Notas iniciais
Espero que curtam.
Já iniciei várias fics, mas sempre acabo desistindo e apagando, vamos ver o que essa vai dar.
Boa Leitura.

Perfeição. Por que estamos sempre em busca dela? Sempre falta algo, nos sentimos incompletos, buscamos incessantemente por coisas ou sensações para que possamos ir em busca da perfeição. O grande problema nessa busca interminável é que esquecemos de um fator importantíssimo: a perfeição não existe. Se você for parar alguns minutos pra pensar, facilmente cairá em si que jamais estamos satisfeitos. Isso, por um ponto de vista pode ser bom; buscar aprimoramentos, tentar melhorar as coisas que acontecem em nossas vidas, porém, por outro lado, a paranoia por querer tudo lindo e alinhado pode ser a grande vilã das nossas vidas. Muitas vezes acabamos perdendo tanto tempo numa fissura por querer que tudo seja perfeito, que acabamos esquecendo de aproveitar o que está bom, e usufruir dos momentos de prazer. Buscar a perfeição constantemente é um erro. Brutal. A vida passa, e quando nos damos por si, percebemos que enquanto lutávamos por manter as coisas nos trilhos, esquecemos de aproveitar a vida, que por mais imperfeita que seja, é uma só. E não volta.

E talvez, apenas talvez, eu tenha demorado um pouco demais pra entender isso. Passei anos da minha vida em busca da vida perfeita. Um corpo perfeito, um namorado perfeito, uma família perfeita... E o pior de tudo é que eu não fazia isso por mim, mas sim para manter malditas aparências. Fui refém por muito tempo disso. E estou, firmemente tentando me libertar. Ter a vida perfeita ao seu jeito, como tiver que ser, como der pra ser.

O ser humano se perde demais da essência quando tem a tão famosa carência afetiva e necessidade de autoafirmação, que é essa necessidade de ser reconhecido e elogiado pelos outros, e quando isso sobe à cabeça, nada mais importa, além de querer mostrar pra todos o quanto se possui felicidade, amigos, bens materiais e tudo de ótimo.

Se você leu até aqui e ainda se interessa, muito prazer, meu nome é Elena Eisenhauer. Tenho 23 anos, curso medicina em Oxford, sempre presei a liberdade, mas sou uma verdadeira prisioneira da vida que levo.

Os problemas acima citados me cercam desde muito cedo. Cresci numa família de classe alta, bando de metidos e arrogantes, meus primos, grande parte, mas velhos que eu, sempre estudaram em escolas particulares, eram os primeiros da turma, entraram pra Universidade de Oxford, casaram com pessoas ricas e lindas, e levam essa vida “incrível” de socialite.

Minha mãe, pra não perder o costume de família, seguia a mesma linha que meus tios. Ela jamais trabalhou, porém, devido ao fato de recebermos um auxílio da monarquia britânica já que meu pai morreu graças ao serviço prestado à coroa durante anos sempre tivemos uma vida confortável.

Logo, minha mãe, Diana – em homenagem à princesa -, meu irmão, Friedrich, e eu, vivíamos em uma área relativamente nobre de Londres, a St. James’s Place, em Westminster. E apesar de ter um custo de vida caríssimo, minha mãe jamais se contentou em viver aqui. Talvez porque ela sempre invejou sua irmã mais velha Elizabeth, por morar numa localidade próxima do palácio de Buckingham – nada menos que a “humilde residência” da família real britânica.

Você deve então, estar se questionando: “Como uma pessoa que vive numa área nobre londrina, e é rica pode reclamar que sua vida está longe da perfeição?”. A questão é que não é apenas eu. Apesar da origem nobre, eu não me importaria de levar uma vida calma, longe dos holofotes, e etc, porém, minha mãe sempre me incentivou a buscar a perfeição. O objetivo de vida dela era, e talvez ainda seja, tornar seus dois filhos membros da nobreza, e ela sempre fez de tudo pra ostentar, e pra provar que éramos uma família perfeita.

Mas Diana é uma mulher vazia, triste, só, conservadora, que não se permite os prazeres simples da vida, e, enquanto pôde, me privou disso também. Tudo para passar uma boa imagem para a elite, e quem ela se importava em demonstrar o quanto estávamos bem e satisfeitos com a vida que levávamos.

Chega uma hora que cansa, e pra mim, essa hora havia chegado. Passei algumas semanas arquitetando a forma que eu usaria pra dar um basta pra essa vida vazia e cheia de aparências.

Numa ensolarada e menos fria manhã de junho, eu estava no meu banheiro terminando meu banho pra ir pra faculdade. Estou no quarto semestre da faculdade de medicina, e adoro o curso, sempre gostei. Apesar do contragosto de Diana, que queria uma profissão menos popular pra mim – e esse é o termo que ela usava. Muitas vezes ela chegou a insinuar que eu deveria casar-me com um homem da nobreza, riquíssimo e cheio de posses, e esquecer esse lance de trabalhar. Foi a gota d’água. E foram por motivos como esse que resolvi que não aguentava mais. E que bem em breve eu poria um fim nessa supremacia de Diana Eisenhauer sobre mim.

— Mãe, eu gostaria de conversar com você quando sobrar um tempinho. – falei, entrando na suíte dela, uma das muitas existentes naquela casa enorme onde havia mais empregados do que moradores. Sempre achei um absurdo, mas... vocês já sabem, “tudo pela aparência”.

