Filhos Da Supernova
11 Eternidade e infinitude
Notas iniciais
Éramos bilhões.
Éramos bilhões, em uma marcha, lenta e continua, em uma espiral infinita, rumo à ilusão da eternidade. Queimávamos; o que chamávamos de vida era basicamente queimar. Começávamos como hidrogênio, então hélio, carbono...
Havia algo entre nós, algo que nos mantinha unidos, apesar de distantes. Uma atração quase que incontrolável, ainda que reconfortante. Contudo, não impedia a fria solidão do vazio. O vazio, no fim, era a origem de todas as cosisas, e a solidão era a lei do universo.
Isso até o dia que outra chegou. Era menos brilhante, menor, mais fria. Mais antiga, mais sábia. E foi essa força misteriosa que nos uniu. Orbitamos uma a outra por milhões e milhões de anos, sufocando a sensação aterradora da falta de eternidade perante a infinitude. Tínhamos algo em torno do que girar, algo pelo que existir.
Mas eu sentia a escuridão crescer em meu âmago, quente, devoradora e absolutamente fatal. Eu sabia que o fim estava próximo, mas não podia parar. Eu não podia deixar de queimar, esse tinha sido o meu destino desde o princípio. Mas eu não queria não queira.
Minha companheira pulsou, como se quisesse enviar uma mensagem, um código que eu não tinha a capacidade de compreender. Ela pulsou mais rápido, cada vez mais rápido. Um aviso, uma súplica.
Eu não conseguia me conter. A escuridão chegava, mais perto, mais perto, mais perto...
**
Eu abro os olhos e estou em um lugar vagamente conhecido. Está escuro, mas apenas aos poucos a realidade começa a fazer sentido novamente para mim. Estou deitada sobre uma cama improvisada em um chão de concreto. Estou no meu quarto, de volta ao Complexo.
Logo depois noto minha respiração ofegante, e posso ouvir minha pulsação como um tambor em meus ouvidos. Cada batida é uma tortura. Há uma camada fina de suor frio cobrindo o meu corpo, e uma sensação de terror se arrasta pela minha garganta.
É então que eu me sobressalto com um movimento em minha visão periférica, a escuridão o tornando quase imperceptível. Ainda demora alguns segundo para me lembra que é Aggi e Tom que estão dormindo sobre a minha cama, suas respirações constantes denunciando seus sonos profundos.
Com um chute, jogo longe o fino cobertor que estava embolado em minha pernas e me ponho de pé, me apoiando na parede de concreto para evitar que a tontura me leve de volta ao chão. Tenho a sensação que o meu quarto está sendo sacudido dentro de um giroscópio gigantesco.
Tateando meu caminho, vou até a porta e a abro com todo o cuidado. Felizmente, a as dobradiças colaboram comigo e não fazem um som sequer. Fecho-a atrás de mim com o mesmo cuidado.
O que está acontecendo comigo?
Para falar a verdade, a sensação não me é estranha. Talvez seja uma derivação imprópria, mas eu sempre dei o nome disso de fome. Ter fome de eletricidade para um Filho da Supernova não é como ter fome de comida para uma pessoa normal. É muito pior. Você sente como se estivesse se desfazendo molécula por molécula, como se o que quer que te mantivesse unido, estivesse também o desintegrando. Não é à toa que quando os Supernovas ficam privados de energia, tendem a ficar completamente loucos. E perigosos.
O que torna a situação ainda mais estranha.
Eu costumo me sentir assim apenas depois de algumas semanas sem me alimentar. Mas nesse caso, foram apenas dois dias. Dois dias! E pela quantidade que eu absorvi, eu deveria ficar bem por até um mês.
Além do mais... aquele sonho ficou gravado a ferro quente na minha cabeça. É como se eu pudesse fechar os olhos e ainda ver... Não, mas era só um sonho. Parecia tão real, mas é claro que todos o parecem enquanto estão acontecendo. Se bem que eu nunca tinha experimentado algo do tipo. Eu não era eu mesma. O que eu era?
Pensar nisso faz minhas têmporas latejarem, e eu sinto que a parte frontal do me cérebro está a ponto de explodir. Uma réstia do terror que eu experimentei no meu sono ainda persiste agarrada em minha garganta, pronta a crescer de novo.
Talvez eu esteja ficando louca.
