Fim De Semana No Lago

2 ... Que pode apenas ser preenchido por você'


Notas iniciais
Já acabou -todos chora-.
Gente foi um parto conseguir trazer esse cap hoje auauhauhauh. Pra quem acompanha a You Are aviso que amanhã tem atualização sem falta.
E para os que esperavam esse cap...
... Boa leitura.

Sexta-feira.

— Sim, pai, está tudo bem, não precisa se preocupar, certo? – Sorriu, como se o Sr. Takashima pudesse vê-lo. – Algum tempo longe da agitação da cidade e eu consigo me arrumar de novo.

- Aproveite, sim? Não quero meu filho triste quando voltar.

- Certo. – Bateu continência, rindo. – Mas, preciso desligar agora, chegou minha vez de fazer o registro.

- Tudo bem, bom descanso.

Agradeceu e fechou o aparelho móvel, guardando-o dentro do porta-luvas. Precisava se desligar por algum tempo de Tokyo e claro, nada melhor como um rápido fim de semana no lago Akai, berço de descanso e paz para os que precisavam colocar os pensamentos em dia, aproveitar alguns momentos íntimos num lugar que interagia com a natureza, ou mesmo acampar com os amigos. Um lugar versátil e que tinha espaço para todos.

Fazia jus ao próprio nome, visto que no verão, quando o sol era mais forte e se punha no horizonte, o lago dava a impressão de se tornar vermelho, refletindo os raios intensos da Estrela Rei. Uma visão linda e de certa forma, digna de poucos. Não era ainda uma época em que o local lotava, mas ainda assim fora difícil para Kouyou conseguir uma das tantas cabanas dispersas pela enorme área verde em torno do lago.

Takashima Kouyou, um ótimo decorador, mas péssimo amante. Não se lembrava, em seus vinte e sete anos, de conseguir se manter em um relacionamento duradouro e por diversas vezes se perguntara de quem era a culpa. Sua? Deles? De acordo com o Sr. Takashima, vulgo seu pai, o problema não era consigo, mas o fato de atrair, infelizmente, apenas pessoas com interesses duvidosos, fosse pelo dinheiro que tinha que mesmo não sendo muito, chamava atenção, fosse por sua beleza diferente.

No começo, depois do terceiro, quando realmente começou a contar, achava que seu pai apenas queria mascarar as coisas, que na verdade o problema era consigo não como da forma que ele falava, dos outros. Mas, a real questão, acima de tentar descobrir quem era o verdadeiro culpado pelos fracassos era que Kouyou sempre saía ferido, mesmo que não desse tanta importância.

Ele tentava, em verdade. Mas, chega uma hora que as coisas saem do limite e a melhor coisa a se fazer é tentar colocar os pensamentos em ordem, como ele o fazia no momento. Uma rápida viagem não planejada, mas sugerida por seu pai, depois de mais um fracasso e uma marca a mais em seu coração já tão maculado.

Quantos já haviam passado? Seis? Sete? Que diferença fazia, no entanto? Era apenas mais um que chegava, prometia, iludia e ia embora levando uma parte de Kouyou como se ele fosse um pedaço de papel e cada um ia tirando uma parte, amassando, achando que não tinha valor, importância... Sentimento. Que um simples 'desculpa' vai resolver alguma coisa. Era como quebrar um copo, pedir desculpas e achar que ele voltaria a ficar inteiro.

Já havia perdido as contas de quantas vezes inundou as fronhas de seus travesseiros, mesmo que não o quisesse. Não por orgulho, mas por saber claramente que nenhum daqueles homens merecia uma lágrima que fosse sua. Seu pai sempre dizia que um dia olharia para trás e se perguntaria como fora capaz de se apaixonar, e pior, chorar por um idiota como aqueles?

E era isso que pretendia fazer naqueles três dias no lago Akai, respirar ar fresco, viver um pouco para si, se amar mais, como o fazia antes de ser tão machucado. Apesar de nunca revelar aos poucos amigos que tinha e a seu pai, aprendia sim com cada baque daquele e não pretendia mais se deixar levar tão fácil. Se fechar para o amor, mesmo que um pouco parecia o correto.

Ainda podia desfrutar de seu hobbie, fotografar. Fizera um curso e se quisesse poderia, ao lado de sua máquina profissional, trabalhar no ramo. Não o escolheu porque decorar ambientes, tornando-os mais acolhedores fora como uma tentação que caiu em seu colo.

Guiava o próprio carro pelas estradas bem demarcadas, adentrando pelos emaranhados de árvores em direção a cabana que alugara. A linda visão fazendo-se marcante em seus olhos, certamente fotografaria cada detalhe que conseguisse.

Antes, porém, precisava se abrigar, ajeitar-se em seu novo e temporário lar. Algumas cabanas eram próximas às outras, apesar de não tanto. Outras tinham uma distância maior, mas todas com seu espaço particular, de certa forma, e sua paz tão desejada.

Uma das que Kouyou escolhera ficava um pouco mais distante do lago, estrategicamente escolhida por si para que a caminhada até o lago fosse maior e assim pudesse fotografar mais, desde árvores até a fauna local. Consequentemente as flores, apesar de a flora não ser tão abundante. A maioria surgia nas árvores, mas nada que um bom ângulo e uma boa máquina não conseguissem capturar belas fotos.

