Filhos da Escuridão
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Realmente, realmente mesmo! Por um lado pode ser boa essa viagem repentina para o Brasil. Talvez eu possa fazer novos amigos, conhecer gente nova. Ser um pouco normal sem criaturas de fábulas me rodeando. Alec me deixou confusa. Tem horas que sou vista como uma irmã, outras como problemática e já outras como mulher. Não sou mais uma menininha de que ele cuidava como se fosse um bebê, agora tenho minhas vontades e meus próprios dilemas.
Estava sentada na cama com várias roupas jogadas olhando para mim quando a porta do quarto foi aberta.
— Estou atrapalhando? – Rose perguntou pondo somente a cabeça entre a abertura da porta.
— É melhor entrar, pois preciso de ajuda com isso – apontei pra mala. — Não faço idéia do que levar.
Rosalie sentou na ponta da cama e olhou demoradamente pra mim.
— Vai ser estranho não te ter por aqui – disse com a voz triste.
— Confesso que estou com medo de ir sem nenhum de vocês – disse sem graça. – Estou mal acostumada de estar sempre acompanhada por alguém da nossa família especial.
— Muito especial – confirmou com um grande sorriso.
Os olhos escuros de Rose brilhavam, senti um imenso carinho vindo de sua direção. Sem pensar fui até ela e a abracei. Lágrimas caíram rapidamente dos nossos rostos.
...
O dia passou rápido, mas depois de arrumar as malas continuei no meu quarto onde até almocei e depois fiquei acessando a internet para me distrair. Acabei adormecendo pelas três horas da tarde.
Já de noite acordei assustada por causa da escuridão. Lavei o rosto e desci nas pontas dos pés (sendo difícil surpreender algum deles sendo eu ainda tão humana), mas não tinha ninguém na sala ou até mesmo na cozinha que encontrei com a mesa posta como se estivessem iniciado a ceia, mas algo fizeram eles pararem. Meu coração se apertou com o sentimento de vazio que vinha da grande casa. Minha família nunca me deixou sozinha antes em casa. Sempre tive um deles no meu encalço e na grande maioria era Alec.
Um som abafado veio do andar de cima onde ficam os quartos. Nem pensei duas vezes, peguei uma faca de corte que estava em cima da pia e comecei subir novamente as escadas. Não sentia medo, o certo seria tensão, pois estava muito preocupada se os outros estavam bem. Um novo som me chamou a atenção. O quarto de Carlisle que fica depois do meu, tinha a porta entre aberta e luzes apagadas. Me concentrei em absorver algo de lá de dentro, mas não tinha nada especifico somente algo que passou muito rápido. Segurei fortemente a maçaneta, respirei fundo e a empurrei com força. Somente escuridão tinha nesse cômodo. Concentrei a minha visão, audição e sensibilidade ao melhor que pude. Vi sombras dentro da escuridão o que me impediu de entrar sem pensar e ligar o interruptor. Segurei a grande faca com a mão direita de uma forma que a ponta de aço ficasse em contato com meu antebraço e entrei nesse escuro pesadelo.
Tateei com a mão esquerda a parede a procura do interruptor e quando o senti debaixo dos meus dedos algo muito rápido os impediram de ligar a luz me jogando com força pra baixo. Assustada recue um passo e descansei o pulso no peito para controlar as pulsações do meu coração. Eu não estava sozinha. Não quis perguntar quem era, pois não tinha certeza que conseguiria falar claramente por causa da secura em minha garganta. Um novo vulto passou por mim e por reflexo entrei em posição de defesa colocando a mão livre levemente para frente. Dei um pequeno passo pra frente com todos os meus sentidos alertas e senti o vulto voltando como se viesse me socar o rosto, desviei girando e meio que agachada passei a faca no que me parecia em suas costelas. Voltei para a mesma posição de defesa e esperei olhando para o lado que teoricamente o intruso deveria estar. Um vulto diferente apareceu por trás e me jogou com força pra frente parando do outro lado do quarto (sei disso por ter me batido contra a parede). Virei para que as costas ficassem na parede e respirei profundamente para não perder os sentidos poucos aguçados que ganhei. Continuei na posição defensiva, mas saí do canto da parede para não ficar encurralada por essas duas sombras.
O que me surpreendeu de fato foi pelos desconhecidos terem um timing perfeito, pois quando percebo algum sentimento ele de imediato desaparece, como soubessem que tenho essa especialidade. Por causa deste desfalque somente poderia contar com meus reflexos e sentidos normais. Seria de grande ajuda ter meu dom, iria saber em qual posição cada um estaria e quantos são os intrusos.