Quer dizer, sempre que alguma pessoa deixa de fazer sentido, dizem que ela está louca. É uma explicação fácil e preguiçosa, mas muitas vezes é a verdade. Quer dizer, a quantidade de maluquices que aconteceram nos últimos dias, parece o caminho natural dos acontecimentos. E agora essa história...
Se arrependimento matasse... bom, vocês sabem. Por tanto tempo quis saber a verdade de Rob, desde que ouvi aquela fatídica conversa. Mas agora, talvez eu não quisesse saber. Uma revolução? Quero soltar todos os palavrões que eu tenho no meu repertório, mas me contenho em favor do silêncio. Será que isso tem a ver com o fato de Arianna ter largado os filhos e depois sumido para Deus sabe onde?
Quero me estapear. É óbvio que tem. Ela estava com medo, aterrorizada, e essa era a razão. Ela não queria que os filhos estivessem no meio do conflito. Mas se Faraday é o líder, eles deviam estar a salvo, não? Ele protegeria seus próprios filhos. Ou talvez não. A cada dia meu asco por esse homem cujo rosto eu nunca vi na vida aumenta a cada dia. Alguma coisa de podre está acontecendo, disso eu tenho certeza.
E, por fim, o que eu tenho a ver com isso? Porque raios eu teria um papel a desempenhar nessa história. Suponho que exista muita gente como eu no Setor 4. Eu posso até ser uma exceção no meu setor, mas lá é o lugar onde eu sei que eles se escondem aos montes. Porque eu, então?
Pensar nisso faz com que uma nova onda de dor passe pela minha cabeça, e eu sinto que o mundo está girando descontroladamente outra vez. Dessa vez meus joelhos falham, e eu só evito de ir totalmente ao chão graças ao encosto de uma cadeira.
Água, eu preciso de água.
Vou até a pequena pia de inox no canto a o lado do banheiro, e encho um copo. O copo era grande, mas eu o esvazio em duas goladas. Mais, eu preciso de mais. Alguns segundos depois já bebi mais um copo, mas não era o suficiente. Três, quatro, e eu perdi a conta. Eu precisava de água, mas nada era o suficiente, como se houvesse um buraco sem fundo em meu estômago. Já estava enchendo o enésimo copo quando ouvi.
O copo caiu com um estalido metálico no chão, molhando-o todo, mas eu quase não notei. Foi o pior som que eu ouvi na minha vida. Uma aberração sonora, mais aguda e alta do que qualquer som que eu pensasse ser possível. Dessa vez eu vou ao chão de vez sem intenção de levantar, cobrindo os meus ouvidos com as mão em uma tentativa inútil de parar o som. A sensação é que tem alguém arranhando um quadro negro dentro do meu crânio, e por um momento juro que consigo sentir as malditas unhas. E não para, não para, não para...
Minha roupa está molhada, mas eu só quero que o som pare. Eu quero sair correndo para ver se consigo me afastar de onde quer que venha isso, mas eu sei que o único lugar de onde está vindo é de dentro de mim. É nesse momento que eu noto.
A maioria dos móveis e objetos dentro do complexo é de metal: aço e alumínio. Além de serem materiais mais duráveis, são fáceis de reciclar, considerando que aqui há uma oferta limitada de matéria prima. E são justamente eles, os móveis e objetos de aço que estão me assustando.
Eles balançam, gemem e se movem na minha direção, como em uma casa assombrada em clichê de filme de terror. Mas nesse caso é real. As cadeiras, a mesa, alguns baús com roupas e outros suprimentos. Eles se arrastam, como monstros rastejantes em minha direção, pouco a pouco, aranhando o chão de concreto. E o barulho fica cada vez mais alto, mais perto, mais alto, mais perto, mais alto...
Eu aperto ainda mais minha mãos contra meu ouvidos. Tudo o que eu quero é que isso pare. Pare, pare, PARE!
E então, todos os móveis param de virem e minha direção, e literalmente voam na direção oposta, batendo contra a parede em um baque alto, e por fim caído desordenadamente contra o chão. O barulho também cessa, e aos poucos a clareza começa a voltar a mim.
Que raios tinha acabado de acontecer?
É nesse momento que eu noto um sutil movimento a minha esquerda. Me viro bruscamente, e encontro um par de olhos assustados, acoplados em uma cabeça que mal está mais alta que a maçaneta da porta.
Era Tom. E ele viu tudo o que aconteceu.
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