Trazia consigo poucas coisas: Uma mala de tamanho médio, alguns livros, sua máquina, um notebook e seu celular, esses dois últimos ligando-o com Tokyo e seu pai, apesar de ter saído da agitada cidade pretensioso de não manter tanto contato, precisava de um momento para si.

E seu violão, apenas para se deixar levar pelas composições que tinha, com direito a letra, mesmo que nunca fosse se apresentar de fato. Gostava de escrever, desenhar. A paixão pela natureza veio com a faculdade de arquitetura, quando precisara fazer um trabalho com os alunos do curso de paisagismo, consequentemente um de seus namorados que lhe abandonou um mês depois.

Deprimente.

Por ele decidira ficar loiro e desde que terminaram deixou os cabelos mais escuros, ainda que algumas vezes houvesse pontos claros. Agora adotava um corte um tanto quanto assimétrico, parte escuro, parte branco. Chamava sempre atenção, mas fora um penteado que gostara de adotar, achava que combinava consigo.

Estacionara ao lado da cabana, pegando primeiramente sua mala. O celular ficara esquecido no porta luvas e muito provavelmente ficaria ali pelo resto do fim de semana. O violão fora parar num dos ombros e a bolsa da máquina, assim como a do notebook estavam dentro da mala com as roupas.

Aspirou profundamente assim que abrira a porta, o cheiro da natureza invadindo-lhe por dentro. Simplória, mas aconchegante, era assim que descreveria a pequena moradia. O primeiro ambiente, a sala, pequena e acolhedora. As paredes tinham detalhes rústicos, papéis de parede lembrando cascas de árvore pegavam parte das estruturas. A outra parte permanecia apenas com tinta, um bege bem claro, as duas divisões separadas por uma faixa de madeira.

Os sofás seguiam o padrão de cores, assim como o resto do local. Tons pastéis, leves, detalhes rústicos, todos remetentes a natureza. Kouyou sentia-se revigorado, o peso das dores de seu coração abandonando-o, assim como suas angústias deixadas na porta. Não pretendia deixar que seu fim de semana se estragasse por nada.

Deixou sua bagagem no quarto, colocando a bolsa da máquina aberta sobre a cama. O notebook rapidamente foi parar em seu colo, apoiado na base que o impedia de aquecer tanto. Assim como ler e fotografar tinha o hábito de escrever, desde pequenos contos até histórias mais complexas, sem pretensão de publicar. Era apenas mais uma forma de se divertir, e às vezes exteriorizas as próprias dores.

Era quase como um antidepressivo, não que tivesse depressão realmente. Mas, estando em suas mãos, a próxima cena sempre seria feliz, ou no mínimo pouco triste. Uma realidade tão distante da que vivia, falando no sentido amoroso.

Ainda assim não estava muito certo se deveria escrever ou sair, apesar de achar um pouco de desperdício ficar do lado de dentro com toda aquela natureza lhe esperando. E claro que se tratando de uma de suas paixões, a natureza falou mais alto. Apenas tomaria um banho antes.

...

Um short preto e curto, soltinho. Nos pés um sapato também preto, e nas canelas um par de polainas pretas que lhe davam um ar quase infantil ou mesmo feminino, não que se importasse de fato. Uma camiseta branca e um colete azul marinho relativamente longo, e estava pronto. Os cabelos estavam distantes do rosto e a máquina jazia fora de sua embalagem pronta para ser usada.

Não esquecera de passar o repelente para mosquitos e pegou o que mais precisava, saindo já no escuro para passear na margem do lago.

...

Como gostava dali. Passara bons momentos naquele lugar em companhia de seu pai. A mãe? A mãe abandonou os dois quando ainda era pequeno, mal tinha um ano, para ir embora com um amante. O Sr. Takashima sempre deixara aquela história clara, e por um tempo chegou a desconfiar que talvez Kouyou não fosse seu filho.

Quando tinha idade suficiente para entender o que era aquilo seu pai perguntou se desejava fazer um exame para descobrir, mas fora com um: a genética nunca vai ser mais forte que o amor. que deixou claro que sua mãe não existia para eles e seu pai seria sempre amado, mesmo que houvesse a chance de não ser geneticamente seu genitor.

Alguns anos mais tarde descobrira que sim, eram pai e filho de fato. Fora um dos melhores dias de suas vidas.

E marcante como era, o lago fazia parte de suas vidas de maneira intensa, portanto, o lugar ideal para se passar um tempo, que com certeza o faria refletir sobre o que queria como agiria dali para frente em relação ao amor, não podia mais deixar que as coisas continuassem daquele jeito. Se caminhasse por aquela estrada daquele jeito apenas uma coisa aconteceria:

Sofreria ainda mais.

E não queria aquilo. Era quase como assinar uma sentença de martírio eterno. E se amava muito para deixar que algo daquela proporção acontecesse. Estava um pouco sem rumo, não negava, mas se tinha algo que não fazia era deixar a vida passar. Mesmo sendo retraído depois de todas as pancadas levadas não tinha medo de continuar andando com a cabeça erguida.

E era o que fazia no momento, mas desta vez por um motivo diferente, a fotografia. O céu estava repleto de estrelas, lindo. Certamente se as pessoas soubessem como era diferente daquele visto na cidade muito provavelmente se mudariam para o campo.

