Fim da linha
1 Capítulo Único
Fim da linha
O ar frio gela minhas narinas e corta-me a garganta. Cinco meses. Já foram cinco meses desde que ele partiu. Ele era tudo para mim. Quando ele se foi, meu mundo perdeu as cores, perdeu a graça, perdeu a vida.
Estou na linha da principal ferroviária da cidade, me equilibrando nos antigos trilhos de madeira. A mesma linha na qual ele caiu. Caiu num abismo sem volta. Já havia caído há muito tempo na verdade. Tentei tirá-lo de lá, porém já era tarde demais. A bebida o consumiu de tal forma que ele perdeu o controle. Eu o amei incondicionalmente e dei o máximo de mim. Só queria que ele me retribuísse da mesma forma. Mas não o fez ou sequer tentou.
Sinto falta dele e dos nossos bons momentos. Tudo isso se foi... para sempre. Por um simples descuido, um deslize... que eu fizera de tudo para evitar.
Naquela noite ele saiu porta afora com uma garrafa de Whisky escondida no interior do casaco e as chaves do carro. Dei um grito de desespero e chorando, pedi que não fosse e me desculpei, mesmo sem ter feito qualquer coisa errada. Ele me deu uma tapa muito forte, bateu a porta e se foi. Ouvi a porta da garagem abrindo e o motor do carro ligando. Apenas caí de joelhos, em lágrimas e em desespero e sussurrei baixinho para mim mesma: “Que Deus evite que o pior aconteça” Em vão. Aconteceu.
Na semana seguinte, a polícia refez seus passos e indicou que o carro ficou estacionado na entrada da estação e ele se sentou à beira da estação e bebeu até cair nos trilhos. Inconsciente, ele ficou lá até que o trem veio e o resto é implícito.
Entrei em depressão profunda e mesmo com todo o apoio e tratamento do mundo, não pude esquecê-lo. Eu o amei como único em toda a minha vida e ele fez isso. Tentei ajudá-lo e ele refutou com todas as forças. Ingrato! Tolo! Egoísta! Enfadei-me por uns instantes, mas era impossível. Não conseguia zangar-me com ele. Os únicos sentimentos que podia ter naquele momento eram de uma tristeza profunda e eterna culpa.
Agora estou aqui. Nos mesmos trilhos onde tudo aconteceu. Ando me equilibrando, pé ante pé. Já estou bem longe da estação onde ele caiu, cheguei a um campo aberto. A noite esfria mais a cada minuto. Sinto meus dedos petrificados e os pés nem sinto mais. Mas continuo andando, ainda aguardo o trem. Quero que ele venha e acabe logo com isso tudo. Retire esse fardo e essa culpa que carrego na alma. Não suporto mais sofrer.
Olhem só, o barulho do apito quebrando o silêncio mortal da madrugada. Olho no relógio que levo no bolso, tudo o que sobrou do acidente, a única memória restante. São 2:40. O trem passa na estação ás 2:00, sem atrasos. Bem na hora. Caí de joelhos exatamente como naquela noite, em frente à porta e sussurrei para mim mesa: “Te encontro na próxima estação... Eu te amo.”
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