Salem, Massachusetts.

Fevereiro de 2016

Daphne

As luzes da boate me fazem enxergar arco-íris por todos os lugares. Padrões de azul, vermelho e purpura preenchem minha visão em explosões de luminescência. Os corpos agitados ao redor estão tão suados quanto, ou mais, que o meu próprio. A dança e o desprendimento do mundo lá fora nos faz felizes de uma forma incomum. A vibração que invade nossos corpos é bem-vinda e reverbera por mim com tanto vigor que é capaz de alcançar a medula.

Meu coração pulsa no peito dançando no ritmo da música. Posso senti-lo retumbando contra meu esterno; se fosse capaz de contar as batidas diria que estavam perto de 140 por minutos, como o coração de um recém-nascido.

O espaço amplo em forma oval parece minúsculo por causa do tanto de pessoas que se aglomerou aqui. Ninguém parece se importar com a falta de mobilidade, alguns tentam até diminuir ainda mais a distância entre si e seus parceiros. Contentes e delirantes com as emoções que a música proporciona. Uma sensação que parece alcançar a alma e fazê-la dançar.

Suzana está girando ao meu lado, seus cabelos castanho-avermelhados se chacoalhando enquanto ela se move num ritmo descompassado. Ela parece tão feliz quanto uma criança que acaba de ser presenteada com seu doce favorito. O sorriso que não abandona seu rosto é natural e contagiante. O brilho em seus olhos é tão denso que quase posso toca-lo.

— Cansada? – Ela pergunta num grito rouco, um sorriso travesso estampado no rosto. Sua voz é um fio quase inaudível no meio do som alto.

— Não mesmo.

Ela joga a cabeça para trás e ri, seu riso é gostoso de ouvir, como o de uma criança. Seus pés deslizando enquanto ela se movimenta em vários ritmos diferentes. Suzana se move para a esquerda; poucos centímetros apenas, mas eles são suficientes para que eu a veja.

Há uma mulher no meio da pista, pouco atrás de nós. Ela não está dançando, não está bebendo; está apenas parada, observando. Sua figura deslocada do restante dos dançarinos chega a me provocar mal-estar. Ela não parece correta. Não parece pertencer a este lugar. Uma figura sombria e aterrorizante no meio de toda a luz e alegria.

Tento desviar o olhar, mas minha visão é atraída para ela. Ela se vira, se aproxima, um passo em minha direção; um sorriso molda seus lábios em uma careta sinistra. Sua pele não tem uma cor comum, parece ser azulada. As luzes não parecem ser responsáveis por isso. Seus cabelos negros emaranhados caem sobre o rosto projetando sombras nas bochechas e lábios.

Um arrepio gelado percorre minha espinha.

Por um segundo, enquanto a encaro, posso garantir que tudo está em chamas. Que as pessoas me encaram enquanto o fogo derrete suas peles distorcendo suas feições em caretas sinistras. O cheiro de pele e cabelo queimado penetra em minhas narinas fazendo a bile me subir a boca. Posso ver braços estendidos, mãos que que se desfazem ao tentar me alcançar. Não em um pedido de socorro, mas numa suplica silenciosa para que eu me junte a elas. Para que eu queime com elas.

Meu corpo é tomado por um medo gelado. Balanço a cabeça e mordo de leve a bochecha para afastar os pensamentos estranhos. Devo estar vendo coisas… eu só posso estar vendo coisas. O ar ao meu redor se torna tão pesado que chega a sufocar. Posso sentir o suor se condensando sob minha pele.

Daphne... Daphne...

O sussurro arrastado, quase inaudível arranha meus ouvidos. Ele vai crescendo e ecoando como se cada vez mais vozes se juntassem a primeira. A mulher ainda está me encarando e de alguma forma sei que é ela quem está me chamando. Fecho os olhos, pressionando meus punhos sobre eles até doer. Isso não é real. Abro eles novamente e há apenas Suzana e os outros dançarinos. Nada de mulher, nada de chamas, nada de vozes.

Suspiro aliviada.

Mesmo mais calma ainda sinto minha pele queimar. O soprar da minha própria respiração contra ela me faz estremecer. Preciso me refrescar; sair da multidão.

— Vou ao banheiro. – Grito a Suzy.

Ela concorda com um aceno de cabeça. Não percebe minhas mãos tremulas, não identifica o medo em minha voz. Agradeço aos céus por isso.