Um azul marinho lindo lhe banhava, e cada pedacinho brilhante do paraíso como adorno, uma combinação perfeita para suspiros e beijos apaixonados ao redor do lago, como notara assim que chegou ao centro de Akai. Havia batido várias fotos e estava realmente interessado nelas, apesar de ter suspirado ao ver toda aquela felicidade em volta de si.

Torcia ao menos para que fosse amor de verdade e que aquelas pessoas não tivessem o mesmo azar que ele. Uma melodia suave chegou a seus ouvidos, chamando sua atenção para uma pessoa parada perto de uma árvore tocando violão.

Sorriu e discretamente bateu uma foto, agradecido pelo zoom alcançar perfeitamente aonde a tal pessoa se encontrava. A harmonia da melodia cada vez mais o relaxando, suave, quase... Apaixonada. Como se a pessoa que tocava estivesse fazendo uma serenata para um amor, alguém especial.

Alguém que com certeza era agraciada pelo calor do amor, calor esse distante para si. Muito distante.

Resolveu bater mais algumas fotos e encerrar sua noite, sentando-se na margem do rio e um pouco longe das pessoas, abraçando os joelhos e observando maravilhado a bela lua também adornando o céu, a Estrela Rainha, aliás, muito mais bonita que a Estrela Rei.

Só não imaginava que ali perto, também portando um violão, mas sem tocar, um moreno o observava também maravilhado, mas não pela lua ou qualquer outro conjunto de Akai, e sim por suas pernas desnudas.

— Quase um pecado olhar apenas isso. – Disse baixo para si mesmo.

...

Sábado.

Kouyou espreguiçou-se sem pressa, apertando os olhos antes de abri-los definitivamente. Em Akai, mesmo que sua cama fosse de casal não sentia que estava realmente vazia. Como um hábito de muito tempo havia dormido abraçado a um travesseiro e assim acordou, a coberta espalhada pelo colchão cobrindo apenas partes de suas pernas.

O sol começa a despontar do lado de fora e com alguma hesitação sentou-se na cama, verificando as horas em seu relógio, 07h57min. Relativamente cedo para quem desejava não fazer muita coisa naqueles dias, apenas relaxar. Entretanto, como algumas idéias rondavam sua mente desde que havia voltado de seu passeio noturno resolveu levantar de uma vez, passaria algum tempo escrevendo.

Novamente se proveu de um short ao sair do banho, combinado com uma camiseta, leve e confortável para o ambiente. Na cozinha preparara um chá e pegou alguns biscoitos, tudo trazido por si mesmo. Seu notebook estava ligado na sala e colocou seu café em cima de uma mesinha ao lado do sofá, acomodando-se e trazendo o aparelho eletrônico para si.

Apesar de ser um pouco avoado, os arquivos de seu computador eram todos organizados. Possuía muitas histórias, as maiorias finalizadas. Na verdade, apenas duas não concluíra ainda: Um drama policial, que apesar de triste não teria um final com conotação depressiva, e um romance, quase um conto de fadas, um espelho distorcido de sua vida, que não conseguia encerrar.

Apesar disso, optou pelo segundo. Dos cinqüenta capítulos já escritos começava a pensar num final, que achou que terminaria enquanto seu último relacionamento ainda existia. Alongava aquela história há mais de um ano, quando deveria ter terminado no capítulo quinze. Agora se via diante do capítulo cinqüenta e um com apenas uma linha escrita.

Suspirou, sorvendo um pouco de seu chá. Não sabia bem o que sairia daquelas idéias que teve, mas era hora de botar seus dedos e seu lado carente de amor para funcionar.

...

Espreguiçou-se pela segunda vez naquela manhã. Seu celular marcava dez horas e sete capítulos foram escritos, mas nenhum dando sinais do fim. Apesar disso poucos mostravam alguma dor, mesmo que contivessem parte das que sentiu, em escala menor, não agüentava ver Uruha, personagem principal de seu livro sofrendo mais do que deveria.

Ainda no conto estava atrás de um companheiro que no momento era apenas um amigo, Aoi. Kouyou decidira-se pelo mesmo por causa da interação natural dos dois que acabou surgindo sem que tivesse se dado conta. Achava que Aoi seria o melhor para Uruha e agora bastava apenas pensar num final, torcendo para que o seu próprio final fosse feliz.

Desligou o notebook e o deixou de lado, concentrando-se em descobrir o que poderia fazer para almoçar. Era um pouco cedo, mas se quisesse fazer alguma coisa que lhe faltasse algum ingrediente teria tempo de ir sem pressa até a cidade mais próxima do lago comprar.

Só não esperava, no entanto, que seu violão apoiado em sua base no quarto chamasse tanta atenção quando fora pegar um de seus livros para terminar de ler. Havia uma pequena sacada que era acessada pelo quarto, e tão tentado que estava pegou seu companheiro da base e foi até o lado de fora, sentando-se na cadeira que lá havia, concentrando-se em afiná-lo.

A sua frente um apoio para sua pasta de composições que estava aberta na última que vinha tentando compor, novamente esperando apenas uma chance de conseguir terminar. A bela imagem da floresta que tinha dali de cima talvez pudesse lhe servir de inspiração, e com alguma coragem começou a dedilhar, iniciando a música.

...

