Filhos do Poder – Devotas da Magia
5 As Devotas da Magia e os Filhos da Escuridão
Mirian e eu deixamos as duas irmãs na sala do trono e fomos ver o castelo. Durante o tour, Mirian me falou mais sobre o Castelo de Luz.
– Como eu já falei, aqui os guerreiros e as feiticeiras são treinados para sobreviver e lutar. Ariadne não nos força a lutar contra os demônios e nem a nos revelar para o mundo humano; nós nos oferecemos para tal cargo e ninguém pode nos julgar por não querer lutar; muitos guerreiros novatos clamam pelo prazer da luta contra os demônios mas eles não sabem o que é ter que matar, mesmo que um demônio. A sensação de culpa, a dor no coração por acabar com uma vida.
– Mas por que você quis isso então?
Mirian sorriu.
– Eu nunca te falei quem era a minha mãe?- Eu fiz que não. -Sou filha de Ênio, a deusa da carnificina e da guerra.
Eu a encarei bem séria.
– Você é filha de uma deusa da guerra?
– Sim; minha mãe era uma grande adoradora de Ares, o deus olimpiano da guerra. Eles até tiveram um filho juntos, Enyalios, que se tornou um dos demônios da deusa da noite, Nyx.
– Como ele se transformou em um demônio?
Ela ficou séria.
– As pessoas se transformam em demônios por muitas razões: possessão, juramento a algum ser demoníaco, ações malignas; Enyalios foi transformado em demônio por causa de sua obsessão pela matança e pela morte, ele tinha um prazer muito grande pela morte de outras pessoas.
– Mas como ele se transformou? Não estou perguntando o motivo, mas sobre a transformação.
– Enyalios estava presente na Guerra Corintia, um conflito entre Esparta e uma colisão de quatro estados aliados: Tebas, Atenas, Corinto e Argos, que estavam também apoiada pela Pérsia, no começo da guerra pelo menos. Meu meio- irmão estava em Esparta naquela época e tomou partido nesse combate. Ele massacrou muitos homens de Atenas por serem cidadãos da cidade inimiga da cidade que foi o local de nascimento de nosso pai. Muitas das mortes podem ser atribuídas a Enyalios, mas ele teve o seu castigo- ela ficou muito séria e olhou para frente. — Em uma noite de sacrifícios ao nosso pai, Enyalios se embebedou e saiu para caçar pela floresta; ele era um grande guerreiro. Muitas horas se passaram enquanto ele estava na floresta e, quando estava voltando para o acampamento espartano, Enyalios foi atingido por uma lança ateniense, atirada por Pericles, um dos comandantes de Atenas.
Ela parou de falar abruptamente.
– Enquanto Enyalios morria e adentrada o reino dos mortos, meu irmão foi visitado por Thânatos, o deus da morte, um dos filhos de Nyx, que disse para Enyalios que ele poderia voltar a viver e se vingar de seu assassino , tudo o que ele precisava fazer era jurar lealdade ao deus da morte; a vontade de matar de Enyalios era muito grande então ele aceitou e fez o juramento a Thânatos, sem ter conhecimento de que estava entregando sua alma as trevas.
Nós entramos em um corredor que era feito inteiramente de pedras rusticas branco-peroladas que eram marcadas com vários desenhos e símbolos es-tranhos que eu nunca havia visto na vida.
– O que são estes símbolos?
Mirian olhou para as paredes e falou:
– Sigilos angelicais; camaelico, poielico, enoquiano, entre outras línguas de proteção contra demônios. O castelo inteiro é marcado com estes sigilos para que a nossa morada seja uma fortaleza contra os satânicos. Em mais de mil ano, o Castelo de Luz jamais foi atacado por um ser da escuridão.
– Mas e se for atacado?
– Impossível. As marcas são poderosas, foram talhadas aqui pelas próprias Moiras, as deusas do destino; elas podem prever o futuro e ter uma visão clara daquilo que é necessário para nos proteger. As paredes são feitas do mesmo material com o qual são feitos os palácios no Olimpo, uma mistura de bronze medieval, Argentum Lunaris...
– Argentum Lunaris? O que é isso?
– Um metal prateado feito a partir dos poderes mágicos da deusa Selene, a deusa da lua. Selene é uma das mais poderosas deusas do mundo divino, ela é a deusa dos mistérios e também contribuiu para que as nossas fronteiras estejam fortemente protegidas contra os demônios pois muitos de seus filhos homens estão aqui.
– E as garotas?
– As filhas de Selene? Elas são chamadas de Selenitas e vivem em outro castelo, recebem uma educação mágica diferente da nossa pois fazem uso de uma magia diferente da que ensinamos aqui.
– Que tipo de magia?
