Filhos da Seca
1 Capítulo único
Capítulo único
Música e clipe oficial: Segue o Seco
Intérprete: Marisa Monte
Pedro caminhava apressado, as alpercatas arrastando no cascalho seco, chutando — aqui e ali — uma pedra e sentindo a areia, fina e cortante, maltratando a sola castigada de seus pés.
O chão estava quente, só que ele estava acostumado, nascera no chão fervente do Sertão, crescera brincando e trabalhando nele, alimentava-se dele e conhecia sua textura intimamente.
Tinha sete anos, e parecia mais jovem; pequeno para a idade, encruado e mal-nutrido, como dissera muitas vezes, e com aflição, a tia da prefeitura; uma pessoa amarga que passava em sua casa todo mês para pesar a ele e os irmãos, reclamar da vida e deixar alguns mantimentos que um “projeto” qualquer — aguerridamente e aos trancos e barrancos — entregava às famílias da região nos últimos dois anos, tempo em que a estiagem tornou-se tão severa que muitos já tinham partido de todas as maneiras conhecidas.
Pela estrada seca, eles andavam em fila indiana. Pedro por último. Cinco figuras cortando a paisagem árida e agreste com o sol a pino e tendo quase três quilômetros de chão pela frente; sem contar a volta. A mãe seguia à frente, encabeçando a fila: balde vazio na cabeça, caçula escancarado na cintura, magro, como Pedro, mas ainda muito pesado em seu quase um ano de vida. E era a matriarca que ditava o ritmo — fosse da caminhada, fosse das decisões da casa.
O pai, Pedro não gostava de lembrar, passava os dias de lá para cá, indo à busca de trabalho nas cidades vizinhas desde que a lavoura mirrara ao ponto de nada mais crescer, a não ser uns poucos brotos persistentes que ajudavam quando nada mais restava na despensa da casa.
Os irmãos maiores, um casal — dez e doze anos —, tinham se habituado aquela vida, apesar de já terem conhecido uma época melhor, de vacas gordas, quando a chuva ainda lutava contra a estiagem e obtinha vitórias; quando o pequeno açude nos fundos da casa vivia cheio, a terra era fértil, a folhagem verde e alguns animais ciscavam, mugiam e relinchavam no pedaço de chão de seu pai. Pedro, para sua tristeza, era muito pequeno então para se lembrar de um chão que não fosse seco, de um céu que pudesse ser totalmente tomado por pesadas nuvens escuras ou de chuva que não fosse um sopro a borrifar e logo passar e secar.
Mas Pedro gostava de sonhar com dias melhores, chuva que fosse de açoite, forte e torrencial, algo que gostava de fazer não só dormindo quanto desperto.
Ajeitou o balde na cabeça e apressou o passo. Chutando as pedras, e sonhando acordado, acabou perdendo o compasso da fila, a mente não só no sonho da chuva, mas também nas lembranças: do pai, do qual sentia falta e que só via duas vezes por mês; e da mãe, que chorava baixinho toda noite quando achava que ele e os irmãos estavam dormindo.
Olhou para o céu sentindo o sol a fustigar sua pele curtida, uma mão equilibrado o vasilhame e a outra a cobrir os olhos. Tinha-os grandes e escuros, de um castanho doce e inteligente, até demais para um menino de sua idade. Logo volveu-os em torno, suspirando triste, mas continuando a procurar, na lonjura do horizonte, pelas nuvens que trariam a esperada chuva. Aquela de pingos grossos que encheria o açude de sua casa e das vizinhas também; aquela que traria os animais de volta e faria a terra reviver; aquela que sua mãe sempre pedia em orações à noite e um pouco antes de todas as refeições — ultimamente apenas duas vezes ao dia —, antes de dormir e ao acordar, com eles ou sozinha, sempre e sempre, desde que Pedro se entendia por gente; aquela que ele mesmo também sempre estava a pedir que o céu desabotoasse e deixasse derramar pelo chão do Sertão.
Contudo, o céu era um azul infinito, um mar seco tão esturricado quanto o chão que ele cobria a perder de vista e em qualquer direção. Mas, ao longe, sobre os montes à esquerda, Pedro avistou algumas nuvens espalhadas, pálidas demais para que algum milagre saísse dali, molhasse o chão e matasse a sede daquela terra.
A irmã olhou para trás, e Pedro deixou de sonhar, apertou o passo, virando quando ouviu um relincho.
No encalço deles, avistou ‘seu Francisco’ — o vizinho com quem dividiam o açude seco — seguindo em passo rápido e puxando ‘Teimoso’, seu jumento velho e desdentado, um dos poucos a resistir àquela seca prolongada.
Seu Francisco passou por eles, sério e calado, tocando na aba do chapéu em uma saudação especial para a mãe de Pedro; depois seguiu caminho, os botijões vazios no lombo de Teimoso contando que o destino era o mesmo que o deles.
Pedro viu seu Francisco e Teimoso sumirem em uma curva e notou novamente que os montes, lá longe, estavam cobertos de nuvens que pareciam se aproximar. Mas era uma promessa de chuva distante, que talvez nem chegasse até eles.
Continuaram a caminhada, e demorou um pouco para que chegassem, mas logo se acercaram da barragem, acenando aqui e ali para as pessoas costumeiras, não mais que cinquenta, que iam ao local quase todos os dias visando abastecer a casa com a água de consumo e de gasto da mesma fonte — para desgosto de todos.
Contudo, hoje — Pedro percebeu —, os adultos estavam mais tristes, preocupados e quase às lágrimas. Como a barragem ficava depois de um declive, Pedro só pode entender o porquê quando saiu da estrada e olhou para baixo.
