Filhos Da Supernova
13 Comandante sei-lá-das-quantas
Notas iniciais
Do meu ponto de vista, há três desenvolvimentos possíveis para a situação presente:
No primeiro, eu corro como nunca corri na vida. Posso correr e me misturar no meio da multidão do Mercado, e a partir daí posso pensar em algum lugar que eu possa me esconder, o que praticamente não existe em um lugar que está debaixo da terra. Isso, é claro, considerando que eu consiga correr até o final do primeiro corredor, pois é bem provável que a área esteja cercada.
Já no segundo, eu coloco em prática as minhas já famosas habilidades em atuação. Eu posso chegar lá, fingir que não sei de nada, ou alguma história que eu invente na hora. Quer dizer, eu nem sei se é atrás de mim que o Arco está. E quanto a Rob, bom, não há muito que eu poderia fazer por ele nessa situação. Além do mais, ele é humano, por mais que o que esteja fazendo seja ilegal, no máximo ele pode ser apenas preso. Para mim, por outro lado, é uma sentença de morte. Melhor não arriscar.
Já a terceira, é eu dar meia volta e fingir que sou apenas mais uma transeunte, que por acaso tinha entrado no corredor errado. Bom, parece que essa é a melhor opção, afinal. Disfarçadamente, eu tento avisar Hal, que está atrás de mim, para que dê meia volta também. Só que já é tarde demais.
À primeira vista, tinham parecido uma multidão, mas vendo melhor agora, era apenas quatro agentes, três homens que estavam de costas conversando com alguém que estava na porta da loja, provavelmente Rob, e mais uma mulher ruiva e alta, que observava o perímetro. Eu acho que ela não sabia quem eu era, pois não esboçou nenhuma reação quando eu apareci. Mas não era esse o problema.
O problema era que alguns segundos depois eu vi um rosto conhecido. Reconheço na hora o rosto moreno e severo dele; o Agente Tyson, a quem eu tinha tentado enganar naquele fatídico dia no chão do Mercado, que por pouco não acabou na minha prisão. Mas se eu não achava que podia piorar, estava errada.
– Ei, ela está ali! – ele exclama, chamando a atenção dos outros dois homens. O primeiro, mais velho, com olhos puxados, eu não conheço, mas parece ser de uma patente mais alta. O segundo, infelizmente eu conheço. Era o agente que me empurrou ao chão. Roman.
Que. Merda.
Agora mesmo que eu não tenho como voltar, porque, por mais que eu odeie admitir, isso provavelmente é o desdobramento daquele fatídico dia. Yep. Tudo minha culpa. Em um cantinho da minha mente já vou me preparando para o sermão que vou levar de Rob, bom, quer dizer, se eu não terminar esse dia presa. Ou morta. Ou qualquer alternativa pior.
Porém, não é a perspectiva de todos os finais horríveis que provavelmente me aguardam que me faz ter um calafrio me percorrendo a espinha. Quer dizer, eu já tive gente me olhando torto antes; aliás, até me acostumei. Mas nunca, jamais alguém tinha me olhado como o Agente Roman me olhava. Aquele olhar era carregado de uma intensidade raivosa como eu nunca tinha visto na vida. Talvez eu quisesse ter acreditado que os eventos do dia em que ele me jogou no chão (e não sei se não teria sido mais que isso se não fosse a revolta das outras pessoas) tinham sido resultado de um dia ruim, ele tinha acordado com o pé esquerdo, sei lá. Porém, cada vez mais eu sou levada a acreditar que o problema dele possa ser pessoal. Agora, porque? Eu nunca o vi na vida, que raios eu posso ter feito a ele para me desprezar desse jeito?Não que eu me importe com a minha popularidade, é claro, mas nunca é sábio fazer inimigos no Arco.
Só que realmente não posso me concentrar nisso agora, já que eu tenho que pensar em algo para salvar meu pescoço.
–Ellie, vem cá!
Nem tinha notado que tinha ficado um tempo suspeito demais congelada no lugar até que ouvi Rob me chamando para que fosse até ele, que era, afinal, quem conversava com os Agentes. Eu conheço Rob o suficiente para saber que ele sabe muito bem esconder seu nervosismo, mas mesmo que fosse apenas um sinalzinho como uma ruga fina em sua testa, eu podia ver. Também pude ver que a sua boca tremeu um pouco quando viu algo atrás de mim. Claro, que idiotice a minha. Nessa confusão toda já tinha até esquecido de Hal. Claro, como se não houvesse lenha na fogueira o suficiente.