A única claridade que eu tinha vinha do quarto ao lado então não dava para ver o que tinha neste cômodo. Eu sou uma Cullen e não vou ter medo de alguns malditos intrusos. Um sentimento forte de força cresceu em meu peito me empurrando para frente. Coragem e determinação são o que tenho que ter e utilizá-lo ao meu favor. Minha família não está na casa, isto é um fato. Não faço idéia onde estejam, mas acredito que logo estarão aqui. A melhor defesa é o ataque. Não irei me esconder debaixo da cama para alguém me socorrer, sou mais forte do que uma garota normal e já passei por coisa pior pra ter medo disso.
Eu me concentrei para silenciar o meu coração e prestar atenção somente do som ao meu redor. Nada poderá atrapalhar. Comecei a dar um passo e fiquei na posição de defesa para iludi-los que iria esperar por eles. Respirei fundo e fui em direção que achava ser o centro do quarto. Uma sombra veio em minha direção, mas desta vez fui ao ataque indo em sua direção e lhe dei um chute na região do peito – eu acho – o empurrando para trás e segui em sua direção lhe transferindo golpes seguidos de chutes e facadas laterais. Vi um leve movimento no meu lado esquerdo, me antecipei em sua direção dando um giro baixo e uma rasteira e enfiei a faca com força no meio do peito o fazendo fazer um baixo som de dor. Me assustei com o forte prazer que esse som fez em meu corpo que inconsciente remexi a faca já empunhalada para ouvir novamente o gemido. Me senti a criatura mais poderosa deste mundo quando sangue espirrou em meu rosto. Tive que fazer um grande esforço pra poder sair desse transe. Minha visão não tão aguçada como dos lobisomens, mas não tão frágil como um humano normal me fez enxergar vislumbres do desconhecido no chão com a mão no peito. Outra sombra veio por trás, mas não tive tempo pra me defender. Tentou me sufocar pelo pescoço com uma chave de braço forte como aço por eu não conseguir me mover. Coloquei a mão pra trás em seu rosto e senti que estava usando um capuz para esconder sua fisionomia. Joguei a cabeça pra trás para acertá-lo no rosto, eu precisava de ar a qualquer custo, pois a minha visão estava embaçando, então fiz mais uma tentativa com toda a minha força. Ele afrouxou o meu pescoço então aproveitei que estava solta virei e enfiei a faca em seu peito. Com força o joguei contra a parede, mas continuei empurrando a faca mais e mais. Fiquei ansiosa para ouvir a sua dor – quando não podia senti-la – remexi a faca, mas ele não emitia nenhum som, fiquei louca por isso. Empurrei a faca pra baixo a fim de cortá-lo até o umbigo, mas a luz tirou o meu foco. Ela machucou meus olhos que estavam acostumados ao escuro em que estava há algum tempo.
Tive que piscar algumas vezes para poder enxergar Alec ao interruptor na parede a minha direita. Me ouvir sussurrar seu nome e quando pisquei ele já estava ao meu lado estendendo a mão esquerda pedindo algo. Seu rosto era sereno e implorativo. O desconhecido de capuz se mexeu e voltei ao transe novamente e enfiei a faca mais uma vez.
- Pare Renesme! – me repreendeu Alec.
Fiquei confusa com o pedido. Esses homens queriam machucar a minha família e eu nunca permitiria isso. Alec pôs as palmas das mãos para cima e devagar puxou o capuz do homem desconhecido.
- Meu Deus! — foi o que consegui dizer por baixo do fôlego.
Eu estava horrorizada com o que fiz com a maior perversidade. Afastei rapidamente as minhas mãos do cabo da faca que já estava vermelha de tanto sangue de... Enrico. Minhas pernas não me sustentaram Alec percebeu meu desequilíbrio e me segurou antes de eu cair. Meu coração estava disparado e muito alto em meus ouvidos. Como eu pude fazer isso com Enrico. O sangue do nariz e em seu corte caia como uma cachoeira ensopando sua camiseta e parte de seu jeans. Com a respiração pesada olhei pra trás para o outro agressor que era Stephan — sentado e já sem capuz – ao lado de Gregório, os dois me olhavam estranho.
- Eu estou bem – o francês tentou inutilmente me acalmar.
Assisti quando ele tirou a faca da barriga e apertou o ferimento. O ajudei pressionando minha mão sobre a dele desesperada que o sangue parasse de fluir.
- Perdão! Eu não sabia – chorei olhando para todos. — Não queria machucá-los. Por que deixou isso acontecer? – disse agora olhando para o Rico.
Ele só me observava em silencio com os olhos cheio de ternura. O que não entendia, pois sua barriga tinha sido aberta por mim.