Me afasto na multidão, em direção aos corredores. Os resquícios de luz que alcançam o corredor são fracos e esmaecidos. Deixando a entrada dos banheiros com uma aparência morta e sombria. Não há ninguém no lavabo, somente algumas pessoas bêbadas na porta. As vozes da boate ficam isoladas assim que fecho a porta atrás de mim. O cheiro de produtos químicos domina o ambiente por completo. Posso sentir também o aroma de cigarros e álcool.

Lavo o rosto com bastante agua, arruinando minha maquiagem por completo. Não ligo, pois o alivio é imediato. Me sinto bem melhor, bem mais calma. Limpo o rímel borrado com uma toalha de papel até ficar, no mínimo, com uma aparência aceitável. Retoco apenas o batom, para não ficar com o rosto completamente pálido.

Entro em um dos gabinetes e passo o trinco. Sentada sobre a tampa do vaso penso no que vi dentro da rave, aquilo pareceu tão real. Encaro as frases deixadas na porta que antes era branca. Várias inscrições de caneta agora cobrem a tinta para servir de lembrete dos que estiveram ali.

Não foi real. Tento me convencer. Não foi real. Porem há uma pequena pontada dentro de mim, uma voz macabra que anseia para que seja verdade. Silencio-a mordendo as costas das mãos e galgando uma lufada de ar abro a porta.

Sinto as batidas de meu coração se perdendo enquanto encaro de volta os olhos que me observam. Sou obrigada a segurar nas paredes para não cair. A porta bate na parede e volta empurrando minha perna para frente. Não me movo. Posso garantir que morri por um instante quando meu coração para de bater.

— MERDA! Você me assustou.

Minha voz vai do grave ao agudo em questão de segundos. A palpitação em meu peito vai se esvaindo aos poucos, mas ainda sinto minhas mãos tremulas. A garota, visivelmente bêbada, me encara com um misto de culpa e confusão. Cheiro de álcool e fumaça exalam de sua pele como se fossem seu perfume natural. Pingos de suor lhe escorrem a fio formando padrões por seus braços e pescoço.

— Queria saber se tinha alguém no banheiro. Sou Tina. – Ela se apresenta de forma incisiva. Seus movimentos são retesados e trêmulos. Ela parece presa a alguma coisa. Quase que controlada. Como uma marionete humana. Seus cabelos cortados na altura do ombro foram tingidos de um tom acinzentado, uma única mecha rosa desce na lateral direita.

Olho ao redor, todos os outros gabinetes estão vazios. Por que esperar o meu? Penso em algumas possibilidades. Não encontro. Decido que o melhor a fazer é não ficar mais aqui dentro com essa garota. Meus pés ainda fraquejam quando passo por ela para tentar alcançar a porta. O lampejo de algo brilhante nas mãos de Tina capta meu olhar.

Uma faca.

Meus olhos se arregalam e me afasto instintivamente. Tina percebe de imediato e a aponta a arma para mim. A lâmina chega a brilhar em uma ameaça silenciosa. Os olhos arregalados de Tina, manchados de roxo e vermelhos ao redor indicam que ela não consumiu apenas bebidas hoje.

— Eu pretendia ir sozinha. – Ela comenta dando uma risada histérica e preocupante. – Mas você foi enviada para mim. É um sinal. Ela me avisou que você estaria aqui. – O sorriso em seu rosto tem um ar sádico e ameaçador. – Nós devemos ir juntas.

Ela se coloca na frente da porta, a faca apontada para meu peito. Não sei o que fazer. Preciso sair daqui, mas não vejo uma forma de isso acabar bem. Não com ela me parecendo tão instável. Não com ela bloqueando a única saída. O suor escorre pelo meu corpo gelado e doloroso. Meu coração está a ponto de pular para fora do peito. Meu peito dói de uma forma sufocante. Procuro por alguma outra saída, mas não ha. Estamos presas aqui. Tina, a faca e eu.

— Daphne você está bem? Está demorando demais! – Suzana berra irrompendo banheiro adentro.

A garota desvia a faca rapidamente de mim para Suzana, que se detém a poucos passos. A surpresa e o medo se refletem em seus olhos que lacrimejam rapidamente. Posso ver no rosto de Suzana que ela não acredita que isso está acontecendo. A ruga que se forma entre seus olhos indica quão desorientada ela está. Seu sorriso desaparece dando lugar a uma careta de pavor.