– Muitas; magia lunar, infernal, magia de fada, ninfatica, luminosa, entre outras.
– Mas e vocês? Que tipo de magia vocês fazem aqui?
– Magia divina!- eu olhei para ela com cara de confusa e ai Mirian percebeu que eu não fazia a mínima idéia do que ela falava.- Desculpa, é que eu não costumo fazer tour com os novatos, e não sei bem o que explicar a vocês
– Tudo bem. Mas o que é essa magia divina?
– É uma forma de magia que tem como raiz as forças dos deuses da magia, em especial Hécate, a deusa das encruzilhadas, que também era a deusa da feitiçaria e uma habitante do mundo dos mortos, o Hades.
– Vocês tiram suas forças de uma deusa que vive entre os mortos?
– Sim. O conhecimento que Hécate recebeu sobre os mortos a tornou forte e poderosa, além de sábia e intuitiva. Nós também tiramos nossas forças de Ártemis, a deusa da caça e da magia selvagem, e de Selene, a mãe das selenitas.
– Alguém mais?
Mirian pensou um pouco.
– Também cultuamos Leto, a deusa do anoitecer, mãe de Ártemis, e sua irmã, Asteria, a deusa das estrelas. Tanto Leto quanto Asteria foram as primeiras a aprender sobre a magia, e ai ensinaram para outros deuses como era possivel controlar essa magica.
Eu olhei para ela.
– Como elas ensinaram para os outros deuses sobre a magia? A mitologia diz claramente que os deuses sempre foram poderosos e tinham seus poderes desde o nascimento.
– A mitologia também diz que Fedra esta morta e que os deuses são somente parte do imaginário dos seres humanos, que feiticeiras e demônios não passam de mitos.
Eu fiquei calada.
– Mas como os seres humanos sabem tanto sobre esse mundo?
– Na Antiga Grécia, os deuses de fato marcaram presença entre os humanos, mas os mortais começaram repudiar os divinos por serem inferiores aos poderes dos deuses, eles passaram a não mais cultuar os deuses, sofrendo com suas pragas e maldições mas nunca desistindo daquilo que queriam: a destruição dos deuses antigos.
– Mas como se pode destruir uma coisa que é imune a morte? Os deuses são imortais, não são?
– Eles são imortais graças á devoção dos mortais; a capacidade humana de acreditar é forte, tão forte que deu origem aos deuses, grandes seres que controlam a natureza.
– Esse é também um dos motivos de Ariadne e Fedra terem criado esse castelo, não foi?
Mirian me olhou séria e com ar de confusa.
– Como assim?
– Bem... a crença nos deuses entre os mortais já esta praticamente extinta, poucas pessoas acreditam neles, tão poucas que eles já deveriam estar mortos. Na minha opinião esse castelo é a única coisa que os mantém vivo, pois vocês os cultuam; não é verdade?
Ela sorriu para mim.
– Bela perspectiva a sua. Eu mesma nunca pensei nessa idéia. E você ainda insiste que não é uma feiticeira.
Eu abri a boca para reclamar mas tornei a fecha-la pois sabia que não adiantaria de nada.
Quando chegamos ao final do corredor, Mirian falou:
– Chegamos. Essas são as portas que lacram o salão de treinamento das Devotas da Magia e dos Filhos da Escuridão.
As portas duplas eram feitas de um material negro que emanava um tipo de aura, um poder quase maligno. Os mesmos desenhos que decoravam as paredes do corredor eram vistos nas bordas da porta, e no centro de cada uma havia um símbolo em espiral.
– O que é esse símbolo?
– Que símbolo?
– Essa espiral nas portas.
Mirian deu risada.
– Qual é a graça?- perguntei meio irritada.
– A sua teimosia- ela balançou a cabeça negativamente. –Estes símbolos em espiral são sigilos mágicos que acabei de criar, por métodos mágicos, e os tornei invisíveis, só para ver o que você falava.
– Por quê?
– Porque estes símbolos estão invisíveis aos olhos dos humanos normais, somente uma feiticeira pode vê-los... e você o viu.
Eu revirei os olhos pois sabia que discutir não levaria a nada.
– Você quer que eu a abra como fiz no salão?
– Você que sabe.
Eu suspirei e levantei a mão.
– Abra!- eu falei.
Dessa vez nada aconteceu. Esperei um pouco e nada.
– Viu como eu não sou uma feiticeira? Não sei o que aconteceu naquele salão mas não fui eu.
– Claro que foi você; aquela porta só se abre com magia e eu não fiz nada.
– Mas essa porta não esta se abrindo, e eu fiz o mesmo que eu fiz com a outra porta...
Mirian se dirigiu até a porta, alcançou uma maçaneta de prata e abriu a porta.