- Eles vão ficar bem Ness – Alec calmamente atrás de mim. — Como a Lua não está totalmente cheia os ferimentos irão cicatrizar mais devagar, mas ficará bem. Agora é melhor eu te limpar.
Eu relutante fui para meu quarto. Sentia que não teria forças para absorver tudo o que tinha acontecido. Ouvi o som da porta se fechar e Alec se tele transportar e ficar a minha frente.
- Eu pedi para eles não fazerem isso, mas Stephan me garantiu que era pra seu bem, uma vez que disse se sentir desprotegida.
- Foi um teste? – exclamei inconformada.
De imediato lembrei da rápida conversa que tive horas atrás com tia Rose.
- Rose que contou – eu disse mais como uma afirmação do que uma pergunta.
Alec afirmou com a cabeça.
- Nosso pai sabe disso?
— Acho que Rosalie foi encarregada de contar.
O encarei perplexa com o relato. Então não pediram a autorização do meu pai. Ele fica furioso com coisas desse tipo.
- Você sabe o que vai acontecer quando ele chegar – disse a Alec. — Ele não poupará ninguém, mesmo você não tendo concordado – continuei.
- Você está com raiva de mim? – perguntou se aproximando.
Fiquei sem saber o que dizer. Eu só sentia um profundo vazio dentro do peito. Como se eu estivesse em choque não tinha me mexido desde que tinha entrado no quarto e a pergunta de Alec fez eu voltar a realidade me fazendo sentir novamente culpada.
- Não estou com raiva de ninguém, só chocada com tudo o que aconteceu.
A confissão roubou um pequeno sorriso de alivio de nós dois.
- Eu devo estar horrível. – olhei para meu baby-doll de seda branca suja de sangue.
- Você foi fantástica lá dentro.
Olhei confusa para ele que me observava com olhos indecifráveis. Se aproximou mais e me abraçou. Tentei impedi-lo por causa do sangue, mas ele ignorou e abraçou mais forte. Estava tudo bem agora e o melhor, tinha passado pela droga do teste. Consegui senti um pouco de orgulho de mim mesma pelo desempenho que tive. Depois dos abraços e elogios Alec me empurrou para o banheiro. Tirei a roupa suja e joguei no chão. Estava a caminho do Box, mas meu reflexo fez eu parar. Aproximei do espelho e vi um rosto conhecido. Uma garota de olhos quase verdes e cabelos quase pretos, tinha seu rosto manchado de sangue quase seco. Algumas mechas estavam grudadas e as manchas iam até meu colo e braços, e na região da barriga tinham caminho de gotas de sangue que formaram um trajeto até meu ventre. Uma sensação que alguém me observava fez eu virar para a porta e Alec estava lá. Esqueci que estava só de calcinha e não me mexi. Algo no modo como me observava senti-me preocupada. Segundos depois Alec baixou a proteção e pude ler o que incomodava. Remorso, culpa, medo. De imediato lembrei o que meu pai Carlisle contou sobre a irmã de Alec e percebi que ele não olhava para meu corpo seminu e sim para as manchas de sangue, e quis ter o poder de fazê-las desaparecer. Sentir a sua dor antiga fez meu coração se contorcer. Fui até ele e o abracei, só depois de alguns minutos que se deu conta do que fiz e retribuiu o meu abraço. Queria lhe fazer carinho, ninar, o encher de beijos e dizer que tudo iria ficar bem, mas ficamos em silencio por vários minutos e este foi quebrado pelo próprio Alec.
- Apesar do que aconteceu no quarto ao lado tenho medo de te deixar sozinha. Longe dos meus olhos e sem minha proteção.
- Eu vou ficar bem – disse tentando passar confiança.
Alec suspirou pesadamente e senti algo molhado caindo em meu ombro nu. Olhei pra cima e a lágrima vinha de seus lindos olhos negros. Fiquei tocada pelo seu raro momento de fragilidade o que me despertou a lembrança de quando a presenciei pela primeira vez. Esse dia foi quando tinha sido jogada da janela do primeiro andar pelo meu pai biológico Félix, e essa repentina lembrança me fizeram sentir um calafrio. Alec agora percebendo a minha nudez pegou o roupão pendurado atrás da porta e o colocou sobre meus ombros.
- É melhor tomar logo seu banho – ele disse com a voz grossa e me deu um beijo no topo da testa antes de sair.
O obedeci e fui direto pro chuveiro. Demorei mais do que o normal no banho pensando em Alec e em seu pesar. Definitivamente não pegarei mais no seu pé, pois acho que percebi o seu problema. Ele me ama.
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