais irreal. Tanto que cheguei a duvidar se tinha realmente acontecido. Teria eu ficado tão bêbada a ponto de fantasiar uns pegas no professor que até o ultimo dia de aula, eu odiava? Quase cogitei a hipótese de ligar pra Jacob e perguntar alguns detalhes da noite, mas por três motivos (principalmente) não o fiz. Primeiro: Mais de três horas da madrugada, Segundo: Ele devia estar no bem bom com John, e terceiro: caso ele não tivesse notado que pintou um clima entre nós (o que é pouco provável, já que estava muito na cara) eu não queria ter que ficar explicando e dando detalhes sobre o ocorrido. Além do mais, em algum dos estatutos da universidade há um artigo apenas sobre relações afetivas entre professor-aluno, onde era expressamente proibido que viesse a acontecer. Sim, eu pesquisei esse estatuto na internet antes de dormir para me certificar.

“Art. 97. O desrespeito às autoridades universitárias, o desatendimento ou transgressão dos atos que delas emanarem constituem falta disciplinar, e a relação afetiva entre professor-aluno que fuja das demandas acadêmicas são puníveis na forma prescrita no Regimento Geral da Universidade.”

Devido a todos os motivos citados acima, decidi que jamais contaria a ninguém sobre acontecido, nem mesmo Aurora e Cecília, e se Jake ou John me perguntassem se rolou alguma coisa, usaria da famosa “amnesia alcoólica” e negaria até a morte qualquer envolvimento com o Sr. Jones. Eu jamais me permitiria ser expulsa da faculdade que tanto amo fazer por causa de um único beijo, mesmo sendo fora do campus, fora do horário das aulas e em circunstancias que nem nos lembrávamos que éramos professor e aluna. O assunto se dá por encerrado.

— Bom dia, meninas – digo, com uma leve enxaqueca assim que entro na cozinha e as vejo sentadas na sala vendo o noticiário local. – tudo bem com vocês?

— Olá, Elena. Você parece feliz – Cecília ressalta – algum motivo especial?

— Na verdade não, inclusive estou até indisposta. A enxaqueca me pegou.

— Ouvi alguns barulhos nessa madrugada, pensei que você tivesse chego bêbada em casa. Pelo visto não errei.

— Eu não diria bêbada, Aurora. Apenas misturei bebidas demais. E isso me faz mal.

Peguei o leite na geladeira e o aqueci no micro-ondas, depois acrescentei bastante achocolatado, servi algumas torradinhas light com geleia de morango e me sentei com elas na sala pra por a fofoca em dia.

— E quanto à sua saída, como foi? – perguntei curiosa à Cecília – nem vi você chegar. Você chegou antes que eu?

Aurora riu debochada, e Cissa cutucou-a com o cotovelo, só fazendo-a rir mais.

— Cissa chegou agora de manhã, Elena. A safada não quer saber de enrolação. Sem essa de sexo apenas depois do terceiro encontro. – e pôs-se a rir ainda mais. Agora juntamente comigo.

— Ah, parem de se fazer de rogadas, meninas. Qual o problema de transar? Além do mais o cara nem era tudo isso. – Cissa cruzou os braços e começou uma breve lamentação. – Ele é tão gostoso e inteligente, mas não sabe o que fazer. Fiquei lá essa noite só porque estava frio demais pra sair na rua de madrugada.

— E por que não pediu pra ele te trazer em casa, então? – Indagou Aurora.

— Eis outro problema. O cara mal gozou, saiu de cima de mim, virou pro lado e dormiu. Sem condição. Mas hoje de manhã saí antes dele acordar e não deixei recado. Inclusive bloqueei ele em todos os possíveis meios dele me encontrar online. Agora basta rezar pra gente não se cruzar pela cidade.

— Credo, Cecília. Nem tudo é sexo nessa vida. E você disse que o cara é gostoso e inteligente. Você sabe quando a gente encontra um cara desses na rua? Uma vez na vida, ou duas se você tiver sorte – pensei então que provavelmente já encontrei o gostoso e inteligente da minha vida. Mas aí lembrei que tecnicamente ainda tenho que fingir que não suporto ele e que nada aconteceu, então ignorei o pensamento apenas rindo com elas.