– Só porque o castelo é mágico não quer dizer que você precisa de magia pra tudo. Nem tudo é do jeito que você imagina.
Por dentro, a sala de treinamento era enorme. Tinha a metade do tamanho de um campo de futebol ( mais ou menos 60 metros de comprimento e 45 de largura ); era equipado com todos os tipos de armas e armaduras. Por todo o salão, meninos e meninas circulavam com espadas, machados, adagas e outras armas nas mãos. Algumas garotas simplesmente agitavam as mãos vazias e fazi-am com que objetos e outros alunos fossem atirados para o outro lado do salão.
Nas parede, havia vitrines que mostravam alguns objetos; a maioria eram estranhamente desconhecidos, outros eram comuns.
Os alunos pareciam não ter mais de dezessete anos de idade. Pareciam adolescentes normais, não fosse o fato de que atacavam os outros com bolas de fogo que saiam da palma de suas mãos. Uma das garotas agitou as mãos e fez a outra menina que estava na sua frente voar até a parede do salão. A outra garota se levantou e atacou a primeira com uma adaga que ela tirou do cinto.
– Antiope e Hisminas são as duas guerreiras mais esquentadas do castelo- falou Mirian.- Sugiro que fique longe delas.
– Elas são o que?
– Semideusas. Antiope é filha de Ares, o deus da guerra, como eu já lhe expliquei, e Hisminas é descendente de Éris, a deusa da discórdia. Tanto uma quanto a outra são temperamentais, com pais desses eu não esperava outra coisa.
As duas meninas foram para cima uma da outra e tiveram de ser apartadas por muitos dos outros guerreiros. Hisminas era alta e levemente musculosa; tinha olhos castanhos que parecia querer causar desacordo até mesmo com uma porta. Os cabelos oleosos caiam sobre os ombros á medida que se desprendiam do coque apertado. A pele dela era bronzeada e marcada com inumeras cicatrizes de batalhas.
Antiope era magra e tinha uma estatura mediana; os cabelos eram prateados, o que era meio estranho pois ela não tinha mais de vinte anos. Os olhos verdes eram cheios do mais puro ódio e a adaga que ela havia sacado de seu cinto de caça era longa e brilhava com uma luminescência vermelha sangue. A mão esquerda da garota estava em chamas mas ela nem parecia se tocar disso. Enquanto os outros guerreiros tentavam parar a briga das duas, o que parecia que iria demorar para acontecer, uma das feiticeiras se desviou do grupo e veio falar conosco. — Olá, Maggie- falou Mirian.- Taylor, essa é Maggie, minha feiticeira de confiança. Maggie, esta é Taylor Sulley, uma novata. A garota veio até mim e apertou minha mão. Ela tinha longos cabelos negros, trançados com fitas douradas, olhos azuis escuros, lábios carnudos rosados e pele levemente bronzeada. Nos braços, ela tinha uma coleção de pulseiras de ouro e prata e no dedo anelar um pesado anel, também de prata, com uma grande ametista roxa. Ela usava um elegante vestido de cetim preto que chegava até seus pés.
– Olá, Senhorita Sulley; é um prazer conhece- lá e bem vinda ao Castelo de Luz.
– Olá e obrigada.
Maggie juntou as mãos e falou:
– Então podemos começar seu treinamento?
Mirian me disse que tinha que resolver alguns assuntos então ela me deixou com Maggie. A garota era uma feiticeira incrivelmente doce e compreenci-vel. Ela me apresentou aos mais importantes guerreiros.
– Estes são Silas e Klérigo, nossos mais fortes feiticeiros.
Ambos os homens eram jovens gêmeos; tinham cabelos escuros como petróleo, pele queimada de sol, olhos violetas, o que achei estranho, e lábios assimétricos avermelhados. Não pareciam ter mais do que vinte anos, mas Maggie ma jurou que eles eram uma espécie de ancestrais dos feiticeiros.
– Quantos anos eles tem?- perguntei depois que ambos já haviam se retirado.
– Mas anos do que você imagina. Eles receberam da deusa Hécate a juventude eterna por serem dois dos maiores e mais devotos dos seus seguidores. É claro que ainda são mortais, mas a juventude os impede de morrer por motivos mundanos.
– Motivos mundanos?
– Paradas cardíacas, velhice, câncer, entre ouros. Cheguei ao castelo á um ano, mas alguns dos mais antigos me contaram histórias de que esses dois tem mais de mil anos aqui na terra; eles auxiliaram Ariadne na construção do castelo.
– Eles são semideuses?
– Os mais poderosos. Descendendo de Moros, o deus do destino e da sorte, eles agem como nossos oráculos, adivinhos e conselheiros espirituais. To- das os nossos recursos para prever o futuro estão depositados em Silas e Klérigo.