— Ai Jesus! – Suzana soluça apavorada.

A palpitação em meu peito pode me matar, eu sinto. Tento me controlar. Nós vamos sair dessa. Ninguém precisa se machucar. Só preciso que Tina se acalme. Precisamos que ela largue a faca.

— Ei, você precisa se acalmar, – Aconselho com a voz mais calma que sou capaz de manter. Procuro não fazer nenhum movimento que possa deixa-la irritada. – Nós podemos ajudar você, nós podemos… – Não termino a frase.

Há um vulto no espaço que antes estava vazio, a silhueta de uma pessoa surgindo em meu campo de visão. Ela, a mulher da boate, está aqui.

Ela é… real.

— Você precisa ir. – Ela diz a garota.

Vejo o corpo de Tina ser lançado contra o espelho sem que ninguém a toque. Ela ainda segura a faca quando está lhe finca o olho esquerdo. Há um buraco em sua cabeça. Cacos de vidro fincados por todo seu corpo. Tina engasga com o sangue, convulsiona uma única vez. Pedaços do vidro caem sobre o chão e o tilintar deles é como um ponteiro para os segundos que Tina leva para desabar; seu tronco pendendo entre as pias. O sangue que espirrou de seus ferimentos escorre pelas paredes como uma pintura macabra. Um lembrete escrito em sangue. O mesmo sangue não demora a formar uma poça ao redor de seu corpo, uma macha escarlate no branco. Eu não consigo não olhar. Não consigo não notar o buraco em sua cabeça, a forma que um de seus olhos continua abertos e vidrado enquanto o outro é apenas uma orbita sangrenta e vazia. Completamente sem vida.

O cheiro de ferrugem se impregna em minhas narinas e desce pela minha garganta me forçando sentir seu gosto. A bile me sobe a boca. Minha visão está embaçada. Borrada de vermelho. Vermelho para todos os lados.

AI MEU DEUS! – Suzana está pálida. Sei que ela está gritando; posso ver seus lábios se movendo, mas não a ouço. Não por completo.

Isso não é real, não é real… fico repetindo para mim mesma para tentar me convencer. Não consigo. Não com todo aquele sangue. Não com tudo o que acabei de presenciar passando pelos meus olhos de novo e de novo. Incansavelmente.

— Ah, por favor. Não vão me dizer que nunca viram ninguém morrer? – A mulher pergunta tranquilamente, sua voz é doce como o som de uma harpa.

Ela é perversa. Posso sentir; tenho certeza disso com tanta intensidade que chega a me assustar. Essa mulher não pertence a essa realidade. Ela não é humana.

Ela é o mal genuíno…

Não consigo me mover. Ela prende minha atenção de uma forma perigosa. É como se eu a conhecesse, como se ela clamasse por mim. Toda e cada célula do meu corpo parece reconhece-la, parece saber que somos iguais. Me nego a acreditar nelas.

Suzana se agarra ao meu braço, tentando me puxar para fora. Seus olhos estão marejados ainda, porem a um medo tremendo permeando suas feições, um medo tão intenso que asseguro nunca ter visto.

Quero acompanha-la, quero sair correndo desse banheiro para o mais longe que conseguir, mas não creio que seja possível. No fundo algo me diz que não posso fugir dela. Sei que mais cedo ou mais tarde ela me encontrara novamente. E ter essa certeza é o que me deixa ainda mais apavorada.

Só tenho tempo de gritar quando Suzana é empurrada e colide com a parede com uma força descomunal. Tudo acontece em um borrão, é tudo muito rápido. Há sangue escorrendo de sua testa enquanto ela é prensada contra os azulejos. Preciso olhar para ela mais de uma vez apenas para me certificar de que não aconteceu a ela o mesmo que aconteceu a Tina. Suzana ainda está viva. Ela está viva. A mulher se aproxima um pouco; sorri maliciosamente enquanto move seu pescoço para encarar os olhos apavorados de Suzana. Ela parece gostar disso, parece encontrar prazer no sofrimento alheio. Se revitalizar com ele.

DEIXE ELA EM PAZ!— Vocifero me aproximando, cega de raiva e pavor. Estou tão preocupada com Suzana que não ligo para o sangue de Tina que se impregna nas minhas botas, nem para o que a mulher possa fazer comigo. Só quero garantir que Suzy fique a salvo.