Suspirou cansado. Não fazia nem ideia de quantas vezes tocara e quantas vezes parara no mesmo ponto abruptamente. Simplesmente não conseguia terminar.

— Porcaria de música. – Praguejou baixo. – Se ao menos eu fosse um pouco mais feliz no amor...

- É bonita.

Kouyou sobressaltou-se com o susto, batendo o violão de leve no chão e deixando a pasta cair para fora da sacada em direção aos pés do desconhecido.

— Porcaria. – Praguejou.

- Tudo bem eu pego. – O moreno riu, abaixando-se para pegar o volume de capa negra. – Desculpe por te assustar.

- Tudo bem. – Kouyou compartilhou da risada, sentindo-se corar. Que moreno bonito, pensou. – São só alguns papéis. – Levantou-se. – Só um minuto.

O moreno assentiu, admirando novamente aquele belo par de pernas que desapareceram aos poucos para dentro do quarto. Logo que se encontrou sozinho aproveitou para olhar as composições em suas mãos, mais precisamente a última. As notas bem desenhadas na folha pautada, os pontos de interrogação onde deveria conter o nome da música, um nome no espaço para o compositor.

— Takashima Kouyou... – Disse distraidamente.

- Sou eu. – Assustou-se com a voz mais perto, na soleira da porta.

O moreno sorriu. – Bonito nome.

- Obrigado. – Kouyou retribuiu o sorriso, notando agora o piercing no lábio inferior do moreno. E que lábios.

- É músico profissional? – Indagou entregando a pasta para Kouyou.

- Que honra seria pra mim. – Negou. – Mas, não, é apenas um hobbie.

- Um hobbie que mostra muito talento, tenha certeza.

Kouyou riu desconcertado.

— Agradeço... Ahn...

- Yuu. – O moreno completou. – Shiroyama Yuu. – E sorriu de novo. – Mas, pode me chamar de Aoi.

Aoi... Aoi...

O nome reverberou pelos ouvidos de Kouyou, paralisando-o no lugar. Coincidência, acaso, brincadeira do destino. Tantas possibilidades passaram na mente de Kouyou naquele momento, e de todas, talvez a mais insana — Comparado agora com a chance que dava a si mesmo de superar mais um relacionamento perdido. – fosse a que deixou vocalizar:

— Pode me chamar de Uruha também. – Esperou um pouco para ele próprio conseguir assimilar o que dissera. – Você é músico profissional?

- Tento. – Riu. – Na verdade não planejo me apresentar, ser famoso. Eu trabalho com design de interiores, a música também é um hobbie.

- E tem a ver com o que escolheu para fazer?

- Mais ou menos. Consegui algum dinheiro pra começar a pagar o curso, mas isso só.

Kouyou soltou um 'ah' que mostrava interesse naquela história. Claro que não conhecia Yuu a ponto de ter a intimidade de saber tudo, mas então se lembrou da proximidade de suas profissões.

— Eu me formei em arquitetura. – Disse um pouco desconcertado pelo moreno não ter perguntado, o que ao ver de Yuu fora adorável. – Mas, focando para decoração.

- Decoração? Somos parceiros de área. – Espreguiçou-se, fitando as horas em seu relógio. – Vai passar o dia trancado aí?

- Oh não. – Sorriu. – Vou preparar alguma coisa para comer e depois vou até o lago.

- Então bom almoço pra você, eu vou dar umas voltas por aí. – Despediu-se e voltou a andar.

- Obrigado e bom passeio. – Viu já um pouco distante Yuu voltar-se para si e acenar.

Suspirou e um bico que passara despercebido para si formou-se em seu rosto. Aoi, Aoi. Nunca pensou que algum dia encontraria alguém que carregasse o mesmo apelido que o nome de seu personagem. Apesar de ser um pouco comum realmente, ao menos mais do que Uruha, ainda assim era uma coincidência um tanto quanto curiosa.

Talvez se encontrasse Yuu novamente no lago mais tarde tivesse um pouco de coragem para perguntar de onde surgira seu apelido, mas por enquanto preferia caçar, no meio das latas de conserva e das embalagens de massas e arroz algo para preparar sua refeição.

...

Ainda de short, mas desta vez sem câmera. Kouyou caminhava pela estrada que dava até o lago, provido apenas de uma caixinha de Pocky, que, claro, não pretendia deixar jogada por aí. A camiseta que usava tinha um tom lavanda, combinando com o short roxo. Sempre gostara dos modelos curtos, mas tinha traumas quando a palavra 'amor' entrara em sua vida.

Claro, como sempre. O primeiro amou, disse que ficava lindo, e no final das contas apareceu dizendo que arrumara alguém com as coxas mais bonitas. Um impacto muito grande em seu amor próprio. Não era nada fácil encarar um short ou mesmo seu corpo depois daquilo.

Com as outras pancadas não fora diferente. O sentimento de repulsa de si mesmo acabou surgindo, mesmo que contra sua vontade. Morar com seu pai não era uma desculpa, sempre fora independente, mas aos poucos a coragem ia sendo guardada em seu peito. Ainda tinha muito dela em si, mas pretendia usar com cautela, não queria se machucar de novo.

Akai lhe passava boas sensações, alívio, desprendimento de todo e qualquer sentimento ruim, por mais que eles viessem em sua mente. Estar ali era como alcançar o Nirvana, a paz total. Somente a caixinha vermelha em suas mãos ligava-lhe com o mundo real e agitado. Mas, ela era apenas um detalhe, que naquele início de tarde ensolarada de sábado não significaria nada.

