Fim.

1 Capítulo Único — Saudade


[Ela encara a enorme paisagem. A mais bela das visões de toda a sua vida.]

[Ela] (suspiro longo, revitalizado). Acabou-se.

[O vento recita um poema. Ela se sente agraciada pelas palavras que agora entende.]

[Ela] Ele é bonito. Fala sobre...

[Ela para um pouco. Turbilhões renascem e dançam diante dos seus olhos, apenas para morrer logo em seguida, quando ela os percebe.]

[Ela] Saudade.

[Ela lembra de alguém lhe falando sobre a beleza da saudade.]

[Ela] Onde está a Saudade, para que eu possa vê-la?

[A pergunta, dirigida ao vento, não teve resposta.]

[Ele] Não existe uma Saudade.

[Ele e sua interrupção incomodam Ela.]

[Ela] Claro que existe! Me acompanhou como um anjo da guarda a jornada inteira...

[Ele] Não, você estava louca esse tempo todo.

[Ela se vira, ofendida]

[Ela] Tu ousa chamar minha imaginação de loucura? Minha poesia, de ignorância?!

[Ele] Ouso. Faço porque preciso. De que adianta você conseguir entender o vento, se ninguém mais nesse mundo lhe consegue compreender?

[Ela] Você não compreende minhas palavras. Porque não sabe usar letras! Só usa números! Traços sem rota, indo para um abismo infinito. Não há cor nem poesia no vazio. Eu vi! Todos os seus cálculos, contrastando com todos os meus versos.

[Ele] Volte pra casa! Pelo amor de Deus, você não vê que vai cair nessa "por" de precipício?!

[Ela] Perdoe-me, mas eu não posso. Fugi até aqui. De que adiantaria voltar tudo? Não há coisa bonita que deixei pra trás. Há apenas vermelho esparramado. Projéteis metálicos. Corpos sem alma. Um rastro de destruição mesclada com poemas inacabados.

[Ele] (silencia-se)

[Ela] Eu só percebi depois do último corpo cair. Me aproximei dele. Olhei-o por longos minutos. Não respirou. Aquilo agoniou-me. Pensei nos sonhos e esperanças que o indivíduo poderia carregar. Eu destruí todos eles, Ele! Um rastro nojento de lutas. Agora que eu cheguei no final, ao menos deixe que eu ouça o sussurro do vento.

[Ele suspira.]

[Ele] Faça o que achar melhor.

[Num ato quase Shakesperiano, Ela olha por uma última vez para Ele. Sorri, cita algum poema sobre morte. Antes que Ele entenda o porquê, ela se joga, de costas, no incrível e aparente buraco brilhante infinito. Enquanto cai, recita um poema sobre a saudade.]

[Ela (em queda livre)] "A saudade. A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo".

[Ele nada faz. Apenas observa enquanto Ela desaparece. Não chora, pois não sente vontade. Vira-se para voltar. Ouve um "adeus" de Ela, carregado pelo vento. Lentamente caminha para voltar pra casa.]

[Ele] "Há deus" pra você também.

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