A mulher sorri. Sem desviar a mão de Suzana ela me segura pelo pescoço num movimento ríspido e violento. Suas mãos têm tanta força. Seus dedos afundam em minha pele são como as garras de uma águia faminta. Eu sou a presa; arfando em busca de ar. Minhas narinas estão em chamas, posso sentir meus pulmões se contorcendo em agonia. Nosso reflexo no espelho exibe meu rosto arroxeado, suplicante por oxigênio.

— Não foi por ela que eu vim.

Suzana se debate contra a parede, se esforçando para se livrar da força invisível que a mantem lá. Uma fúria enorme cintila em seus olhos. Nós duas estamos apavoradas, mas o ódio que nutrimos por essa mulher nos impulsiona para além das nossas forças. Temos que nos defender.

— Obturatio. – As palavras deixam os lábios da mulher como uma sentença final; no mesmo instante, Suzana cai ao chão como se sentisse uma dor imensa. Ela se debate até ficar ali, encostada a parede, imóvel. Como que paralisada pelas palavras da outra.

Não consigo entender o que está acontecendo. Mas sei que seja lá o que for é culpa dessa mulher. Da mesma forma que sei que Tina veio aqui por ordens dela, e depois foi morta por essa… por esse demônio. É tudo obvio demais. Por mais que pareça impossível ela fez tudo. Não imagino como, mas sei que foi ela.

Olhando-a agora, de perto, me parece ainda mais provável que ela não seja humana. Seus olhos têm uma estranha tonalidade leitosa de azul; sua pele é branca como um papel velho e desgastado. As incontáveis rugas que intrincam seu rosto não são nem de longe de velhice. Cicatrizes entalham suas bochechas e testa. Ela parece estar morta, um zumbi, ou qualquer coisa que não me parecia real segundos antes… Seu cheiro, uma mistura de bolor, terra e carne podre, me causa enjoo. Seu toque carrega uma frieza indescritível. Até mesmo o som de sua respiração é diferente; um gorgolejar entrecortado que chega a ferir os ouvidos.

— Por favor, solte ela. – Suplico, puxando meu corpo para trás. As pontas dos meus sapatos mal tocam o chão. – Suzana! Suzy, por favor, levante. Fuja!

Suzana parece me ouvir, seus olhos se agitam em minha direção, mas seu corpo não. Ele não se move um centímetro sequer. Seus braços e pernas parecem estar completamente desprovidos de força, ela não parece ter controle sobre eles.

Meu desespero beira à insanidade.

— Não se preocupe querida, sua amiga vai ficar bem. Digamos que eu apenas a impedi de se mover. Não queremos que ela se machuque tentando salvar você, não é? Não queremos que ela fique como aquela ali. – Ela comenta apontando para Tina. Seu rosto está perto demais do meu. Ela sorri e acrescenta quase que com fascínio: – Daphne Blackthorne.

— Esse não é meu nome. Você está me confundindo. – Minto tentando me livrar das mãos dela.

— Eu sei tudo sobre você Daphne. Absolutamente tudo. – Diz. Seu sorriso é alarmante, um tique tremulo dos lábios. – Você não está assustada como deveria, sabe por que? Você sabe que pode revidar, mas você não vai fazer isso, não é? Por que você teme pela sua amiga. Você poderia facilmente tentar se livrar de mim, porém, você não tem controle. É voraz. Você tem medo de ferir Suzana. Por isso não vai me atacar. Não vai correr o risco. – Ela acrescenta deslizando uma unha no meu rosto, deixando um corte profundo na minha mandíbula. – Enfim, vamos acabar logo com isso.

Com uma mão na minha testa e outra me mantendo suspensa pelo pescoço ela me aproxima de seu corpo. Posso sentir uma estranha energia pairando entre nossos corpos, quase como que se estivéssemos nos conectando. Isso me enoja. Ela se reclina sobre mim, aproxima seus lábios a centímetros dos meus e se afasta. Os lábios dela levemente apartados sugam um feixe de pequenas partículas que deixam meu corpo. Me desfaço em cinzas que ela aspira para dentro de si.

A pele da mulher se torna normal de uma forma impossível; o tom pálido dá lugar a uma cor de porcelana, suas rugas se desfazem, as feridas se fecham deixando uma pele lisa e uniforme no lugar. Seus olhos passam de leitosos para um azul vivido, semelhantes a pedras de água marinha. Eles demonstram uma sabedoria exorbitante. Uma maldade incalculável.

