Fille du soleil
4 Aaron
Notas iniciais
Meus dedos se moviam rapidamente encaixando aquelas pecinhas minúsculas de metal. Pegava uma engrenagem aqui, outra acolá, mas logo o objeto tomava forma. Enfim depositei o pegaso de bronze em cima da bancada. Mylo bateu palmas. Depois de muito tentar consegui convencê-lo de que o tal de Ernesto não iria machucá-lo de novo, e que ele fora muito valente ajudando a garota e o Brad. Girei uma pequena chave nas costas da miniatura e ela alçou vôo. Voou alguns centímetros acima de nossas cabeças e em seguida pousou na mão de Mylo.
– Cavalo voante! Cavalo voante! – ele disse animado.
– Ferreiro – Brad chamou da porta, ele me chamava assim desde sempre – Quíron pediu pra você mostrar o acampamento para as garotas novas e para Mylo.
– Ah, claro. Estamos indo. Vamos, garotão?
– Cavalo voante vai também?
– Se você quiser.
– Quero!
– Então pode levar!
Quando saímos da forja, Shawn juntou-se a nós.
– Vai mostrar o acampamento às garotas?
– É. Não sei por que o Quíron me chamou, não sou muito bom com seres humanos. – ele riu- você vem?
– Ta de brincadeira! Você acha que o Shawn aqui vai deixar o AJ fazer um tour pelo acampamento com duas gatas? Não mesmo!
A enfermaria fica bem perto da forja. Chegando lá, vimos a tal de Piper se despedindo dos pais na varanda. Ficamos observando de longe. A mãe era alta, magra, de cabelos encaracolados e pele parda. Seus traços exibiam uma linhagem indígena. O padrasto – eu deduzi isso, pois ele não se parecia nada com ela — era negro, cheinho e meio careca, e olhava a garota com uma profunda tristeza nos olhos. E a Piper tinha pele parda, só que um pouco mais clara que a da mãe, e os traços indígenas eram mais fortes nela. Seus cabelos castanho-dourados estavam presos num coque improvisado e seus olhos azuis indicavam que ela havia chorado.
– Não espero que entenda agora Pips, mas um dia tudo fará sentido. – disse o padrasto dela – Te amamos muito!
– Eu tentei adiar o máximo esse dia, querida! Mas se for seguro você poderá voltar para a escola durante o ano letivo. – a mãe disse
– Tudo bem. Eu vou ficar bem. – Piper disse- Dê um beijo nos meninos para mim, ok?
– Ok.
Então os pais dela saíram em direção ao pinheiro de Thalia, onde eles haviam deixado o carro. Quíron, na sua forma verdadeira se inclinou um pouco e disse algo a ela e Lindsey, que estava ao seu lado. As duas assentiram e vieram na nossa direção. Piper se aprumou e ergueu o queixo como se dissesse: Não aconteceu nada.
– Olá – Lindsey disse.
– Oi, rapazes – Piper disse – Vamos, me mostrem esse maldito acampamento!
Shawn e eu guiamos os três e mostramos a arena, o pavilhão do refeitório,a praia, o anfiteatro, o lago, a parede de escalada a árvore de Thalia com Peleu, o dragão, descansando tranquilamente aos seus pés – Lindsey ficou com um pouco de medo, mas Pipes olhou com um olhar do tipo: Então é verdade! Mostramos a quadra de vôlei, o salão de artes e a casa grande. Enfim, os campos de morangos, a forja, o arsenal – a enfermaria elas conheciam muito bem – e paramos nos estábulos. Mas o mais estranho foi que Piper não parava de me lançar olhares. Às vezes curiosos, as vezes com pena... ou algo do tipo. O que aquela garota estava querendo?
Lindsey ficou extasiada com os pegasos. Piper também ficou, mas Lindsey agiu como se os amasse desde sempre.
– Eles são lindos! Posso montar?
– Bem, precisamos de treinamento antes de montar um pegaso sozinhos. – Shawn disse. Mas quando ela lhe lançou um olhar suplicante... – Mas acho que não tem problema se você voar alguns metros.
Depois de ajeitarmos Lindsey no Strawberry, o pegaso mais manso de todos, Shawn lhe explicou as noções básicas de montaria em pegasos. Ela alçou vôo, mas enquanto pensávamos que ela ia dar a volta, com medo da altura, ela conduziu Strawberry dezenas de metros acima, com uma desenvoltura e naturalidade dignas de uma filha de Íris.