— Não quero falar de mim, não. Fale você Elena, como foi o encontro com o boy misterioso? – por sorte eu tinha acabado de por uma torradinha na boca, então teria tempo pra pensar na estorinha que eu contaria.

— Bléér, um saco, vocês nem imaginam. Sorte que Jake e John estavam lá. Nem dei muita bola pro cara. Que aliás, se incomodou com meu estado etílico e foi embora cedo. – falei isso depressa pra não dar chance de perguntas. E tinha que torcer para que os meninos não encontrassem com elas e desmentissem a estória.

Ficamos conversando sobre assuntos fúteis, entre outros mais sérios até a fome apertar. Então optamos por pedir uma pizza, já que nenhuma de nós estava afim de cozinhar.

♥

— Preciso contar algo pra vocês – falou Aurora entre uma mordida e outra da pizza metade calabresa, metade quatro queijos. – vocês não vão acreditar.

— Ihhhh. Que foi, amiga?

— É o Albert. Ele me ligou ontem. Queria falar comigo pessoalmente. – ela parecia aflita.

— Ele tá ligado que você não tá mais em Londres ou não?

— Sim, eu falei pra ele antes de vir.

— Isso quer dizer que ele vai vir pra Dublin só pra falar com você, Aurora? – meu queixo estava no chão.

— Não sei se é exclusivamente pra me ver, mas ele disse que ainda essa semana vai estar aqui, quer sair pra caminhar e depois vai me levar pra jantar. Isso me deixou meio abalada. Meio não, muito.

— Poxa amiga, nem sei o que te dizer – saí da minha banqueta, fui até ela e abracei – espero que fique tudo bem. Você ainda gosta dele?

— Não sei, Estou confusa. Não quero falar sobre isso agora. Vou ir falar com ele totalmente sem expectativa. Não quero me decepcionar. Apenas precisava contar isso pra vocês.

♥

Tenho que confessar, fui pra faculdade um pouco nervosa na segunda-feira. Ao chegar na sala, felizmente o professor Jones ainda não havia chegado, então sentei-me mais ao fundo da sala, atrás de Cecília, que por ser mais alta, podia me esconder.

Ele chegou alguns poucos minutos mais tarde, bem humorado e feliz, aparentemente. Tentei não sorrir, mas a ideia de que ele estava feliz pelo acontecido no sábado não me deixou manter a expressão séria e fria.

— Bom dia a todos! Como foi o fim de semana? – disse ao pendurar a jaqueta na cadeira e depositar a bolsa na mesa.

Quando sentou, saiu do meu campo de visão, então não pude mais apreciar sua face. Mesmo assim, mantive-me no mesmo lugar. Ele só percebeu que eu estava presente após receber de volta a folha de presença.

— Elena Eisenhauer assinou o nome aqui, mas não posso vê-la.

— Estou aqui, Sr. Jones – levantei o braço e me esquivei para o lado, para poder ser vista. Poucos segundos depois, retornei à minha posição e me mantive assim o restante da aula.

Na hora do intervalo, fui uma das primeiras a sair da sala, e minhas amigas notaram, já que nunca tenho pressa. Mas foi só dizer que eu precisava fazer xixi que elas aceitaram de boas.

Depois de sairmos no banheiro e sentarmos num banco no meio do campus, Cissa parecia intrigada com alguma coisa.

— O que foi, amiga, você parece distante? – indaguei pra quebrar o silencio.

— Eu estava pensando aqui, e até que faz sentido. Mas por favor, não façam alarde.

— Oxe, mulher, o que é? – agora foi a vez de Aurora perguntar.

— É o professor Jones. Notei que ele passou a aula toda olhando pro meu lado hoje. Quando eu correspondia o olhar, ele virava a cara. E isso me fez pensar que sempre que estamos juntas, ele está olhando pra mim. Também teve aquele episódio em que eu mandei ele transar. Será que ele é pervertido e tem alguma obsessão por alunas?

Eu soltei um risinho ao lembrar do fim de semana. Mas depois fiquei levemente irritada. Talvez bastante irritada. É isso, então? Ele dá em cima de todas as alunas que passam pela sala dele? Será que não tem sequer a decência de lembrar que somos amigas e poderíamos por acaso comentar sobre ele?