— Bom dia, meu amor! – ela abriu um sorriso enorme, mas que jamais conseguiria apagar a imagem de tristeza e vazio presente no rosto dela.

Mamãe sempre foi uma mulher linda, toda minha família comenta que sou a cara dela quando ela casou com meu pai, aos 22. Ela é loira, e apesar dos exatos 50 anos, não deixa jamais exibir um fio branco sequer em seu cabelo, a pele é impecável, mas também, ela passa metade da vida em spas e centros estéticos – da elite britânica, é claro – para manter-se jovem e linda. Facilmente poderíamos ser consideradas irmãs.

— Você pode falar agora? Está livre? – Escoro-me no portal todo ornamentado de seu closet minado de roupas de grifes e estilistas.

— Claro, meu amor, o que há?

— Já tem algum tempo que eu estou tentando lhe falar a respeito disso, e sinto que a demora só piora minha situação. Serei direta ao ponto.

Seus olhos, de um azul cristalino e intenso – assim como o oceano – fuzilam os meus, também como os dela. Somos realmente muito parecidas.

— No próximo semestre da faculdade, que começa no próximo mês, temos uma série de aulas práticas a serem feitas. E nosso professor de instrumentação e cirurgia disse que vamos fazer uma visita, tipo um estágio, em Dublin, na Irlanda.

Ela não esboçou nenhuma reação durante alguns segundos. Parecia estar processando as informações. Então acrescentei o restante.

— A visita dura seis meses, e seremos remunerados pelo estágio. Já faz algum tempo que sei disso, e estou com tudo pronto. As reservas no apart hotel estão feitas, já paguei a viagem e não há nada que possa me impedir de não ir.

Agora sim, ela pareceu perplexas, ergueu as sobrancelhas, e sua boca se abriu formando um círculo quase perfeito.

— Dublin, seis meses, sozinha? VOCÊ ESTÁ FICANDO LOUCA, ELENA? – ela simplesmente berrou na minha cara, como se eu tivesse dito o maior absurdo do mundo, como se tivesse confessado um crime a sangue frio. – Você não vai pra Irlanda de jeito nenhum.

— Eu sinto muito ter que desaponta-la, mas estou no meu direito, paguei com meu dinheiro – dinheiro que recebo da pensão de meu pai, já que Diana nunca me deixou trabalhar – e eu faço de tudo pelos meus estudos.

— Como você acha que vai viver por lá? Você jamais saiu debaixo da minha asa, filha, você não está preparada pra isso. Confie na sua mãe.

— Eu cansei de viver embaixo da sua asa por toda vida, mãe. Eu preciso de autonomia, conhecer pessoas, lugares, e além do mais, trabalhar enobrece a alma. Não é você que fala tanto de nobreza?

— Não é desse tipo de nobreza que me refiro, e você sabe disso, Elena – ela estava se alterando cada vez mais, ambas estávamos. Mas eu não podia simplesmente, mais uma vez, acatar uma decisão dela sobre a minha vida e não fazer nada.

— Claro que não. Nobreza pra você é passar a vida sem fazer nada, comparecer à festas chiques, fazer o cabelo, a unha, comprar roupas exclusivas e pagar os olhos da cara nelas. Isso é realmente muito nobre – carreguei minhas palavras de sarcasmo e quase cuspi na cara dela enquanto falava.

Ela movia a cabeça em sinal de negação, descrente, apavorada. Eu jamais havia contrariado qualquer coisa que ela tivera dito nesses 23 anos, cresci submissa, só saia para as festas que ela aprovava, só conversava com pessoas que ela achava apropriadas, vivia de dieta, para ter o corpo dos sonhos de uma garota. Eu estava sempre no piloto automático. Mas como eu disse, a gente cansa das coisas em algum momento.

— Não há nada que você diga ou faça que vá me impedir de fazer isso. É necessário, não apenas pela faculdade, mas por mim, minha autonomia, minha liberdade. Minha vida, Diana. Respeite minha escolha, pelo menos uma vez na vida.

Pedir pra que ela respeitasse minha escolha era piada, porque ela jamais me dera opção de escolha. Apenas ordens.

— Estou partindo pontualmente às 09h da manhã do dia 3 de julho. Acostume-se com a ideia. Já falei que não vou voltar atrás. – saí a passos largos daquele quarto, aquela casa me sufocava demais. Era muito luxo, muita coisa supérflua, era melhor eu sair dali logo, se não ia acabar ficando louca.

♥

Já na faculdade, notifiquei a minhas amigas e demais colegas que eu finalmente tinha criado coragem de me libertar das amarras de minha mãe.

Cecília e Aurora eram minhas melhores amigas, pra variar, não caíram no gosto de minha mãe, mas se isso fosse base, eu não teria amigos na faculdade. Ambas estávamos muito ansiosas pra nossa viagem à Dublin. Apesar de já ter visitado muitos países da Europa, eu nunca tinha ido à Irlanda. Vai ser incrível, eu tenho certeza disso. Apenas o fato de ir rodeada de gente alegre e bem resolvida, vou ter um grande hiatos da minha vida regrada aqui em Londres. Sem querer ser ingrata com essa cidade incrível, mas estou precisando renovar os ares, conhecer gente, me apaixonar, sair à noite, e todas essas coisas que uma jovem normal de 23 anos costuma fazer.

Irlanda, aí vou eu.

Notas finais
Próximo capítulo em breve.
beijo