Ou talvez significasse sim, mas apenas para dar um tom doce aquele dia, depois de seu almoço simples, mas absurdamente saboroso. Levara coisas práticas, já que se fosse para passar o dia cozinhando que o fizesse em Tokyo. Então quanto menos tempo fizesse coisas que lembrassem sua cidade mais se lembraria que existem coisas mais belas do que se deixar levar pela dor de um relacionamento com um idiota.

E por falar em dor...

— Cuidado!

Mas, não deu tempo de desviar. Logo que sua atenção se voltou para a voz a roda lhe acertou em cheio, levando-o ao chão. A caixinha de Pocky já vazia fora parar longe de suas mãos e logo sentira outros dígitos perto de si.

— Kouyou, tudo bem? Meu Deus me desculpa, quando eu te vi já tava perto demais. – Yuu falava exasperado, ajudando-o a se sentar. – Tudo bem? – Indagou novamente.

- Um pouco ralado, meio quebrado, bastante sujo, mas inteiro. – Riu e Yuu abaixou a cabeça, respirando aliviado. – Vou sobreviver.

- Você tem algum kit de primeiros-socorros com você?

- Eu não pretendia vir pra cá ser atropelado por um ciclista, então não. – Yuu riu.

- Então vem comigo. – Ajudou Kouyou a levantar, apoiando-se em si. – Eu vou te deixar na sua cabana e pegar algumas bandagens na minha.

- Você vem preparado pra atropelar as pessoas? – Os rostos estavam próximos, ambos riram.

- Não, é só precaução. E antes que me chame de maníaco da bicicleta – Kouyou riu. – é a primeira vez que isso acontece.

- E logo comigo. Não tenho sorte mesmo. – Riu com amargura.

Yuu podia sentir o perfume suave que Kouyou emanava agora misturado com terra. Havia ralado a lateral de um dos joelhos, por isso o ajudava a se sustentar sem precisar andar e puxar a perna. A camiseta estava suja, assim como o short, e os cabelos um pouco fora do lugar, mas estava inteiro.

— Bonito corte de cabelo. – Resolveu quebrar o silêncio ainda ouvindo gemidos baixos de dor. Mesmo assim Kouyou virou-se para si e lhe sorriu amavelmente.

- Obrigado. Resolvi radicalizar depois do último.

- Depois do último? – Indagou Yuu.

- Do último namorado. – Completou a frase sem se importar muito se o moreno ia ou não pensar algo ruim a respeito. – Eu não tenho sorte.

- Foi o que disse quando eu te ajudei a levantar.

Kouyou concordou com a cabeça.

— Mas, eu não to bravo ou algo assim. – Voltou-se novamente para Yuu. – É só que eu não vim muito bem pra cá.

- E pelo jeito eu ajudei a deixar pior.

Kouyou riu. – Não me importo, dói menos que dor de amor.

- Nisso eu concordo. – Yuu riu. – Pelo jeito somos dois infelizes no amor. Se quiser compartilhar algumas dores...

- Acho que posso dizer o mesmo. – Riu baixinho quando a barriga de Yuu roncou e ele enrubesceu. – E posso te oferecer o almoço que fiz e depois você me diz por que ainda não comeu. – Viu-o concordar levemente. – Não me importo, mas eu realmente prefiro parar de sangrar antes.

Shiroyama riu.

— Tudo bem, vou te deixar estacionado aqui e já volto.

Kouyou assentiu rindo do 'estacionado' e destrancou a porta, sentando-se com ajuda de Yuu. Só então pôde ver o machucado em seu joelho.

— Por isso tava doendo tanto... Itai. – Franziu o cenho.

- Eu já venho. – Aoi colocou-se para fora, pensando no quão bonitinho fora ver Kouyou franzir o cenho em dor, não que ela fosse boa, claro.

...

Yuu não parava de rir. E de apanhar.

— Pára de se mexer Kouyou.

- Mas, ta doendo, saco. – Bufou, ouvindo mais risadas do moreno.

Não demorou em voltar, já que estava de bicicleta e ela não parecia danificada. Tinha um kit pequeno, mas prático e com o que precisava para desinfetar – Ou pelo menos tentar. – o machucado de Kouyou e ainda passar no braço e na perna, nas partes que haviam ralado um pouco e ardiam. O joelho era o mais machucado e Kouyou reclamaria um pouco quando pudesse andar de novo.

— Eu sei que ta, mas olha aí, já terminei. – Terminou de prender um dos lados da gaze com esparadrapo antes de sentar displicente no chão. – Resmungão.

- Ciclista perigoso. Devia te processar.

- Me processar? – Yuu riu. – Eu disse que é resmungão. Nem foi nada. – E sua barria roncou novamente.

- Não foi nada porque não foi em você. – Reclamou falsamente indignado. – E pode ir pegar comida, eu já esquentei. – Arrumou a base do notebook trazendo-o para perto.

- Não precisava se incomodar.

Yuu sorriu sincero e se encaminhou para a cozinha. Kouyou sorriu de lado, murmurando um: Precisava sim. Pôde ouvir o som de suas poucas panelas assim como do prato e o som quase oco dos hashis. Não demorou para que Yuu voltasse e se sentasse a seu lado, agradecendo baixinho e começando a comer.