— Muito obrigada por isso. – Ela fixa seus olhos nos meus. – Connexione cremari cútis facturum illuc pertinet. Quod malum non potest puteum coniungere dividere Samael sanguinem tuum.

Reconheço o latim, porém não sei o que ela está dizendo. Não compreender me deixa ainda mais assustada, pois percebo que se trata de algum tipo de ritual; alguma coisa poderosa e muito, muito perigosa. Sinto isso nos meus ossos que rangem sob a pressão que meus músculos e sangue estão fazendo. A dor que me atinge é imensurável e não há nada que eu possa fazer para para-la.

— Por favor... – Imploro, minha voz é apenas um sussurro angustiado. – O que você está fazendo comigo? ­­­­­­­­ ­­

O sangue não demora a encontrar a saída do meu corpo. Os filetes começam a escorrer pelas narinas e logo posso senti-los descendo pelos olhos e ouvidos. Minha boca está tomada por aquele gosto familiar de ferrugem e sal. O cheiro de morte e podridão está cada vez mais impregnado no ar.

A certeza de que vamos morrer aqui me atinge como um soco no estômago. Um soco forte e certeiro. Pelo canto do olho enxergo uma Suzana pálida e abatida; com um olhar de medo estampado. Uma careta de dor e desgosto deforma seu rosto. Daphne

— Estou matando você. – A mulher responde casualmente. – não resista ou serei obrigada a quebrar todos os ossos do corpo de sua amiga, um por um. Até que ela implore pela morte bem na sua frente. Eu preciso de você morta Daphne. Suzana não tem que pagar por isso.

A dor que sinto parece não ter fim e ela parece saborear isso. Eu estou morrendo e ela está sugando tudo de mim. Ela está me matando…

Uma pulsação estranha toma conta dos meus ombros, como se alguém os estivesse segurado. Uma energia invade meu corpo, levando força e calor por cada terminação nervosa, enrijecendo cada osso e intensificando os batimentos do meu coração. Encaro Morgana com fervor. Posso ouvir o chiar das minhas mãos contra a pele dela. Vejo a descrença em seus olhos. Em questão de segundos ela está sangrando, idêntica a mim. Em algum lugar dentro de mim eu sei, eu sinto, que tenho forças para lutar. Para virar o jogo até. Eu posso matá-la! Minha cabeça gira com a força que faço para me concentrar. Meu corpo implora para que a dor vá embora. As luzes piscam conforme o sangue deixa nossos corpos. Quanto mais sangue escorre, quanto mais nos concentramos, mais as luzes piscam. A força começa a me deixar aos poucos. Há algo errado comigo. Ela é forte demais…

— Se afaste das minhas meninas sua Bruxa desalmada! – Uma voz grita surgindo da porta.

A energia me deixa. Estou fraca novamente. Uma casca oca, sem forças para lutar. Espero que ela também esteja. Não vou sobreviver por muito mais.

Pelo reflexo sangrento do espelho encontro a origem da voz, minha avó. Ela é a última pessoa que eu esperaria ver em um momento como este. Em um lugar como este. Não faço ideia de como ela veio parar aqui. Meu coração palpita de felicidade e medo. Há agulhas afiadas se revolvendo em meu estomago. Vovó não pode estar aqui. É perigoso demais.

— Olá Griselda. – A mulher a cumprimenta.

Duvido de meus ouvidos por minutos inteiros. Sou incapaz de crer que vovó conheça alguém como essa mulher. Isso não pode ser real. Eu realmente devo estar tendo um pesadelo. Um pesadelo daqueles que nos faz suar e sofrer; daqueles dos quais não conseguimos acordar enquanto não alcançamos o auge da dor. Fecho os olhos com o máximo de forças que disponho. Não acordo.

Não consigo…

— Não ouse se aproximar Morgana. Eu senti a sua presença podre assim que você colocou os pés nesta cidade. Então não se atreva a encostar nas minhas meninas ou vou manda-la de volta para a cova escura da qual saiu. – Vovó ameaça.

Nunca a vi tão enfurecida. Seus olhos faíscam a cada palavra. Suas mãos estão firmes. Vovó não parece assustada com a cena. Ela já viu coisas assim antes. Essa é a única explicação coerente que consigo encontrar. Ela não é mais aquela senhora doce e gentil que conhecemos; está em chamas, fervendo de ódio.