Me senti como uma vaca em direção ao abatedouro (se elas ainda existissem, claro) enquanto de dirigia ao local onde eles estava parados. A caminhada de apenas alguns metros pareceu levar uma eternidade, mas, mesmo assim, desejei que o corredor fosse mais longo. Bem mais longo. A mulher de cabelos vermelhos apenas me olhou com um toque de desdém quando passei por ela, mas logo depois voltou a olhar para o nada. Mais de perto, porém, vi que o homem mais velho era realmente de uma patente mais alta, a julgar pela quantidade de insígnias em seu uniforme cinza-chumbo impecável. Tinha tanto metal pendurado naquela roupa que eu não pude evitar de imaginar como ele conseguia caminhar sem se curvar com todo aquele peso.
Então era um cara importante, e eu tenho que decidir se isso é um sinal bom ou ruim. Quer dizer, se fosse para me arrastar daqui aos berros, eu não acho que um figurão do Setor 1 se daria ao trabalho de vir pessoalmente. Mas não posso imaginar nenhum outro motivo para o Arco estar aqui. Porém, o que me tranquilizou mesmo foi o fato de ele ser o único ali que não parecia que ia arrancar meus rins. Na verdade, ele parecia até bem simpático. Estranho.
Rob limpou a garganta.
– Ellie – ele disse, quando eu por fim me aproximei o suficiente, mas não muito – este é o Subcomandante Sato do Arco – ele indicou o cara das insígnias, que sorriu e estendeu a mão, que eu apertei só com metade da força, como se eu temesse que ele fosse me prender ali mesmo. Idiota, eu me repreendi, se ele quisesse fazer isso já teria feito. – E estes são os Agentes Tyson, Roman e Leighton – ele indicou a mulher, que nem chegou a virar a cabeça. A simpatia em pessoa.
Rob continuou:
– O Subcomandante veio até aqui para conversar sobre um assunto com você, Ellie.
– Eu não vou ser presa, não é? – quando eu percebi, as palavras já tinham escapado da minha boca. Decidi que a melhor opção era continuar com essa linha de pensamento, mesmo. – Quer dizer, eu juro que não fui eu que desenhei aquilo no elevador do Setor 3! Aquilo já estava lá quando eu cheguei e...
– Não, calma Ellie, não é nada disso — falou Sato, pela primeira vez, rindo das minhas desculpas patéticas. – Não, eu não vim para prendê-la, mas chegou ao meu conhecimento que você esteve recentemente envolvida em uma certa confusão que ocorreu aqui mesmo no Mercado.
– Ah, isso – eu respondi, fingindo surpresa – Olha, foi mal por aquilo. Eu não sei o que me deu, eu estava nervosa e...
– Não, nós é que devemos nos desculpar. Foi por isso que eu vim e trouxe Roman e Tyson, para que peçam desculpas por toda a situação.
Uau. Realmente a possibilidade de um chefão do Arco vir me pedir desculpas parece mais remota do que a Sra. Modine de repente criar asas e resolver cacarejar no corredor onde moramos. Não posso evitar que o meu queixo caia levemente perante o que eu acabei de ouvir.
– Claro, claro. Hã, sem ressentimentos, coisa e tal – eu disse, para os Agentes, esperando que essa situação bizarra não se arraste por mais muito tempo.
– Eu sei que você não guarda nenhum rancor, senhorita Ellie, mas eu quero que os meus Agentes peçam desculpas eles mesmos, além das punições que eles já receberam em decorrência da sua “situação”. – Sato deu um olhar duro para os seus subordinados, que logo entenderam o recado.
– Me desculpe – eles disseram, no coro menos sincronizado do mundo. Tyson parecia aborrecido; porém, Roman proferiu a frase muito a contragosto, como se cada palavra o ferisse. Ótimo.
Eu tenho vontade de rolar no chão de rir da cara deles, tendo que de se desculpar para a “mocinha”, mas me seguro. Meso assim, não consigo evitar de parecer meio besta quando respondo:
– É... Certo... Desculpas aceitas.