– E se algo acontecer á eles?
Maggie ficou séria com a minha pergunta e demorou para responder.
– Se Silas ou Klérigo foram assassinados perdemos tudo, nossas conexões com o futuro, os recursos para a magia...
– Seus recursos para a magia? Por que?
– Silas e Klérigos são filhos de uma bruxa poderosa, Circe, a tia de Ariadne; mas por causa de sua repulsa aos homens, ninguém nunca soube da existência dos gêmeos até que eles se encontraram com Ariadne e disseram que Circe tinham desaparecido.
– E vocês acharam ela?
– Achamos; mas como ela não é uma mulher muito receptiva, ela desapareceu novamente. Dessa vez não sabemos o motivo e a deixamos em paz.
Caminhamos pela sala de treinamento em silêncio por alguns minutos, até que as duas garotas que estavam brigando na hora em que eu chegue, Antiope e Hisminas, vieram para perto de mim e começaram a me encarar de cara feia. Eu as olhei também de cara fechada; odiava quando as pessoas que nem me conheciam e queriam me julgar por ser algo nem sou.
– Olá, Hisminas!- falou Maggie.- Antiope, como vai?
Ela era gentil até demais, o que a tornava ingênua. Ela nem imaginava que aquelas duas só queriam criar confusão, não adiantava querer trata-lás com educação e respeito.
– Cale a boca graota- falou a mais alta, Hisminas.- Quem é essa?
Maggie olhou para mim e depois para Hisminas.
– Taylor Sulley, uma novata trazida por Mirian.
Hisminas me olhou com aqueles castanhos parecendo querer me estrangular apenas por eu estar ali.
– Bem, garotinha, eu quero que você saiba que, durante a ausência de Mirian, eu mando aqui. Então, fique sabendo que se você fizer alguma coisa errada ou me incomodar... eu te mato.
Eu continuei a encara-lá; por fim desviei os olhos para Maggie.
– Você não é a feiticeira de confiança de Mirian? Quem deveria comandar na ausência dela é você.
Hisminas riu.
– Maggie comandar as crianças da magia? Ela não comanda nem a si mesma.- Ela olhou para a garota do meu lado e atirou uma faca na parede.- Maggie, pegue minha faca.
Maggie olhou para mim e se virou para pegar a faca. Antes que ela pudesse dar mais de dois passos, eu segurei seu braço e a puxei de novo.
– Você não é empregada dela, não precisa obedecer. -Voltei-me para a filha de Éris.- Você é uma desgraça.
Hisminas continuou a encarar Maggie. Depois ela olhou para mim com raiva evidente.
– Antiope!
A segunda garota também olhou para mim e levantou a mão direita. Eu voei para a parede e bati a cabeça. Quando me levantei, as duas garotas riam de mim e eu não sentia dor, mas sim raiva e frustração.
– Você é louca?- perguntei a nenhuma em especial.
Antiope fez sinal de que iria fazer a magia de novo e eu coloquei as mãos na frente do rosto para me proteger. Mas... não foi bem o que aconteceu.
Enquanto estava com as mãos no rosto, eu ouvi um barulho. Tirei as mãos e vi Antiope jogada no chão, segurando a cabeça entre as mãos e Hisminas me olhava com raiva e confusa.
– Mas você é só uma novata, como...
Resolvi tentar a sorte e levantei as mãos para Hisminas também. Ela foi jogada contra parede e ficou deitada caída ao lado de Antiope. Os outros guer-reiros me olhavam com expressões confusas e admiradas, alguns sorriam.
– Taylor!- chamou Maggie. -Como você fez isso?
Eu a olhei séria e depois sorri.
– Não sei, eu só fiz.
Os dois garotos gêmeos ancestrais, Silas e Klérigos, vieram até mim e Silas perguntou:
– Quem é você?
Olhei para ele e depois para o outro garoto.
– Taylor Sulley, filha de Ulisses Sulley
Ambos os garotos se olharam e começaram a falar em uma linguagem estranha, era uma mistura de uivos e sibilos.
– O que eles estão falando? Que língua é essa?
Maggie respondeu.
– É delfinico, a língua dos ex-habitantes de Delfos.
Depois que os ancestrais terminaram o seu dialogo particular, Klérigo se voltou para mim e falou:
– Nos acompanhe.
Ele e Silas viraram-se e saíram da sala de treinamento. Olhei para Maggie e ela assentiu.
– Vá. Quando os ancestrais pedem vê-la não se deve ignorá-los. E Taylor...- eu me voltei para ela.- Obrigada.
Eu assenti e segui os ancestrais das feiticeiras para fora da sala.
O treinamento havia acabado.
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