Morgana me lança ao chão.

Penso em ficar de pé, mas sou traída pelas minhas pernas que fraquejam antes mesmo de tocar o piso. Preciso encontrar um jeito de me acordar. A dor, o sangue, todas nós, tudo é real demais. Real demais para ser um sonho. Mas, preciso que seja. Um beliscão não me parece adequado. Ignoro tudo e me concentro em mim mesma. Um suspiro, um beliscão forte e preciso.

Não estou sonhando.

— Não seja tola Griselda. – Morgana alerta. Seu olhar é cruel. Seu sorriso, veneno puro.

Ignoro o baque da realidade. O gancho que acerta em cheio meu queixo e que seria o responsável por me deixar paralisada de medo também não é capaz de me impedir. Preciso proteger as pessoas que amo. Não tenho tempo para ser fraca.

Sei que tentar me levantar será inútil, então me arrasto cambaleante até Suzana. Não consigo evitar ficar suja com o sangue de Tina que já se espalhou por quase todo o banheiro. Meu estomago se revira, mas me mantenho focada em fugir daqui. Suzana parece estar de volta ao normal. Assustada, mas o único ferimento é o corte o em sua testa. Seja lá o que a mulher, Morgana, tenha feito a ela passou assim que vovó chegou.

— Vamos meninas; vamos embora.

Morgana ri, alto e com vontade, como se deleitasse uma piada apenas dela. Sua gargalhada é como o som de uma revoada de pássaros. Olhando-a daqui, à distância, fico imaginando como ela fez. Como aquele ser horrendo se transformou numa criatura bela como uma fada; e como mesmo exibindo tamanha beleza, ela ainda é capaz de emanar tanta maldade.

— Eu preciso dela Griselda. Não posso deixar você interferir.

A imagem de Morgana se desfoca. Me faz lembrar os hologramas que vejo nos filmes. Sua figura parece uma projeção malfeita. Ela desaparece diante dos meus olhos e reaparece de frente para vovó. Estende a mão espalmando-a sobre o coração de Grisi, sua pele está negra como piche até os cotovelos. Esse negrume desaparece ao penetrar na pele de vovó, se infiltrando para dentro dela. Vejo os lábios de Morgana se movendo em palavras que não sou capaz de captar.

Enquanto a encaro, entorpecida, meu subconsciente sussurra a palavra morte incessantemente. Morgana encara suas próprias mãos. Elas estão desfocadas. Quase transparentes. Seu sorriso já não é tão vitorioso. Não sei o que está acontecendo, mas seja lá o que for, não a deixa contente.

— Nos vemos em breve Daphne. – Ela diz olhando de mim para a porta do banheiro, seus olhos brilham em chamas escarlates enquanto ela cantarola. Seu sorriso é a última coisa que vejo, antes dela desaparecer diante dos meus olhos.

Ouço os gritos que vem da boate, o som das sirenes de incêndio berrando para que todos fujam. Há batidas na porta, mas ninguém entra. Pessoas imploram por socorro e sou capaz de imaginar o que está acontecendo; sou capaz de visualizar como elas estão queimando. Exatamente como eu vi antes.

Tudo isso me é distante. Tudo fica desfocado quando vejo minha avó desabar no chão, arfando. Suas veias estão pretas assim como as manchas que surgem em seus olhos verdes. O chão sob meus pés desaparece. Meus pulmões estão falhando na única tarefa que tem. Eles também estão cansados. Não respiro… Encontro forças suficiente apenas para chegar até vovó. Seguro ela como se pudesse mantê-la bem apenas com meu abraço. Crio um casulo ao redor de seu corpo.

Não... não… não… não…— A palavra deixa meus lábios com um gosto amargo. – Vovó fale comigo, por favor. – Peço com as lagrimas castigando minha garganta.

Sou feita de dor. Meu corpo todo é sofrimento. Minha voz carrega em cada nota a angustia que estou sentindo. Não consigo não notar suas veias escuras. Não consigo não lembrar do cadáver de Tina atrás de mim enquanto seguro o corpo gelado de vovó. Ela abre os olhos, lentamente. Vejo suas pupilas se dilatando e sendo preenchidas por uma cor escura demais para ser normal. Sua respiração, pesada e irregular.