E lá estava a desgraça que deixou todo o povo avexado: a barragem estava nas últimas.
A água formava uma poça lamacenta, cobrindo menos da metade do reservatório, apenas na parte mais inclinada do lugar; como uma grande cuia rodeada pela lama, que já secava rachando a terra, parecendo feridas abertas que nunca cicatrizariam.
“Dois galões por família,” alguém gritou para os que chegavam; um velho que resolveu tentar organizar as coisas ao perceber que a situação podia ficar complicada. “Na hora que todo mundo tiver seu tanto, a gente divide o resto.”
Não houve correria, como no geral acontecia quando havia água em abundância no lugar. Pedro notou que as pessoas entendiam que essa vez era a última sangria da velha barragem e que deviam dividir por igual o pouco que restava.
Enquanto esperavam, a mãe virou e amontoou as vasilhas juntas: dois baldes de quinze litros, uma lata velha de dez e duas menores de cinco. Era o tanto que pegavam quase todo o dia, o que pouco atendia a necessidade que tinham. E, resignada, ela se afastou deixando Pedro com a lata velha, cuidando do irmão menor, para descer com os outros filhos e pegar a parte deles da água barrenta.
Pedro pensou na água limpa que o carro-pipa distribuía três vezes por semana na porta da escola, depois de abastecer a esta. Era uma água cristalina se comparada com a da barragem, mesmo quando esta ainda estava cheia e mais limpa. Ainda tinham um pouco da água do carro-pipa em casa, mas ela mal chegava a encher a metade de uma das talhas.
O menino olhou para o horizonte novamente, vendo as nuvens mais próximas e perguntando-se por que a chuva não vinha quando as pessoas mais precisavam dela. Tinha visto na TV da escola o jornal falando de enchentes maltratando muitos lugares, um mar de água que ninguém queria; e ali, onde se mais carecia, chovia de tiro, de arremedo; tão pouca, tão rápida, que mal dava para o chão sorver o que precisava antes que o sol secasse tudo, judiando do Sertão.
Seu irmão pelejou para fugir de seu colo, tirando o mais velho de seus devaneios, queria descer e encontrar a mãe, mas Pedro já tinha prática com o pequeno, por isso o acochou nos braços, agarrou uma vareta e deu para que ele brincasse enquanto esperavam.
Não demorou e estavam voltando com uma das vasilhas vazia, o passo mais lento que no início, sua irmã carregando o menor e a mãe com o olhar perdido, pensando, calculando de onde buscariam o necessário de água para viver.
O pai de Pedro queria levar todos para a capital, mas a mulher era contra. Bem ou mal — agora pior — tinham seu chão, casa, amigos, família. No entanto, fora daquele torreão não conheciam ninguém nem tinham preparo para muito mais que lavrar a terra. E, ela sempre dizia ao marido, do que isso ia valer em uma terra para a qual tinham ido vários como eles? Fugir para passar fome na cidade grande? Não, nunca! Que passassem fome na terra que possuíam, ela completava.
Agora, na volta, Pedro era o segundo da fila, equilibrando a lata na cabeça e percebendo muito mais da desolação que açoitava o mundo ao seu redor. Foi como se a barragem seca abrisse seus olhos totalmente para toda a triste realidade que o cercava; tudo o que tomava como normal, pois só a isso conhecia em sua curta vida, tornou-se dez vezes pior, principalmente ao notar os olhos molhados da mãe.
Fitou o céu e viu que as nuvens estavam mais próximas, não muito escuras, mas como uma promessa de que algo podia sair dali.
O garoto olhou ao redor. Sonhador, nunca tinha notado a carcaça de um animal depois da curva do velho cajueiro, ou os ossos a cobrir o campo à esquerda da casa de seu José. Pela primeira vez pensou que o vizinho, seu Francisco, tinha batizado o jumento de ‘Teimoso’, porque o endiabrado se recusava a morrer como todos os demais animais de carga na região. Pela primeira vez percebeu que seus pés estavam com bolhas e feridos pela longa caminhada no cascalho, mesmo com a sola grossa e calejada.
Nunca sentiu tanta sede como naquele momento em que se dava conta de que a água mais próxima já não mais existia. O sol secara a barragem, chupara tudo e nada tinha dado de volta.
Ficou imaginando que talvez o pai estivesse certo. Talvez eles devessem fugir para longe daquela terra abandonada. Talvez devessem correr para uma terra em que a seca não fosse problema.
Já que fome eles passavam mesmo, pelo menos não morreriam de sede. Pensou.
Vislumbrou a casa que se aproximava, fincada em um ponto mais abaixo no recuo do fim da estrada; de alvenaria, caiada, uma porta, algumas janelas, chão de terra batida, mas limpa, muito mais limpa do que qualquer uma da região; e a mãe de Pedro se orgulhava disso.
Ele pensou que ainda tinham muito que fazer quando chegassem com a água: coar algumas vezes e encher as talhas, para que o barro assentasse antes de separar o que iam ferver para consumo e o que deixariam de resto para o gasto.
Chegavam ao portão quando as nuvens encobriram o amarrado sol. Estavam mais escuras, mas não tanto quanto poderiam se a chuva estivesse ameaçando cair.
Pedro e sua família pararam, olharam para cima, em uma sincronia absurda, rezando por dentro pela chuva. Pedro até já se imaginava a pular desembestado debaixo de um temporal. Mas o danado do Sol já se empenhava em destruí-las, afugentá-las. E, como de costume, a bendita chuva não veio.
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