— É bom. – Murmurou, sorrindo abertamente. – É muito bom.

- Obrigado. – Kouyou ainda mantinha o olhar focado na tela de seu monitor, mas se mostrava atento às palavras de seu visitante. – Mas, é bem simples, pode admitir.

- Simples ou não, nem isso eu sei fazer. – Riu amargo, deixando-se encostar ao respaldo do sofá. – Problemas do coração são uma porcaria, não é?

- E pra você do estômago também. – Riu baixinho, finalmente afastando o eletrônico de si e voltando o olhar para Yuu. – Mas, sim, são uma porcaria.

- Você veio pra cá porque terminou com um?

Kouyou assentiu, as mãos entrelaçando e parando sobre a barriga.

— Com mais um. – Suspirou. – Eu não dou sorte com essas coisas. Todos chegam, acham que podem usar e jogar fora, e sempre terminam me devolvendo a chave do meu apartamento e dizendo que os momentos juntos foram maravilhosos. E eu to cansado disso. Vim pra cá me decidir. – Despejou o que carregava a tempo demais.

- Decidir...?

- É difícil, talvez seja até engraçado pra você ouvir isso, mas eu quero dar as costas para o amor, sabe? Cansei de sofrer, quero continuar minha vida sem precisar lembrar dos idiotas que passaram por ela.

Calou-se, os dedos brincando nervosamente. Via de esguelha Yuu ainda olhar para cima, parte da comida ainda no prato. Parecia estar refletindo. Por um momento sentiu-se envergonhado da maneira que falou, parecia ser promíscuo, e não o era.

— Isso é intenso. – Yuu disse por fim. – Se fechar para o amor. Acho que poucos têm essa coragem. Mas, eu não tiro as suas razões. – Fitava apenas o teto. – Sofrer por amor não é nada fácil. E sempre ter mais um para puxar seu tapete, isso cansa. – Suspirou. – Chega uma hora que todo mundo precisa de alguém que vá ajudar a se equilibrar em cima desse tapete, e não puxar ele.

- Você viveu o mesmo? Quer dizer – Riu nervosamente. – não somos os únicos a serem iludidos várias vezes, mas acho que foi o melhor jeito de perguntar.

- Não, não somos, e tudo bem como perguntou. Mas eu não fui tão iludido assim. – Finalmente desencostou do respaldo e fitou Kouyou que logo completou o contato. – Por um só. Eu tenho vinte e oito anos e com dezoito saí de casa pra morar com ele. Dez anos Kouyou. Dez anos e ele resolveu me trair no nosso apartamento. Eu fui embora com a roupa do corpo e algum dinheiro na carteira. E como deu pra ver, sem saber cozinhar.

- Deve ter sido muito pior pra você...

- Eu não acho a minha dor pior do que a sua. Mesmo que os seus tenham durado menos dá pra ver que doeram como o meu doeu em mim. Incrível como sempre dão valor para aqueles que não sabem o que significa caráter e vergonha na cara.

- E para quem é abandonado sobra apenas-

- Os que também foram abandonados. – Yuu cortou e riu pelo fato de Kouyou enrubescer.

- Não fique flertando comigo enquanto falamos das dores de amor.

- Mas, não teria momento melhor. – Riu. – Estamos falando de amor Kouyou, flertar agora é normal.

E certamente ficar com vergonha por causa disso e o coração acelerar também sejam coisas normais, né, Shiroyama? Pensou.

— Normal, sei. – Tentou espantar os pensamentos pecaminosos. – E como foi que você sobreviveu sem saber cozinhar?

- Encomendando por aí. Não faz tanto tempo que ele me largou, tem pouco mais de uma semana só. E vir até aqui também foi pra pensar.

- Esse lago constrói boas lembranças. Por sorte eu não construí nenhuma com os meus namorados, então não achei lugar melhor pra pensar um pouco.

- E encontrar um ciclista doido foi coincidência, imagino.

- Uma que eu nem fazia ideia. – Riu. – Mas, e você, ta aqui faz tempo?

- Acredite ou não, uma semana.

Kouyou arqueou uma das sobrancelhas.

— Uma semana? E o que comeu em uma semana?

- Comida semi-pronta. Aquela hora que eu te atropelei eu estava justamente te procurando. Ia me despedir para ir embora. – Não fitava Kouyou, então não pôde ver como corara adoravelmente. – Sabe, a comida acabou ontem à noite, e eu só tinha um pacote de biscoito pra comer.

- E usou como café. – Kouyou completou.

Yuu assentiu.

— Deprimente. – Riu fraco. – Você pelo menos sabe cozinhar, pode se virar sem um idiota na sua cola.

- Você ainda vai embora?

- Como?

- É, quer dizer – Kouyou sorria. – quero saber se vai embora hoje mesmo.

- Eu não tenho mais o que comer, não posso ficar.

- Se pudesse iria ficar até que dia?

Yuu pareceu ponderar sobre o assunto.

— Até amanhã só, tenho que voltar ao trabalho.

- Se quiser pode ficar até amanhã.

Yuu ia repetir o que já havia dito sobre a comida, percebendo finalmente que Kouyou lhe oferecia da própria refeição.

— Acho que eu não posso aceitar. – Sorriu envergonhado.

