Final Sword
1 De volta ao infortúnio
Notas iniciais
E lá estavam eles, numa sala escura apenas à luz de velas: Dylan S. Helinor e seus tios. Os olhos do rapaz estavam arregalados e vidrados com a revelação que seria feita a ele.
— Dyl, você sabe que a gente tentou te proteger esse tempo todo. — falava a tia.
— ...
— Mas ninguém encontrou o corpo da sua mãe, quando o falamos que havia sido encontrado foi apenas uma mentira para te deixar em paz. Ao invés disso, acharam apenas as vestes dela e um bilhete com a letra dela. — disse a tia de Dylan.
— Do que você está falando...? — quebrava o silêncio, um pouco enfurecido.
— Você estava prestes a servir as Forças Armadas Reais... e ter o treinamento deles. Você é orgulhoso, Dylan, nós sabemos que suas habilidades subiriam a sua cabeça e você iria atrás de sua mãe na esperança de achar ela. — explicava seu tio.
— Vocês não tinham esse direito... eu quero saber o que estava escrito no bilhete... e eu vou embora daqui... — falava ele com lágrimas nos olhos.
— Olha, desculpa. Aqui está. As vestes encontradas estão no sótão. Faça o que bem entender, fizemos o que era mais sensato. — respondia o tio.
"Querido, eles vieram. Tudo tem sido muito suspeito ultimamente, e eu lamento muito por a gente não ter parado quieto em um lugar desde que você nasceu. Eu prometi te contar suas origens e muitas coisas, inclusive porque seu sobrenome nos faz ser aceitos nas dependências reais. Sim, seu pai era alguém muito importante, mas o alto comando do reino acha importante que seja tudo um segredo, por isso não te contei, você poderia se revoltar contra eles. Felizmente, você pôde ter uma vida normal, e só o alto comando tem estranhamentos contigo. Não vá cobrar verdades a eles, eles irão te matar, aja normalmente. Também não me procure, meu filho, você infelizmente não me achará. Siga seus sonhos, lembre-se que essa sempre foi minha vontade. Um dia nossos corações poderão se achar naturalmente. Confie em mim. Eles estão vindo, eu sinto muito, são extremamente poderosos, terei de aceitar este destino."
— Ela foi assassinada. — concluiu o jovem.
— Não vá atrás deles, Dylan. Não condene seu coração à vingança. — pedia a tia.
— Vocês mentiram pra mim... isto é uma traição... seja quem for, ei de me pagar pela morte de minha mãe! — esbravejava o rapaz, com lágrimas nos olhos.
— Não mais confio em meu reino também, perdi toda admiração que outrora tinha! Não me importa se desejam proteger-me, é uma falta de confiança e uma desonra para mim! — completava.
— Você vai acabar morrendo, Dylan. Sua mãe era muito poderosa, não se esqueça que ela era general de uma das divisões mais fortes do exército real. — alertava o tio.
A esta altura do jogo, Dylan não mais conseguia falar nada, apenas chorar. Dos seus olhos escorria-se seu pranto, suas mãos se fechavam forte tal que sua unha cravada em sua palma fazia seu sangue escorrer para fora, seus dentes rangiam com uma força que doía suas gengivas, e em sua mente ecoava e se repetia cada pequena fração da dor e sofrimento que ele sentiu na época em que sua mãe, sua inigualável protetora e maior companheira desapareceu.
Dylan costumava passar paz e tranquilidade para as pessoas, costumava melhorar o clima e trazer bons sentimentos. Era um típico herói, mas naquele momento, tudo se inverteu. Ao olhar para ele, via-se apenas sangue em suas mãos que ele levava a sua cabeça depois, uma cena conturbada de alguém que não aceita sua realidade, apenas podia-se observar um bom coração se condenando às sombras e escuridão do ódio e da vingança. Tamanha era sua dor que sua tia poderia jurar que viu uma aura negra exalando do garoto.
A vela que iluminava a sala, se apagou. No escuro, os olhos de Dylan brilhavam em vermelho, e tinham um tom cristalino graças às inacabáveis lágrimas que saiam dos olhos do jovial moço atormentado pela verdade que acabara de se revelar. E assim foi, até o silêncio aos poucos tomar conta de Dylan, que pegou apenas algumas moedas que somavam 80 tryndas, sua espada, uma bolsa amarrada à cintura.
Ele também colocou as vestes de sua mãe. Ela utilizava uma veste masculina quando viajava, e a veste que haviam encontrado era deste tipo. Era um vestimento que se assemelhava com uma camisa branca, porém, as mangas eram compridas e bem largas ao longo do braço, voltando a ficar justas apenas no pulso. No meio da veste havia desenhado o brasão de Astogun, todo preto. Dylan também colocou seus braceletes, que eram bem extensos (iam do pulso ao meio do antebraço), feitos de um metal preto e desconhecido, e com dois dragões em guerra desenhado em cada um. Ele havia ganhado estes braceletes como prêmio por ter sido o melhor de sua divisão em décadas, enquanto serviu o exército real, sendo considerado alguém muito promissor. Pôs sua cinta, que enrolava a parte que sobrava da veste branca em sua calça preta, que embora também um pouco larga, no fim ficava bem justa graças as botas (também pretas e levemente pontudas) de Dylan. Sua cinta havia uma bainha para a espada e um espaço pra prender sua bolsa, que não era nada grande.
— Vocês eram tudo que eu ainda tinha na minha vida... mas embora terei de ir. Meu lugar não é aqui. Eu voltarei um dia, obrigado pelo tempo que passamos. — disse Dylan depois de belos minutos em silêncio e ausente arrumando suas coisas.
Depois de proferir suas palavras, seus tios apenas fizeram positivo com a cabeça, ainda um pouco assustados com toda a situação e cena que acabaram de ver. Dylan saiu pela porta e seguiu rumo. O lugar onde tudo aconteceu e sua mãe desapareceu estava longe demais, e até lá ele sabia que no caminho acabaria morrendo, se tentasse ir de maneira estúpida e inocente. Ele ainda não era mais poderoso que sua mãe, sabia que seria derrotado facilmente por ela, e se era assim, seria um alvo fácil para quem ela chamou de "extremamente poderoso". Ele sequer tinha tanta experiência de combate. Simplesmente não sabia o que fazer e nem para onde ir, era apenas um alguém solto num mundo místico e cheio de histórias, com uma espada, 80 tryndas e um coração condenado à vingança. O desconhecimento de Dylan era seu maior algoz naquele momento. Eis então que ele lembrou de alguém.
— O senhor dos caminhos... disse que eu tinha o coração de um guerreiro... falou sobre mim e meu destino como bem entendia... — pensou Dylan.
— Se ele é mesmo o tal senhor dos caminhos... será capaz de me guiar até o meu. Vai ser minha luz. Terá de ser. Um charlatão jamais teria a confiança da minha mãe. É até ele que eu vou. — concluiu.
E assim, em direção ao velho ancião conhecido por ser o mestre das encruzilhadas da vida, partiu...
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