Todo o encanto pela noite incrível com muitas risadas, bebidas e finalmente um beijo foi para o saco. Mesmo assim tive que manter a passividade. Não posso deixar transparecer que isso me irritou, pode ocasionar vários fatos até que elas descubram o que realmente aconteceu.

Cissa e Aurora começaram a debater esse assunto, mas então o intervalo acabou, e voltei o quanto antes pra sala. Mas dessa vez ele também foi rápido, e estávamos só nós quatro na porta da sala, enquanto ele girava a chave para abri-la.

— Parece que as meninas estão com vontade de estudar hoje, não é mesmo? – sorriu lascivamente olhando pra mim, a princípio, mas devido à minha cara de poucos amigos, ele direcionou o olhar pra Aurora e Cecília também.

Me limitei a dar um sorrisinho amarelo e aguardar enquanto a porta era liberada. Assim que ele entrou, o segui e sentei-me no meu lugar, permanecendo praticamente imóvel e muda até o final da tarde.

♥

— Amiga, o que há com você hoje? – perguntou Aurora, que já havia percebido meu mau-humor.

— Apenas estou com cólica – mentira – acho que vou sair pra correr um pouco assim que chegarmos. Tudo bem pra vocês?

— Por mim sim.

— Ok, podemos assistir um filme só nós duas então, Cissa?

— Claro, vai ser ótimo.

Voltei silenciosa até em casa, cheguei e coloquei uma roupa adequada para correr e saí. Não sei nem porque fiquei tão irritada. Não tenho absolutamente nenhum compromisso com ele, e nem se eu quisesse, poderia. E além do mais, foi só um beijo, não tem nada a ver, inclusive, agora me parece natural ele querer ficar com suas aluninhas pra se divertir. Só não acho justo que ele faça isso com Cecília. Vai que ela se envolve e quebra a cara? Estou irritada não por mim, mas por ela.

Ok, quem eu quero enganar? Na verdade estou irritada por mim mesmo. Eca.

Pelo menos correr me deixou mais leve, e ao final da corrida parei em uma lanchonete qualquer pra comer um hambúrguer. Muita lógica né. Corrida de 2km e depois um lanchinho cheio de queijo, carne processada, batata frita e Coca-Cola.

Enquanto eu comia, comecei a sentir aquela famosa sensação de estar sendo observada. Me senti sufocada, e desconfiada. Olhei pra todos os lugares, mas todas as pessoas pareciam amigáveis, inofensivas e totalmente desconhecidas. Paguei a conta e voltei caminhando pra casa, há umas duas quadras dali. E no caminho todo continuei com a sensação de perseguição. Finalmente entrei no prédio e subi rápido, pela escada mesmo. Tomei um banho e fui pro quarto de Cissa, pra terminar de ver o filme com elas.

♥

No dia seguinte, ao me juntar com as meninas na mesa para o café da manhã, Aurora me entregou um envelope.

— Correio pra você, Elena. – disse ela naturalmente.

Estranhei a carta, não esperava isso de ninguém. Em tempos de e-mails e mídias sociais, quem ainda manda carta. E não pude saber mesmo, o remetente era anônimo. O que só aumentou a minha curiosidade. Ao abrir, mais uma estranheza.

“Talvez tenham algumas coisas sobre a sua família que você não saiba, Elena. Mas estou disposto a te ajudar com isso.”

MAS QUE CARALHA É ESSA???? Alguém deve estar de brincadeira com a minha cara.

— Muito bem, qual de vocês que deixou isso pra mim? – falei tentando ser o mais amistosa possível, mas era perceptível o nervosismo e a insegurança na minha voz.

Elas não entenderam minha pergunta, e juraram que não tinham nada a ver com aquilo, e eu só ficava mais aflita e louca. Que porra é essa? Algo sobre a minha família que eu não saiba? Mil coisas vieram à minha cabeça. Pensei na morte do meu pai, Friedrich, minha mãe, minhas tias asquerosas. A quem essa carta se referia? O pior é que eu não tinha como retornar a carta. Havia apenas de esperar, pois na carta o remetente dizia-se disposto à ajudar.

Notas finais
Até sábado amiguinhos Beijos :*