Cinco minutos depois, Strawberry pousou alguns metros à nossa frente. Lindsey desceu.
– Você já tinha montado um pegaso antes? – Shawn perguntou
– Não. Mas eu já vi um, ele apareceu no terraço do orfanato em que eu ficava.
– Lindsey, — Shawn disse – A maior parte dos campistas leva anos para voar perfeitamente como você.
– E a outra parte? – Ela perguntou cautelosa, já perto de nós.
– Bom, a outra parte – eu disse – são os filhos da deusa Íris .
– Minha mãe é Íris? Tipo, a deusa do arco-íris? Quer dizer que eu tenho o poder de... disparar raios coloridos ou algo do tipo?
Todos riram. Até Mylo, embora fizesse uma cara confusa.
– Isso está me deixando maluca – Piper disse
– Não exatamente, Lindsey. Quer dizer, Íris também é uma deusa mensageira, assim como Hermes, por isso seus filhos são bastante rápidos. Eles também têm uma relação especial com os pegasos e são capazes de confundir temporariamente o oponente mudando a cor dos olhos... – Shawn explicou. – Mas talvez estejamos errados... enfim, provavelmente hoje no jantar vocês duas serão reclamadas.
– Ok.
–Posso montar no cavalo-voante também? – Mylo perguntou, indo em direção a Strawberry, que mastigava grama calmamente perto dali. Quando o ciclope se aproximou, o pegaso relinchou e empinou, batendo as asas brancas sem sair do chão – Calma cavalinho! Mylo é amigo!
–É melhor se afastar, Mylo! – Lindsey disse, preocupada. Obedeceu. Depois ele fez uma cara triste e mostrou para Piper o pegaso de bronze.
– Então Mylo fica com o pequeno, mesmo!
Então Piper olhou ao redor e perguntou:
– Que horas são?
– Três da tarde. – Shawn respondeu depois de consultar o relógio.
– Eu não acredito! Quer dizer então que hoje é sábado? Mas eu saí da escola ontem às cinco...
– Isso mesmo. – Eu disse.
– Então eu fiquei desacordada esse tempo todo?
– Parece que sim.
– Uau! – ela parecia nervosa e assustada. – Mas por quê? O Quíron disse que eu havia quebrado o tornozelo, mas não foi preciso muita coisa para que ele se curasse sozinho. Não tem motivo para eu ter desmaiado.
– É verdade – eu respondi – Mas fique calma. Vamos ver os chalés agora.
Lindsey lançou um olhar de solidariedade a Piper e assentiu com a cabeça. Andamos até os chalés, sob os olhares curiosos dos outros campistas, principalmente por causa de Mylo. Afinal, nenhum ciclope depois de Tyson aparecera por aqui. Chegamos na área dos chalés, que ficavam dispostos em um grande O. As garotas e Mylo olhavam admirados cada chalé, perguntando às vezes de quem eram.
– De quem é esse? – Lindsey perguntou, apontando para um chalé vermelho-sangue com o telhado coberto de arame farpado.
– Ares, deus da guerra. – Shawn respondeu.
– E esse? – Piper apontou para um chalé de mármore negro, com colunas e sem janelas.
– Hades, deus do mundo inferior.
– E esse? – Lindsey apontou para um chalé meio antiquado com um coroa de flores na porta.
– Hipnos, deus do sono. Eu moro ali – Shawn disse, apontando para um chalé que parecia ser feito de ouro puro – o chalé de Apolo.
– E eu, ali – Eu falei, apontando para o chalé negro, com chaminés saindo do telhado – Hefesto.
Alguns minutos depois, paramos em frente ao chalé de Zeus. As garotas pareciam constrangidas com os olhares dos outros campistas que iam e vinham, usando armaduras e portando armas; dos sátiros – dentre eles, o Brad; E das ninfas. Vez ou outra olhavam pegasos cortarem o céu. Shawn e eu, depois de termos respondido as perguntas delas e de Mylo a respeito de Peleu, – o dragão que guarda o Velocino de Ouro no pinheiro de Thalia – Argos, – o guarda de segurança do acampamento, com centenas de olhos espalhados no corpo – e várias outras coisas sobre o acampamento.
– Bom – Shawn disse – Está na hora de vocês conhecerem o diretor do acampamento.
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