Um silêncio um tanto quanto constrangedor se instalou, mas logo foi quebrado, surpreendentemente, pelo Agente Tyson.
– Parece que vocês fizeram as pazes, afinal.
Eu estava prestes a perguntar do que ele estava falando, quando me lembrei da história que eu tinha inventado no dia, todo aquele dramalhão de novela sobre uma gravidez indesejada e um coração partido. Ele deve ter suposto que o pai da criança devia ser Hal.
– É, eu acho que ele percebeu que não dava pra viver sem mim, né amor – eu improvisei, pegando sem aviso a mão de Hal como se fossemos namorados de longa data. Ele pareceu perdido de inicio, mas felizmente não abriu a boca para me contradizer. – Ele só ficou assustado, com esse negócio de bebê e tudo.
A boca de Hal formava um O tão grande que eu achei que ele fosse estragar tudo ali mesmo, e por isso eu quase pulei quando ele me abraçou por trás e colocou a mão sobre o meu estomago.
– Além do mais – Hal disse, tão perto que eu pude sentir o seu hálito no meu pescoço – eu sempre quis ter um menino.
– Ei, quem disse que vai ser um menino? – inclui uma risada no final.
Os homens do Arco, aparentemente já estavam meio irritados pela nossa atuação de casalzinho apaixonado, pois logo em seguida o Subcomandante Sato nos interrompeu.
– Bom, se está tudo bem, nós já vamos indo, então. – ele disse, e logo depois se despediu de mim e de Rob, a quem disse algumas palavras amigáveis que eu não compreendi direito, pois ele falou excepcionalmente baixo e intimamente perto, a Rob. Eles por acaso se conheciam?
Sato começou a andar, e os outros Agentes o seguiram, sem dar uma palavra. Quando Roman passou por mim, notei que a sua carranca era ainda pior do que no inicio da conversa, e obervei suas costas até que todos viraram o corredor.
Me desvencilhei de Hal e encarei Rob.
– Mas que merda acabou de acontecer por aqui?
– Eu é que devia estar fazendo essa pergunta, não acha? – Rob, respondeu, retribuindo o meu olhar duro. Em seguida, ele olhou na direção de Hal. – E você, cai fora.
Até eu me impressionei com a rispidez de Rob.
– Mas...– Hal começou a protestar, mas imediatamente foi cortado.
– Você quer que eu desenhe? Você não é bem vindo aqui! – e não disse mais nada, pois já estava retornando para dentro da loja. Eu o segui.
– Ei, você não vai se esquivar, dessa, chefinho! – eu exclamei, quase gritando. Toda a raiva de todas a informações que Rob não me conta estão a ponto de explodir. – Você conhecia aquele comandante sei-lá-das-quantas? Porque realmente ele veio aqui?
– Porque você tem que sempre se meter em confusão? Porque você nunca pode fazer o que eu mando? Porque você inventa de parecer aqui com o idiota do meu sobrinho sem nem me consultar antes? – Rob usou um tom tão alto quanto o meu, mas eu não iria recuar.
Nos encaramos em um silêncio tenso por um tempo que me pareceu longo demais, em uma competição de quem podia fazer o outro entrar em combustão instantânea.
– Você está mesmo grávida? – Hal perguntou de onde estava embaixo da porta, obviamente desconfortável.
– NÃO! – eu e Rob respondemos ao mesmo tempo, e Hal se encolheu. Devíamos parecer um par bem assustador, como um par de leões prontos para a briga.
Rob esfregou ambas as mãos no rosto, e depois fixou o meu olhar.
– Com você, eu lido depois, ouviu? – mesmo borbulhando de raiva, eu assenti. Ele se virou para Hal. – E você, não me interessa o assunto que você tenha vindo tratar, não me interessa.
Agora eu começo a entender o porquê de Hal estar tão temeroso a vir até aqui. Por mais que Rob costumasse gritar comigo, ele nunca tinha falado comigo desse jeito, com desconfiança e rancor.
– Nem mesmo quando esse assunto é o meu avô?
Rob pareceu perder as palavras por um segundo.
– Sobre ele em que sentido?
– No sentido, — Hal sorriu, por finalmente estar sendo ouvido – de que finalmente aconteceu o que você esperou quinze anos para acontecer.
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