- Pode sim, não seja orgulhoso. – Riu baixo. – E são só umas refeições, isso não é nada. – Mal se deu conta de que estava debruçado sobre Yuu, que ainda mantinha o rosto voltado para outro ponto qualquer. – Não seria nenhum incômodo.

- Não mesmo?

Voltou-se para Kouyou, os rostos ainda mais próximos.

— N-Não. Não seria nenhum problema. – Kouyou se recompôs e sorriu ternamente. – Se quiser eu ainda posso te ensinar alguma coisa.

- Se não tiver nenhum problema. – Yuu sorriu fechado e Kouyou negou.

Assim, ocuparam-se daquele final de tarde preparando mais comida, divertindo-se com as trapalhadas de Yuu, as reclamações de Kouyou sobre seu joelho, e xingaram tudo que tinham direito sobre aqueles que lhes maltrataram, rindo sobre serem uns idiotas e de si mesmos por se deixarem levar por pessoas tão baixas e vis, entendendo que não valia realmente a pena.

Divertiram-se como nunca. Parecia que muito tempo havia passado desde que riram de verdade a última vez, desde que foram felizes plenamente. Toda aquela mágoa fora varrida aos poucos de seus corpos, as cicatrizes permaneceriam claro, mas se pudessem – E era o que pretendiam. – manter os donos delas longe de suas mentes, seriam mais felizes.

A noite chegara logo e depois de uma janta simples, mas ainda com aquele ar leve e mais pocky como sobremesa, resolveram conversar mais um pouco e às nove horas Yuu se levantou do sofá, avisando que iria embora.

— Chega de te perturbar. – Riu já na entrada. – Obrigado por tudo Kouyou, acho que agora sei fazer alguma coisa na cozinha.

- É fácil, você vai ver.

- Se eu não botar fogo na casa antes, te aviso se consegui.

Antes que Kouyou pudesse responder beijou-lhe à face, afastando-se e subindo na bicicleta.

— Vou esperar pra me dizer como foi.

Kouyou conseguiu dizer, por fim. Tão logo Yuu se viu longe de sua vista aproveitou para ir até o banheiro se trocar para dormir, vendo em frente ao espelho um sorriso sincero e espontâneo, apesar de um pouco de medo. Conhecia aquelas borboletas em sua barriga, e conhecia a dor que vinha quando todas eram mortas. Se Yuu estava realmente interessado em si, perguntava-se se conseguiria dar mais uma chance para o amor.

Domingo.

O fim de semana passara tão rápido que Kouyou sentia vontade de reclamar e mandar alguém lá no céu voltar o tempo e trazer sexta-feira de volta.

— Mas, só o dia, nada de fazer os acontecimentos voltarem também.

Riu de si mesmo, parado na sacada do quarto. Sua mala já estava pronta, tomara banho logo cedo e se não fosse atropelado por Yuu de novo era só colocar tudo no carro e voltar para Tokyo, revigorado, feliz e decidido por ser cauteloso e pensar duas vezes antes de sair entregando seu coração novamente.

E com mais uma pessoa em sua vida.

Yuu. Shiroyama Yuu. Aoi. Na noite passada esquecera de perguntar de onde vinha seu apelido, mesmo que de alguma forma não fosse o interesse real que tinha em si. Alguém que surgira do nada, elogiando sua canção inacabada, que olhava indiscretamente para suas coxas como ele havia notado, que... Simplesmente lhe atropelara porque na verdade estava lhe procurando para se despedir, sendo que conversara pouco consigo e ainda naquela manhã, mas mesmo assim não queria ir embora sem dar 'tchau'.

Aquele moreno era um mistério, tinha de admitir. Não sentia medo dele ou algo parecido, apenas curiosidade. O que significava para si? Flertara tão descaramente, será que alguma coisa em si chamou sua atenção? E se foi isso, o que? As coxas realmente, apenas o corpo? Será que o moreno estava perdendo seu encanto?

E porque para Kouyou aquilo chegava a doer? Estava amando de novo, mesmo sem querer? Mesmo que nunca mais fosse ver Yuu depois daquele dia? E porque esse 'nunca mais' parecia doer tanto?

Seu coração parecia querer lhe pregar peças novamente. Se entregar para uma nova paixão assim, mais rápido do que conseguia se lembrar. Apesar de ter tido alguns namorados não era idiota para se entregar tão rápido. Mas, Yuu, Aoi... Ele parecia lhe passar confiança. O que poderia significar tudo aquilo afinal?

Não queria nem pensar, para ser sincero consigo mesmo. Queria aproveitar aquele domingo de sol, mostrar suas pernas para o lago novamente, mas desta vez protegendo os braços. Estava todo de branco, incluindo os calçados. Desta vez uma jaqueta cobria-lhe a parte de cima do corpo, em compensação as pernas ficavam de fora.

E logo estavam trabalhando, guiando-o lentamente pelo caminho até o lago. Não passava das dez ainda e não pretendia ir embora tão cedo, muito menos sem se despedir de Aoi, que novamente voltava à sua mente. O moreno de cabelos compridos, quase na cintura, que lhe enfeitiçara e adorava andar de preto. O ciclista maluco que lhe atropelara e lhe fizera curativos, o homem que perdeu o amor que jurava ser da vida toda depois de dez anos de relacionamento...