— Morgana... – Ela diz num sussurro fraco. – Ela... veio por você. Ela precisa de você, ela precisa…

— Eu vou chamar uma ambulância. – Interpelo. Tento alcançar a bolsa de vovó. Preciso de um celular. Preciso de ajuda.

— Não. – Vovó repreende segurando minhas mãos. – Não há tempo. Você precisa me ouvir.

Suzana me olha de soslaio. Assente. Ela me entende sem que palavras sejam necessárias. Antes mesmo que eu possa agradecer, Suzy está ligando para a emergência. Minhas lagrimas caem sobre a testa de vovó e escorrem molhando seus cabelos. Ela não parece se incomodar. Mesmo assim eu fico tentando seca-las, inutilmente, enquanto outras continuam a cair. Cada vez maiores, cada vez mais tristes.

— Daphne, olhe para mim. – Vovó pede se esforçando mais do que deveria. – Vocês têm que partir; para Greenwich. Vocês não devem ficar. Não é mais seguro. – Explica olhando de mim para Suzy. – Minha... minha irmã vai ajudar vocês.

Só preciso de tempo. Tenho que mantê-la acordada até que paramédicos cheguem. Vamos levá-la até o hospital. Daremos queixa sobre Morgana e vamos esquecer sobre tudo isso. A vida voltara ao normal. Tudo vai ficar bem.

Vovó vai ficar bem.

— Você não deveria conhecê-la. Não era... preciso. – Ela faz uma pausa. Procura por ar. Seus olhos estão quase completamente tomados pelo preto. – Você. É. Especial. Daphne.

A dor que senti quando Morgana nos atacou não é nada comparada ao que sinto agora. Essa agonia preenchendo meu peito, essa dor sufocando minha garganta, é com toda certeza pior. É pior por que de alguma forma, nós três compreendemos em algum momento, que mesmo que a ajuda chegue em segundos, é tarde demais, eles não conseguiriam salva-la. O que a está matando é desconhecido por eles, e por nós. Não é… humano.

— Me prometa... prometa que vai para Greenwich. – Vovó pede com a voz cansada. O esforço que ela faz para falar é muito grande, e ela está suando frio. Suas veias negras saltam na pele, cada vez mais evidentes. Elas são como fios da noite eu se infiltraram na pele de vovó, uma nuvem escura que tomou o lugar de seu sangue.

Olho para Suzana em busca de ajuda, mas ela apenas observa minha avó com angústia. Ela estende a mão livre e segura a minha, as lagrimas marcam seu rosto com ferocidade. Ela dá dois apertos, um longo e um curto. Suzy acha que devemos nos despedir. Meu coração congela, pois sei que ela está certa.

— Daphne, me... prometa. – Vovó insiste apertando minha mão com força. Seus olhos são suplicantes. Ela está gastando seus últimos minutos para garantir que fiquemos seguras. Vovó não se importa com o que está acontecendo a si mesma, tudo o que ela quer é ter certeza de que vamos partir.

Preciso dar essa certeza a ela.

— Eu pro… Eu prometo vovó. – Digo sem controlar a torrente de lagrimas que me escapam dos olhos. O nó em minha garganta se desfaz em um som agoniado.

Vovó puxa sua bolsa com dificuldade. Pega dentro dela duas caixinhas. Entrega uma a mim e outra a Suzy. Pega também uma carta, a coloca entre minhas mãos.

— Para proteger vocês. – Ela diz apontando para as caixas. – Cass… diga a Cassandra que eu a amo. E que sinto muito por ter falhado com vocês…

— Você não falhou vovó. Não fale assim.

Vovó Grisi sorri. Os olhos antes verdes totalmente negros agora. Ela segura minha mão e a de Suzana. Seu toque é o mesmo de sempre, um toque suave e protetor. Como ela sempre nos dizia, ao segurar as mãos de uma pessoa devíamos sempre ter a medida certa: nunca tão forte, para não as prender, mas nunca tão fraco, para que elas saibam que não estão sozinhas. Nem mesmo ao partir.

— Cuidem uma da outra... como sempre fizeram. E nunca se esqueçam… o bem e o mal… não nascem… eles são criados de acordo com as nossas ações. Vocês… escolhem… o que… querem ser… e o caminho que devem seguir… sempre. – Vovó afrouxa o aperto e fecha os olhos devagar. – Eu amo vocês...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.