...O menino que não sabia cozinhar e que havia aprendido com sua ajuda. Tão diferentes no cotidiano, tão iguais nas dores do coração. O que mais poderia ligar-lhes se não os fios invisíveis das cicatrizes que carregavam?

— Se ficar andando e pensando tanto assim vai acabar sendo atropelado de novo.

Pulou de susto ao ouvir Aoi falando-lhe rente ao ouvido, arrancando-lhe boas risadas.

— Duvido muito, antes que eu morra atropelado você me mata de susto.

- Imagine. Logo eu que sou tão bonzinho. – Disse com um tom melodramático.

- Tão bonzinho que meu joelho ainda dói.

Puseram-se a andar lado a lado. Desta vez Yuu estava sem bicicleta.

— Ia aonde?

- Até o lago pensar um pouco. Incrível como ele sempre marca a minha vida.

- Marcou de novo, nessa estadia rápida?

- Marcou sim.

Aoi assentiu levemente, logo os dois estavam em frente ao grande lago. A água clarinha, própria para nado. Não havia vida marinha ali e os visitantes sabiam preservar cada cantinho de Akai, proporcionando a quem viesse depois também desfrutar dos momentos nas cabanas ou no lago.

Algumas crianças brincavam, outras pessoas estavam sentadas nas margens e só então Kouyou pareceu se dar conta de que estava de branco e não poderia se sentar.

— Ops. – Mordeu o lábio inferior.

- Que? – Aoi indagou, logo associando o short branco com o mato quando Kouyou apontou para os dois respectivamente.

Riu.

— Isso não é um problema. – Retirou a jaqueta preta que usava, colocando-a no chão. – Pode se sentar.

- Não Yuu, não precisa, eu não quero estragar a sua roupa. – Negou gesticulando para dar mais ênfase sobre não querer estragar sua roupa.

- Calado. Não vai estragar nada.

- Mas e se eu me recusar? – Cruzou os braços.

- Aí vai sentar no meu colo. – Dito isso se sentou ao lado da própria jaqueta enquanto Kouyou engasgava com alguma coisa misteriosa.

- Ficou maluco?

- Não, mais descarado.

Kouyou engoliu seco ante o sorriso bonito e assentiu leve, sentando-se finalmente, as pernas um pouco recolhidas tomando apenas o cuidado de não pisar na jaqueta.

— Você tem belas pernas. – Aoi disse baixo, atraindo o olhar de Kouyou para si. – Aposto que elas atraíram muitos idiotas.

- É, atraíram. – Respirou fundo. – Sabe Aoi, eu me pergunto quem é você.

O olhar, que estava voltado para o lago novamente encarou o rosto um pouco mais moreno que o próprio.

— Quem sou eu? – Repetiu a pergunta, curioso.

- É, o moreno que aparece do nada no lago que eu venho desde menino, elogia minha música, me atropela, é o meu primeiro aluno de culinária e faz o meu coração bater mais forte de novo, quando na verdade eu queria deixar ele inerte, sendo apenas um órgão.

Os olhares se encaravam, novamente opostos. Um claro, o outro negro como a noite. Eram como Yin e Yang, definitivamente. E só então depois de um silêncio quase constrangedor Yuu sorriu.

— Não amou bastante pra entender?

- Amei sim, tanto. E em vez de esquecer, me apaixono de novo, dessa vez pelo personagem da minha história.

Yuu cerrou as sobrancelhas.

— Personagem? – Perguntou quase indignado.

- Além de tocar e fotografar eu escrevo, Yuu. E tenho duas histórias inacabadas. Uma policial e um romance que deveria ter terminado no capítulo quinze e já ta no cinqüenta e sete. E justamente agora o Uruha, um dos personagens principais está quase se acertando com o... Aoi. – Quase sussurrou o último nome e Yuu se sentiu corar.

- Aoi e Uruha. Seu apelido não era Uruha... – Sorriu abertamente.

- ...Mas, o seu era Aoi. – Sentiu o coração disparar. – Eu tenho medo de coincidências Yuu. Não tinha um final para essa história e a vida me deu um Aoi de carne e osso.

Mal se dera conta de quando seu corpo colou-se ao de Yuu e um de seus braços abraçava-lhe pelos ombros. Logo um beijo foi depositado em sua cabeça.

— Acho que eu te amo, Uruha. – Conseguiu sentir o sorriso contra sua cabeça.

- Eu também acho que te amo, Aoi. – Seu coração disparou. – E provavelmente tenho o fim da minha história.

- E o começo da nossa, imagino.

- Sim, e o começo da nossa. – Aninhou-se mais sobre o peito de Yuu.

...

Naquela noite fizeram amor duas vezes. A primeira com violência, em buscar do prazer máximo, do ápice intenso. A segunda com amor, explorando o corpo alheio, com muitos toques, beijos e carinhos. E assim como Kouyou tinha um final para sua história, tinha para sua composição.

E tanto ele quanto Yuu estavam dando mais uma chance para o coração e para a vida, e desta vez com a certeza de que daria certo finalmente. E que todos aqueles que vieram antes apenas serviram como atalhos para, no fim, fazer-lhes se encontrar.

Tem um buraco no meu coração
Que pode apenas ser preenchido por você

Extreme – Hole Hearted

...

Escrever é brincar de Deus

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